Céu noturno crivado de balas, de Ocean Vuong

Por Michiko Kakutani

Ocean Vuong. Foto: Aram Boghosian.


 
Num dos ardentes poemas desta nova e notável antologia de poemas, Ocean Vuong justapõe os caóticos episódios da queda de Saigon em abril de 1975 aos versos de “White Christmas” [Natal Branco], de Irving Berlin — a canção tocada pela Rádio das Forças Armadas para avisar que a evacuação final estava em marcha: “As árvores luzindo e as crianças ouvindo, o chefe de polícia / caído de cara numa poça de Coca-Cola. / A foto do pai do tamanho de um palmo encharcada / ao lado da orelha esquerda.”
 
Enquanto Bing Crosby entoa “Que seus Natais sejam todos brancos”, o fogo de artilharia rasga os céus de Saigon e “Um caminhão militar passa rápido na esquina, crianças / gritando lá dentro. Uma bicicleta é lançada / na vitrine da loja” e “Na praça lá embaixo: uma freira, em chamas, / corre em silêncio rumo a seu deus”.
 
O poema, intitulado “Canção matinal com cidade em chamas”, é inspirado nas recordações da avó do autor, quem contava que Saigon “caiu enquanto soava a canção da neve”. Ela estava casada com um soldado estadunidense e em outro poema Vuong reflete sobre a ironia da guerra. Se seus avós nunca tivessem se conhecido, não existiriam nem ele e nem sua mãe. “Por isso eu existo. Por isso nada de bombas = nada de / [família = nada de mim”.
 
Nascido em 1988 numa fazenda de arroz aos arredores de Saigon, Vuong, que foi premiado com o Whiting de Poesia em 2016, tinha dois anos quando sua família chegou aos Estados Unidos, depois de passar mais de um ano num campo de refugiados nas Filipinas. Foi o primeiro dentre os da sua família que aprendeu a ler, mas cresceu ouvindo canções populares e as histórias de sua avó, e sua poesia se apropria da musicalidade dessa tradição oral e a enlaça, esplendidamente, com seu amor pela língua inglesa.
 
Os poemas de Céu noturno crivado de balas — assim como os dos livros anteriores, No e Burnings — possuem uma forte precisão que recorda a obra de Emily Dickinson combinada com um apreço pela sonoridade e os ritmos das palavras que lembra Gerard Manley Hopkins. O autor sabe criar imagens surpreendentes (um piano preto num campo, as figuras de um bolo de casamento mantidas numa cripta de vidro, ou um pastor que escapa de uma pintura de Caravaggio) e conseguir que os silêncios e as elisões de seus versos falem com a mesma força de suas palavras.
 
Há nestes poemas uma poderosa corrente subterrânea emocionante que brota da sinceridade e da candura de Vuong e de sua habilidade para capturar instantes específicos com a claridade de uma fotografia e, ao mesmo tempo, uma apreensão da evanescência do terrenal. Tanto se escreve sobre a guerra como sobre a família ou sexo, suas composições contêm um pressentimento da perda causada pela violência, os mal-entendidos ou o simples correr das folhas do calendário e os ponteiros do relógio.



Vuong escreve como emigrante e homem gay, e seus poemas capturam o que significa ser um diferente (um “bicho / sem rosto banido / da arca”), assim como a brutal história dos preconceitos nos Estados Unidos, onde “as árvores conhecem / o peso da história”. Ele escreve sobre as terríveis viagens por mar suportadas pelos emigrantes que tentam alcançar os Estados Unidos — odisseias oceânicas que recordam tanto os esperançosos périplos dos peregrinos como as travessias do Atlântico padecidas pelos escravos contra a sua vontade — e descreve os campos de refugiados “enfermo de fumaça e de hinos cantados / até a metade”.
 
Muitos de seus personagens são assombrados pelas memórias (às vezes de segunda mão) da guerra — a Guerra do Vietnã vivida por sua família em sua própria carne, que se tornou um símbolo de tantos outros lutas desde então. Nos poemas de Vuong, o tecido cotidiano da vida, tanto no Vietnã quanto nos Estados Unidos, é continuamente dilacerado pela súbita intrusão da violência — lançada do céu por um helicóptero Huey ou um míssil Tomahawk; ou disparado do focinho de um AK-47 ou uma Colt. 45; ou que vem na forma de um homem que estapeia sua mulher e leva “uma motosserra à mesa da cozinha”.
 
Um tiro, escreve Vuong num poema, “é só o som das pessoas / tentando viver mais um pouco / & fracassando”. Noutro poema recorda o “Musée des Beaux-Arts”, de Auden, descreve uma família que abandona uma cidade ainda em chamas: “Fora isso era uma perfeita manhã de primavera. Jacintos brancos ofegavam no gramado da embaixada. O céu era azul de setembro” — tão azul como o da cidade de Nova York no 11 de setembro, não podemos deixar de pensar — “e os pombos bicavam farelos de pão espalhados pela bomba da panificadora. Baguetes partidas. Croissants esmagados. Carros estripados. Um carrossel girando seus cavalos enegrecidos.”
 
A palavra corpo se repete em muitos desses poemas, como símbolo da fragilidade da vida humana e o obstinado feito da condição mortal, mas também das possibilidades da paixão. Outros temas recorrentes que flutuam, liricamente, ao longo do livro têm a ver com a tensa relação entre pais e filhos, a travessia oceânica por refugiados e o poder evocador das palavras.
 
O nome de Vuong ao nascer era Vinh Quoc, mas sua mãe mudou para Ocean quando foram morar nos Estados Unidos e nesses poemas o mar se converte numa metáfora do renascimento e da transformação. Há claras alusões ao Shakespeare de A tempestade nessas páginas — as possibilidades de “uma mudança de maré” e os dotes mágicos de Próspero para enfeitiçar. Este livro é um belo testemunho do dom de Vuong de se servir da magia das palavras a fim de convocar e preservar o passado — converter “os ossos em sonatas” e pressionando lápis contra papel, trazer sua família “de volta da extinção”.
 
 
* Este texto é a tradução de “‘Night Sky With Exit Wounds’, Verses From Ocean Vuong”, publicado aqui, em The New York Times. As traduções de excertos do livro são da versão brasileira, Céu noturno crivado de balas (Âyiné, 2019), de Rogério W. Galindo. 

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