No meu tempo

Por Lourenço Duarte

© Sabine Pigalle.



É do poeta Horácio a frase laudatio temporis acti, ou em português o “louvor do tempo antigo”. Este verso da Ars Poetica alude exatamente a isso: o passado é superior ao presente. E de quem pretendia Horácio troçar? Ora, dos velhos que também nós conhecemos. Dos senhores de bengala nos bancos de jardim a mastigar alguma coisa (uma dentadura desobediente, por exemplo), que murmuram de quando a quando “no meu tempo é que era bom!”; das velhinhas à janela, atentas como falcões à menor das imoralidades (um jovem de cabelo pintado, duas raparigas que se beijam) para de seguida rosnar “antigamente...”.
 
Mas a crítica de Horácio estende-se a todos nós. O passado é o sítio mais seguro para se viver. É, por excelência, o token da infalibilidade. E isto porque ele já aconteceu. Por já ter acontecido, mitificamo-lo. Erguemos muralhas de afeto em torno de certas memórias, e nomeamo-las assim guardiãs da nossa felicidade. “Ah, como era bom voltar a ser criança!”.
 
E daqui provém um profundo desencanto em relação ao presente. Mais, em relação ao futuro. O futuro é o lugar imaginário onde os erros do presente só poderão piorar. Quase que dá a sensação de que o tempo em que vivemos será sempre o último antes da grande catástrofe final. Mas (e perdoem matar o suspense) não é bem assim. Ou melhor, já é assim desde o século I a.C.
 
O mundo, na verdade, parece continuar sem o nosso parecer. Nem me lembro de estudar, nos manuais de Biologia, aquela parte em que o movimento de rotação e translação da terra param só para perguntar: “importa-se que aquelas raparigas se beijem, dona Arlete?”.

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