A crítica dos escritores

Por Kim Nguyen Baraldi


Ilustração: Jungho Lee.


 
Minha passagem pela Sorbonne foi um fiasco. Cursei letras modernas e literatura comparada e me senti decepcionado. Embora aqueles anos de universidade tenham sido até certo ponto proveitosos, deles ficou um resíduo amargo: tudo ali era demasiado acadêmico, árido e frio. Demasiadas estátuas de mármore, demasiadas mesas de madeira e nenhum bar onde pudesse conversar com os colegas. As aulas não eram estimulantes, os professores não conseguiam se conectar com os alunos, e era possível sentir que, quanto mais horas absorto em livros de crítica especializada, mais distante me achava da literatura. Estudar desse modo não tinha qualquer atrativo para mim. Hoje, sigo perguntando-me, um pouco entristecido, em que momento a universidade, desorientada pelos quatro cantos, decidiu anestesiar o prazer de ler.

Por volta dessa época, registrei em um de meus cadernos esta breve anotação: “Propósito: ler como um escritor”. Não me julgava escritor, é claro, não havia escrito quase nada na vida, mas entendi que aquela postura – embora não soubesse, até então, no que consistia exatamente – era a que eu queria adotar em face da literatura. E que me ajudaria igualmente a manter certo frescor na vida. Assim, sem dar-me conta, comecei a compilar compulsivamente fragmentos de escritores que comentam seus livros favoritos, seus escritores de cabeceira. Costumava encontrá-los em lugares marginais: correspondências, diários, discursos, conferências ou prólogos. Os críticos vivem da crítica; os escritores, pelo contrário, têm a grande vantagem de não estarem sujeitos a falar sobre literatura se não o desejam. Costumam tomar a palavra em ocasiões específicas, quando têm algo valioso a dizer, quando sentem necessidade de fazê-lo. E, como se sabe, a necessidade é o único imprescindível para escrever algo verdadeiro. Comecei, portanto, a acumular centenas de fragmentos de escritores: Milan Kundera descobre o poder do fútil nos romances de Flaubert; Thomas Wolfe recrimina Scott Fitzgerald por sua intolerância quanto aos livros que “fervem e se derramam”; Paul Auster se comove com a ternura escondida nos livros de Georges Perec; Foster Wallace reivindica o humor de Kafka e Dostoiévski; Natalia Ginzburg observa a mudança da luz na obra de Calvino; Thomas Bernhard, o órfão, atira-se nos braços de seu pai adotivo Montaigne; Françoise Sagan compreende com A fugitiva em que consiste a loucura de escrever; Walter Benjamin e W.G. Sebald se assombram diante da transparência do “eu” kafkiano; García Márquez encontra seu caminho literário através da leitura de A metamorfose; Virginia Woolf se emociona lendo “Um coração simples” de Flaubert; C.S. Lewis lamenta que os animais não possam escrever livros; Marcel Schwob e Juan Marsé releem, ensimesmados, A ilha do tesouro; o Quixote político de Magris, o Quixote sonâmbulo de Bergson, o Quixote campeão da liberdade de Pitol, o Quixote humanista de Le Clézio etc. Todo esses fragmentos eram para mim raros momentos em que, de súbito, um relâmpago ilumina o céu. Encontrei neles a verdadeira universidade, na crítica dos próprios escritores.

Durante anos dei continuidade à rotina de compilar textos, até que um belo dia me deparei, por acaso, com um escritor que havia construído uma reflexão em torno do tema que me preocupava, isto é, a diferença entre a crítica acadêmica e a crítica dos escritores. Esse escritor é Ricardo Piglia. Lembro a revelação que foi para mim a leitura de uma entrevista em que ele formulava, com clareza e em poucas palavras, tudo o que eu havia intuído, mas não conseguia expressar para mim mesmo. Quase caí da cama. Esse misto de escritor, crítico e professor havia se proposto a tarefa de “tirar a leitura do árido deserto da crítica acadêmica” e buscava “a esse leitor de narrativa que está interessado na discussão sobre a literatura”.

Piglia destaca algumas características próprias da crítica dos escritores. Primeiro, seu caráter marginal e periférico: “são intervenções pontuais que têm efeitos de iluminação notáveis”. Segundo, é uma crítica muito clara que tem a virtude de ser muito coloquial e fluida, sem jargão técnico. Terceiro, os escritores estão mais interessados na construção do que na interpretação das obras, quer dizer, “estão mais preocupados com como um livro é feito do que com o que ele significa”. Piglia observa que os críticos costumam abordar a literatura a partir de saberes externos (a linguística, a psicanálise, a sociologia, o marxismo etc.), enquanto os escritores partem da própria literatura e a utilizam como laboratório. Por último, a crítica que faz um escritor é sempre estratégica e partidária: um escritor reelabora a história da literatura a sua imagem e semelhança, construindo redes e enfrentamentos próprios, a fim de reivindicar sua própria poética. Ao fim e ao cabo, “quando um artista fala de outro, sempre fala – por engano, por desvio – de si mesmo”, escreveu Kundera.

A lista de Piglia era quase perfeita. No entanto, para mim, faltava uma caraterística que transcendia todas as outras. Ou, melhor dizendo, estava implícita em todas elas. A de que, quando mergulhamos na crítica dos escritores, temos vontade de ler. Tão bobo, tão simples quanto isso. Todos os fragmentos que compilei têm em comum a presença de uma grande carga emocional: elas deixam marcas no leitor. Em uma fascinante conversa na Casa América de Madrid, Juan Villoro disse a Piglia:

“Compartilhar entusiasmo é para mim uma das áreas de trabalho mais difíceis, e sempre trato de chegar a isso, e por vezes com demasiada ênfase; e me pergunto: até onde o ensaio permite a emoção narrativa? Chegar – digamos – não apenas ao entendimento, a desconstruir o outro autor, a explicá-lo, a criar uma zona de sentido, mas a gerar a emoção de tê-lo lido, isto é, à lâmpada acesa na leitura, essa imagem quase fundacional. Ou seja, em que momento, de súbito, podemos alcançar esse resplendor emocional de ler o outro?”

A crítica acadêmica se esqueceu do mais importante. Qualquer texto de crítica deveria, em última instância, gerar no leitor o desejo irrefreável de mergulhar de novo no livro comentado. E isso se alcança apenas e unicamente se o crítico é capaz de compartilhar um entusiasmo, de transmitir a emoção que sentiu ao ler. Basta percorrer algumas páginas de A cortina, de Milan Kundera, para se dar conta de quão emocionante pode ser um ensaio. Esse é, precisamente, o tipo de livro que deveria ser obrigatório no primeiro ano de Letras: depois de sua leitura, os alunos sairiam em disparada para se apossar do Quixote, A educação sentimental ou O castelo, para devorá-los de cabo a rabo. Já o afirmou Virginia Woolf: “A emoção tem prioridade sobre todo o resto”. Disso se esqueceu a crítica acadêmica.
 
 
Tradução livre de Guilherme Mazzafera para “La critica de los escritores”, publicado aqui, em Letras Libres em 10 maio 2021

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