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Sergio Leone – entre a fábula e a história

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Por Davi Lopes Villaça


Ao analisar o filme Shane, num texto para este mesmo blog, observei um fato bem conhecido a respeito dos clássicos faroestes americanos: neles, Bem e Mal constituem muitas vezes categorias históricas. Vilões são aqueles que atrapalham a chegada do progresso; heróis, os que lhe permitem seguir seu curso “natural”. É grande a diferença com relação ao universo retratado pelo italiano Sergio Leone em seu faroeste spaghetti. Herdeiros do cinema americano, do qual foram tanto a homenagem quanto a sátira, seus filmes diferem-se dele, entre outras coisas, por uma abordagem bastante diferente da história.
A ação de O Bom, o Mau e o Feio (1966) se passa no contexto da Guerra Civil Americana (1861-1865). Não é necessária uma percepção maniqueísta do conflito para simpatizar com o lado vitorioso, com o Norte progressista, em oposição ao Sul escravocrata. Mas Leone não só não fez desta uma história de mocinhos e bandidos como deliberadamente não deu razão a nenhum dos lados.…

Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

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Por Pedro Fernandes


Os espectadores que acompanham o trabalho de Kleber Mendonça Filho desde O som ao redor, seu primeiro trabalho de maior projeção, encontrarão em Bacurau, projeto que remonta segundo o cineasta a 2009,uma leitura que amplia sua exposição acerca dos complexos e das complexidades do Brasil. Embora seja uma produção dirigida a quatro mãos, nota-se alguns elementos fundamentais da estética do cineasta de Aquarius: as relações de poder numa sociedade em transição outrora marcada por cisões de classe, a revisitação a certos lugares de uma memória tocada por ventos quase saudosistas de um passado irrepetível ou o exame sobre alguma questão acerca de nossa identidade nacional cujas respostas tardam chegar devido ao nosso interesse de preservação da aparência e adiamento das soluções.
O tema de Bacurau nos remetepara o triste passado colonial, não especificamente no sentido histórico, isto é, não é este um filme cuja narrativa remonta o período de intervenção portuguesa no B…

Um homem fiel, de Louis Garrel

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Por Pedro Fernandes


“Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira.” A frase de Liev Tolstói em Anna Kariênina bem poderia servir de epígrafe ao filme de Louis Garrel. Se não é a família o tema principal de Um homem fiel, esta não deixa de se constituir em parte importante da narrativa. E o imbróglio amoroso, tal como no romance russo, não deixa de incluir segredos, desencontros e morte. Porque a história é outra, os contextos também, a peça de Garrel lida com a volatilidade das relações num universo de pesada atmosfera em suspense, uma vez que as razões possíveis e não esclarecidas da morte rondam toda a tessitura da trama.
Logo à entrada da narrativa fílmica o espectador é confrontado com uma dupla revelação: Marianne, figura que recupera algumas características das personagens românticas pelo tom ambivalente entre a candura e a malícia, anuncia a Abel que está grávida e o filho não é dele e sim do amigo em comum, Paul. O envolvimento da personagem…

O anjo, de Luis Ortega

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Por Pedro Fernandes





É verdade que as cinebiografias se inscrevem no rol das criações mais difíceis. Mas, o erro mais grotesco cometido por cineastas de toda parte é querer se aproximar ao máximo da verdade histórica e construir uma narrativa que seja estreitamente a vida do biografado e, como se isso não fosse a pura aberração, ainda insistem em obrigar todo o elenco principal a se integrar nas feições originais das figuras originais. Esquecem-se que nenhuma obra é capaz de reportar integralmente o passado; este é uma lembrança que não volta mais. O ponto de partida e situações diversas vividas no interior da ficção são originais, mas o resto será sempre produto da imaginação criadora.
Tentar alcançar o inalcançável resulta uma obra de falso brilho, caricata, e coloca em falso a própria verdade que se quer apresentar, sobretudo, se essa for o perfil biográfico de alguém. Nossa natureza é continuamente contraditória, por isso marcada por matizes discrepantes, e os autores que querem o…

Dor e glória, de Pedro Almodóvar

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Por Pedro Fernandes





A consciência de que o passado está preso nas linhas do irrepetível parece ser uma das certezas universais com a qual mais lutamos. Não é exagero dizer que a partir da formação dessa compreensão toda nossa vida seja feita de tentativas de nos reencontrarmos com nossos instantes de júbilo; por essas ocasiões que somadas todas na vida de um indivíduo comum não chegaria a um terço de sua existência total qualquer um pagaria qualquer preço incluindo uma nova vida com o mesmo novelo de mesmices e dores. Pedro Almodóvar alcançou essa consciência sobre o passado e transformou suas inquietações, como quem passasse a limpo sua própria biografia, numa obra de arte capaz de atingir a todos.
Em Dor e glória encontramos o tema do vazio criativo e o seu preenchimento com aquilo que de melhor pode fazer um artista: multiplicar-se para ser a si e um outro, sendo este aqueles que em toda parte padecem da impossibilidade dessa condição. Volta à estrutura da metaficção e uma diversi…

Anima, de Paul Thomas Anderson

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Por Maurílio Resende


Anima é um curta-metragem classificado como one-reeler, porque possui duração aproximada de 12 minutos, tempo máximo de filmagem permitida por apenas um rolo de filme. Lançado em conjunto com o terceiro álbum da carreira solo de Thom Yorke (Radiohead, Atoms for Peace), a produção estreia no catálogo da Netflix e explora algumas das ansiedades e melancolias do músico e vocalista, construindo no processo uma miríade de paisagens oníricas assombrosas e encantadoras.
A história é simples: encontramos Thom Yorke em um vagão de metrô, no que parece ser a viagem de volta para casa depois de mais um dia de trabalho. Por através do torpor típico que parece acometer a todos no transporte público lotado, Yorke cruza olhares com uma mulher desconhecida, interpretada pela atriz italiana Dajana Roncione. Percebendo que a moça, ao descer do trem, esqueceu sua maleta de trabalho ao lado do banco em que estava sentada, Yorke dá início a uma jornada caótica para reencontrá-la, ultra…

Selvagem, de Camille Vidal-Naquet

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Por Pedro Fernandes



O primeiro filme de Camille Vidal-Naquet é uma releitura sobre a liberdade. E a situação escolhida para a afirmação sobre o que chamaríamos de sua tese – isso porque o espectador não demora a visualizar uma ideia central e o desenvolvimento de múltiplas situações no seu entorno no intuito de refutar e corroborar com o que se quer defender –, compõe praticamente um ensaio sobre o indivíduo. O trabalho do diretor francês nada tem de pioneiro, mas se apresenta tão profundamente impregnado das marcas que conduziram o pensamento e a criação de seu país que não deixa de chamar atenção pela maneira como reaviva alguns dos seus lugares mais interessantes.
A principal questão é a constatação sobre a liberdade como uma utopia cujas fronteiras uma vez ultrapassadas não oferecem quaisquer oportunidades de sobrevivência ao sujeito. Isto é, o que à primeira vista parece coincidir com certo fatalismo proposital do homem (e não podemos deixar de lado tal hipótese) prefigura como u…

Ausente, de Marco Berger

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Por Pedro Fernandes



As expressões amorosas não teimam em se tornar apenas na sua força contrária. Isso nos diz que o amor é coisa de natureza muito mais complexa que a mera conjunção dicotômica com o ódio e com o mal. É que entre esses dois limites operam-se sutilezas de ordem diversa e quase-sempre não capturadas à primeira vista. Haverá circunstâncias, por exemplo, que o amor pode virar culpa. E é essa uma das principais lições que podemos apreender sobre o filme de Marco Berger. Começar a falar sobre Ausente a partir de um tema aparentemente transversal não é uma tentativa gratuita de se afastar dos dilemas mais complexos que se formam ao longo da narrativa; é, antes de tudo, encontrar uma alternativa capaz de perceber a questão-problema por outro ângulo, diferente daquilo que nossa condição moral tem imposto ver as coisas.
É bem verdade que, tal condição opera como restritivo que nos impossibilita avançar sobre a ideia que lançamos sem deixar de atravessarmos tais apetites. E, no …

Entretons do filme "Temporada": a Contagem de André Novais

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Por Rafa Ireno




Mas não se avexe, não queira chuva em mês de agosto. Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas
Se Luíza não tivesse esquecido a carteirinha de estudante naquele dia, em São Paulo,Temporada teria me impressionado tanto? Acontece que minha amiga mineira esqueceu! Não entramos na sala de cinema e, logo depois, me mudei. Sempre desconfiei do destino, um pouco como Juliana - a protagonista da história. Mas, talvez, estivesse escrito que o filme de André Novais passaria alguns meses depois no Festival de Cinema Brasileiro de Paris, e que eu trabalharia como voluntário para a associação Jangada, organizadora do evento, nas tradicionais salas do l’Arlequin. Aqui, na França, era quase final de inverno, as árvores sem folhas, as pinturas insossas dos prédios, o céu constantemente acinzentado e o frio contrastaram bastante com as imagens da tela. Às vezes, somente quando partimos aprendemos a extensão das coisas, que ainda nos pertencem ou que ficaram para trás, pelo caminho durante…