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Mostrando postagens com o rótulo letras e livros

O supermacho, de Alfred Jarry

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Por Pedro Fernandes


O título do romance de Alfred Jerry dificilmente não levará o leitor ao termo utilizado por Nietzsche para designar o que ele compreendia como um modelo ideal de homem capaz de com ele elevar toda a humanidade. O supermacho foi publicado em 1902 e o filósofo alemão havia morrido dois anos antes; logo, as relações não serão gratuitas, se considerarmos o impacto que foram as ideias do autor para o pensamento, além das evidências um tanto óbvias do romance. Para Nietzsche, o super-homem não poderia se unir a outro ser humano que não fosse igualmente superior; o amor é impedimento ao bom senso. Neste homem, de educação eugênica, no sentido de melhoria da condição humana, corpo e alma aprenderiam a obedecer; o super-homem seria, por fim, aquele capaz de se elevar além dos limites estabelecidos pela normalidade.
Quem tiver lido o romance do escritor francês, logo poderá recuperar a sentença de André Marcueil, o supermacho, segundo o qual “Fazer amor é um ato sem importâ…

O espírito dos meus pais continua a subir na chuva, de Patricio Pron

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Por Pedro Fernandes


“Enquanto eu tentava deixar para trás as fotografias que tinha acabado de ver, compreendi pela primeira vez que todos nós, filhos dos jovens da década de 1970, teríamos que desvendar o passado de nossos pais como se fôssemos detetives, e que nossas descobertas seriam parecidas demais com um romance policial que preferiríamos nunca ter comprado, mas também percebi que não havia forma de contar a história deles à maneira do gênero policial ou, para ser mais preciso, que contá-la dessa maneira seria trair suas intenções e suas lutas, já que narrar a história deles como se fosse uma história de detetive apenas contribuiria para ratificar a existência de um sistema de gêneros, ou seja, de uma convenção, e que isso seria trair seus esforços, que tentaram desafiar essas convenções, tanto as convenções sociais como seus pálidos reflexos na literatura.”
Essa reflexão do narrador de Patricio Pron é importantíssima para a compreensão de O espírito dos meus pais continua a su…

Correspondência trocada entre Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena entre 1959 e 1978

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Por Maria Vaz


“Filhos e versos, como os dás ao mundo? Como na praia te conversam sombras de corais? Como de angústia anoitecer profundo? Como quem se reparte? Como quem quer pode matar-te? Ou como quem a ti não volta mais?”
Este poema foi escrito por Jorge de Sena e dirigido a Sophia de Mello Breyner Andresen na sua obra Peregrinatio ad loca infecta, corria o ano de 1969. Em boa verdade, as missivas publicadas resultam do esforço de Mécia Sena e de Maria Sousa Tavares, filha de Sophia. Com esta materialização de amizade vertida em verso e prosa celebra-se mais do que a poesia ou do que o diálogo levado a cabo por duas figuras incontornáveis do mundo da poesia em Portugal e de extrema relevância e importância indesmentível para toda a lusofonia.
Além da forma, da motivação da troca da correspondência, do tom muito mais informal e pessoal do que a formalidade de alguns poemas em que a erudição intelectual de ambos não os conseguia trair, o que salta aos olhos de qualquer leigo nestas cartas …

Uma temporada e meia no inferno: Um dia na vida de Ivan Deníssovitch

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Por Joaquim Serra


O espaço em Um dia na vida de Ivan Deníssovitch (1962) é um peso importante para a compreensão da obra. O mesmo acontece em obras do mesmo segmento, como o monumental Contos de Kolimá, de Varlan Chalámov – este somou quase vinte anos nos campos –, Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos, e o mais recente Estação Carandiru, do médico Drauzio Varella. Ivan Deníssovitch está inserido na tradição de obras acerca do cárcere russo, como o fez Dostoiévski em Recordações da casa dos mortos e Anton Tchékhov em Ilha de Sacalina, este com um profundo ideal humanista, considerou escrever sobre a condição dos prisioneiros para direcionar os olhos do mundo àqueles perdidos de humanidade.
Ivan Deníssovitch Chukhov cumpre os últimos anos dos oito a que foi condenado (o próprio Soljenítsin ficou detido por cerca de oito anos). Só sabemos depois de muito como o protagonista foi pego e preso primeiramente em um campo do norte, o recorrentemente citado Ust-Ijma, um dos campos de corte…

As lembranças do porvir, de Elena Garro

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Por Pedro Fernandes


Nenhuma história se constitui episódio isolado, nem mesmo uma ordem de acontecimentos pode ser lida como independente de uma consciência total. Assim é que todo fato é apenas parte de um todo, incompleto sem a visão desse todo, tal como sublinha criteriosamente Caio Prado Júnior. “Incompleto que se disfarça muitas vezes sob noções que damos como claras e que dispensam explicações; mas que não resultam na verdade senão de hábitos viciados do pensamento”. A história é constituída de microfragmentos dispersos por entre os escombros a partir dos quais, dos mais vistosos e visíveis se constrói uma versão que se quer verdadeira e oficial. Ao ficcionista resta, além dos restos mais visíveis, o grão escondido. E com este escondido, muitas vezes o casual, é capaz de iluminar todo um universo e atribuir melhor sentido e significação às verdades estabelecidas. Entre esses artesãos do acaso encontramos Elena Garro.
As lembranças do porvir constituem uma pequena centelha do co…

Witold Gombrowicz e a arte de morder a realidade

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Por Mary Carmen Sánchez Ambriz





Em seu Diário, Witold Gombrowicz apresentou uma síntese de seu plano de trabalho para Cosmos, seu último romance, publicado em 1967. Aí, ele deixa claro que é um “romance sobre a formação da realidade”, e enfatiza: “Será um tipo de romance policial”. É importante destacar essa comparação porque o romance tem sido definido como uma história policial –possivelmente por fins comerciais –quando, na realidade, é um pouco mais complexo. Ele continua: “Ritmos furiosos, abruptamente acelerados, de uma Realidade desencadeada. E isso explode. Catástrofe. Vergonha. A realidade que de repente transborda devido a um acontecimento excessivo. Criação de tentáculos laterais… de cavidades escuras… de rupturas cada vez mais dolorosas”.
Mas dizer que o último romance que Gombrowicz escreveu é um romance policial é limitar-nos a uma visão fragmentada da trama e não procurar mais considerar outras possibilidades. Como é esse Cosmos que ele descreve e por que se apega tanto à…

Melancolia, de Carlos Cardoso

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Por Pedro Fernandes


Quem tiver lido a poesia de Carlos Cardoso – Na pureza do sacrilégio, é um bom exemplo – não deixará de encontrar na delicadeza do seu verso uma voz tranquila capaz de deixar expressar textualmente certo olhar taciturno sobre as coisas e o mundo. Alguém poderá se apressar em dizer que essa é uma condição natural de todo poeta. Mas, não se pode transformar uma recorrência numa universal. Isto é, há múltiplas possibilidades de ver e cada eu-poético recorrerá àquela mais natural capaz de intuir uma totalidade do seu mundo poético; reflexivo, irônico, revoltado, radical, político, saudosista, entusiasta, erótico, trivial, enfim, as variantes são inumeráveis.
Um desses modos de ver decorre de “um descompasso entre o tempo em que deveria realizar-se uma certa experiência e seu efetivo cumprimento”, o que, Luiz Costa Lima, o autor dos termos antes apresentados em destaque num estudo com mesmo título do livro de Carlos Cardoso distingue de maneira mais precisa como o “des…