Postagens

Shakespeare sob a lupa do século da razão

Imagem
Por Teresa Galarza Ballester   “Se não pode vencê-lo, edite-o” poderia ser o lema secreto de um editor, ou de alguém insatisfeito com o que escreve, mas com uma ideia de como escrever bem. E também poderia ter sido o lema não oficial do Iluminismo quando este se deparou com os textos de William Shakespeare. O século XVIII, tão sensato, tão cético — o que poderia fazer com um dramaturgo que desconsiderava as unidades aristotélicas e tinha a audácia de misturar o sublime com o cômico? Editá-lo, é claro. Como Jonathan Bate aponta em The Genius of Shakespeare  (1997), editar Shakespeare não era simplesmente uma questão de restaurar o texto; era uma questão de aprimorá-lo. Para entender o fenômeno das adaptações e revisões do século XVIII, é útil começar com um fato curioso: Shakespeare era celebrado apesar de si mesmo. No auge do racionalismo e da estética neoclássica, os temas abordados por sua obra — a ambição, a paixão, a loucura, o conflito entre dever e desejo — continuavam a...

Boletim Letras 360º #676

Imagem
DO EDITOR Uso deste breve espaço para agradecer aos autores que até o dia 25 de janeiro enviaram as suas candidaturas para os novos colunistas no Letras e estendo este obrigado a você, leitor, que de alguma maneira ajudou na divulgação desse chamado.  Desde o dia 26, este espaço regressou ao curso normal das suas atividades: com publicações diárias e este boletim com as seções criadas em algum momento depois de inventada essa coluna.  Uma marca dos 19 anos online é continuar a oferecer possibilidades de ficar mais próximos dos nossos leitores, o maior desafio numa era de bolhas e de dispersões. De todo jeito, tenta-se. Por isso, o Letras foi parar no WhatsApp, depois de alguma solicitação dos que não usam o Telegram. Para seguir basta clicar aqui .  E, finalizo com um lembrete essencial — permanente: na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter o Letras . A sua ajuda continua valiosa p...

A Ilíada de Homero: guia de leitura, de Giuliana Ragusa

Imagem
Por Afonso Junior Os estudos clássicos passam por uma crise. A formulação de Werner Jaeger de que Homero, como “mestre da humanidade inteira”, demonstra o dom especial dos gregos para chegar à “formulação daquilo que une e move todos nós” ( Paideia , 1936), nos mostra como envelheceu o mito do “grego como modelo da cultura”, do qual a Europa bebeu para seus próprios impérios. Se as epopeias sobrevivem, é porque são maiores e mais fortes (também mais multiétnicas) que esse brilho falso.   É um texto central e, ao mesmo tempo, precisamos de um Guia. Uma vez, fiz uma obra teatral com a Ilíada . Um desafio, e não apenas a multiplicidade de enredos dos quais fala Aristóteles. Há algo no poema de distante e estranho. Seus valores são anteriores até mesmo à subjetividade. A Odisseia , provavelmente retrato da era dos comerciantes, é cheia de magia, monstros e gente como a gente, mas a Ilíada é a era das lutas por terras, saque de riquezas e colonização. Ainda falta muito tempo para que S...

A montanha, de José Luís Peixoto

Imagem
Por Pedro Fernandes José Luís Peixoto. Foto: Pedro Nunes A montanha é o romance em que José Luís Peixoto regressa a um modelo narrativo explorado a partir de Livro, muito embora os sinais de sua prática possam ser registrados em obras anteriores, como em Cemitério de pianos . Por isso mesmo, quem pelo menos leu os livros até agora referidos, ou ainda Autobiografia , outro título da mesma linhagem, não deixará de se perceber tomado por um certo déjà vu ou apostar e mesmo acreditar em algum momento que o escritor se beneficia de uma chave antiga para acessar o objeto de sempre disfarçando-o como novidade. É necessário, para contornar essas reações, dar a volta ao curso das várias peças até a última entrada desse livro-arquivo para se descobrir simultaneamente diante de uma obra que, sim, acrescenta qualquer coisa a um modelo já conhecido, sem cair, por uma astúcia adquirida da experiência com a escrita, na repetição pura e simples. Embora não seja possível, como é comum a um texto dess...

A Odisseia, ou a única viagem

Imagem
Por Francisco J. Tapiador  Flaxman. A matança dos pretendentes , 1880.  A Odisseia de Homero é importante porque é o nosso relato do mito. Do único mito. Todos os outros são ramificações deste. Mas o mito do retorno de Odisseu à sua terra natal também é importante para nós porque é o nosso. Em outras culturas, em outras tradições, a mesma história é contada de uma forma facilmente compreensível, mas nossos valores e nossa civilização vêm do mundo da Odisseia , e isso importa, porque para entender um mapa, é preciso conhecer uma legenda cujos símbolos são arbitrários. O Mahabharata é uma maravilha, e o relato das viagens de Baiame em um dos Tjukurpa  dos aborígenes australianos é fascinante (perdoem-me, eu queria escrever: “dos povos aborígenes e das ilhas do Estreito de Torres”, mas o corretor ortográfico inteligente do Vim não me deixou). Contudo, essas histórias praticamente não nos ajudam a alcançar o objetivo da nossa existência mortal como ocidentais que se prezam...

Um lirismo contemporâneo: resenha de “Tudo azul vividamente vermelho”, de Brenda Andujas

Imagem
Por Wesley Sousa De amargo basta o amor Agridoce, ela disse Mas a mim pareceu amargo Ana Martins Marques, “Açucareiro”. In: Das artes das armadilhas Brenda Andujas. Foto: Arquivo da editora Patuá. A poeta e crítica de arte Marina Tsvetáeva (1892-1941), no conhecido texto intitulado “O poeta e o tempo”, afirma que o poeta é uma figura adstrita à contemporaneidade, não como adesão ao presente histórico de caráter empírico, mas como negatividade interna do tempo que transcorre. Noutros termos, o poeta habita o tempo para resistir à sua absolutização ou uma rigidez cronológica, preservando na linguagem o que excede o histórico. Nas palavras da autora: “A contemporaneidade do poeta não existe porque ele proclama seu tempo como sendo o melhor de todos, nem porque simplesmente lhe agrada” (Tsvetáeva, 2022, p. 64). De fato, um ponto a ser notado é que ser contemporâneo , aqui, não significa escrever “sobre” acontecimentos do presente imediato do mundo. Ainda que a obra esteja vinculada a eles,...