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Mostrando postagens com o rótulo Eduardo Galeno

Teofania pombalina

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Por Eduardo Galeno Planta do século XVIII na missão de São Miguel Arcanjo, redução jesuíta no Rio Grande do Sul. Domínio público. Ante   Na prática letrada setecentista, Basílio da Gama ocupa um lugar específico. Perseguido juridicamente pelo Estado português assim como Gregório de Matos pelas autoridades da Bahia, isso mesmo o faz ser uma figura muito central para explicarmos as contradições entre um homem formado pelos jesuítas, principal corpo político inimigo de Portugal no meio do século XVIII, e um súdito subordinado às leis divinas da teologia imbricadas nas leis civis pró-Coroa. O que se pode obter, na tarefa de elucidar uma questão que não é só histórica mas igualmente poética, é que seu continente é o conteúdo público, se for para falar assim. A raiz neoclássica poderia fantasiar já com o corte do valor de troca? Possivelmente: no acordo de virada da segunda modernidade e no seu protesto à metafísica aristotélico-tomista, a porteira da novíssima poesia se abriria para os ...

Dois romances de Oscar Nakasato

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Por Eduardo Galeno Oscar Nakasato. Foto: Gilvam César Borges No geral, o romance Ojiichan me pareceu dar uma certa continuidade ao aclamado vencedor do Jabuti de 2012. Não quero falar de saga porque cada livro é uma história, mas de buscar conter respostas satisfatórias sobre a escrita de Oscar Nakasato, incluindo na bolsa a sua invenção da arte de contar. Em qual sentido, resumidamente, ele chega? No modo onde a ação passa do exercício social ao existencial. Para não ficarmos no clichê do fato de Satoshi ser idoso, quer dizer, na afirmação de um ídolo narrativo , verifiquei três posições que podem fugir da rotina na interpretação:  A primeira é a sensibilidade com que o protagonista participa do mundo, que antecipa a sua autonomia frente a ele. O saber nasce da percepção imediata do ambiente, do corpo, das marcas sensuais sobre a matéria. Ojiichan apreende a realidade antes de qualquer reflexão, desse modo, pelo viés da presença. O conhecimento surge como impressão acumulad...

Sappho

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Por Eduardo Galeno Pois nenhuma relação se forma se o pensamento não a produz. — Simone Weil Safo, 470 a.C. Prescrever   Na seção XV do Peri hypsous , de pseudo-Longino, se introduz, pelas citações que o acompanha, o juízo da aparição ( phantasia ). Ali ele apresenta as condições mínimas para o estabelecimento do que poderíamos chamar de “presença ausente”. Claro que, em outros termos, isso significaria um modo de traduzirmos o distanciamento no vão da percepção e do objeto. Ou: a estrutura residente na transferência entre a poesia e o evento. No caso, há a explicação, sob o exato da efusividade do crítico literário — para usarmos um anacronismo —, de toda uma esfera de se fazer sublime . Demonstrações espertas e fincadas, modelos delimitados (uma pitada de Eurípides, outra de Ésquilo), alguns reparos, algumas notações. O tratado escolheu esse tipo de polêmica por um simples motivo. Certamente, a astúcia do seu autor estava na tentativa de deslocar a mimesis , ou imitação, do âmbi...

Planvs ad coeli lilia

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Por Eduardo Galeno  A segunda freira. Chaucer. MeisterDrucke. A hagiografia nem seria um gênero. (Às vezes, pensando no nome pelo qual ela insere sua estrutura, seu discurso e sua prática, sinto que seja.) O que me dá, certamente, uma conclusão, e prefiro começar o texto assim, é que a forma hagiográfica não pode ser exposta à penúria da biografia (ver o ensaio de Flora Süssekind que exagera a proposição referida). O viés do elogio, isto é, da sutileza em resguardar a autoridade, mas ao mesmo tempo a humildade, é o que reparte. Ao contar a história dos santos, não se conta nada além da ascensão (mesmo, por exemplo, que eles tenham vivido uma vida de pecado anteriormente). Tudo é sobre o Amor, a clausura da revelação e do domínio sagrado, tudo é sobre como um santo pode salvar os outros fiéis (e, quem sabe, os gentios). Hegel cita que o saber não subtrai a substância divina, já que ela própria se designa a se mostrar conhecimento. Essa é a tese que a dialética hegeliana interpõe. O...

O discurso vazio, de Mario Levrero

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Por Eduardo Galeno  Comecei essa resenha antes do fim do romance de Levrero. Digo que é uma leitura um pouco arrastada, apesar das poucas páginas que compõem o livro. O conteúdo em si não desperta tanto interesse. Muito menos sua forma é novidade para os leitores comprometidos com a contemporaneidade (temos um Osman Lins, que compôs perfeitamente uma história em formato de diário). O que é bastante notório no entorno de O discurso vazio é a maneira de como ele consegue interligar o fato ( ipso facto ) ao material que disponibilizaria o fundo da narração. Não é errado dizer que Levrero fala do Nada, que imbrica e brinca diante da consciência de ser autor. O Nada, vazio e disforme momento do espaço, talvez seja a explicação do porquê. A escrita perseverante e obsessiva do uruguaio me diz mais sobre as razões de não escrever literatura do que o contrário. Basicamente, o modelo limita a minha leitura. Ele não sabe como frisar um conceito, tudo é jogo de termos e de frases colocado sob...

Ana mon amour

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Por Eduardo Galeno  Ana C., em 1978 A palavra se move . Ela traduz um movimento recíproco entre linha (sintagma) e velocidade. Essa velocidade não é, necessariamente, escalar; também pode ser vetorial. À medida que se move, deixa os rastros e, deixando, percorre do exato da presença ao seu desaparecimento iminente. Muitas vezes se cansa: como se vê, é um cansaço com a voz baixa, mas clara: um murmúrio esgotado e extremamente desvairado. Certeza, a claridade é a claridade original do que já foi, do que vai deixar de ser e do que aparecerá nos remendos do movimento. Sair para fora da identidade é seu resumo, sua astúcia. Deslizamento arriscado no princípio ( principício ) ou derrisão descontente no fim. Então pulula, se apoiando em excluir tanto a unidade quanto a dialética, encontrando, na sua mais alta glória anárquica, a maré da vigilância violenta. A palavra movente, assim, não reconhece nenhuma paisagem ou cultura, muito menos se enfeita de joias que não são as suas. O único pon...

Trakleanas

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Por Eduardo Galeno Paul Klee. Angelus Descendens . 1918. Heidegger foi um dos que aproximaram poesia e pensamento . Sim. Provável que Trakl a tenha procurado. Nesse motivo de interação, a suspensão da língua dá o seu modo de aparecer. E o que chegam? As tentativas e as frustrações.   Viciado em cocaína e ópio, farmacêutico formado e em pleno rebuliço da guerra de 14, espreitava também sua irmã; significava a total adesão ao lusco-fusco existencial.   Entrar em Trakl é tão simples quanto lê-lo: imagens límpidas, mas igualmente fogosas. Enjambement certeiro. O universo é um embarcar na interioridade e, sempre salvaguardando a palavra, ecoa a risca entre o verbo e a estrela. Absorve.   Lemos Salmo e, infiltrados na floresta escura, nas figuras (que servem a ele como empecilhos no papel de luta contra a floresta) nos vemos deslocantes da ideia sobre a unidade da escuta. Georg fora destinado a cumprir o eon do declínio pelas esferas que o construíam: a luz, a taberna,...

Os erros de Borges. A estrangeira e o nome de Deus

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Por Eduardo Galeno Rafael. Averróis, detalhe de  A Escola de Atenas.   Não sei onde li, mas a linguagem é erro. A literatura, no ínterim, transfere esse erro para a ponta de um determinado discurso. Ela consiste em dizer, não falar, montar, deslocar, não transmitir. É o que se apresenta como discurso total. No ângulo pretendido ou sugerido por ela (a estrangeira nas palavras de Foucault), há a passagem da letra ao literário. Mas onde exatamente? Como é possível a determinação ou, melhor, a exclusão? O que faz as palavras tragédia e comédia serem o que são e representarem do jeito que são representadas? Certamente, na interpretação de Borges da vida — vida mais que obra, mas vida também como obra — de Averróis, ele se condicionou a investigar a barreira entre a res e a res ficta . Barreira que significa, é evidente, o percurso instrumental da natureza e da cultura (se há uma separação), que preconiza os sentidos, as intuições e as inferências. Averróis mesmo teve várias tra...

Do modo honesto de fingir

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Por Eduardo Galeno Lorenzo Lippi,  Alegoria da simulação , 1640    As leis da conversação da literatura de corte são maximizadas por uma aderência ao oculto. Torquato Accetto, secretário do seu Senhorio, ponte entre verdades secretas e a via pública, corresponde a um tipo de travessa literária pouco ou nada analisada pelos bolsões críticos dos dois últimos séculos. Resumidamente, a razão se dá pelo fato da trela kantiana em nome da verdade-sem-artifício.   Contexto histórico: o fato sobrepujou a dinâmica operacional do resto dos textos que seguiram a derrubada do clero e do Rei pelas democracias, aqui conectados com o fator psicológico que o sujeito das ciências liberais fincou. Mas voltemos ao centro.   Dizíamos que Accetto trabalhava com a ideia de ocultação, mas o que significa? À risca, explicita certa racionalidade na relação entre ser e parecer. O secretário é aquele que dispõe do vínculo essencial com as partes de cima da estrutura de poder. Não sendo...

Decomposição de The call of Cthulhu

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Por Eduardo Galeno But the horror, set and stable, Haunts my soul for evermore.   — Lovecraft Desenho de Cthulhu por Lovecraft   1   Nas entranhas da escrita lovecraftiana, o modernismo frio só pode corresponder a uma sociedade quente. O modo no qual supunha a atitude que contempla o desejo não resolvido, impossível, dessa figura esverdeada, com seu bafo gélido, seus múltiplos tentáculos e expressão aterrorizadora, chamada Cthulhu, não é mesmo um tipo específico de resposta? Não se sabe ao certo, pelas linhas que sucedem o conto, da necessidade instaurada ao povoamento da entidade em circunstância e por intermédio do serviço dessa esfera social. Pode ser caracterizado, entretanto, o nivelamento inerente encontrado (muito) antes, em e após 1928. O chamado de Cthulhu , é verdade, se coloca numa contramão, mas contínua, do modernismo literário, porque amplia o horizonte para além do princípio utópico-redentor e, por outro lado, refaz um percurso de um universo que nem mesmo ...