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Mostrando postagens com o rótulo Henrique Ruy S Santos

Meu passado nazista, de André de Leones

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Por Henrique Ruy S. Santos André de Leones. Foto: Roseli Vaz  Há um ditado que faz parte do vocabulário político, principalmente, de usuários da internet, que diz algo mais ou menos assim: “se um nazista se senta à mesa com 10 pessoas e ninguém se levanta, então há 11 nazistas”. Trata-se de um pensamento que coloca em questão conceitos como o de tolerância ou, indo além, a própria possibilidade de cumplicidade com aquilo que muitos esperam que seja considerado intolerável. André de Leones, em Meu passado nazista , parece partir dessa reflexão, mas o faz invertendo os polos: o que acontece quando 10 nazistas se sentam à mesa e a 11ª pessoa não levanta? Ou, pensando em termos de Brasil: o que fazer de um país que foi tomado de assalto pelo fascismo em anos recentes e no qual todos nós, invariavelmente, sentamos à mesa com fascistas, às vezes dentro de casa?  O protagonista de Leones neste romance é Leandro Helfferich, professor e escritor que durante boa parte do livro mora na p...

O bordel e a fazenda

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Por Henrique Ruy S. Santos José Donoso. Foto: Arquivo da revista Santiago  (Reprodução) Partindo de uma leitura que força um pouco certas conexões literárias e extraliterárias, o título O lugar sem limites , do segundo romance do chileno José Donoso, poderia muito bem se referir à própria concepção do Boom latino-americano como fenômeno literário. Uma categoria que já nasce a partir de (e para servir a) interesses mercadológicos e que apenas subsidiariamente serve a fins literários, geralmente com imprecisões semânticas e de fronteiras mal delimitadas. Um roteiro pelo qual o viajante leitor transita sem saber se o próximo passo (a próxima obra) guarda algo de familiar com o passo que o precedeu e assim por diante. E é curioso pensar que o próprio Donoso teve um lugar periférico nesse processo, mas foi quem se dedicou a entendê-lo retrospectivamente e de maneira particular em seu   Historia personal del Boom . Não pretendo, aqui, fazer uma radiografia daquele momento, nem...

Sanatório sob o signo da clepsidra, de Bruno Schulz

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Por Henrique Ruy S. Santos Sentir tudo excessivamente Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas E toda a realidade é um excesso, uma violência, Uma alucinação extraordinariamente nítida Que vivemos todos em comum com a fúria das almas. — Álvaro de Campos Começando em 2019, a Editora 34 empenhou-se na publicação, em português, com estupenda tradução do professor Henryk Siewierski, da ficção de Bruno Schulz, arquiteto, desenhista, professor e escritor polonês do século XX, há muito esgotado no Brasil. São, ao todo, dois livros de contos, o que não configura exatamente uma vasta obra literária (fala-se, ainda, de um romance inacabado e outras produções perdidas), mas o que, ainda assim, deve atrair os devidos louvores ao esforço editorial, uma vez que se trata de um escritor de primeira monta e em cuja prosa se percebe, como terei a oportunidade de comentar, muito do que de melhor se fez na literatura mundial do século XX, em termos de tendências gerais. No ano de 2019, saiu o pr...

O retorno do Barão de Wenckheim, de László Krasznahorkai

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Por Henrique Ruy S. Santos László Krasznahorkai. Foto: Johan Carlberg Permitam-me, à guisa de introdução, uma breve digressão de caráter anedótico.  Em 31 de março de 1913, na famosa sala de concertos Musikverein, em Viena, o compositor austríaco Arnold Schoenberg conduziu uma performance de trabalhos musicais de alguns de seus estudantes, como Alban Berg e Anton Webern, para um público de, segundo relatos, 2 mil pessoas. Ou, poder-se-ia dizer, o que seria mais acertado, “tentou conduzir”. Não foi possível concluir o programa do concerto, uma vez que a audiência, enfurecida pelas “extravagâncias” e pelas verdadeiras “loucuras” da música de Schoenberg e seus discípulos, irrompeu em um inesperado mas contumaz protesto não só contra os músicos e compositores, mas contra toda a organização do evento. Sob pedidos exacerbados de intervenção psiquiátrica e o barulho crescente do tumulto, os envolvidos, plateia e organização, chegaram às chamadas vias de fato, com troca de socos e pontapés...

A utopia burocrática de Máximo Modesto, de Dionisio Jacob

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Por Henrique Ruy S. Santos  No apagar das luzes do ano de 2018, mais precisamente no dia 27 de dezembro, foi aprovada a 3ª edição do Manual de Redação da Presidência da República , documento redigido com o fim de normatizar e orientar a elaboração de documentos oficiais no serviço público. Entre as principais inovações trazidas pela nova versão, estava a adoção irrestrita do chamado padrão ofício — já introduzido de maneira incipiente na edição anterior — e a consequente extinção do memorando. É preciso recorrer, portanto, à segunda edição do Manual para encontrar uma definição precisa do gênero textual memorando: “O memorando oficial é uma modalidade de comunicação entre unidades administrativas de um mesmo órgão, que estão hierarquicamente em mesmo nível ou em níveis diferentes. Logo, trata-se de uma forma de comunicação interna. Pode ser utilizado em uma série de situações para tratar de assuntos administrativos, exposição de projetos, ideias, diretrizes e inovações de serviço,...

Copenhagen e as máscaras de uma menina poeta

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Por Henrique Ruy S. Santos Tove Ditlevsen. Foto: Steen Jacobsen Quando se propõe a narrar experiências de infância, sejam elas de caráter autobiográfico ou não, é comum que um escritor recorra, como ferramenta estilística e narrativa, a um certo grau de adesão ao ponto de vista da criança. A preferência pela perspectiva de determinado personagem como recurso de linguagem narrativa não é nenhuma novidade na literatura, ainda mais se considerarmos sua utilização de maneira ampla, isto é, como a simples concatenação de acontecimentos a partir das vivências de cada personagem. Nesse caso, logo se vê que não se trata de uma firula discursiva, mas de um aspecto estruturante da narração, uma condição para sua própria inteligibilidade. Ainda assim, em um sentido um pouco mais restrito, é possível observar o desenvolvimento de técnicas que modificam ou aprofundam essa maneira de “adentrar a mente dos personagens”, muitas delas motivadas seja pelo desejo de inovação, seja por uma certa desconfia...

Depois do trovão, de Micheliny Verunschk

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Por Henrique Ruy S. Santos  Micheliny Verunschk. Foto: Renato Parada. De acordo com dicionários e outros resultados da internet, concentricidade é a qualidade daquilo que é concêntrico. O que, por sua vez, diz-se, em geometria, de figuras que possuem o mesmo centro, como um círculo menor dentro de um outro maior, que o abarca. Essa ideia de concentricidade espelha o que se pode chamar de esquema formal do novo romance da escritora pernambucana Micheliny Verunschk, Depois do trovão . O leitor, entretanto, deve proceder com cautela diante dessa proposição crítica: ainda que se trate de um romance experimental em seu trabalho com a linguagem, não se tem aqui um daqueles livros geométricos à Osman Lins ou Cortázar, muito menos aquelas estapafúrdias aventuras matemático-literárias dos franceses do Oulipo. Aqui a linguagem narrativa, ao misturar elementos do português com vocábulos e estruturas linguísticas do tupi antigo, do nheengatu e de outras línguas indígenas, infunde uma dose de e...

Os cenotáfios de Danilo Kiš

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Por Henrique Ruy S. Santos “Também os mortos não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer” — Walter Benjamin, em “Teses sobre o conceito de história” Danilo Kiš. Foto: Sophie Bassouls A experiência de Danilo Kiš como um escritor iugoslavo judeu nas últimas décadas do século XX não poderia ter sido outra senão a da saturação histórica, o sentimento (hoje ainda mais generalizado em todo o mundo) do peso das agitações sociais e políticas por que passou a Europa no século passado ou por que passaram os judeus desde muitos séculos antes. Não deveria surpreender, assim, encontrar na região dos Balcãs um escritor que é uma espécie de avatar de Borges no Leste Europeu. Não deveria ser surpresa porque o escritor argentino foi o primeiro a escrever no século XX a partir do ponto de vista dessa saturação histórica, que traduzia paradoxalmente em termos de enraizamento local (na Argentina e na América do Sul) e principalmente de um cosmopolitismo muito pec...

Sul, de Veronica Stigger

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Por Henrique Ruy S. Santos Quando se trata de sangue, silencia-se. — Mircea Cărtărescu, Nostalgia Veronica Stigger. Arquivo da escritora (Reprodução)   Em Sul , Veronica Stigger parte da hibridez de gêneros para criar um painel representativo de diferentes formas de violência e de incômodas instalações do absurdo. O livro, publicado pela primeira vez em 2013, na Argentina, e no Brasil em 2016 pela Editora 34, divide-se em três partes, cada uma explorando um gênero literário diferente. A primeira, intitulada “2035”, vale-se da prosa narrativa à maneira de um conto; a segunda, “Mancha”, é uma peça teatral com duas personagens em cena e mais uma que permanece fora do palco; a terceira parte, uma narrativa em versos que recupera episódios de infância e adolescência da narradora e que leva o título de “O coração dos homens”. A unir as três partes, um onipresente tom de estranhamento e/ ou afastamento do real, figurado, entre outras imagens, pela irrupção do sangue humano nos mais difere...