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Mostrando postagens com o rótulo Vinicius de Silva e Souza

Lembrar também é inventar em Keith Jarret no Blue Note, de Silviano Santiago

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Por Vinicius de Silva e Souza Silviano Santiago. Foto: João Rangel Há livros que contam uma história e há livros que parecem tentar descobrir, enquanto são escritos, o que exatamente significa contar uma história. Keith Jarrett no Blue Note , de Silviano Santiago, pertence a essa segunda espécie. O romance não se entrega facilmente à distinção entre memória e invenção, entre experiência vivida e experiência narrada, entre o acontecido e que só pode existir porque alguém decidiu contá-lo. Mais do que narrar uma história, o autor parece interessado em observar o que acontece quando a memória se transforma em matéria literária — e quando a literatura, por sua vez, passa a interferir na própria memória. O título já anuncia uma espécie de chave de leitura. Keith Jarrett, o grande pianista de jazz, está no Blue Note, mas sua presença não funciona apenas como referência musical ou como elemento decorativo. O jazz funciona como um princípio de composição do romance. Há improvisação, repetição,...

O sertão da memória em Depois do trovão

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Por Vinicius de Silva e Souza Micheliny Verunschk. Foto: Renato Parada. Depois de construir uma das obras mais consistentes na literatura brasileira contemporânea com os romances O som do rugido da onça e Caminhando com os mortos , Micheliny Verunschk retorna ao Brasil colonial para iluminar um episódio pouco conhecido — a chamada Guerra dos Bárbaros — e investigar a violência constitutiva da formação nacional. O resultado é um romance de extraordinária densidade estética e histórica, que reafirma o lugar de destaque da autora.  O ponto de partida e de chegada da narrativa de Depois do trovão é Auati. Filho de uma mulher indígena e de um frei jesuíta, é levado ainda jovem para integrar expedições militares financiadas pela Coroa portuguesa. Ao longo da narrativa, torna-se Joaquim Sertão, personagem cuja própria identidade condensa as ambiguidades da colonização: indígena e colonizador, vítima e agente da violência, memória viva de um mundo que desaparece enquanto participa de sua...

Tradição e busca por liberdade em On The Road, de Jack Kerouac

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Por Vinicius de Silva e Souza Jack Kerouac Foto: Jerry Bauer Durante quase todo o mês de abril de 1951, aos 29 anos de idade, Jack Kerouac escreveu seu mais famoso livro. Tratado por muitos como uma obra canônica, lendária, “bíblia da geração beat”, como aponta a L&PM Editores, responsável pela obra do autor e dos seus pares no Brasil, mais como jogada de marketing do que constatação da realidade. Tantos anos depois da publicação, a leitura de On The Road  é cercada de polêmicas. Diante das inevitáveis mudanças culturais, ainda mais no atual milênio, fica difícil entender alguns aspectos do romance, mas também, talvez até em mesma medida, acredito que certo apelo ainda resiste e é totalmente compreensível. Fui pego de surpresa ao ver notas e reviews tão negativas no Goodreads. Avaliações essas que se repetem no Reddit, evidenciando um sentimento generalizado: On The Road é o espírito de seu tempo — mas apenas isso. Uma crítica na Amazon diz, em determinado momento: “A única ...

O amadurecer e o nosso lugar em Uma casa no fim do mundo

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Por Vinicius de Silva e Souza Michael Cunningham. Foto: Mackenzie Calle “Estou começando a entender a diferença entre juventude e maturidade. Os jovens têm tempo para fazer planos e pensar novas ideias. Os mais velhos precisam de toda sua energia para acompanhar o que já foi posto em ação.” Dentre os grandes temas universais abordados na Literatura ao longo da história, como o amor, a morte, o luto, a guerra, a memória, o tempo, o envelhecimento ocupa um espaço ímpar. Quando utilizado, é sempre pela ótica do “romance de formação”: uma narrativa longa que irá, usualmente, tratar da passagem de um protagonista entre a sua infância/adolescência ao início da vida adulta. Os exemplos são muitos, desde Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister , de Goethe, um dos criadores da forma. Mas, na perspectiva da passagem do tempo, são poucos que abordam a transição da juventude para a plena maturidade, algo como dos vinte aos trinta anos de idade. Acredito que muito em decorrência de recortes tempo...

Algumas palavras sobre Orbital, da Samantha Harvey

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Por Vinícius de Silva e Souza Samantha Harvey não poderia ter encontrado título mais apropriado para o seu mais recente e premiado romance. Orbital , que chegou aos leitores brasileiros pela editora DBA, com tradução de Adriano Scandolara, sintetiza a sua composição: muito mais do que apenas se referir a o que os protagonistas estão vivendo, habitando uma estação espacial a milhares de quilômetros distante da Terra, a palavra também refere os movimentos desenvolvidos pela própria narração de um romance de expressão lenta e contemplativa, sempre girando nos mesmos personagens fazendo as mesmas ações. Como um planeta cumprindo os seus ciclos. Os protagonistas são Roman e Anton, da Rússia; Chie, do Japão; Nell, do Reino Unido; Pietro, da Itália; e Shaun, dos Estados Unidos. Tamanha mistura poderia ser um desafio para qualquer escritor, levando em conta o manejo de figuras de culturas tão diferentes entre si. No entanto, é no deslocamento e na variação que Samantha  Harvey contorna as ...

As marcas do vampiro em Virgínia mordida, de Jeovanna Vieira

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Por Vinícius de Silva e Souza Em sua estreia no romance, Jeovanna Vieira consegue algo invejável: pegar o leitor e deixá-lo incapaz de não concluir o livro — algo que, recentemente, aconteceu comigo apenas com a leitura de  A vegetariana , de Han Kang. Virgínia mordida , à primeira vista, parece um romance nichado, mas é justamente nesse aspecto que reside sua principal qualidade: o ritmo próprio e sua narrativa, que é a história de uma mas também de tantas pessoas ao mesmo tempo.  Como os começos dos feminicídios nesse tempo recordes, o começo da história é quase o mesmo: uma mulher presa a um relacionamento abusivo que escala a violência até os níveis mais extremos. Nos casos mediatizados, quase todas as vezes, fatais. Não é o caso de nossa protagonista. Por mais verossímil que fosse, uma narrativa de abuso e machismo concluir-se com a morte da vítima, muito facilmente, ficaria esvaziada de sentidos para além da denúncia, por isso, sabiamente, o romance de Jeovanna Viei...

Entre o mundo e Baldwin: notas sobre Da próxima vez, o fogo

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Por Vinícius de Silva e Souza   É muito fácil se perder no fluxo de “Carta de uma região de minha mente ”, ensaio barra memória barra reflexão de James Baldwin que concentra quase toda a obra Da próxima vez, o fogo , traduzido por Nina Rizzi para a Companhia das Letras, casa que publicou o livro no Brasil em 2024. Entre relatos de sua infância, reflexões sobre religiosidade, exemplos de racismo da época em que foi escrito e relato de causos de sua vida adulta, o escritor nos leva, de maneira hipnótica, a refletir sobre a ligações entre religião (principalmente o islã) e a segregação racial de seu país.  Na época, aos 39 anos, o que afirma o autor, aqui, é que nem a militância radical de Malcom X e nem a pacifica desobediência civil do Reverendo King são o caminho ideal para o fim da segregação. Mostrar-se como uma categoria mais elevada, exemplificar civilidade e honra são os caminhos que o autor parece querer traçar, fortemente opondo-se a ideia de revidar violência com mais ...

Anseios e cobranças em A contagem dos sonhos

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Por Vinícius de Silva e Souza Chimamanda Ngozi Adichie. Foto: Jared Soares Dez anos depois, Chimamanda Ngozi Adichie cumpre, enfim, um retorno à ficção, e não apenas, mas à forma com a qual se fez reconhecida: seus volumosos romances. Sim, pois desde Hibisco roxo , nenhuma obra da autora possui menos de 300 páginas, o que a coloca na posição de romancista de mão cheia, sempre disposta a entregar trabalhos complexos e extremamente articulados, em temática, personagem e enredo-narrativa.  Depois de Americanah e seu longo passeio pelos anos da vida de Ifemelu (e também de Obinze), A contagem dos sonhos se debruça sobre quatro protagonistas, todas conectadas entre si: Chimaka, uma mulher “bem de vida”, que vive a escrever livros de viagem e tem sua rotina totalmente revirada com a pandemia da covid-19; Zikora, amiga advogada que passa por uma gravidez indesejada e um parto solitário; Omelogor, prima de Chimaka, uma mulher autônoma e também bem sucedida; e por fim, Kadiatou, a empregad...

Palmeiras selvagens, de William Faulkner: notas de leitura

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Por Vinícius de Silva e Souza Helen Frankenthaler, The Bay , 1963 (detalhe) Li O som e a fúria  em julho de 2022 e, por mera coincidência,  Absalão, Absalão!  no mesmo mês, dois anos depois. Agora, no mês sete deste ano, pego Palmeiras selvagens  na minha estante como se para manter a tradição de todo inverno: ler um grande romance de William Faulkner.  Creio ser difícil dizer qual desses livros me provocou maior fascínio: se as múltiplas vozes fantasmagóricas de  Absalão, Absalão! , se a desordem brutal de O som e a fúria ou a  forte calmaria do mais recente. Sei que força é aqui a palavra da vez. Mesmo que em momento algum as narrativas que constituem esse livro — “Palmeiras selvagens” e “O velho” — se cruzem, esse é o cerne dessa obra mais madura do autor: a força. E não deixa de ser surpreendente como em tão pouco tempo Faulkner foi capaz de produzir uma sequência de romances tão grandiosos. Nenhum desses que eu li escapa da pequena redoma que ch...

Nova geração em Vidas tardias, de Brandon Taylor

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Por Vinícius de Silva e Souza  Vidas tardias , o segundo romance de Brandon Taylor veio a mim por indicação da generosa escritora Fabiane Guimarães, quando leu o esboço de um romance no qual venho trabalhando e apontou similaridades. De fato: um grupo de jovens, pós-graduandos, vivendo a efervescência da juventude entre relacionamentos e questões profundamente contemporâneas. No entanto, após determinado ponto (e nem é algo tão longe assim), Taylor começa a demonstrar uma certa redundância no que arquiteta com seus personagens. Pior: desliza no vale da banalidade. O início é surpreendente e arrematador. Nos deparamos com Seamus confrontando colegas no grupo de estudos, e questões facilmente encontradas no Twitter (não consigo chamar de X) saltam aos nossos olhos. Acompanhar sua rotina e certo abuso que sofre é instigante, mas não sei dizer se é porque o personagem assim também o é, e o que é contado, ou se apenas porque estamos no início do livro, dispostos a tudo que vier pela fre...

Pertinente, atual e anêmico: De onde eles vêm, de Jeferson Tenório

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Por Vinícius de Silva e Souza   Já consagrado e praticamente uma celebridade, Jeferson Tenório se viu na difícil missão de entregar o “segundo livro” — aspas pelo medo comum de quem faz estreia arrebatadora mas também pelo fato de O avesso da pele não ser o seu primeiro livro —carregando uma expectativa imensa nas costas, uma vez que é portador de um Jabuti e de vendas consideráveis de seus outros romances. E o que se lê é um resultado pertinente, atual e ao mesmo tempo anêmico.   Esse é um incômodo pessoal, mas também não é: as narrações em primeira pessoa em formato de relato são limitadoras. Tenório faz um exercício narrativo muito bom em O avesso da pele , com o uso da segunda pessoa, mas entrega um descompasso grande em Estela sem Deus , com uma narrativa que começa em lugar nenhum para se encerrar em nenhum lugar. E o mesmo ocorre com De onde eles vêm — mas nem tanto: Joaquim é introduzido na narrativa quando ingressa na universidade pelo sistema de cotas e já se defro...

Ritmo, humano e crítico, mas sobretudo ritmo, e Cuti

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Por Vinícius de Silva e Souza   Pouco nos surpreende a Companhia das Letras ter publicado toda uma coletânea dos poemas de Cuti, pseudônimo de Luiz Souza. Há uns anos a editora tem se empenhado na missão de acrescentar ao seu catálogo os grandes nomes dos Cadernos negros , uma série de publicações de literatura afro-brasileira iniciada em 1978 e que se tornou um importante espaço para divulgação da produção dos autores negros no Brasil. Daí, saíram Oswaldo de Camargo, autor de obras como 30 poemas de um negro brasileiro e A descoberta do frio , e também a grandiosa coletânea Não pararei de gritar , de Carlos de Assumpção.   Assim, o nome que parecia mesmo ausente neste catálogo específico da editora era o de Cuti — agora, não mais. Apresentado em julho de 2024, Ritmo humanegrítico é uma antologia que possui o diferencial de, ao contrário da grande maioria de antologias, não reunir apenas textos antigos, contemplando períodos longínquos da trajetória de um autor, mas também ...

Raça, identidade, e sobretudo, Amor, em Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie

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Por Vinícius de Silva e Souza   Ifemelu, uma mulher comum, entra em um cabelereiro para trançar seus cabelos, em Princeton, Estados Unidos. Assim inicia-se uma jornada quase épica e profundamente moderna por 520 páginas, na edição comum da Companhia das Letras, onde Chimamanda Ngozi Adichie nos conduz com bastante idas e vindas pelos anos de formação da protagonista.   Sempre gosto de começar os anos lendo algum calhamaço (algo com mais de trezentas páginas), pensando que a folga do mês de janeiro me dará o fôlego necessário para devorar os longos romances que o restante do ano não me permite consumir. E em 2025, o escolhido foi o Best-Seller da escritora nigeriana, na minha prateleira aguardando sua vez de ser lido desde 2021. O romance foi traduzido no Brasil sete anos antes.   Logo entendi o porquê dessa obra ser aceita universalmente. Sua linguagem quase cinematográfica, sem muitos floreios, seduz, como um encantador de serpente; mesmo o leitor mais desavisado, quand...

Pelos mares do viver em “Condições ideais de navegação para iniciantes”

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Por Vinícius de Silva e Souza Natalia Borges Polesso. Foto: Ana Reis.   Natalia Borges Polesso é uma escritora experiente e influente e isso é um fato. Com uma carreira já bem consolidada, a autora nunca entregou algo fora de um escopo comum de estilo e temática — e com Condições ideais de navegação para iniciantes não é diferente. O que, por sinal, está bem longe de ser um demérito; é sempre um deleite vê-la em sua melhor forma: a das narrativas curtas.   Controle (2019) é um excelente romance de formação, assim como A extinção das abelhas (2021), um romance bastante experimental flertando com o distópico, um livro de seu tempo. Mas é nos contos que ela exerce melhor sua sensibilidade e pleno domínio narrativo, com um olhar singular e acolhedor para personagens e experiências constantemente escanteadas na literatura.   A autora já expressou algumas vezes a influência do conterrâneo Caio Fernando Abreu, autor aparentemente incontornável para sua geração, principalmente...

O que nos observa em A árvore mais sozinha do mundo

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Por Vinícius de Silva e Souza Desde há alguns anos que Mariana Salomão Carrara vem se mostrando uma grande escritora. Sua obra, bastante característica, peculiar e madura, tem como cerne a narração e o tempo (não por acaso já se declarou, por diversas vezes, leitora de Elvira Vigna): em  Se Deus me chamar não vou temos algo de cronológico na organização temporal da narrativa pelos olhos de uma criança; em É sempre a hora da nossa morte amém , temos uma narrativa mais intrincada e que se desdobra com o passar do tempo, na mente de uma mulher idosa; em Não fosse as sílabas do sábado trabalha com o vai-e-vem do luto também pelos olhos de uma única personagem; e, em A árvore mais sozinha do mundo , a autora rompe com estruturas estabelecidas para criar quatro narradores diversos que observam e discorrem acerca de um mesmo ponto em comum: uma família.   São os narradores de  A árvore mais sozinha do mundo  o espelho, o carro, a roupa e a árvore. Partindo de objetos ina...