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É sempre a hora da nossa morte amém, de Mariana Salomão Carrara

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Por Gabriella Kelmer  Mariana Salomão Carrara. Foto: Renato Parada A inventividade da escrita de Mariana Salomão Carrara tem sido discutida através de uma produção romanesca bastante variada em temáticas (a morte, a infância, a justiça) e em perspectivas (a idosa, a árvore, o juiz), dizendo a autora, em tempos nos quais a criação se tem visto tantas vezes cooptada por um compromisso por vezes desmedido com a realidade e com a autobiografia, que há nas suas histórias um exercício de empatia a acionar os mecanismos da infância.  Em É sempre a hora da nossa morte amém , romance de 2021, fica evidente em que medida sua ficção surpreende ao permitir, às suas personagens, a singularidade e a irrepreensibilidade. Aurora, a narradora, é encontrada, aos setenta anos, vagando a esmo por uma estrada, sendo então levada a um abrigo de idosos. Sua memória está comprometida e a cada novo dia ela levanta novas possibilidades da vida perdida. Por todo o enredo, repetem-se elementos como a pre...

Ensaios do desespero, de Antonio Puppin

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Por Gabriella Kelmer Na epígrafe que antecede os contos de Ensaios do desespero , de Antonio Puppin, o poeta cristão San Juan de La Cruz afirma que “lloraré la morte ya/ y lamentaré mi vida”, versos a serem associados a um plano existencial de pecados. A escolha pela citação desdobra-se logo na presença da morte, matizada como irrupção violenta, dispositivo adormecido e fadiga existencial, sendo ela um dos temas a atravessar as nove narrativas curtas que compõem a coletânea, e no lamento incessante pela vida. A menção do título ao desespero é, nesse sentido, vinculada ao modo como cada conto introduz situações que, se não angustiantes em si mesmas, têm a morte e a dor existencial como limiar. O tom ensaístico é presente, por sua vez, em narrativas como “Fortuna”, “O outro” e, em especial, “Desespero e eternidade”, a apresentarem narradores em primeira pessoa cuja permanência no plano das ações é ocasional (sendo aliás inexistente na última narrativa, mais propriamente ensaio). Os conto...

Diante da manta do soldado, de Lídia Jorge

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Por Gabriella Kelmer Lídia Jorge. Foto: Ana Baião Nas primeiras páginas de Diante da manta do soldado , romance de Lídia Jorge republicado pela Autêntica Contemporânea no ano que passou, os passos dos moradores da família Dias, na altura ainda desconhecida, rumorejam casa afora, “caminhando sem cessar desde a madrugada” (Jorge, 2025, p. 7). São leves, pesados, hesitantes esses passos, e a variabilidade, a característica e a errância de cada um apontam para elementos do enredo ainda encobertos. Cada andar demarca, nesse primeiro ato, a dimensão, o espaço e a essência das presenças que flagra, manifestando o mistério e a fratura que dividem a casa de Valmares. Estou convencida de que apenas esse fragmento da obra é argumento suficiente para recomendar sua leitura. Em dois parágrafos, está presentificada, para o leitor, a humanidade dos seres ficcionais, assim como a imperfeição e a inefabilidade de quem são. A presença orgânica das personagens e as marcas que relembram sua existência pri...

O testamento do sr. Napumoceno da Silva Araújo, de Germano Almeida

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Por Gabriella Kelmer  Germano Almeida. Foto: Tiago Almeida (Reprodução do Expresso ) Não é tão fácil ter em mãos as versões físicas das obras do caboverdiano Germano Almeida, ao menos no Brasil. A exceção é uma edição do ano passado de A ilha fantástica , de 1994, publicada pela editora Oficina Raquel. Para além dessa incorrência, entretanto, é preciso recorrer inevitavelmente aos sebos e ao Kindle, contextos nos quais a bastante prolífica obra do escritor é encontrada sob o selo da editora portuguesa Caminho.  Embora tivesse cruzado com o nome do autor várias vezes, obtendo desses fortuitos encontros a distinção de ser ele incontornável para a prosa contemporânea de seu país, não conhecia em que medida esse impacto ocorrera, nem a partir de que procedimentos. Desejando iniciar o conhecimento com o escritor, aliás vencedor do prêmio Camões em 2018, recorri à edição virtual da obra para ler o seu primeiro romance, O testamento do sr. Napumoceno da Silva Araújo , publicado em 19...

Corsária, de Marilene Felinto

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Por Gabriella Kelmer Marilene Felinto. Foto: Antonio Scarpinetti Não é desconhecida a narrativa de retorno ao interior semiárido na escrita de Marilene Felinto, cuja notoriedade foi alcançada com a publicação de As mulheres de Tijucopapo , de 1982. Seu novo romance, Corsária , publicado em 2025 na parceria entre a Fósforo e a Ubu Editora, segue as trilhas temáticas e composicionais daquele primeiro sucesso, embora sejam suas soluções ligeiramente menos satisfatórias quando comparadas àquela outra realização. É uma narradora-protagonista “semiárida, corsária, beligerante” (Felinto, 2025, p. 12) a que fala no romance, estabelecendo sua narração no condicional e no futuro do pretérito: “Se isto fosse uma história [...]” (Felinto, 2025, p. 12), começa ela, “seria a narrativa de uma inexistência” (Felinto, 2025, p. 12), “seria no linguajar local, dicção do tempo dos meus avós” (Felinto, 2025, p. 19), “pois eu escreveria direito” (Felinto, 2025, p. 26). Estabelece-se, assim, desde o início, ...

Objetivação e metaficção no romance de Andrea Jeftanovic

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Por Gabriella Kelmer  Andrea Jeftanovic. Foto: Guillermo Barquero Há uma medida em que a literatura suspende a vida. Em que ela nos arrebata do mundo, da realidade, da sensação física das coisas. É nesse estado de letargia, de entrega a um limiar outro que não o nosso, não mais aquele que nos foi relegado por circunstâncias, irremovíveis ou escolhidas, que é gerado o desprendimento, a confusão, a necessidade de nos recolocarmos em um corpo vivo. A literatura também gera desconhecimento. Ao menos tem sido assim na minha vivência. Habito por vezes um estado de desconexão, ora maravilhada, ora apática e entorpecida, que momentaneamente afrouxa meus laços com quem eu sou, com o que eu prezo, com tudo aquilo que não é a experiência imediata do simbólico, do linguístico, do ficcional. Escolher a literatura tem sido muitas vezes ver a mim mesma através de uma lente que conserva as distâncias, objetiva meus desafios e a minha vida, enquanto estabelece com maior generosidade os contornos di...

A palavra-legado de Noemi Jaffe

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Por Gabriella Kelmer Noemi Jaffe. Foto: Zanone Fraissat Em Te dou minha palavra , obra publicada pela Companhia das Letras em 2025, Noemi Jaffe desvela-se, na epígrafe, na figura de um mosquito embevecido pela atração incômoda e perigosa de um vulcão em erupção, do qual consegue se afastar atabalhoadamente. A analogia se torna clara à medida que o texto avança, refigurando-se nos trens, nas menções ao campo de concentração, no cotidiano da família judia e trabalhadora do Bom Retiro, no espraiamento identitário por músicas, filmes e livros da menina filha de sobreviventes do nazismo, para quem a cultura e a rebeldia são réplicas potentes. Remanescente de uma vivência autoficcional reelaborada desde os seis, os oito, os onze, os quatorze anos, funciona o passado de vórtice para uma discussão complexa e refrativa do tempo. O mosquito é ela, autora e narradora, mas também a criança que ela foi; o vulcão é o fascínio exercido simultaneamente pela história da catástrofe que resultou na mudan...

Deus na escuridão, de Valter Hugo Mãe

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Por Gabriella Kelmer  Valter Hugo Mãe. Foto: Paulo Pimenta O romance mais recente de Valter Hugo Mãe no Brasil, Deus na escuridão , leva o selo da editora Biblioteca Azul e foi lançado em 2024, tendo como temáticas centrais o amor familiar e o amor divino, sendo os dois correspondentes ao longo da obra. A narrativa é inaugurada com o nascimento de Serafim, mais comumente chamado de Pouquinho, menino nascido “sem as origens” (metáfora elucidada no mesmo período pelo uso de outra, que diz ter vindo ele “mordido entre as pernas”).  O romance é elaborado do ponto de vista do filho mais velho da família, Paulinho, o Felicíssimo, cuja perspectiva fraterna e protetora circunda a existência castrada do irmão, moldando-se a ela. Dividida em três partes, chamadas “O nascimento de Pouquinho”, “O evangelho segundo aqueles que sofrem” e “Felicíssimo irmão”, a obra acompanha momentos diferentes da relação entre os irmãos. Serve a primeira seção, mais longa, de introdução ao nascimento de Po...

Trivialidade e dispersão em Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf

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Por Gabriella Kelmer Virginia Woolf. Foto: Fine Art Images/Heritage Images “Mrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores”, diz o primeiro e ilustre período do mais conhecido romance de Virginia Woolf. A singeleza da sentença, de aparência externa pouco dada à abstração, é constituída pela absoluta trivialidade que nela se inscreve; são os dados aí registrados, entretanto, um sumário consistente de algumas das questões centrais do romance e da personagem que o intitula. Há o casamento, evidenciado pelo pronome de tratamento das senhoras; a iniciativa em assumir a tarefa que se presume de outrem (sendo por isso necessário afirmar que irá “ela mesma”); a expectativa da beleza a que se recorre na ação de comprar flores; a absoluta cotidianidade do tema e, portanto, da mulher a ele associada.  Tudo isso retorna sistematicamente ao longo da narrativa, expandindo-se a abertura inicial para lados muitas vezes imprevisíveis. Está esse início inteiramente afinado, no entanto, a a...