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Mostrando postagens com o rótulo Gabriella Kelmer

O testamento do sr. Napumoceno da Silva Araújo, de Germano Almeida

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Por Gabriella Kelmer  Germano Almeida. Foto: Tiago Almeida (Reprodução do Expresso ) Não é tão fácil ter em mãos as versões físicas das obras do caboverdiano Germano Almeida, ao menos no Brasil. A exceção é uma edição do ano passado de A ilha fantástica , de 1994, publicada pela editora Oficina Raquel. Para além dessa incorrência, entretanto, é preciso recorrer inevitavelmente aos sebos e ao Kindle, contextos nos quais a bastante prolífica obra do escritor é encontrada sob o selo da editora portuguesa Caminho.  Embora tivesse cruzado com o nome do autor várias vezes, obtendo desses fortuitos encontros a distinção de ser ele incontornável para a prosa contemporânea de seu país, não conhecia em que medida esse impacto ocorrera, nem a partir de que procedimentos. Desejando iniciar o conhecimento com o escritor, aliás vencedor do prêmio Camões em 2018, recorri à edição virtual da obra para ler o seu primeiro romance, O testamento do sr. Napumoceno da Silva Araújo , publicado em 19...

Corsária, de Marilene Felinto

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Por Gabriella Kelmer Marilene Felinto. Foto: Antonio Scarpinetti Não é desconhecida a narrativa de retorno ao interior semiárido na escrita de Marilene Felinto, cuja notoriedade foi alcançada com a publicação de As mulheres de Tijucopapo , de 1982. Seu novo romance, Corsária , publicado em 2025 na parceria entre a Fósforo e a Ubu Editora, segue as trilhas temáticas e composicionais daquele primeiro sucesso, embora sejam suas soluções ligeiramente menos satisfatórias quando comparadas àquela outra realização. É uma narradora-protagonista “semiárida, corsária, beligerante” (Felinto, 2025, p. 12) a que fala no romance, estabelecendo sua narração no condicional e no futuro do pretérito: “Se isto fosse uma história [...]” (Felinto, 2025, p. 12), começa ela, “seria a narrativa de uma inexistência” (Felinto, 2025, p. 12), “seria no linguajar local, dicção do tempo dos meus avós” (Felinto, 2025, p. 19), “pois eu escreveria direito” (Felinto, 2025, p. 26). Estabelece-se, assim, desde o início, ...

Objetivação e metaficção no romance de Andrea Jeftanovic

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Por Gabriella Kelmer  Andrea Jeftanovic. Foto: Guillermo Barquero Há uma medida em que a literatura suspende a vida. Em que ela nos arrebata do mundo, da realidade, da sensação física das coisas. É nesse estado de letargia, de entrega a um limiar outro que não o nosso, não mais aquele que nos foi relegado por circunstâncias, irremovíveis ou escolhidas, que é gerado o desprendimento, a confusão, a necessidade de nos recolocarmos em um corpo vivo. A literatura também gera desconhecimento. Ao menos tem sido assim na minha vivência. Habito por vezes um estado de desconexão, ora maravilhada, ora apática e entorpecida, que momentaneamente afrouxa meus laços com quem eu sou, com o que eu prezo, com tudo aquilo que não é a experiência imediata do simbólico, do linguístico, do ficcional. Escolher a literatura tem sido muitas vezes ver a mim mesma através de uma lente que conserva as distâncias, objetiva meus desafios e a minha vida, enquanto estabelece com maior generosidade os contornos di...

A palavra-legado de Noemi Jaffe

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Por Gabriella Kelmer Noemi Jaffe. Foto: Zanone Fraissat Em Te dou minha palavra , obra publicada pela Companhia das Letras em 2025, Noemi Jaffe desvela-se, na epígrafe, na figura de um mosquito embevecido pela atração incômoda e perigosa de um vulcão em erupção, do qual consegue se afastar atabalhoadamente. A analogia se torna clara à medida que o texto avança, refigurando-se nos trens, nas menções ao campo de concentração, no cotidiano da família judia e trabalhadora do Bom Retiro, no espraiamento identitário por músicas, filmes e livros da menina filha de sobreviventes do nazismo, para quem a cultura e a rebeldia são réplicas potentes. Remanescente de uma vivência autoficcional reelaborada desde os seis, os oito, os onze, os quatorze anos, funciona o passado de vórtice para uma discussão complexa e refrativa do tempo. O mosquito é ela, autora e narradora, mas também a criança que ela foi; o vulcão é o fascínio exercido simultaneamente pela história da catástrofe que resultou na mudan...

Deus na escuridão, de Valter Hugo Mãe

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Por Gabriella Kelmer  Valter Hugo Mãe. Foto: Paulo Pimenta O romance mais recente de Valter Hugo Mãe no Brasil, Deus na escuridão , leva o selo da editora Biblioteca Azul e foi lançado em 2024, tendo como temáticas centrais o amor familiar e o amor divino, sendo os dois correspondentes ao longo da obra. A narrativa é inaugurada com o nascimento de Serafim, mais comumente chamado de Pouquinho, menino nascido “sem as origens” (metáfora elucidada no mesmo período pelo uso de outra, que diz ter vindo ele “mordido entre as pernas”).  O romance é elaborado do ponto de vista do filho mais velho da família, Paulinho, o Felicíssimo, cuja perspectiva fraterna e protetora circunda a existência castrada do irmão, moldando-se a ela. Dividida em três partes, chamadas “O nascimento de Pouquinho”, “O evangelho segundo aqueles que sofrem” e “Felicíssimo irmão”, a obra acompanha momentos diferentes da relação entre os irmãos. Serve a primeira seção, mais longa, de introdução ao nascimento de Po...

Trivialidade e dispersão em Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf

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Por Gabriella Kelmer Virginia Woolf. Foto: Fine Art Images/Heritage Images “Mrs. Dalloway disse que ela mesma iria comprar as flores”, diz o primeiro e ilustre período do mais conhecido romance de Virginia Woolf. A singeleza da sentença, de aparência externa pouco dada à abstração, é constituída pela absoluta trivialidade que nela se inscreve; são os dados aí registrados, entretanto, um sumário consistente de algumas das questões centrais do romance e da personagem que o intitula. Há o casamento, evidenciado pelo pronome de tratamento das senhoras; a iniciativa em assumir a tarefa que se presume de outrem (sendo por isso necessário afirmar que irá “ela mesma”); a expectativa da beleza a que se recorre na ação de comprar flores; a absoluta cotidianidade do tema e, portanto, da mulher a ele associada.  Tudo isso retorna sistematicamente ao longo da narrativa, expandindo-se a abertura inicial para lados muitas vezes imprevisíveis. Está esse início inteiramente afinado, no entanto, a a...

Intermezzo, de Sally Rooney

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Por Gabriella Kelmer Sally Rooney. Foto: Jonny Davies   Desde o lançamento de Conversas entre amigo s, publicado no Brasil pela Companhia das Letras em 2017 (a versão irlandesa é do mesmo ano), Sally Rooney foi alçada a uma esfera de notoriedade global a que poucos autores terão acesso ao longo de suas carreiras. Todas as suas obras, desde então, entraram em incontáveis listas de best-sellers; alguns de seus romances ganharam adaptações reconhecidas para outras mídias.   É possível que seja esse o caminho trilhado por Intermezzo , de 2024, romance que renova algumas das preferências temáticas da autora, como é o caso do adoecimento mental, da vida amorosa atravessada por arranjos atípicos ou disfuncionais, da solidão do sujeito contemporâneo. Sendo esse o caso, muito como nas obras anteriores, a abertura do mercado ― tanto o literário como o cinematográfico ― se justifica em parte pelo apelo das temáticas amorosa e sexual e, desconfio, também pelo fato de ser a escri...