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O verdadeiro Conde de Monte Cristo

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Por Ada del Moral Olivier Pichat, Thomas Alexandre Dumas . Em Django livre (2012), de Quentin Tarantino, o dentista e caçador de recompensas King Schultz (Christoph Waltz) comenta com o latifundiário sádico e racista Calvin Candie (Leonardo DiCaprio) que o autor de Os Três Mosqueteiros (1844) não teria aprovado que ele alimentasse seus cães com o escravo D'Artagnan. “Francezinho fraco”, zomba Candie. “Alexandre Dumas é negro!”, responde Schultz. A expressão impassível do escravagista é impagável. Ela também chama a atenção para a identidade de um gigante da literatura, apesar do empenho de “colaboradores” — como Auguste Maquet, que o ajudou a escrever O Conde de Monte Cristo (1846), a quem ele teria subornado de maneira exorbitante para figurar sozinho nesta homenagem a seu pai, o General Dumas. As origens do romancista, o segundo Alexandre dos três de uma linhagem tão ilustre, não são bem um mistério. Nós apenas o havíamos esquecido, pois apenas restar poucos ecos das desditas ...

Arisca e frágil: assim era Virginia Woolf segundo Victoria Ocampo

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Por Andrea Calamari Virginia Woolf e Victoria Ocampo fotografadas por Gisèle Freund Victoria está em seu quarto de hotel, onde se hospeda sempre que vem a Londres. Ela calça as meias e os sapatos, arruma o vestido, pega um casaco porque o tempo nunca está bom na cidade, olha seu reflexo no espelho e se sente confortável com o que vê. Já não é mais jovem, mas tudo está em seu devido lugar. Ela emerge desse silêncio quando alguém anuncia da recepção que o Sr. Huxley chegou. Aldous Huxley está no saguão do hotel esperando a amiga argentina, que, no andar de cima, está terminando de ajustar os ganchos do chapéu que comprou em Paris — os únicos que gosta de comprar — e logo desce as escadas ou talvez o elevador para o encontrar. É uma tarde agradável, e eles irão ver uma exposição de fotos do incrivelmente famoso e eclético Man Ray. Se tiverem alguma sorte, se Victoria Ocampo tiver sorte, Virginia Woolf estará na exposição, e Huxley os apresentará. Virginia Woolf publica romances, ensaios, ...

Trakleanas

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Por Eduardo Galeno Paul Klee. Angelus Descendens . 1918. Heidegger foi um dos que aproximaram poesia e pensamento . Sim. Provável que Trakl a tenha procurado. Nesse motivo de interação, a suspensão da língua dá o seu modo de aparecer. E o que chegam? As tentativas e as frustrações.   Viciado em cocaína e ópio, farmacêutico formado e em pleno rebuliço da guerra de 14, espreitava também sua irmã; significava a total adesão ao lusco-fusco existencial.   Entrar em Trakl é tão simples quanto lê-lo: imagens límpidas, mas igualmente fogosas. Enjambement certeiro. O universo é um embarcar na interioridade e, sempre salvaguardando a palavra, ecoa a risca entre o verbo e a estrela. Absorve.   Lemos Salmo e, infiltrados na floresta escura, nas figuras (que servem a ele como empecilhos no papel de luta contra a floresta) nos vemos deslocantes da ideia sobre a unidade da escuta. Georg fora destinado a cumprir o eon do declínio pelas esferas que o construíam: a luz, a taberna,...

Ungaretti e a gênese de um livro

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Por Carlos Vitale Giuseppe Ungaretti. Foto: Emilio Ronchini   Em momentos de desânimo, quase sempre presentes, quando acreditamos que ninguém se interessa por nossas obras , nós, aspirantes a poetas, consolamo-nos com a ideia de que as tiragens escassas e mal distribuídas, que nos condenarão para sempre ao ostracismo, não são uma novidade destes tempos. Um bom exemplo disso é a edição de Il porto sepolto [O porto enterrado] (1916), reimpressa em 1923 com uma introdução de Benito Mussolini e a semente de A alegria (1931), de Giuseppe Ungaretti (1888-1970).   No outono de 1912, Ungaretti deixou o Egito em direção a Paris, onde estudou com Henri Bergson e entrou em contato com os maiores representantes dos movimentos artísticos de vanguarda (Guillaume Apollinaire, Pablo Picasso, Giorgio de Chirico, Amadeo Modigliani, entre outros). Por ocasião da Exposição Futurista na Galeria Bernheim Jeune, conheceu vários intelectuais italianos proeminentes, como Giovanni Papini, Mario Soff...

Nos 50 anos de Feliz Ano Novo, a história de uma censura

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Por João Victor Uzer Rubem Fonseca, anos 1970. Arquivo do escritor. Em 2025, Feliz Ano Novo , de Rubem Fonseca, completa 50 anos. Uma das coletâneas mais lembradas do autor, o livro ganhou notoriedade devido seu histórico com a ditadura. O fato de ter sido censurado sob a alegação de atentar contra a “moral e os bons costumes” é bem conhecido, mas outro aspecto importante desse evento é normalmente negligenciado: o escancaramento da ignorância dos censores.   Fonseca é bem celebrado pelo seu estilo caraterístico, denominado brutalismo pela crítica. Com personagens periféricos e o uso de uma linguagem marcada por gírias, a literatura fonsequiana se destacou nos anos 1960. Assim, quando Feliz Ano Novo foi publicado, o autor não era nenhum anônimo; já havia publicado outras três coletâneas de contos — Os prisioneiros (1963), A coleira do cão (1965), Lúcia McCartney (1969) — e o romance O caso Morel (1973). Com Lúcia McCartney recebera o prêmio Jabuti. Destaque que se reafirma ...

O Grande Gatsby é um título ruim?

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Por Juan Tallón F. Scott Fitzgerald Foto: Brown Brothers   Em maio de 1924, pouco mais de um ano antes de O Grande Gatsby ser publicado, Francis Scott Fitzgerald trabalhava febrilmente no livro, recusando-se a ler qualquer coisa além de Homero e da literatura e história homérica de 540 a 1200. “E rogo a Deus para não ver uma viva alma por seis meses; meu romance é cada vez mais extraordinário; sinto-me completamente no controle de mim mesmo e posso finalmente satisfazer meu desejo de solidão”, escreveu da França ao romancista Thomas Boyd; acabara de chegar com dezessete malas, na esperança de encontrar uma casa generosa com mordomo e cozinheiro para ele, a mulher e a filha.   Ele se encontrava tomado pela excitação e, em agosto daquele ano, confessou a Maxwell Perkins, diretor editorial da Scribner’s: “meu romance é mais ou menos o melhor romance uma vez escrito nos Estados Unidos”. Um autor nunca sente tamanho entusiasmo por sua obra, não dessa maneira, quando a obra ainda ...

Considerações em torno do Auto da Compadecida

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Por Pedro Fernandes Ariano Suassuna durante as filmagens da primeira versão de sua peça Auto da Compadecida , em Brejo da Madre de Deus, Pernambuco, 1968. O Auto da Compadecida é um divisor no reconhecimento da obra de Ariano Suassuna (1927-2014). Continuamente encenada, a peça alcançou uma popularidade pouco comum para a literatura brasileira, ainda mais numa seara das mais áridas, o teatro. Um breve levantamento nos mostrará a pouca recorrência de criações neste gênero no campo de destaque em relação a formas como as da prosa e da poesia.   O dramaturgo concebeu este trabalho em setembro 1955, quando já havia escrito outras peças, como Cantam as harpas de Sião (1948), Os homens de barro (1949), Auto de João da Cruz (1950) e O arco desolado (1952). Este primeiro conjunto do seu teatro aponta para o modelo armorial e como tal se situa entre o épico e o narrativo seguindo as feições das expressões das formas antigas eruditas ou populares.   O próprio Ariano Suassuna assim...

Os contos escondidos de Julio Ramón Ribeyro em seu arquivo de Paris

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Por Renzo Gómez Vega Julio Ramón Ribeyro em seu escritório de Paris, 1980. Foto: Jorge Deustua. Vasculhar a gaveta de um escritor já falecido é perscrutar a intimidade de um criador. Entrar num universo de dúvidas, ousadias e frustrações de quem travou inúmeras batalhas com uma página em branco para escapar do esquecimento. É, acima de tudo, explorar um olhar sobre a vida e testemunhar em primeira mão o milagre do nascimento da literatura.   Depois de se enraizar na Europa, Julio Ramón Ribeyro, o contista mais importante da literatura do Peru, morreu em Lima, aos 65 anos, no leito de um hospital oncológico, em dezembro de 1994, justamente quando começava a ser reconhecido. Partiu antes da chegada dos primeiros raios do sol de verão e algumas semanas depois de receber o Prêmio Juan Rulfo, reconhecimento que fez com que o seu nome transcendesse os círculos literários menores e ressoasse internacionalmente.   Desde então, sua comunidade de leitores — que eventualmente se tornaram...

Borges e Paracelso

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Por Roberto Bolaño Carlos Estévez, La Rosa de Paracelso (2009)   Como todos os homens, como todas as coisas vivas da Terra, Borges é inesgotável. Em um de seus livros menos conhecidos, A memória de Shakespeare (1983), um pequeno conjunto de quatro contos, três deles aparecidos anteriormente em outras publicações, mas em um novo, o que dá título ao volume, o leitor pode encontrar e ler ou reler “A rosa de Paracelso”, um texto muito simples, transparente, onde se narra a visita que recebe Paracelso de um homem que deseja ser seu discípulo. Isso é tudo do conto.   Ele, nem é preciso dizer, é mostrado com um certo langor que corresponde à época; a visita do desconhecido ocorre quando a tarde começa a cair e Paracelso está cansado e a lareira queima um fogo minguado. Então cai a noite e Paracelso, que está cochilando, ouve alguém batendo à sua porta. Entra um estranho que deseja ser seu discípulo.   As primeiras linhas da história são estas: “Em sua oficina, que abarcava os ...

A senhorita mascarada

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Por Gabriel Carra Cena de  Senhorita Júlia . Arquivo Companhia Bípede de Teatro Rupestre, 2024.   Hoje em dia não se trata mais, como fez certa vez Bertolt Brecht em “A função social do teatro”, de se indagar se o mundo atual pode ser reproduzido pelo teatro. Inúmeros são os expedientes técnicos disponíveis e o repertório de soluções, que inclui as próprias experiências brechtianas, é imenso, vasto. A pergunta que talvez realmente importe é como sustentar a verve crítica do teatro, isto é, o teatro como arte (pois é próprio de qualquer arte ser crítica do real), em uma época supercrítica , na qual a própria crítica social parece cansada e na iminência de desabar sobre o próprio peso.   Em termos mais próprios às técnicas teatrais, poderíamos precisá-la da seguinte forma: como o teatro pode sustentar essa verve assinalada sem depender inteiramente dos repertórios brechtianos, beckettianos ou de experimentações de exposição do signo teatral de inspiração pirandelliana, form...