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Harold Bloom, guardião do cânone ocidental

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Por Pedro Fernandes


“A ideia de que beneficiamos os humilhados e ofendidos lendo alguém das origens em vez de ler Shakespeare, é uma das mais curiosas ilusões já promovidas por ou em nossas escolas.”
No início de 2019 revisitei O cânone ocidental — de onde é pinçada a frase acima. Este é talvez um dos textos de crítica literária mais lidos ao redor do mundo; até este ano aparece publicado em mais de quarenta idiomas. É também um dos mais contundentes da crítica literária, por mais controverso que pareça aos olhos de muitos aferrados à desconstrução ou de puros inimigos do conservadorismo. Mas denuncia que o seu autor era um homem de rigor.
Possivelmente, tão cedo não teremos outra figura capaz de construir enfrentamentos com perspicácia e grande fôlego. Sim, os ambientes intelectuais como os por onde circulou estão empestados de senhores vestidos de convicções, de opiniões, de alguma sagacidade, enquanto do que mais carecem é de rigor, perspicácia e fôlego.
Harold Bloom, o nome em que…

Moby Dick e a alegoria

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Por Javier Ozón Górriz


Entre as figuras da retórica, a alegoria, isto é, a arte de expressar algumas coisas em virtude de outras que são mais fáceis de entender, como quando o mistério do Espírito Santo é representado graficamente com a imagem de uma pomba, não é a menos frequente. Isso ocorre por uma razão universalmente reconhecida: a imaginação humana entende o concreto melhor que o abstrato. A alegoria serviria assim como uma representação simbólica de ideias abstratas por meio de figuras visíveis, de modo que, para esclarecer o conceito de “piedade”, nos voltamos para um conjunto escultural no qual uma mãe apoia o corpo de seu filho moribundo, por exemplo; ou expressamos a ideia de “amor nacional” – o abstrato – através da vida exemplar de um soldado – o concreto – sacrificado em nome de seu país e assim por diante. Ciprión, um dos podengos de A cidade e os cachorros, diz sobre o sentido alegórico de que “não significa o que a letra soa, mas outra coisa que, embora diferente, a t…

Rima simples por não ser centro, ser periferia

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Por Wagner Silva Gomes


Marcelo Peixoto, conhecido como Marcelo D2, integrante da banda Planet Hemp, tornou-se um formador de opinião potente. Usando sua voz para além do rap, no Twitter suas críticas às atrocidades cometidas pelo governo vigente ficaram conhecidas, tendo o jornal Le Monde Diplomatique o procurado para o entrevistar sobre a sua formação de opinião midiática. Neste ano de 2019 o rapper lançou seu último álbum intitulado Amar é para os fortes, e com ele enveredou para o audiovisual como diretor do filme homônimo.
Se parar para pensar as rimas do Marcelo D2 são das mais significativas em toda a música brasileira. Nelas já era possível ver sua inclinação para o audiovisual, como na música “Contexto”, do Planet Hemp: “Toca o seu terror Alfred Hitchcock / evolução do rap, evolução do rock”. Além de mostrar o gosto pelo audiovisual a referência ao diretor de Psicose colocado como o que toca o terror, ou seja, que dá apenas o tom dos males sociais que estão presentes nas cabeç…

Amor, casais e casamentos em William Shakespeare (3)

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Por María Méndez Peña



Casamento de Anne e William
Deixamos para o fim a leitura sobre o casal e o casamento formado por Anne e William. Presumivelmente, a decisão de Shakespeare de viver a maior parte de seus anos longe da companheira ajuda a ampliar o contexto de certas questões e detectar outros dados sobre sua vida e sua obra: talvez ele não desejasse se fazer conhecer, nem procurou ser totalmente compreendido; talvez, olhando para trás, percebeu que seu casamento era um erro desastroso quando tinha apenas dezoito anos e que também pagava pelas consequências, sendo escritor e marido, e assim escreveu frases como: “casar-se por obrigação arrasta para o inferno”; “casamento apressado, raramente floresce”. Outra conjectura: talvez tenha dito a si mesmo que seu casamento com Anne estava fadado ao fracasso, parecendo um poço profundo de contínuas amarguras.
Segundo Joyce, Shakespeare é “uma alma hesitante pegando em armas contra um mar de dificuldades, dilacerado por dúvidas contraditóri…

O prêmio literário pela recusa de prêmios literários

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Por Ursula K. Le Guin



A primeira vez que ouvi sobre o Prêmio Sartre foi através de “NB”, a verdadeiramente agradável última página do Times Literary Supplement, assinada por J.C. A fama da premiação, nomeada em honra do autor que recusou o Nobel em 1964, está ou deveria estar, de qualquer forma, crescendo rápido. Como escreveu J.C na edição de 23 de novembro de 2012, “Tão elevada é a condição do Prêmio Jean Paul Sartre por Recusa de Prêmio que escritores por toda a Europa e América estão rejeitando prêmios com a esperança de serem nomeados para um Sartre”.
Recém-listado para o Prêmio Sartre é Lawrence Ferlinghetti, que recusou uma premiação de poesia de cinquenta mil euros oferecida pela divisão húngara do PEN¹. A premiação é financiada em parte pelo repressivo governo húngaro. Ferlinghetti educadamente sugeriu que eles usassem o prêmio monetário para estabelecerem um fundo para “a publicação de autores húngaros cujos escritos apoiam a liberdade total de expressão”.
Não consigo evitar…

Escritoras na contracorrente

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Por Maria Ángeles Cabré


Se o mundo é formado quase igualmente por homens e mulheres, parece conveniente perguntar por que nas livrarias elas não aparecem na mesma proporção, muito menos na história da literatura, onde as escritoras quase sempre aparecem em notas de rodapé, simples apêndices de algumas leituras compostas em chave exclusivamente masculina. Não há uma resposta única para essa questão.
O que teria acontecido com todas aquelas mulheres do passado que não se tornaram escritoras e que, por outro lado, contavam histórias quentes de amor ou enovelavam noites após noites com contos? É verdade que, os famosos contos de Perrault não são o resultado exclusivo de sua imaginação, mas histórias populares coletadas pelos autores nas estradas do interior da França. E se, como disse Virginia Woolf, o anônimo fosse uma mulher? É provável que muitos dos seus criadores fossem mulheres. Mas nunca saberemos; do mesmo modo que nunca saberemos quem pintou as pinturas não assinadas que tanto ab…