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Mostrando postagens com o rótulo Rafael Bonavina

As almas mortas de Machado de Assis

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Por Rafael Bonavina  Machado de Assis e Nikolai Gógol (montagem) Circulou recentemente uma informação que me pareceu bastante curiosa: Machado de Assis escreveu um texto a partir de um mote tomado do romance Almas mortas , de Nikolai Gógol. Assim que vi isso, parei imediatamente o meu dia e comecei a pesquisar o assunto e não sosseguei até conseguir o acesso a essa crônica de Machado. A crônica faz parte daquelas publicadas anonimamente na Gazeta de Notícias , mas emolduradas pelos dizeres “Bons dias!” e “Boas noites.”; e no caso, é a de 26 de junho de 1888. Com o texto em mãos, não se pode duvidar da intertextualidade, embora seja bem específica, pois o romance gogoliano não é só mencionado no corpo do texto, como lhe é creditada uma importância fundamental: “Conhece o leitor um livro do celebre Gógol, romancista russo, intitulado Almas mortas? Suponhamos que não conhece, que é para eu poder expor a semente da minha ideia.”¹  Como se vê, o livro russo é “a semente” da ideia q...

O bom e velho novo

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Por Rafael Bonavina  A literatura voltada para o público jovem tem se tornado uma crescente preocupação dos pais e dos estudiosos da literatura. E não é para menos, afinal estamos, jovens e adultos, cada vez mais presos às telas e, consequentemente, somos vítimas das propagandas maquiadas de conteúdo. Pior ainda, em um cenário de constante disputa pela atenção, os estímulos precisam ser cada vez mais potentes para que se consiga prender o consumidor por preciosos segundos.  Os efeitos danosos desse ambiente sobre a concentração são sensíveis inclusive nos adultos que cresceram e desenvolveram suas capacidades intelectuais antes do advento das redes sociais, e o problema se torna ainda mais preocupante nas crianças, que já nascem imersas nesse mundo pós-internet. Multiplicam-se os artigos científicos dedicados à discussão das consequências da exposição prolongada às telas, pesquisadores debatem a melhor idade para se permitir o acesso às redes, formas saudáveis de incorporação ...

Você, vosso criado

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Por Rafael Bonavina  Ilia Repin. Prisão de um propagandista (com intervenção) As traduções são criaturas geniosas e irritadiças, pois, embora tenham uma cara harmônica, de produto bem-acabado, às vezes elas escondem discussões antigas, quando não verdadeiras polêmicas. Muitas delas são verdadeiramente fundamentais, outras acabam chegando à estranha conclusão de que traduzir é impossível. E digo estranha por sabermos que os tradutores estão por aí, vivendo de fazer o impossível todos os dias. Desta vez, gostaria de discutir uma das questões que sempre me pareceu incômoda e que, como de costume aqui, está ligada à língua russa: a tradução do pronome de segunda pessoa do plural “ Вы ” ( Vy ). Houve um tempo em que muitos tradutores — e é possível que o leitor tenha encontrado alguns deles em seu trajeto pela literatura russa — preferiam traduzir de maneira mais direta, por assim dizer, usando o desconfortável vós da língua portuguesa. Isso era mais comum nos textos do século XI...

Falando com os mortos

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Por Rafael Bonavina Há alguns anos, li o romance Uma história comum , de Ivan Gontcharóv, e me apaixonei novamente por esse incrível escritor com quem convivi por alguns anos de pesquisa. A trama é, como indica o título, quase cotidiana: um jovem de uma distante província vai para a cidade grande e é transformado pelo contato com a vida da capital. Esse romance ecoa fundo em muitas pessoas que, como eu, veem-se um pouco no protagonista dessa narrativa tão comum quanto impactante. Lembrei-me dessa história justamente por ter percebido a semelhança de um hábito meu com de um dos personagens principais do romance: Piotr Adúiev, um típico homem de ação da literatura russa do século XIX. Figura cativante, porém acabava sendo artificial em alguns pontos da narrativa. Pelas manhãs, Piotr recebia as cartas do dia e as lia antes mesmo de sair da cama, respondendo o que era necessário por meio de um aparato de escrita convenientemente colocado à cama. É claro que eu não tenho nada disso, e apena...

Casas de cultura, praias e livros

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Por Rafael Bonavina Charles Burchfield, Deserted House , 1918 Aceleração. Essa parece ser a palavra de ordem ao se tratar da cultura, que cada vez mais se assemelha a algo para aliviar rapidamente um desconforto, como um chiclete que se masca, embrulha e joga fora. Cada vez os vídeos estão mais curtos, mais estridentes e dinâmicos (mais danças, músicas, luzes e apupos), porém o conteúdo — produzido pelas chamadas inteligências artificiais —fica para as legendas, que raramente são lidas.  Não é raro ouvir que a literatura está se desenvolvendo também nessa linha: textos cada vez menores (microcontos, micropoesias) divulgados nas redes sociais com vídeos gravados pelos próprios autores. Isso não significa, claro, que uma literatura menos acelerada tenha deixado de existir, e até mesmo de tocar em questões importantes da atualidade. Pelo contrário, são muitos os textos que nos levam à incômoda reflexão sobre as limitações e contradições do nosso tempo. Ainda assim, eles acabam perdido...

Quando uma gramática nos leva para longe

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Por Rafael Bonavina  Henrique Canary. Foto: Arquivo da Usina Editorial De tempos em tempos, um turbilhão de memórias passa pela nossa frágil razão e a leva consigo para sabe-se lá onde. É como se a lembrança nos agarrasse pelo colarinho e jogasse escada abaixo, e nós, sem qualquer meio de resistir a esse assalto cognitivo, rolamos pelos degraus, semiconscientes do que está acontecendo. Este ano começou, para mim, com um desses eventos interiores, causado pelo lançamento da Gramática da língua russa para brasileiros , escrita por Henrique Canary, professor de língua russa e doutor em literatura e cultura russa pela Universidade de São Paulo. O lançamento ocorreu no dia 31 de janeiro, no Café Colombiano, um centro de cultura acolhedor de São Paulo que também é um importante espaço de resistência latino-americana. A casa cheia de participantes, o autor empolgado pelo seu discurso sobre linguística, língua russa e sua relação pessoal com esse país tão intrigante e contraditório. E eu, ...

Subsolos de Lima Barreto e Lev Tolstói

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Por Rafael Bonavina  Quando pensamos na Rússia, talvez venha à nossa mente alguns elementos que nos chamam atenção, como a neve, a rigidez no trato, as danças populares, as comidas típicas. Enfim, todas essas coisas que nos diferenciam, que nos afastam. É preciso apertar um pouco os olhos para vermos o que temos em comum com esses primos distantes. Mas, depois desse esforço inicial, começam a despontar os pontos de contato, desde o humor popular até a literatura erudita. E é justamente aí que gostaríamos de nos deter. Não é segredo que a literatura russa é de uma riqueza e complexidade imensa, assim como a brasileira; por isso, quando as duas se tocam, o resultado geralmente é, no mínimo, interessante, quando não, verdadeiramente valioso. Tampouco é novidade que Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski era usado como uma espécie de medida com que se comparava outros escritores, por exemplo, Machado de Assis diversas vezes foi avaliado como uma espécie de Dostoiévski brasileiro. Isso também...

Um novo cavaleiro de bronze

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Por Rafael Bonavina  Orest Kiprensky,  Retrato de A. Púchkin , 1827. Foi lançada neste ano O cavaleiro de bronze e outros contos em versos , uma nova seleta de textos de Aleksandr Púchkin, sem dúvida um dos, se não o, mais importantes escritores na história da literatura russa; e ainda assim, como por uma ironia do destino, ele é pouco lido fora da Rússia. Púchkin é para os russos algo como o nosso Machado de Assis, ou seja, uma espécie de ponto de virada na historiografia literária, de salto qualitativo. Não raro encontramos pesquisadores defendendo que a literatura russa só afirma sua identidade nacional a partir de Púchkin; e isso, a nosso ver, não seria um exagero de fã. Afinal, sua obra mescla o classicismo — que pautava grande parte da literatura — com diversos elementos da cultura popular, como a fala e o folclore. A partir daí, é como se a língua russa real começasse a ganhar mais presença no papel, tomando espaço do estilo grandiloquente e já desgastado que se usava n...

O tradutor e o oculista

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Por Rafael Bonavina  Vladimir Lebedev Quando sai a nova tradução de alguma grande obra, todos os interessados se apressam para saber se foi bem traduzida. O ritmo acelerado do mercado — mesmo o editorial — exige uma resposta rápida e curta, de preferência que caiba em uma arte para as redes sociais: é bom, há melhores. Porém, e muitos teóricos da tradução concordam, avaliar uma tradução é tarefa extremamente complexa, por isso demanda muito tempo e reflexão para se poder fazer jus ao seu objeto. Em grande medida, essa demora se dá pela própria complexidade da ação de traduzir, esse ato desmedido, como diria o mestre Boris Schnaiderman. Não há muita novidade nisso, mas é importante às vezes contar piadas velhas para públicos novos: o trabalho do tradutor não se limita à sobreposição de uma palavra estrangeira por outra idêntica do vernáculo. Não precisamos ir muito longe para percebermos que em português há muitas palavras para se designar um lugar cheio de plantas (mato, matagal, f...