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Mostrando postagens com o rótulo Juliano Pedro Siqueira

Odisseu e o amor que tudo suporta

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Por Juliano Pedro Siqueira  Marc Chagall, Odisseu e Penélope   A Odisseia , o grande épico de Homero, nunca esteve tão em evidência quanto nos últimos dias. Isso se deve à extravagante divulgação da adaptação da epopeia para o cinema pelo renomado diretor britânico Christopher Nolan. O longa-metragem tem dividido a opinião do público e da crítica em geral. Muitos o acusam de ter sido desleal ao texto homérico, pois teria fugido em demasia da sua proposta original, da seleção das personagens e até na construção dos cenários. Independentemente das controvérsias — proposital ou não — que cercam o trabalho do diretor, trata-se apenas de uma adaptação e não de uma tradução fidedigna. Distanciando-me das polêmicas de momento — deixo essa enfadonha tarefa aos críticos de cinema e aos formuladores de opinião —, o épico em voga despertou-me à memória um dos cantos mais brilhantes da Odisseia ; quando Odisseu defende sua fidelidade à Penélope diante de Calipso. O Canto V apresenta Odiss...

Luigi Pirandello e o papel ontológico do artista

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Por Juliano Pedro Siqueira   A vida, ou se vive ou se escreve. — Luigi Pirandello Luigi Pirandello. Foto: Bettmann A novela A tragédia de um personagem (1911) é um protótipo do que viria a ser o “teatro no teatro” ou metateatro. Segundo Carpeaux, Pirandello opta pelo estilo diferente da encenação convencional, focando no caráter ficcional das personagens, na imaginação e na ironia amarga. A sua abordagem assenta-se em dois terrenos paradoxais, sendo a tensão permanente entre a realidade e a ilusão. Personagens que de forma imagética exercem autonomia nas ações desenvolvidas na construção narrativa. Certa feita, o autor afirmou ter um velho hábito — para não dizer estranho e incomum — de estabelecer audiências com personagens candidatas a participarem das suas futuras obras. A maioria apresentam as suas razões de defesa, mostrando-se as suas reais pretensões e resistências. Nos primeiros parágrafos da Tragédia de um personagem , nota-se que o autor encontra dificuldades em pen...

Coriolano: de apátrida maldito à mártir radical

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Por Juliano Pedro Siqueira  Oh mãe! Salvastes a pátria, mas perdestes o filho. Franz Anton Maulbertsch. Coriolano nos portões de Roma . (c. 1795) A dramaturgia de William Shakespeare tem um lugar de destaque no cânone da literatura mundial. Seja por sua magnitude trágica ou por seu aspecto humanístico, cujo efeito atingiu esferas atemporais. A atualidade dos seus textos, combinada com seu estilo de escrita profícuo, é tão impressionante que pode levar alguns a questionar sua existência. Isso quando não creditam sua vasta obra a eruditos anônimos, dada a imensidão de sua produção literária. Coriolano está longe de ser a peça célebre de Shakespeare. Provavelmente é a menos conhecida do público geral. Mesmo concorrendo por fora entre Macbeth e Hamlet , essa tragédia aborda as consequências nefastas de um poder que transita entre orgulho e sacrifício. Mas não apenas! Também se destaca pelas relações estreitas entre poder político e plebe; como se desencadeava as traições nos bastidor...

A morte do girassol

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Por Juliano Pedro Siqueira E tudo, mesmo a negra cor, Parecia polido, irisado; O líquido engastava a glória Naquele raio cristalizado. — Baudelaire, As flores do mal Van Gogh.  Autorretrato com chapéu de palha , 1887. A história de um grande homem nem sempre dialoga com sua arte. Repleta de infortúnios e contradições, a vida de Vincent Van Gogh foi mergulhada em turbilhões de sentimentos obscuros, radicalmente contraproducentes às flamejantes cores reproduzidas em suas pinturas. Paralelamente às pinturas e desenhos, ele arriscou algumas profissões em resposta às cobranças familiares. A exemplo, quando foi enviado missionário, em 1879, ao vilarejo de Borinage, para pregar aos pobres mineradores. Contudo, em pouco tempo, fracassou miseravelmente, sendo destituído do ordenamento.  Vincent se considerava o degenerado da família. Aquele que atraía sobre si toda sorte de agouro, de modo que todos em sua volta acabavam inevitavelmente prejudicados. Foi o que ocorreu quando conheceu P...

Eco de Dostoiévski: revelações literárias nos diários de Lúcio Cardoso

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Por Juliano Pedro Siqueira  Van Gogh.  L'église_d'Auvers-sur-Oise , 1890. Ao ler os diários do escritor mineiro Lúcio Cardoso, fui grandiosamente surpreendido. Deparei-me com um conjunto de ideias autênticas que supera muito os tradicionais relatos pessoais e de memórias. O diarista escreveu sobre uma variedade absurda de temas, destacando o seu interesse peculiar pela literatura; que vai desde os clássicos até textos sagrados, como os da Bíblia. Divididos entre relatos íntimos e não íntimos, os diários revelam um homem de espírito inquietante e sagaz inteligência. A leitura permite perscrutar a alma transbordante do homem e do escritor, cuja existência era devotada à escrita e à reflexão de questões de corte universal. Através dos diários, Lúcio exerceu um tipo de crítica despreocupada com o julgamento alheio. Seu espaço é soberano e a criatividade está em consonância com a liberdade e a fecundidade do artista; sempre pronto a dar vazão as vozes internas que o sufocava. A es...

Nelsinho: o último trágico rodrigueano

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Por Juliano Pedro Siqueira Nelson Rodrigues Filho, Foto: Daryan Dornelles. Era 30 de março de 1972, quando os agentes do DOI-CODI abordaram Prancha e o conduziu a uma base da Guarda Militar no Méier. Naquela altura, Prancha era um dos nomes mais procurados pelos órgãos de repressão ligados à ditadura. Detentor de uma aparência inconfundível, o homem que carregava a alcunha de Prancha tratava-se de Nelson Rodrigues Filho ou Nelsinho, filho do consagrado dramaturgo e cronista, Nelson Falcão Rodrigues.  Naquela altura, Nelsinho já vivia na clandestinidade depois de se tornar membro do Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8). Contrariando os conselhos do pai e do irmão Joffre, Nelsinho se engajou no movimento e chegou, inclusive, a elaborar o plano de assalto a um banco. Enquanto isso, adotou um estilo nômade; cercado de códigos e endereços secretos. Nem mesmo Nelson pai — que lutava pela débil saúde — sabia do real paradeiro do Nelson filho.  Antes da sua captura, sabendo Ne...

A ética da solidão

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Por Juliano Pedro Siqueira Não há nenhum pensamento importante que a burrice não saiba usar, ela é móvel para todos os lados e pode vestir todos os trajes da verdade. — Robert Musil Henrik Ibsen. Foto: Arquivo Getty (Reprodução) A literatura é voz que ecoa no tempo, discorrendo sobre as múltiplas perspectivas do drama humano. Em tempos quando as paixões políticas se mostram exacerbadas, recorrer aos clássicos é necessário para compreender seus desafios históricos, sem apelar a sentimentos obscuros. Dentro desta proposta, trago à reflexão a obra Um inimigo do povo (1882), do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen. Nela encontramos o icônico Dr. Tomas Stockmann, personagem central, e que encarna a figura do mártir, ao exercer a ética solitária; assumindo sobre si e sua família, terríveis consequências. A peça ganha intensidade e tons sombrios quando o Dr. Stockmann, um médico residente, resolve alertar as autoridades políticas que as águas balneárias da cidade tornaram-se impróprias para o u...

O subsolo no espírito natalino em Dostoiévski

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Por Juliano Pedro Siqueira Bartolomé Esteban Murillo. Jovem mendigo Dostoiévski não só se revelou ao mundo como um grande romancista, mas também um exímio contista. O autor de Crime e castigo desenvolveu contos memoráveis, entre eles — talvez o menos conhecido do público e o que tomo como ponto de reflexão neste texto —, “A árvore de Natal na casa de Cristo”. O leitor não se deixe enganar com o breve conto. A narrativa nos apresenta de maneira incisiva, de forma dramática e crítica, o cenário desolador que cinge o protagonista principal, um garoto, que mesmo padecendo de fome, contempla impotente a moribunda mãe que padece enferma num esfarrapado colchão.  É nesse contexto sombrio que Dostoiévski imprime no seu conto o conceito de subsolo , para revelar as contradições de uma religiosidade desprovida de compaixão. Não apenas: mesmo diante da gritante desigualdade social, a criança faminta, na iminência da orfandade, consegue captar o verdadeiro espírito natalino ao deslumbrar a be...

O caminho árido da existência: reflexões filosóficas do jagunço Riobaldo

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Por Juliano Pedro Siqueira  A gente tem de sair do sertão! Mas só se sai do sertão é tomando conta dele a dentro. — Riobaldo Grande sertão visto por Poty Lazzarotto A extensa narrativa de Riobaldo — personagem nuclear em Grande sertão: veredas , de João Guimarães Rosa — possui múltiplas interpretações das inúmeras leituras que dele se pode fazer. A versatilidade linguística, o estilo arcaico da escrita e o primitivismo dos cenários descritos, cunhou no escritor mineiro o criador de uma epopeia de vertente mística em que a força religiosa e os conflitos de ordem existenciais emergem em meio às batalhas sangrentas promovidas por jagunços. A análise que parto é justamente esta: extrair a partir das reflexões de Riobaldo, a percepção filosófica que se constrói no curso dos caminhos áridos do sertão neste romance. Um mergulho profundo e complexo nas emoções e pensamentos cuja subjetividade reflete a terra enigmática, solitária, conflitante e sombria, onde o velho jagunço, precisou atrav...

O trágico e o belo em O homem elefante

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Por Juliano Pedro Siqueira “Os olhos não veriam o sol se não fossem parecidos com o sol e a alma não verá a beleza se ela não for bela.” — Plotino (205-270 d.C) A justa genialidade atribuída a David Lynch geralmente se associa as suas grandes produções da maturidade, como o seriado surrealista Twin Peaks na década de 1990 e filmes como A cidade dos sonhos  nos anos 2000. Mas sua profícua imaginação já dava sinais de grandeza dez anos antes, quando dirigiu o extraordinário O homem elefante ; talvez seu trabalho menos conhecido.   O filme retrata a trágica e bela história de Joseph Carey Merrick (1862-1890), um inglês da Inglaterra Vitoriana que em decorrência da sua deformação congênita era explorado em apresentações circenses como o “espetáculo da aberração”. Merrick desenvolveu uma anomalia física aos três anos de idade, provavelmente o que a ciência moderna classificou de Síndrome de Proteus — crescimento excessivo e desproporcional de tecidos e músculos —, caracterizada por...

A forja de Eneias

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Por Juliano Pedro Siqueira “A sorte favorece os destemidos.” —  Virgílio, 70 a.C-19 a.C  Giacomo del Po. A luta entre Eneias e o rei Turno . A Eneida é considerada um dos épicos fundadores da cultura ocidental, tanto por sua urgente relevância histórica quanto por sua brilhante narrativa poética. Ao longo do tempo, tem servido de inspiração a vários autores, os quais bebem das suas límpidas e inesgotáveis fontes. Com este poema, Virgílio legou à humanidade uma notável epopeia. Assim como Homero concebeu Odisseu — narrando sua incansável batalha no regresso à Ítaca —, o poeta romano, por sua vez, deu vida ao herói Eneias, o guerreiro forjado pela fúria dos deuses e pelas ciladas perpetradas por ardis tiranos que segue firme na obstinada missão de apossar das plagas que viria ser o novo reino entregue aos descendentes de Ascânio.  Eneias é tomado por grandes virtudes. Na sua peregrinação infernal — que inclui a travessia do Estige ao encontro do velho pai Anquises —, perpa...

As benevolentes e o monólogo de um carrasco

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Por Juliano Pedro Siqueira Jonathan Littell. Foto: Evgen Kotenko   O mundo comemora de forma bastante tímida os oitenta anos da vitória dos Aliados sobre a Alemanha nazista. Um passado não tão longínquo que deixou sobre a terra — além dos resquícios de uma maldade latente — um pressentimento de que tais atrocidades podem nos sobrevir numa escalada ainda mais sangrenta. E a literatura foi um instrumento visceral e imprescindível ao retratar o período da Segunda Grande Guerra, arrecadando vasto material manuscrito, inclusive, de autores que registraram, astutamente, em diários e ofícios clandestinos, os horrores do front e os bastidores infernais, tornando-os testemunhas fidedignas.   Depois das experiências espinhosas com Arquipélago gulag , de Alexander Soljenítsin, Vida e destino , de Vassili Grossman e alguns volumes de Os contos de Kolimá , de Varlam Chalámov, pensei que tivesse consumido o que tinha de mais visceral e arrebatador sobre literatura de guerra. Enganei-me! Re...