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Mostrando postagens com o rótulo Guilherme França

Então eu li J. D. Salinger

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Por Guilherme França J. D. Salinger. Foto Antony Di Gesu/San Diego Historical Society Fazia uma releitura de Dom Quixote quando me deparei com um filme biográfico sobre J. D. Salinger, O rebelde no campo de centeio (2018), do diretor Danny Strong. Embora o filme não se configure exatamente como uma obra-prima cinematográfica, ele despertou em mim um profundo interesse pela leitura da obra mais célebre de Salinger, The Catcher in the Rye , publicada como romance em 1951. A partir desse contato com a vida do autor, marcada por seu notório isolamento e pelas sucessivas tentativas de consolidar um texto literário de valor, fiquei curioso para conhecer a razão do sucesso estrondoso e duradouro daquela obra. Mesmo com certa desconfiança e o peso de ter momentaneamente preterido Cervantes, mergulhei por três dias seguidos na narrativa de Salinger para tirar minhas próprias conclusões. O uso da figura de linguagem ao me referir a “ler o autor” justifica-se pelo fato de o contexto bi...

O vermelho e o negro: a tragédia da grandeza temporal

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Por Guilherme França Julien Sorel. Ilustração de Jean-Paul Quint para edição francesa de O vermelho e o negro , 1922. Arquivo BNF. Publicado em 1830, O vermelho e o negro , de Stendhal, inscreve-se como uma das obras mais representativas da literatura francesa, não apenas por sua qualidade estética, também muito debatida, mas sobretudo por seu bom aproveitamento analítico no tratamento de temas como a mobilidade social, a construção da personalidade e os impasses ético-existenciais do indivíduo moderno. Longe de se limitar à moldura de um romance de formação, de um relato psicológico ou de crônica social, a narrativa permite, em alguma medida, o exame das tensões entre as ambições pessoais e as virtudes, a partir das quais surgem essas forças invisíveis que acabam por moldar o destino dos homens, servindo como um alerta quanto às pretensões desmedidas, que podem corroer a essência de nossa vida. Este ensaio propõe, portanto, uma leitura da obra a partir de uma perspectiva exclusivament...

Orígenes Lessa e as riquezas invisíveis da literatura

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Por Guilherme França Orígenes Lessa. Foto: Arquivo IMS (detalhe)   Durante uma entrevista, certo escritor disse, com ironia, a seguinte frase: “nunca vi no jornal uma vaga de emprego para intelectual”. Por óbvio, a ironia está no fato de que ser um intelectual não é, em si, uma profissão. Mas a frase também escondia uma fina crítica ao fato de que os estudos se tornaram quase sempre instrumentais, ou seja, para que se possa fazer alguma coisa; o estudo precisa ter uma finalidade clara (para quê?) para então possuir alguma utilidade. Não costumamos, portanto, enxergar o estudo como um valor em si, que contribui para o crescimento e formação do próprio indivíduo; em vez disso, o enxergamos, na maioria das vezes, apenas como um meio de ascensão socioeconômica.   Trazendo essa reflexão inicial para a literatura, na obra O feijão e o sonho , de autoria de Orígenes Lessa e publicada pela primeira vez em 1938, temos, na minha opinião, uma das melhores e mais fidedignas narrativas a...

Conhecemos nossa Literatura? Uma leitura de Antonio Candido

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Por Guilherme França Antonio Candido em aula na Faculdade de Filosofia de Assis, início da década de 1950.   Recentemente publiquei um texto com singelas reflexões a respeito da crítica literária e dos perfis que se comprometem a dialogar sobre literatura no contexto digital. Naquele escrito, dentre outros aspectos, busquei diferenciar a crítica literária e sua aparente austeridade ou rigor daquelas análises pessoais de uma obra, período ou autor, que hoje certamente constituem a grande parte do conteúdo que é produzido sobre literatura.   Alguns dias depois da publicação do texto citado comecei a leitura de Iniciação à literatura brasileira , do sociólogo, crítico literário e professor universitário Antonio Candido. Durante a leitura e sobretudo após a sua conclusão, percebi que a minha intuição havia se confirmado: seja pelo motivo que for, o fato é que hoje podemos citar raríssimos críticos literários no Brasil que transcendam o academicismo — e estão menos ainda no ambi...

Kafka e os castelos do cotidiano

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Por Guilherme França Keith Vaughan. Estudo para O castelo , de Franz Kafka , 1953.   Escrevo este pequeno ensaio que mais tem jeito de crônica — e menos de crítica literária — durante uma viagem a Campo Grande/ MS, para visita aos familiares de minha noiva. Lembrando que o prazo para entregar o texto estava próximo, coloquei na mochila o livro O castelo , um clássico de Franz Kafka, que já estava lendo há algum tempo, mas agora com o objetivo de concluí-lo e, assim, poder escrever a seu respeito. Mesmo sem saber o que exatamente escreveria, a vida me mostrou, uma vez mais, que a boa literatura não se encerra na abstração, ao contrário do que muitos pensam. Ela faz muito mais do que isso, pois descreve a própria realidade na qual estamos inseridos, contudo, sem olhos atentos para percebê-la.     Chegando no aeroporto de Curitiba para o embarque, ainda sem realizar o check-in de nosso voo, não conseguimos encontrar sequer um atendente no guichê da companhia aérea. Já...

A internet admite um crítico literário?

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Por Guilherme França Ilustração: Nate Kitch   A afirmação de que as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis , feita por Umberto Eco alguns anos atrás, repercutiu de diferentes formas, como não poderia deixar de ser. De um lado, aqueles que enxergavam um exagero ou mesmo um conteúdo “antidemocrático” na fala do intelectual, ressaltando as benesses do universo digital, em que vozes antes ignoradas podiam se manifestar; em sentido contrário, houve os que concordaram expressamente com a frase, destacando o prejuízo advindo dessa “democracia digital”, em que qualquer pessoa pode comentar até mesmo sobre aquele tema que jamais realizou sequer um estudo mínimo.   O debate se mostra cada vez mais atual e interessante, ainda mais com o avanço das ferramentas virtuais disponíveis, e pode ser aplicado à crítica literária — numa investigação sobre a forma pela qual essa é exercida atualmente. Se décadas atrás os comentários a respeito da literatura ficavam restritos às colunas do...

As consequências e o peso da virtude em Os Miseráveis

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Por Guilherme França Bartolomé Esteban Murillo. O retorno do filho pródigo. 1667. Escrever sobre os chamados “clássicos da literatura mundial” é uma tarefa grata e ingrata ao mesmo tempo. De um lado, o crítico pode consultar diversas fontes, debruçar-se sobre artigos, dissertações ou teses que versem sobre o livro ou mesmo conversar com os amigos a respeito de tal obra, pois é bem provável que já tenham realizado essa leitura. De outro, existe um nítido problema: quase tudo foi falado, em todos os lugares e em épocas distintas. Com isso, é inevitável que se questione a necessidade ou mesmo a pertinência de um novo texto acerca deste ou daquele clássico.   Seja como for, arrisco escrever algumas considerações sobre um aspecto específico da obra Os Miseráveis , de Victor Hugo. Sobre este romance, que figura entre os mais conhecidos ao redor do mundo, como era de se esperar, muita coisa já foi dita. E em quase todas as análises que leio a respeito da obra, percebo uma certa insi...

De quanta terra precisa um homem?

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Por Guilherme França Iliá Répin. Tolstói em um campo arado, 1887   Que a literatura seja o método mais fidedigno de retratar — e quiçá compreender — a essência humana, não é novidade para mim e para tantos outros, embora a afirmação contenha, de fato, pequena margem de subjetividade. Além de retratar e problematizar aspectos cruciais de nosso agir enquanto indivíduos, não raro a literatura amplia o seu raio de incidência e faz o mesmo diante de questões sociais, políticas, religiosas etc. E escritores como Liev Tolstói fazem com que, por vezes, todos esses elementos estejam em uma mesma obra.   De outro lado, embora enredos como os de Guerra e Paz ou Anna Kariênina demonstrem com facilidade a lógica desse argumento, como disse em meu texto sobre Tchekhov, o bom escritor deve saber causar impacto em seu leitor mesmo com um texto curto. E o conto “De quanta terra precisa um homem?”, escrito por Tolstói e publicado pela primeira vez em 1886, nos mostra, mais uma vez, que ...

O que­­ aprendemos com Policarpo Quaresma?

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Por Guilherme França Lima Barreto reimaginado com o fardão da Academia Brasileira de Letras. Projeto de Arte Urbana Negro Muro.   Todos têm um plano para o Brasil. Não importa se estamos no táxi, no trabalho, na missa ou no botequim, há sempre alguém falando, quiçá gritando, sobre os problemas que acometem as instituições, a política, a educação, a economia e todo o aparato de poder existente num país de dimensões continentais como o nosso.   Nesses discursos, não é raro perceber um tom saudosista ou, então, revolucionário por parte do interlocutor, que assolapado pela ideia que tem de seu país, provavelmente fala não apenas em seu nome, mas também daqueles que talvez não se recorde mais ou que não se sabe nada sobre a vida e história.   Como sempre, parece-me que além da história real dos efeitos de algumas revoluções, a literatura também já deu conta de retratar esse movimento pelo qual um entusiasta de certas ideias acaba esmigalhado por elas quando postas em p...

O Misantropo, de Molière: entre honra e dissimulação

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Por Guilherme França O misantropo, de Molière. Ilustração: Dubout    No consagrado romance Moby Dick , de Herman Melville, o leitor se depara com a afirmação de que todo homem grande só chega a sê-lo por meio de certeza morbidez . Por sua vez, Alceste, o ingênuo protagonista da peça O Misantropo (1666), de Molière, irritava-se já àquela época com os melindres necessários para que um sujeito pudesse transitar entre os diversos grupos sociais.   Embora alguns comentadores da obra prefiram exaltar o comportamento mais ou menos imaturo ou intransigente de Alceste diante de uma sociedade que não compreende e que não segue os padrões morais que carrega em si, prefiro ser um daqueles que dá certo crédito às análises e críticas sociais formuladas pelo indignado e intransigente personagem.   Alceste é repreendido em vários momentos, por diferentes personagens, em virtude de sua personalidade inflexível diante das manobras e falsidades às quais as pessoas se sujeitam para f...