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Mostrando postagens com o rótulo Luis Fernando Novoa Garzon

(Re)imaginação é poder nas lentes de Kleber Mendonça Filho

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Por Luis Fernando Novoa Garzon O cineasta Kleber Mendonça Filho só pode ser plenamente entendido em seu impulso e transbordamento glocal — entendido aqui como intersecção de dinâmicas horizontais e verticais, de fixos e fluxos, do universal e do particular. O tempo-espaço que condiciona seu olhar é uma periferia da periferia, em que grassa um cosmopolitismo revirado, assumido na corrosão do cosmopolitismo raso que o subordina. Por isso, são tantas e tão contraditórias as camadas de identificação entranhadas neste Recife que é, ao mesmo tempo, cenário e personagem de seus filmes. Nesta cidade cindida, o cineasta recompõe trajetos ruinosos e escapes labirínticos e nos induz a saltos para dentro, trazendo à luz recônditos acervos para fazer frente a uma espiral que não para de dilapidar referentes sociais, culturais e cognitivos. A mensagem liminar é que, nos marcos de imaginários coletivos irredimíveis, nada está definido. Isso, em tempos de sobredeterminação financeira e midiática, ...

Uma câmera no caminho da máquina de limpeza étnico-territorial: No Other Land

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Por Luis Fernando Novoa Garzon “Depois de Auschwitz não ocorreu nada que haja revogado ou refutado Auschwitz.”  — Imre Kertész, Discurso de recebimento do prêmio Nobel de Literatura de 2002. A estigmatização, a despossessão e o posterior intento de extermínio dos inimigos de ocasião continuam sendo regra nos processos contemporâneos de expansão econômica e militar ao redor do mundo. Nos termos de Kertész, o escritor-testemunha, o método Auschwitz continua sendo o expediente basal de processos de obtenção de supremacia, que depende da supressão integral de potenciais alteridades e contrapesos. Foi durante e após a experiência narrada em Sem destino  que o escritor judeu-húngaro chegou a esta conclusão. Nesta obra, o autor apresenta paralelos atordoantes com o cinema de testemunho de No Other Land . O cenário de sua deportação da Hungria para Auschwitz, em 1944, é retraçado pelo olhar do adolescente que era, procurando compartilhar deliberadamente com o leitor níveis similares d...

Bacurau volver: o entendimento e a resistência de longa duração

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Por Luis Fernando Novoa Garzon   No lançamento de Bacurau (2019), o que ficou manifesto naqueles anos de bolsonarismo alçado ao núcleo do Estado brasileiro, foi a sensação de desentalar um grito abafado, uma pequena vitória nas telas antevendo vitórias maiores adiante. Este filme fora uma desforra estética, uma narrativa vingadora, (“livro vingador”, como Euclides da Cunha definia o sentido singular de Os sertões ). Confirmados e até mesmo superados muitos dos cenários distópicos apresentados no filme, o que perdura e merece revisitação é a bravura do entendimento da necessidade de resistir. Frente ao pacto faustiano de nossas elites entregando água, territórios e povos ao usufruto irrestrito de quem puder pegar e pagar mais, lá está o bacurau, o pássaro soturno, lá está Bacurau encarnada como vila de prontidão para defender a vida que ainda pulsa.   No longa-metragem dirigido por Kleber Mendonça e Juliano Dornelles há, portanto, uma solução tecida na retina, feita de um tra...

Três exemplos de livros infinitos: recepção, editoração e tradução em movimento

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Por Luis Fernando Novoa Garzon Preâmbulo   Este ensaio procura tatear os movimentos de três textos canônicos em campos interpretativos muito distintos: O capital (Karl Marx), O processo (Franz Kafka) e o livro das Mil e uma noites (anônimo). Todos estes livros foram alvo de edições e traduções e a cada edição e tradução surgiram mudanças em relação ao texto original, a depender da língua de recepção e do contexto histórico-cultural predominante em cada universo linguístico. Neste ensaio bibliográfico, acompanhamos O capital e O processo desde sua primeira publicação até suas edições críticas e as traduções das Mil e uma noites até a primeira tradução direta do árabe para o português. Apresentamos os três livros de forma ora concentrada, ora alternada para que o leitor perceba a alternância e a continuidade dos processos de significação que queremos aqui destacar.   1. Engels, Brod, Galland   Não fosse Friedrich Engels, a obra de Karl Marx não teria tido projeçã...

Jaci: um retrato dos pecados capitais das grandes obras na Amazônia

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Por Luis Fernando Novoa Garzon   Em Jaci: sete pecados de uma obra amazônica , documentário caleidoscópico de Caio Cavechini, os próprios trabalhadores contribuíram para a realização do filme — compartilhando seus vídeos. Aproximadamente 30 câmeras diferentes foram usadas ao longo de quatro anos para captar as imagens, sendo algumas dessas de entrevistas, outras de registro da vida no canteiro de obras. Grande parte das imagens foi captada por celulares de trabalhadores que construíram as Usinas Hidrelétricas (UHEs) de Jirau e Santo Antônio no rio Madeira em Rondônia.   As imagens que abrem o filme são da Revolta dos Trabalhadores na UHE de Jirau em 2011. Fica claro, logo de início, que o filme não é sobre o Distrito de Jaci-Paraná, localizado nas adjacências de Porto Velho, capital do estado. Jaci é uma entre milhares de atingidas pelas grandes obras do chamado Projeto de Aceleração do Crescimento (PAC), mas é a partir de seu cotidiano drasticamente alterado que se estende o ...