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Mostrando postagens com o rótulo Tiago D. Oliveira

Um jardim fiel de materialidades em fé

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Por Tiago D. Oliveira Adélia Prado. Foto: Nana Moraes Respondendo a um de seus seguidores nas redes sociais, Adélia Prado — que aos 89 anos se reinventa lendo poemas, lançando perguntas e dialogando com leitores a partir da sua obra — diz que um de seus salmos favoritos é “Pequei, Senhor, misericórdia”. Em seguida, cita: “livrai-me da memória do pecado em meu espírito”, reafirmando a voz inigualável dessa poética que constrói destinos. “Eu queria ter escrito isso, porque a memória do crime praticado é pior do que o crime. O perdão pleno é esse que nos livra da memória do crime.” A poesia, para essa poeta, se desenha como um campo de reações e experimentos onde a fé se ancora diretamente nas diversas fases da vida. Vencedora dos prêmios Camões e Machado de Assis, a autora reúne reconhecimentos que contemplam “o conjunto da obra”, que, se tratando de Adélia,  nunca deixa de surpreender. A “paciência das tardes” pode sugerir uma boa metáfora para o percurso de leitura do novo livro da...

Respirar

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Por Tiago D. Oliveira Claire Desjardins. Respirar Deram as mãos e ficaram em silêncio. A proposta era aguentar por três minutos, um de frente para o outro. Luíz Melodia cantou: “Se a gente falasse menos, talvez compreendesse mais.” Ele transformou em música uma deixa, uma prova de generosidade. Saber é dividir; só assim tem sentido. Um caminho. Sim, porque tatear a experiência humana e descrevê-la sem desperdícios talvez seja mais uma questão de voltar a senti-la do que simplesmente seguir o fluxo. Respirar é o primeiro passo. Cientistas da NASA descobriram que a crosta terrestre sobe e desce cerca de 1 cm ao ano. Esse movimento acontece devido à redistribuição das águas e do gelo, o que chamam de “oscilação glacial isostática”. Como se o planeta respirasse. Respirar é insistir. Arriscar a todo custo: a mais pura prova de vida. É também mandar um recado. E tantos são passados diariamente, mas não nos atentamos para o perigo que é viver sem se dar conta. “Quando se vê, já são 6 horas: h...

Debaixo de uma amendoim-acácia

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Por Tiago D. Oliveira Raoul Dufy, O baile popular (detalhe)  E há que se viver, mesmo sem conserto,  porque a vida é sempre tentativa.     — Carlos Drummond de Andrade Já é manhã de segunda-feira. Os carros seguem em direção à escola e eu sigo em outra. Entro na Filemon Andrade, sob os galhos de uma amendoim-acácia que se estica para tocar em minhas mãos. É uma manhã de primavera e me ponho a lembrar da madrugada anterior.  Está cada vez mais difícil aceitar um convite para sair à noite. Se for no meio da semana, chega a parecer quase uma ofensa, uma provocação. Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo que contar os dias para que chegasse logo a sexta-feira era o que hoje podemos chamar de “dar um scroll ”. Toda vez que preciso muito sair, ceder às convenções de uma vida minimamente social, coloco-me a pensar nos moradores de Tristão da Cunha, um pedacinho de terra no sul do oceano atlântico, onde moram pouco mais de 200 pessoas. Um dos lugares mais remotos...

Uma leitura de Cheia, romance de Natália Zuccala

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Por Tiago D. Oliveira   A leitura é uma queda sem freios; em Cheia o suspenso é veloz como a vida. O primeiro evento da narrativa é capaz de marcar na terra a imagem e o peso de um corpo que carrega tantos outros em sua representação. O peso de gerações — uma mulher e seu marido em uma mesa de restaurante, mesa para um, assim ela pede para o garçom, o esquecimento/ apagamento involuntário como ferramenta de defesa do corpo que reage sem pedir licença. A memória só retorna quando o corpo é novamente sublinhado pela mão do marido em seu ombro, a ressurgir, a recobrar, a retomar um lugar, como fizeram historicamente todos os colonizadores. O corpo da mulher ainda é terra que vem sendo devastada, apossada sem que a natureza respire e mesmo assim, contra tudo e todos, a força se figura em beleza quando a luta é contínua e o brado é marcado por uma resistência de coragem, afeto e dor.   Em seu primeiro romance, editado pela Urutau, Natália Zuccala apresenta uma narrativa “com a seg...

O que pensar da força invisível do cotidiano?

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Por Tiago D. Oliveira   O que pensar do cotidiano, este sono sem sonho? Talvez o que a poesia perceba é exatamente a sua força raiz que se figura como um nome. O que nomina tem a potência que carrega o mundo, as coisas, as pessoas. O nome é o incêndio que sustenta a razão. O escudo, a espada que re/define a linha tênue que nos define vivos na carne ou na memória. Pensar as relações possíveis que o tamanho da palavra pode causar, pensar aqui é estrofe, é verso.   Em Lumes , novo livro de poemas da portuguesa Ana Luísa Amaral editado no Brasil pela Iluminuras, o leitor encontra o livro What’s in a Name? , editado em Portugal pela Assírio & Alvim, somado a outros poemas inéditos. Outro diferencial da edição brasileira é o posfácio feito pelo escritor e professor Fernando Paixão.   Logo no primeiro poema que abre o livro, “What’s in a name”, lemos — o que há num nome? — o que ampara pensarmos tudo o que o nome esconde. O nome pode garfar, abrir ou fechar portas, o que c...

O silêncio das estrelas

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Por Tiago D. Oliveira Fiquei me perguntando sobre o que seria o novo livro do Rodrigo Garcia Lopes, O enigma das ondas , e me deparei com um grande leque de alcances. A sensação primeira foi a de adentrar em uma biblioteca que se desenha no enquadramento de uma página, funda surpresa que convoca para um mergulho onde a poesia polariza em pontos de partida e chegada reinventando-se em toques múltiplos contemporâneos ou não – eis o lirismo de um poeta que reage ao mundo, eis um mundo como barro nas mãos sobre o papel provocando também reflexões. Vejo seus versos como a imagem do leitor. Leio suas palavras, que são leituras mundanas. Nós, dois leitores em busca de entendimento – “uma outra imagem, móvel, vazia (apta a tomar não importa quais contornos) que nunca é mais do que o lugar de seu efeito: lá onde se entrevê a morte da linguagem” , afirmou um dia Roland Barthes – sendo a primeira margem a dada pelo texto e a segunda, construída. Estamos os dois, lado a lado, unificados pelo livro...

Vestígios de um tempo de dor

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Por Tiago D. Oliveira   Ao voltar para o lugar onde viveu a sua juventude com todos os arroubos que a memória fornece para o tempo, um agente do sistema de informações passa a administrar uma empresa de segurança em um bairro paulistano e vai reencontrar seu passado em alguns rostos que fizeram parte de um tempo que insiste em reaparecer.   O Brasil estava mergulhado num período em que os militares tomaram conta do país e a violência se instaurava sem sinal algum de que sairia de cena. Jornalistas, operários, militantes, dirigentes políticos, a tortura era a ferramenta principal de um método que quase sempre culminava com desaparecimentos. Os militares tomaram o poder e afirmaram que a democracia retornaria aos poucos para o Brasil, mas o que realmente aconteceu foi uma indiscriminável onda de assassinatos e ações violentas.      Vestígios. Mortes nem um pouco naturais , de Sandra Abrano, editado pela Bandeirola, é um thriller político que se passa em São Paul...

Entre os mecanismos de Aira

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Por Tiago D. Oliveira Depois de atravessar as páginas de A trombeta de vime , de César Aira, fiquei pensando sobre os limites de um texto e percebi que entrava paulatinamente em um universo que se revigora conforme o mundo gira em torno de seu próprio eixo. São doze textos que dificilmente serão classificáveis, o que promove o livro para um lugar que corta o próprio tempo em que foi escrito para se apresentar além, muito além do que nos acostumamos a conformar.   A mistura de gêneros e de discursos faz com que as narrativas desenvolvam um híbrido entre as palavras, leva o leitor a sentir analiticamente a expansão das fronteiras e limites do fazer literário. Ao ponto que a leitura acontece, percebe-se que o atravessamento dos textos acontece como parte do projeto estético e filosófico que Aira pensou e conseguiu desenvolver lançando seu livro para fora, em um lugar que não para de crescer. Logo no primeiro texto do livro fiquei ensimesmado com a datação, o que me fez pensar em ...

A imagem na distância

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Por Tiago D. Oliveira   Pensar O porto, de Leda Cartum, passou a ser uma experiência que observa o trânsito da memória, muito além de toda simbologia apenas, mas um exercício de percepção do tempo e como as raízes e o ar se configuram em seu pleno exercício. O lugar que se distancia, nós que nos distanciamos, essa imagem vista de fora, o outro, dentro ou fora também de tais formatações. Pensar a poesia como um alçapão a gerir os versos é também aqui um olhar sobre a forma como eles são grafados no papel. A estética assumida no livro, tão bem editado pela Iluminuras, traz também essa possibilidade de trânsito entre as formas, poesia, prosa, cabe tudo nessa alegoria que também podemos chamar de vida. Logo no início o leitor recebe o chamado, Venha ver: é que parece que tem um movimento nas coisas ao nosso redor. (p.9), que vai se configurando em constatações sobre as subjetividades que a poesia vem a revelar, mas que ressignificam a leitura de cada um ao passo que crescem identifica...

O que fica entre o cair do sol e o ganhar da noite

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Por Tiago D. Oliveira Sobre os poemas, a sensação é mais do que palavras, o tempo atravessa-nos de forma inequívoca, encontra poros que acessam alojamentos para cada verso do livro As mobílias da tarde , de Francisco Perna Filho, publicado pela editora Penalux. Um objeto que organiza acabamentos para cada vão vazio de uma casa. E esta, ao passo que espreita é também ressignificada pelo barro da poesia a figurar cuidados e respostas que tocam paulatinamente.   Dividido em quatro partes, “A infância”, “Gênesis”, “Ao logo desses anos” e “De olhos bem abertos”, em 84 páginas Francisco consegue criar um espaço onde o tempo retoma o que o fez marcar e entregar poesia em suspensos rasantes do passado. A literatura apresenta suas armas em direção do que não se coloca nunca sob a ilusão de uma imagem passiva, o tempo não para, mas na poética do livro conseguimos tocar no passado novamente; a poesia invade a hora imediata e suspende a memória bem diante dos nossos olhos, a cada soma de ...

Entre o homem e o pensamento, o verso

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Por Tiago D. Oliveira Nos poemas de Laura Riding há um exercício contínuo do pensamento, a reflexão como versos na tentativa de entendimento da natureza humana. Em seu trabalho / linguagem sua obra resgata em cada poema uma ideia de alcance ou dimensão traduzida pela vida. Em Mindscapes , primeira compilação de poemas da autora no Brasil, editada pela Iluminuras, percebe-se uma investigação dos sentidos indizíveis que são capturados pela poesia e colocados em ressignificação pela invasão que acomete na leitura, são versos que desenham um mapa, só que de dentro para fora. É como se a partir da linguagem a poesia apresentasse maturações e definisse uma certa incomplexidade para as horas. Uma palavra importante para o entendimento dos versos de Riding é “verdade”, esse composto de infinitudes. A poeta modernista americana investiu sua fé em tatear o verso que representasse a verdade e acabou chegando em uma direção que marcou um tempo, dizia que “a verdade começa onde a poesia termina”, j...

Com o indicador no espiral

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Por Tiago D. Oliveira O pão do corvo , de Nuno Ramos, foi editado pela primeira vez em 2001 pela Editora 34. São dezessete narrativas curtas que caminham pelo estranho da percepção que em muitos momentos chega a causar certo incômodo quando as palavras começam a revirar os pensamentos transformados em carne. Pensar que palavras escritas se tornam no corpo um fim palpável, com certeza é uma reflexão sobre a materialidade dos sentidos provocados pela escrita do Nuno Ramos. Em 2017, a editora Iluminuras relançou O pão do corvo , dando um novo ar para uma escrita que ano após ano vem se configurando como uma das principais vozes da literatura nacional. Nuno transpassa o ato de grafar um tempo para pesquisar neste, em suas ranhuras marcadas, lugares que só um escritor sensível aos mistérios da natureza humana consegue captar e desenhar em períodos provocadores dentro de uma leitura atenta ou até desavisada. No conto “Lição de geologia”, a narrativa que abre o volume, o leitor vai sendo ...

As dores do luto são também uma forma de seguir

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Por Tiago D. Oliveira   Desde O boxeador polaco (Rocco, 2014), primeiro livro publicado no Brasil de Eduardo Halfon, o leitor já encontra a memória e a ficção se misturando em contos em que um avô revela histórias sobre Auschwitz. O que volta a acontecer em Luto (Mundaréu, 2018), com tradução de Lui Fagundes, quando o autor guatemalteco constrói uma investigação sobre a morte de Solomón, um irmão de seu pai que faleceu ainda criança, afogado em um lago. No decorrer do romance o autor vai construindo um quebra-cabeça com as peças de suas memórias de uma infância que é também constantemente transpassada pela imaginação em recriação dos acontecimentos. Um dos temas que a narrativa carrega é a fuga da família para os Estados Unidos na década de 1970 e assim, fugindo da guerra civil, o autor apresenta a diáspora que tem o exílio como ferramenta de reflexão individual e consequentemente nacional, já que esse ponto é fio condutor para busca da identidade. Ao passo que o protagonista pro...