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Mostrando postagens com o rótulo Ensaio

De Tebas às areias de Arrakis: Édipo e Paul Atreides, marionetes do destino

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Por Rafael Pontes Max Ernst, Oedipus Rex   As profecias sempre fizeram parte do imaginário popular das antigas civilizações espalhadas pelo globo. Algumas previam bênçãos e glórias, ao mesmo tempo que anunciavam pragas, guerras, sangue e morte. Assim como as raízes de uma árvore, essas visões proféticas se espalhavam e penetravam na mente dos povos, moldando decisões, alimentando esperanças e despertando medos. Não eram simples palavras proferidas pela boca de um sábio, mas forças capazes de trazer o auge e a queda ao mesmo tempo. Como reflexo das inquietações humanas, a literatura apropriou-se desse imaginário profético por meio de icônicas obras, como a tragédia de Macbeth (1623), de William Shakespeare, na qual a ambição do protagonista é despertada pelas previsões proferidas pelas três bruxas. Suas ações e seus ideais foram simplesmente abandonados ao ouvir o futuro dito por elas. A partir desse momento, o protagonista se transforma em um ser irreconhecível, um homem diferente...

A cartografia poética de Micheliny Verunschk

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Por Davy Douglas Fernandes Micheliny Verunschk. Foto: Fabio Seixo O título aqui não é escolhido por puro acaso. Micheliny Verunschk mapeia espaços físicos e líricos em contato com um personagem central que carrega consigo paralelos de dor e desejo, ausência e presença: a noite. Em Cartografia da noite (2010), a ciência cartográfica não é um mero elemento fabulatório, mas um princípio poético tão bem elaborado, dentro de uma obra tão coesa, que a experiência de leitura se assemelha a uma narrativa, desde o uivo da noite até o nascer do sol: “O sol/ devolve/ cada coisa/ que a noite/ furtou” (Verunschk, 2024, p. 163). Tal fato não surpreende, considerando o excelente trabalho que Verunschk apresenta como romancista, sendo oportuno destacar a obra com qual foi reconhecida com o Prêmio Jabuti, O som do rugido da onça (2011), assim como os romances Caminhando com os mortos (2023) e Depois do trovão (2025).  Além disso, a autora pernambucana é mestre em Literatura e Crítica Literária ...

Odisseu e o amor que tudo suporta

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Por Juliano Pedro Siqueira  Marc Chagall, Odisseu e Penélope   A Odisseia , o grande épico de Homero, nunca esteve tão em evidência quanto nos últimos dias. Isso se deve à extravagante divulgação da adaptação da epopeia para o cinema pelo renomado diretor britânico Christopher Nolan. O longa-metragem tem dividido a opinião do público e da crítica em geral. Muitos o acusam de ter sido desleal ao texto homérico, pois teria fugido em demasia da sua proposta original, da seleção das personagens e até na construção dos cenários. Independentemente das controvérsias — proposital ou não — que cercam o trabalho do diretor, trata-se apenas de uma adaptação e não de uma tradução fidedigna. Distanciando-me das polêmicas de momento — deixo essa enfadonha tarefa aos críticos de cinema e aos formuladores de opinião —, o épico em voga despertou-me à memória um dos cantos mais brilhantes da Odisseia ; quando Odisseu defende sua fidelidade à Penélope diante de Calipso. O Canto V apresenta Odiss...

Fausto e a contemporaneidade

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Por Herasmo Braga Rembrandt,  Fausto , 1650.  Aristóteles na  Poética afirma que o imitar é inerente ao ser humano. Se atentarmos para além das questões biológicas, a atividade que o homem mais realiza em sua jornada é interpretar. Podemos considerar sem sobressaltos ou exageros que a trinca de formação da compreensão do sujeito se dará pelas fontes históricas, filosóficas e literárias. Portanto, se a busca por algo é de muito saber, a vigência destes minadouros deve ter suas presenças marcantes. Fausto, seria, portanto, uma imagem significativa da modernidade tão em voga. A Modernidade, então, formou-se tendo como principal característica a centralidade no Eu. Junto a esse Eu-Centro, ao longo dos séculos, foram inseridas maneiras de ser e de se ver em que foi se evidenciando pari passu o acentuamento do Eu e, consequentemente, o apagamento do outro. Desta forma, o imaginário social do sujeito moderno era integrado apenas por maneiras individuais, soberbas, vaidades, e ...

Uma palavra para o Mal

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Por Davi Lopes Villaça No novo Nosferatu (2024), de Robert Eggers, o advogado Thomas Hutter está atravessando o interior de uma bárbara Transilvânia, a caminho do castelo do Conde Orlok, quando, numa noite, depara-se com uma cena sinistra e inexplicável: um grupo de camponeses, guiados por uma jovem nua montada num cavalo, exuma um cadáver e lhe crava uma estaca no peito. Mais tarde, no castelo, ao tocar no assunto com seu sinistro anfitrião, Thomas escuta-o dizer: “Temo que ainda haja por aqui muitas superstições que podem parecer antiquadas para um jovem com seu alto nível de instrução. Estou ansioso para me mudar para sua cidade de mentalidade moderna, que não conhece nem acredita nesses contos de fadas mórbidos”. Não podemos ver o rosto do vilão, mas é como se ele piscasse para a câmera. A ironia é clara: o poder de Orlok, o grande bruxo vampiro, é maior lá onde nada se sabe nem de vampiros, nem de bruxaria, nem de muitas outras coisas. O filme recupera a velha crítica ao iluminis...

A agitação turbilhonar de Lady Gaga – apresentando a série Memorandum

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Por Lucas Paolillo As imagens que se destacaram de cada aspecto da vida fundem-se num fluxo comum, no qual a unidade dessa mesma vida já não pode ser restabelecida. A realidade considerada parcialmente apresenta-se em sua própria unidade geral como um pseudônimo à parte, objeto de mera contemplação. A especialização das imagens do mundo se realiza no mundo da imagem autonomizada, no qual o mentiroso mentiu para si mesmo. O espetáculo em geral, como inversão concreta da vida, é o movimento autônomo do não-vivo. — Guy Debord, A sociedade do espetáculo  (1967) Montagem em série autoral de Small Torn Campbell's Soup Can (Pepper Pot) , de Andy Warhol (1962). Nos dias que correm, escrever inspirado por algum impulso de suspeita sobre as assim chamadas divas pop não é tarefa das mais simples. O mero anunciar de seus nomes-fantasia, antes mesmo de delineadas quaisquer figurações, magnetiza devoções litúrgicas ou preconceitos imediatos. “O contemporâneo é o intempestivo”, já disseram por aí...

As almas mortas de Machado de Assis

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Por Rafael Bonavina  Machado de Assis e Nikolai Gógol (montagem) Circulou recentemente uma informação que me pareceu bastante curiosa: Machado de Assis escreveu um texto a partir de um mote tomado do romance Almas mortas , de Nikolai Gógol. Assim que vi isso, parei imediatamente o meu dia e comecei a pesquisar o assunto e não sosseguei até conseguir o acesso a essa crônica de Machado. A crônica faz parte daquelas publicadas anonimamente na Gazeta de Notícias , mas emolduradas pelos dizeres “Bons dias!” e “Boas noites.”; e no caso, é a de 26 de junho de 1888. Com o texto em mãos, não se pode duvidar da intertextualidade, embora seja bem específica, pois o romance gogoliano não é só mencionado no corpo do texto, como lhe é creditada uma importância fundamental: “Conhece o leitor um livro do celebre Gógol, romancista russo, intitulado Almas mortas? Suponhamos que não conhece, que é para eu poder expor a semente da minha ideia.”¹  Como se vê, o livro russo é “a semente” da ideia q...

Edgar Allan Poe e a escrita em tempos de algoritmos

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Por Michel Goulart da Silva Édouard Manet. A sombra que flutua no chão . Ilustração para O corvo , de Edgar Allan Poe  Embora mais conhecido por suas obras sombrias, associadas à literatura gótica do início do XIX, Edgar Allan Poe também escreveu críticas e ensaios sobre escrita, literatura e outros temas. Em sua maior parte, esses textos são comentários, alguns dos quais bastante ácidos, sobre escritores que lhe foram contemporâneos. Esses textos, contudo, incluem também ensaios mais densos, como “A filosofia da composição”, publicado em abril de 1846, e “O princípio poético”, publicado postumamente, em agosto de 1850. O primeiro é um texto mais geral sobre as compreensões de Poe acerca do processo de escrita literária e o segundo é uma detalhada descrição do processo de criação de uma das obras mais famosas do escritor, o poema “O corvo”. Em ambos os textos se vê um autor lúcido para com o seu processo de escrita e comprometido com a qualidade literária dos textos que levava a se...

A Odisseia ainda exige o périplo

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Por Felipe Vieira de Almeida  Cy Twombly.  Fifty Days at Iliam  (detalhe) Quando li as primeiras notícias dando conta de que Hollywood filmaria uma nova adaptação da Odisseia , o principal fator de curiosidade para mim foi a escolha do diretor, por conta dele sabia que acabaria indo ao cinema. Meses depois, fui à primeira sessão do filme na única sala do Rio de Janeiro com a tecnologia apregoada por Christopher Nolan, afinal, na pior das hipóteses sairia falando a frase inescapável que todo leitor já se cansou de repetir quando rolam os créditos de uma adaptação literária para o cinema: “O livro é melhor”. Nesse caso, não foi diferente. E, se não escrevo sobre o filme, também não quero perder a oportunidade de escrever sobre o livro. Entre os lugares-comuns que acompanham os clássicos há o verdadeiro mantra— e também cansado —,  de que esses livros não se esgotam e continuam a oferecer novas possibilidades de interpretação a cada geração. Porém, em geral, há nesses l...