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Mostrando postagens com o rótulo Afonso Junior

As troianas, de Sêneca

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Por Afonso Junior Eurípides encenou As troianas (Troades) em 415 a. C. refletindo sobre acontecimentos da Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.), em especial do massacre ateniense da rebelde ilha de Melos (416 a. C.): todos os homens foram mortos e todas as mulheres e crianças escravizadas.  Na era neroniana, coberta de sangue, quatro séculos mais tarde, a guerra era o eixo fundamental da Roma Imperial (a conquista da Gália por César, por exemplo, sempre foi vista como um genocídio), e a escravidão seguia sendo um pilar do sistema; contra os maus tratos com os escravizados, Sêneca mesmo advogou em suas cartas (por exemplo, Epístolas 47 e 95).  Neste tempo todo, outras obras sobre o tema da queda de Troia surgiram e com certeza moldaram o imaginário de Sêneca: a Andrómaca Cativa de Énio e Astíanax de Ácio, desaparecidas, além do impacto das obras de Virgílio e Ovídio. O resultado é uma sensibilidade propriamente romana, onde a dor se expressa fisicamente, a humilhação é exercid...

A história do som: de um conto genial a um filme catástrofe

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Por Afonso Junior “Mas esse cilindro me lembrou do que eu havia perdido — que é, creio eu, uma vida que eu não conheci, mas da qual David fez parte. A vida real.” Este trecho é do conto “A história do som”, presente no livro de mesmo nome de Ben Shattuck. Ele é escritor e pintor, natural da costa de Massachusetts, Estados Unidos, como lemos no final do texto publicado online na The Common , e filho de um pintor e da dona de uma galeria de arte. O livro é uma coleção de contos que estabelecem ecos entre si.    No começo de “A história do som” lemos: “É abril de 1972 aqui em Cambridge”.  No filme, dirigido por Oliver Hermanus (2025), acompanhamos a vida de Lionel (Paul Mescal e Chris Cooper), autor da narrativa, na zona rural do estado do Kentucky e seu encontro com o pianista David (Josh O'Connor) — personagem que ecoa o amor do escritor por Henry David Thoreau —, no Conservatório de Boston, em 1917.  No começo do amor entre os dois homens, surge uma guerra. Algum tem...

As máximas de Ptahhotep

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Por Afonso Junior Saiu entre nós uma nova tradução das máximas de Ptahhotep, a cargo do doutor em teologia pela Universidade de Bonn, Alemanha, frei Volney José Berkenbrock. A coleção Sabedoria Universal, na qual a obra foi inserida, traz a produção sapiencial de diversos povos, do filósofo chinês Confúcio ao ensaísta libanês Khalil Gibran.  Ptahhotep era o administrador geral do faraó Isesi (da quinta dinastia egípcia, governou entre 2414 e 2375 a.C.), cuidava dos bens, dos milhares de funcionários e da justiça, o que depois se chamaria de vizir . No século XIX, um engenheiro e arqueólogo de origem francesa, Prisse d'Avennes, comprou, próximo a necrópole de Tebas, um papiro com uma cópia das máximas do vizir (“ensinamentos” diz o papiro). No seu “prólogo”, anuncia o rei: “Ensina primeiro o discurso! Assim, ele será um exemplo para os filhos dos altos funcionários”.   Os “discursos” curtos e diretos ensinam o comportamento adequado, mas também o comportamento que corresponde à...

La vie en rouge: a Medea de Sêneca por Gabriel Villela

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Por Afonso Junior Ilustração de Guilherme Crivelaro. Cartaz de Medea. O edifício do teatro estava sem luz, com geradores há três dias. Umas calçadas na quadra próxima pegaram fogo, foram abertas pela empresa privada, ficam à vista pedras e terra. Há pouco, uma mulher desapareceu porque sua casa ficou sem luz. Policiais dão aula (e erram o português) porque os pais têm medo e preferem disciplina. Quem será o próximo Nero? O brasileiro tem um pote até aqui de mágoa.  Os monstros de Sêneca também.   Quebrar o clássico é uma tarefa titânica. Existe algo que Gabriel Villela entende, algo sobre o barro do teatro catastrófico, suas rupturas. Trazer uma peça esquecida assim já demonstra sua seriedade.  Qualquer artista que aceite o desafio de montar um Sêneca merece louvores.  Os textos apresentam muitas dificuldades dentro da mentalidade comum de teatro (uma espécie de aristotelismo realista mediano).  São muitas descrições, muitas falas intermináveis, nunca ...

A Ilíada de Homero: guia de leitura, de Giuliana Ragusa

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Por Afonso Junior Os estudos clássicos passam por uma crise. A formulação de Werner Jaeger de que Homero, como “mestre da humanidade inteira”, demonstra o dom especial dos gregos para chegar à “formulação daquilo que une e move todos nós” ( Paideia , 1936), nos mostra como envelheceu o mito do “grego como modelo da cultura”, do qual a Europa bebeu para seus próprios impérios. Se as epopeias sobrevivem, é porque são maiores e mais fortes (também mais multiétnicas) que esse brilho falso.   É um texto central e, ao mesmo tempo, precisamos de um Guia. Uma vez, fiz uma obra teatral com a Ilíada . Um desafio, e não apenas a multiplicidade de enredos dos quais fala Aristóteles. Há algo no poema de distante e estranho. Seus valores são anteriores até mesmo à subjetividade. A Odisseia , provavelmente retrato da era dos comerciantes, é cheia de magia, monstros e gente como a gente, mas a Ilíada é a era das lutas por terras, saque de riquezas e colonização. Ainda falta muito tempo para que S...

Sobre Manual de estoicismo: a visão estoica do mundo

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Por Afonso Junior Sempre que leio Epicteto (filósofo nascido em torno ao ano 50 na Frígia) eu tenho a sensação de ser pego de surpresa com alguma percepção muito impactante sobre a vida cotidiana. Também Marco Aurélio parece nos sacudir com sua filosofia crua; quando, por exemplo, fala (a nós, mergulhados no caos do carbono) da “respiração conjunta” de todos os seres e da “unidade da substância” ( Meditações , 6.38). Eu os leio com espanto, e não apenas com curiosidade.   Eu me lembro de um professor do mestrado que nos orientava a “não escrever para a massa” (também havia quem não achasse que todos tinham de ter faculdade, já que seriam sempre necessários “bons padeiros”). “As pessoas que lerão o seu trabalho”, dizia, “são especialistas, e não convém ser muito didático”.  Lembro de que sentimos um certo incômodo com o fato de que tanto esforço era para ser “consumido” por um grupo tão seleto. É natural que, numa sociedade capitalista, que cria desigualdades, diversos nív...

Fédon ou sobre a alma — Sócrates decide morrer

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Por Afonso Junior Uma cela, um condenado à morte, um grupo de amigos e discípulos. Fédon de Élis, ex-escravizado de guerra e discípulo de Sócrates, é instado pelo pitagórico Equécrates de Fliunte a narrar “o que disse o homem diante da morte” ( Phaedo , 57a).  Algumas horas antes de morrer, Sócrates tem dois desafios: provar que a alma é imortal (portanto, que não irá morrer) e provar que a causa-origem do mundo como nos aparece é algo invisível, talvez transcendental — como afirma Gabriele Cornelli na sua introdução da (também sua) tradução do Fédon , “as coisas sensíveis querem imitar os paradigmas, mas sempre falham” (Platão, 2025, p. 37). No final, o mito, falando de uma “Terra em si”, a qual seria “pura no puro céu”, vem nos ajudar: “As estações são tão amenas que aqueles que lá habitam não ficam doentes e vivem muito mais do que aqueles daqui. Quanto à vista, ouvido, intelecto e todas as faculdades do gênero, eles nos superam em pureza no mesmo grau em que o ar supera a ...

A ficus e a ficção especulativa de “Floresta é o nome do mundo”

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Por Afonso Junior Mas, naquele tempo, enquanto esteve intacta, tinha montanhas altas e encristadas de terra, e, quanto às planícies a que agora chamamos solo rochoso, tinha-as cheias de terra fértil. Tinha também numerosas florestas nas montanhas, de que ainda hoje há evidências manifestas, pois é nestas montanhas que atualmente existe o único alimento para as abelhas, e não há muito tempo que se cortava árvores nesse local para construir os tetos das grandes edificações — coberturas essas que ainda estão conservadas... Ursula K. Le Guin. Foto: Benjamin Reed No seu diálogo Crítias (111c), Platão já relata um tempo passado (uma Era de Ouro) em que as florestas da Ática viviam livres. Esses dias, um condomínio cortou uma árvore de 70 anos, cuja copa (sem manutenção da prefeitura) atravessava a rua até o prédio da frente, porque todos pagaram indenização depois que uma pessoa foi atingida pela queda de um galho. Eu, no começo, acreditei que a ficus elástica era uma ameaça ao mundo civil...

Luis Fernando Verissimo e a extinção dos seres inteligentes

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Por Afonso Junior “Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.” Cito trecho da crônica de Machado de Assis de 19 de maio de 1888 para lembrar que, diante do absurdo, a coisa mais séria a fazer pode ser o humor. Não se deixe enganar pelo normal. Além disso, as modas acadêmicas e o mercado de páginas podem esquecer tradições, direcionar desejos e “empoderar” gêneros, legitimando sentimentos e enobrecendo certos produtos, se não formos espertos. Em terra de Clarice Lispector, quem faz rir é rei. Viva a diversidade. O humor quase sempre foi visto como um primo do banal e um filhote do inútil (ainda mais num cômico país triste que coloca na Academia, na sucessão de Moacyr Scliar, Merval Pereir...

“Carga viva” e a vida que resiste

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Por Afonso Junior Ana Rüsche. Foto: Arquivo pessoal da escritora (Reprodução)   Cheguei bem cedo ao lançamento para comprar o livro sem fila. Ana Rüsche, a autora, a quem eu já havia entrevistado antes, nos recebe com um sorriso e diz: “Deixa eu assinar agora, porque depois...” Eu faço uma piada meio descabida: “E se um milhão de pessoas aparecem?” (em minha defesa lembro que se noticiou que a queda no número de leitores foi de mais de 11 milhões de pessoas desde 2015). Ela estava certa. Quando deixei a livraria, a fila saía pela porta...   Existe um motivo. (Meu eu crítico vai fingir que não me sinto próximo da autora por uma espécie de sintonia telepática, e que não a considero uma referência na investigação da vida, ou essa crônica seria apenas um grande néctar de bajulação de vizinhos de geração).   No debate do lançamento, ouvi dos palestrantes que seria um livro em que aparece o tema do HIV nos anos 1980, em que a autora homenageia o crítico e dramaturgo Alberto G...

Com Marco Aurélio, o que dele nos aproxima

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Por Afonso Junior   O fundador do estoicismo, Zenão de Cítio, teria nascido em torno de 333 a. C.; Marco Aurélio nasceu em 121 de nossa era. Quase quinhentos anos, portanto, e muitas diferenças. Dos livros escritos pelos primeiros estoicos nos resta quase nada — das centenas de escritos de Crisipo, restam os títulos e alguns fragmentos. Do estoicismo romano, entretanto, temos abundante material de Sêneca, as conversas de Epicteto recolhidas em dois livros, e os diários de Marco Aurélio. E, como veremos, algo mais...   Uma das diferenças é que esse estoicismo de Marco Aurélio, ainda que fundamentado em uma tese sobre a ordem cósmica e em uma moral baseada na physis , nos parece muito diverso do estoicismo grego — com seus complexos argumentos sobre o logos, as representações que nos aparecem em um mundo de fenômenos, nossos juízos, a conflagração final e os princípios sem forma (ativo e passivo) que são base dos elementos do mundo. Tudo isso aparece em Marco Aurélio, mas de for...