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Mostrando postagens com o rótulo Entretenimento

O engajamento docente

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Por Rafael Kafka


O engajamento dentro da filosofia existencialista é algo simples em essência, mas profundo no tocante à tomada de decisão. Por isso mesmo, ele é síntese de temor e tremor, pois somos confrontados com a ideia de condenação à liberdade em uma realidade que não nos deixa ser livres de maneira absoluta. O menor de nossos gestos é uma mudança do mundo, é uma forma de desafiar o concreto da realidade a qual nos circunda para obtermos o que queremos.
Penso que O que é a literatura?, de Jean-Paul Sartre, seja uma bela síntese desse engajamento existencial. O escritor engajado é tão somente aquele que encara a realidade a sua frente e decide falar sobre ela, mostrá-la, provocar o seu leitor a também encarar e sentir os fatos exibidos ali. Um escritor que silencia diante da violência é um sujeito que deixa clara sua posição política sobre a violência.
O engajamento da obra de arte literária é bem elucidativo inclusive de uma ética de respeito ao outro. O texto literário não busca …

Leitor modelo e aluno modelo: conceitos dos quais devemos nos livrar

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Por Rafael Kafka


Umberto Eco possui um texto bastante interessante no qual ele trabalha a ideia do leitor ideal, ou modelo, se o leitor preferir. Por meio de uma série de reflexões críticas a um modelo estruturalista de entendimento da obra literária, Eco mostra que o texto literário é um conjunto de estratégias de leitura usadas pelo escritor e percebidas pelo leitor em seu ato de desbravar o referido texto. Nesse sentido, nunca há um contato pleno entre autor e leitor da obra, pois entre eles há as palavras que servem de mediadoras e elas, por natureza, são polissêmicas.
Tal polissemia é gerada pela condição humana, fenomenologicamente explicada como uma miríade de visões e formas de sentir a realidade. O leitor ideal é uma utopia pessoal de cada escritor, o qual se utiliza de uma série de recursos e espera que esse leitor entenda plenamente as suas demandas expressivas dentro do produtor que entrega, em constante processo de inacabamento ao leitor.
O autor usa referências a seu tem…

Orfandade poética

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Por Beatriz Martins


este é um poema que eu queria ter lido para minha avó. há exato um mês, eu perdi a minha avó. e de certa forma perdi o poema. porque ele foi feito para ser lido a vovó.
não li o poema. às vezes eu tentava conversar com vovó e ela dizia minha filha por favor minha filha volte amanhã eu não quero esse negócio chato nos meus ouvidos hoje – o aparelho auditivo – eu não quero conversar eu quero estar aqui com a minha filhinha; minha filhinha que não caga, não come, não chora. a boneca de vovó era uma perfeição de filho, principalmente a alguém com mais de 90 anos e que gosta de companhia para assistir Malhação.
vovó desenvolveu uma habilidade incrível ao longo da vida. podia dar vida a meros objetos, podia se teletransportar no tempo, podia criar outros tipos de tempo. um dia, nos surpreendemos quando um velho amigo da família disse que vovó teria sido registrada errado – se em seus documentos constam 93 anos, esta não seria sua verdadeira idade.
sabe o que é um dia ac…

Ficção de realidade e realidade de ficção

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Por Amanda Lins


Pontes de Miranda, o professor de introdução ao direito diz incessantemente à turma sonolenta, leiam Pontes de Miranda. Algo no tom dele faz nascer em mim um ensaio de irritação, irritação a qual, a princípio, não consigo identificar o motivo. Mas anoto a sugestão-barra-imposição no canto do caderno e empurro a porta, indo em direção ao mormaço do mundo. As salas de aula no verão nunca são convidativas.
Nascimento em 1892... morte em 1979... escreveu diversos tratados sobre direito privado, vou lendo enquanto passo meus dedos pelas capas empoeiradas, formando um rastro de que estive ali, marcando-me nos sumários já comidos pelo tempo até a metade e nas contracapas quase inexistentes. Na biblioteca, o que entra de luz precisa antes dançar pelos resquícios de poeira, formando uma cortina que me banha de sol aos poucos e me convida, novamente, ao calor de fora. Posso sentar-me num banco e terminar de ler o romance que larguei durante a aula, reflito.
Ficamos sempre, os es…

Por uma aprendizagem pautada na autonomia

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Por Rafael Kafka


Há quem considere que as escolas brasileiras no geral são dominadas por um pensamento por demais liberal, em um sentido mais libertário, e que isso tem afetado o modo como os jovens aceitam receber ordens e reagem ao mundo exterior. A anomia na qual vivemos – que muitos chamam de “anarquia” – seria então fruto de uma juventude que não reconhece o poder da autoridade e não sabe reter seus impulsos, deixando-os vagar livremente. Desses impulsos soltos de modo irresponsável pode surgir e provavelmente surgirá a violência.
As escolas brasileiras em geral são mal estruturadas e os professores pouco têm acesso à formação continuada. Isso faz com que muito do ensino na educação básica seja focado ainda em método expositivos e tecnicistas, com os estudantes lidando com saberes os quais não fazem sentido para sua vida, fator que por si só já seria suficiente para gerar desinteresse, um dos motivos iniciais da cadeia de indisciplina que para muitos de nós é o motivo de casos de…

Ler sem saber

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Por Beatriz Sarlo


Não se pedirá explicações a quem disser que Em busca do tempo perdido, Madame Bovary ou Doutor Fausto são os livros que mais lhe impressionaram. Isso ratifica o que agora se chama cânone, isto é, a champions league da literatura. Com a mesma tranquilidade se aceita citar Jane Austen ao lado de Stendhal, ou Heine na mesma frase em que se diz Baudelaire. Exceto para os rebeldes que querem sacudir o estabelecido, esses nomes figuram na maioria das listas. Já não causam escândalo nos tribunais, nem existem fiscais que os persigam como os que perseguiram Flaubert, ou censores que queiram apagá-los como aconteceu com Lolita, de Nabokov. Só um provocador profissional lhe ocorreria dizer que, ao lado de O vermelho e o negro, pode se colocar um romance questionável de Lamartine; que Victor Hugo não é para tanto, se pensando quão bem escrevia Alfred de Vigny; ou que, finalmente, Eliot é bastante enfadonho se o comparamos com Neruda. Existem listas com as quais não se brinca, e…

Os diários de aprendizagem como ferramenta de educação dialógica

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Por Rafael Kafka


Tenho trabalhado com alguns alunos um gênero textual o qual aprendi na minha segunda graduação, em Letras com Habilitação em Língua Inglesa, e que me permite umas reflexões bem interessantes. Por mais que ainda me falta leitura sobre o dito gênero, já o tenho usado com base em aulas tidas em 2013/2014 na UFPA no sentido de promover com os alunos um instrumento de auto avaliação e de autonomia. Isso se deve pela defesa que defendo de que a reflexão crítica sobre nossos próprios atos é um meio dos mais importantes para conseguirmos romper barreiras acerca de nossa aprendizagem.
Por mais que sempre tenha me incomodado um certo ar liberal, influência clara da escola nova, os diários de aprendizagem me permitem uma provocação no sentido da escola libertadora que almejo. Afinal, esta última nada mais é do que um ambiente onde o sujeito consegue refletir concretamente sobre problemáticas variadas e agir de maneira direta sobre elas. A escola libertadora é uma ação direta.
T…

Morangos mofados, 2019

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Por Amanda Lins





“Eu era apenas um corpo que por acaso era de homem gostando de outro corpo, o dele, que por acaso era de homem também”, pensa o personagem de Caio, tranquilamente, numa terça-feira de carnaval. Como poderíamos pensar eu, ou você. A humanidade e absoluta simplicidade da frase assim, solta, me engancha ao conto. Há algo de não-estou-dizendo-aqui-nada-de-extraordinário e ao mesmo tempo de deveria-ser-simples-assim-mas-não-é nesse mundo arquitetado que lembra demais o nosso para que passe despercebido, sem desencadear uma espécie de comichão nas entranhas.
Continuo a ler, já transmutada para uma festa de carnaval, uma matinê no Rio, um bloco em Olinda um trio em Salvador, lança-perfume espalhado no ar e dois - por acaso - homens, fantasiados. Por acaso, flertando. Algo me angustia nessa troca de olhares, na proximidade da carne. Algo que ainda não sei racionalizar de onde vem e por que está ali. É o mesmo comichão. A narrativa anda. O samba despreocupado. Minha angústia. …

O erudito, o popular e a doce virtude da ignorância

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Por Rafael Kafka


Sempre tentei entender por que as pessoas são tão apaixonadas pelos filmes de super-heróis. Mesmo em minha fase adolescente tendo sido um entusiasta dos desenhos animados japoneses, certas condutas típicas de geeks e otakus me aborreciam, como essa vontade de fazer cosplays. Ao mesmo tempo, porém, havia em mim uma certa sensibilidade imaginativa provocada em demasia pelos temas discutidos dentro de animes e mangás e muitas vezes me peguei envolvido com personagens desse universo em um grau maior do que com o tido com pessoas do mundo real.
Mas o meu purismo prevaleceu sobre meu bom senso e durante anos eu julguei pessoas que gostavam de filmes de super-heróis como tolas e infantis. Demorei a me libertar dele e demorei mais ainda para decidir ver um filme e avaliar por conta própria o charme dessas obras de arte. Por mais que nunca tenha lido nada dos autores os quais se utilizam do conceito de indústria cultural, esta foi uma noção muito utilizada por mim para critica…

Leitura crítica do conservadorismo e seus aprendizados

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Por Rafael Kafka



Decidi após as eleições fazer um exercício de leitura mais crítico em relação às posições contrárias àquilo que defendo. Lembrei-me de um antigo conhecido que na fase de intelectualidade ingênua vivida por nós ali por 2007 me dizia sentir vontade de ler a Bíblia, pois gostaria de discutir com mais propriedade crítica os discursos com os quais não concordava. Inspirado por ele, que não fez aquilo que foi prometido, também tentei ler a Bíblia, mas desisti após me deparar com o tanto de proibições presentes no Pentateuco e sentir que iria abandonar minha fé de então se eu seguisse na leitura do texto sagrado cristão.
Após as eleições, porém, veio-me à mente a ideia de tentar novamente colocar em prática essa ideia e confesso que tem sido interessante, pois várias posições políticas mais conservadoras não me parecem mais tão monstruosas, mesmo eu não concordando com elas. Nos últimos meses, fazendo leituras dos representantes do pensamento liberal conservador, passei a en…