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Proust e os sentidos da arte

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Por Amanda Fievet Marques  Andy Warhol, Marcel Proust.  De tão incensado grande escritor, embalsamado monumento da literatura francesa, pouco se diz que Proust ouvia cores. Em A prisioneira , movimento do romance Em busca do tempo perdido , a concepção de arte como reveladora de sensações e essências se constitui pela qualidade da linguagem capaz de expressar sensações de ordens de sentidos distintos, conjugando, por exemplo, visão, tato e olfato. Numa conversa com Albertine após seu retorno do Trocadéro, tratando de uma confusão que julga ter acometido Elstir, ao deplorar uma igreja por ela ser nova, o narrador propõe que seja isso uma contradição, pois o que importa é a inserção dos elementos numa percepção global que colha a intensidade das impressões. Como argumento, considera as casas recém-construídas nos bairros dos burgueses ascendentes, num subúrbio dilatado por um tom de branco, que será expresso através de uma linguagem de qualidade particularmente sinestésica: “a p...

O gesto no alvorecer da linguagem: Os imortais, de Paulliny Tort

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Por Wesley Sousa Paulliny Tort. Foto: Renato Parada Os imortais , livro de Paulliny Tort, está entre os acontecimentos literários recentes mais notáveis em nosso país e o que nele chama atenção de imediato é a maneira como enfrenta um problema, simultaneamente, estético, formal e temporal. Como representar “sujeitos” cuja experiência se situa aquém das formas de linguagem que estruturam nossa própria relação com o mundo? O enredo geral do romance trata de um grupo de neandertais que, ao deslocarem-se de região em região, enfrentam inúmeras dificuldades, desde problemas climáticos extremos, escassez de recursos, até a busca de abrigo e proteção entre os seus. A característica central é que os neandertais de Tort “não conversam falando: falam com o corpo, conversam mostrando, argumentam encadeando cenas e ações”. Nesse sentido, pode-se dizer que a formulação é decisiva, pois permite compreender que a ausência de diálogo verbal não significa ausência de comunicação. O romance des...

Mortes rememorando outras mortes em Dakota blues, de Simone Az

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Por Douglas Sacramento I Lembro de quando procurava o meu tema de pesquisa para o trabalho de conclusão do curso. Pensava em discutir a memória na literatura de mulheres negras, em especial nas obras de Toni Morrison e Conceição Evaristo, e algum outro tema. Não queria escrever apenas sobre memória. Até que, numa reunião familiar de domingo surgiu uma conversa sobre morte e percebi que, ao puxar os fios, às vezes emaranhados, de thanatos , era possível chegar a um processo de rememoração. Um morto leva a outro, que leva a outro morto. A partir desse momento, decidi pensar essa relação tão visceral para a literatura. Lembrar os mortos, rememorar para não esquecer e imortalizá-los por meio da escrita. Foi assim que comecei a leitura e a escrita à volta esses dois temas também encontrados com recorrência na literatura contemporânea. Por ser conhecido entre meus amigos como um pesquisador dedicado ao tema da morte, um deles me indicou o primeiro romance de Simone Az. Logo, esse percurs...

Prosa sem cabeça

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Por David Toscana  Sebastián de Llanos Valdés, A cabeça de S. João Batista. Talvez o decapitado mais famoso da história seja João Batista. Leiamos esta passagem bem conhecida de Mateus: “Durante uma festa de aniversário, a filha dançou e agradou tanto a Herodes que ele jurou dar-lhe o que pedisse. Instigada pela mãe, ela pediu a cabeça de João Batista numa bandeja. O rei entristeceu-se, mas atendeu ao pedido devido ao juramento feito aos convidados. João foi decapitado na prisão, e sua cabeça entregue à jovem, que a levou à mãe.” Aprecio essa concisão dos antigos, a ênfase na essência em vez dos detalhes, sem sacrificar o poder da narrativa. Num romance contemporâneo, teríamos mais páginas. As palavras “dançou e agradou” se multiplicariam com os movimentos eróticos de Salomé e as vestes e véus que gradualmente se desprenderiam, revelando o fascínio de um corpo pelo qual Herodes jurou dar-lhe tudo o que pedisse. Haveria instrumentos de percussão, cítaras, alaúdes, harpas e flau...

Boletim Letras 360º #713

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DO EDITOR Continuamos a querer alcançar mais leitores. Há muito recebíamos o pedido de divulgarmos as novas edições e reedições, como fazemos neste Boletim há alguns anos, mas na nossa página do Facebook desde 2012, também no Instagram. Algumas adequações nesse outro espaço agora permitiu-nos cumprir com esse desejo. Abrimos um braço com o nome de @roldoletras. Se quiser, já pode seguir. É muito bem-vindo.  Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto a custear as despesas com domínio e hospedagem online. A sua ajuda continua essencial. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .  Julio Cortázar. Foto: Sara Facio LANÇAMENTOS Pela primeira vez no Brasil, a poesia de um dos principais escritores latino-americanos do século XX .  A pai...

Azul e dura, de Beatriz Bracher

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Por Gabriella Kelmer   Beatriz Bracher. Foto: Eduardo Knapp Quando os tempos são contrários, não raras vezes a literatura possibilita nosso contato com um escapismo tão inteiriço quanto é a submersão — exclusiva ao texto — ministrada pela linguagem. A obra literária pode sublimar a existência ao reduzir a acústica da realidade imediata, como meio legítimo de virar as costas ao abismo que se aproxima. O outro caminho é contrário e corresponde ao confronto com o presente, o que é potencializado pela singularidade da obra, repartida, muitas vezes, entre o dado estético e a especificidade com que a produção se vincula à realidade. Ler é epifânico também quando se evidenciam os retalhos das nossas circunstâncias, quando se dinamizam alguns dados históricos, políticos, sociológicos. Sendo indevido reduzir a esse escopo o fato literário, é igualmente discorde ignorar que a obra absorve e digere em alguma medida a realidade, reestruturando-a. Tendo precisado da primeira estratégia em algun...