Postagens

Pai mãe irmã irmão, de Jim Jarmusch: (três) poéticas do cotidiano

Imagem
Por Juanma Ruiz  Imagine uma frase rabiscada às pressas em um caderno de anotações: “Dois irmãos se reencontram com os pais”. Com essa simples premissa, qualquer diretor poderia compor uma história. Pelo mesmo preço, em Pai mãe irmã irmão, Jim Jarmusch constrói três. A fórmula narrativa não é nova, e o próprio Jarmusch já a havia utilizado antes, assim como muitos outros cineastas. Um exemplo particularmente revelador: no filme Noutro país (2012), de Hong Sang-soo, uma história se desenrola diante do espectador na forma de um tríptico: três histórias possíveis sobre três personagens femininas diferentes, todas com o mesmo nome (Anne) e interpretadas pela mesma atriz (Isabelle Huppert). Em cada uma das narrativas, uma Anne diferente chega a uma pequena cidade coreana para passar alguns dias, mas sempre com uma motivação diferente. E ao seu redor, diversos elementos se repetem, às vezes com alterações sutis, às vezes mais evidentes. Na música, a variação é uma técnica de composição ...

Julio Cortázar, no princípio foi a poesia

Imagem
Por José María Plaza Julio Cortázar, 1972. Foto: Gisèle Freund Se alguém quisesse hoje se aproximar da magnífica obra e figura de Julio Cortázar de forma bastante completa (embora não exaustiva), eu recomendaria três livros: o romance O jogo da amarelinha , uma ampla seleção de seus contos (dispersos por tantos títulos, importantes e menos conhecidos) e sua poesia. Não devemos esquecer que Cortázar começou a escrever poesia aos 12 anos, e a poesia (a sua poesia) está entrelaçada, de uma forma ou de outra, em seus contos e até mesmo em seus romances.  Existem inúmeras edições de O jogo da amarelinha e de seus contos, mas sua poesia durante muitos anos foi escassa de encontrar. O único livro do gênero que sobreviveu foi uma edição ilustrada de Pameos y meopas , da editora Nórdica, que por sua vez era uma reimpressão desse pequeno livro publicado pela coleção Ocnos em 1971 e que nos deu a oportunidade de vislumbrar o poeta Cortázar, já que ele era visto anteriormente apenas como um f...

Shakespeare sob a lupa do século da razão

Imagem
Por Teresa Galarza Ballester   “Se não pode vencê-lo, edite-o” poderia ser o lema secreto de um editor, ou de alguém insatisfeito com o que escreve, mas com uma ideia de como escrever bem. E também poderia ter sido o lema não oficial do Iluminismo quando este se deparou com os textos de William Shakespeare. O século XVIII, tão sensato, tão cético — o que poderia fazer com um dramaturgo que desconsiderava as unidades aristotélicas e tinha a audácia de misturar o sublime com o cômico? Editá-lo, é claro. Como Jonathan Bate aponta em The Genius of Shakespeare  (1997), editar Shakespeare não era simplesmente uma questão de restaurar o texto; era uma questão de aprimorá-lo. Para entender o fenômeno das adaptações e revisões do século XVIII, é útil começar com um fato curioso: Shakespeare era celebrado apesar de si mesmo. No auge do racionalismo e da estética neoclássica, os temas abordados por sua obra — a ambição, a paixão, a loucura, o conflito entre dever e desejo — continuavam a...

Boletim Letras 360º #676

Imagem
DO EDITOR Uso deste breve espaço para agradecer aos autores que até o dia 25 de janeiro enviaram as suas candidaturas para os novos colunistas no Letras e estendo este obrigado a você, leitor, que de alguma maneira ajudou na divulgação desse chamado.  Desde o dia 26, este espaço regressou ao curso normal das suas atividades: com publicações diárias e este boletim com as seções criadas em algum momento depois de inventada essa coluna.  Uma marca dos 19 anos online é continuar a oferecer possibilidades de ficar mais próximos dos nossos leitores, o maior desafio numa era de bolhas e de dispersões. De todo jeito, tenta-se. Por isso, o Letras foi parar no WhatsApp, depois de alguma solicitação dos que não usam o Telegram. Para seguir basta clicar aqui .  E, finalizo com um lembrete essencial — permanente: na aquisição de qualquer um dos livros pelos links ofertados neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter o Letras . A sua ajuda continua valiosa p...

A Ilíada de Homero: guia de leitura, de Giuliana Ragusa

Imagem
Por Afonso Junior Os estudos clássicos passam por uma crise. A formulação de Werner Jaeger de que Homero, como “mestre da humanidade inteira”, demonstra o dom especial dos gregos para chegar à “formulação daquilo que une e move todos nós” ( Paideia , 1936), nos mostra como envelheceu o mito do “grego como modelo da cultura”, do qual a Europa bebeu para seus próprios impérios. Se as epopeias sobrevivem, é porque são maiores e mais fortes (também mais multiétnicas) que esse brilho falso.   É um texto central e, ao mesmo tempo, precisamos de um Guia. Uma vez, fiz uma obra teatral com a Ilíada . Um desafio, e não apenas a multiplicidade de enredos dos quais fala Aristóteles. Há algo no poema de distante e estranho. Seus valores são anteriores até mesmo à subjetividade. A Odisseia , provavelmente retrato da era dos comerciantes, é cheia de magia, monstros e gente como a gente, mas a Ilíada é a era das lutas por terras, saque de riquezas e colonização. Ainda falta muito tempo para que S...

A montanha, de José Luís Peixoto

Imagem
Por Pedro Fernandes José Luís Peixoto. Foto: Pedro Nunes A montanha é o romance em que José Luís Peixoto regressa a um modelo narrativo explorado a partir de Livro, muito embora os sinais de sua prática possam ser registrados em obras anteriores, como em Cemitério de pianos . Por isso mesmo, quem pelo menos leu os livros até agora referidos, ou ainda Autobiografia , outro título da mesma linhagem, não deixará de se perceber tomado por um certo déjà vu ou apostar e mesmo acreditar em algum momento que o escritor se beneficia de uma chave antiga para acessar o objeto de sempre disfarçando-o como novidade. É necessário, para contornar essas reações, dar a volta ao curso das várias peças até a última entrada desse livro-arquivo para se descobrir simultaneamente diante de uma obra que, sim, acrescenta qualquer coisa a um modelo já conhecido, sem cair, por uma astúcia adquirida da experiência com a escrita, na repetição pura e simples. Embora não seja possível, como é comum a um texto dess...