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O avesso da pele, de Jeferson Tenório

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Por Pedro Fernandes Jeferson Tenório. Foto: Carlos Macedo   Foi com O avesso da pele que Jeferson Tenório se fez reconhecido no meio literário brasileiro em 2020; no ano seguinte, obteve com este que é seu terceiro livro o Prêmio Jabuti. Antes publicara outros dois romances, O beijo na parede (2013) e Estela sem Deus (2018), este último reeditado pela mesma casa editorial que o projetou. Grande parte da boa recepção do premiado romance se deveu a maneira como examina a partir de circunstâncias e ângulos diversos as complexas relações raciais num país onde durante muito tempo apostou na ideia de convívio livre e franco das raças. Num momento quando as questões raciais importadas da tradição estadunidense, seja a partir da própria literatura, seja a partir do pensamento articulado no interior dos estudos culturais, reabrem o exame sobre o modelo de silenciamento forjado no Brasil, a escolha pelo tema, aliás, tem fomentado o restabelecimento de uma interessante linha criativa na nossa

O Holocausto e o cinema

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Por Rafael Narbona Frame de Cinzas da guerra .   A Shoah não para de produzir perplexidade, mas a verdade é que não é o primeiro genocídio da história. Talvez a sua singularidade resida na exploração dos avanços científicos e tecnológicos para exterminar e reduzir a cinzas milhões de cidadãos europeus (e não do Terceiro Mundo), quase sempre integrados na cultura dos países que participaram no Holocausto. Na verdade, alguns dos sobreviventes mais famosos nunca deram muita importância ao seu judaísmo, porque nem mesmo acreditavam em Deus. É o caso de Primo Levi, Jean Améry ou Imre Kertész. O antissemitismo é um antigo preconceito cristão que inspirou inúmeros pogroms. Em Sobre os judeus e suas mentiras (1543), Martinho Lutero escreveu: “Seremos culpados de não destruí-los.” Os nazistas adotaram esse lema, responsabilizando os judeus por serem a origem e o substrato do internacionalismo, do marxismo e da democracia, três doutrinas incompatíveis com a utopia racista do Sangue e da Nação.

Colette e os desejos proibidos

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Por Lourdes Ventura Colette. Foto: Iziz/ Paris Match.   Cento e cinquenta anos após seu nascimento, os mil rostos de Colette continuam a gerar ensaios psicológicos e análises literárias feministas. Suas heroínas, incluindo seu alter ego Claudine, não eram exatamente Colette, ou talvez uma Colette excessiva deu origem a Claudine. As máscaras disfarçavam o autobiográfico, e sua predisposição para o sensual era aumentada pelo desejo de seduzir. Como autora, ela estabeleceu uma distância oculta com a experiência. Em seu baile de máscaras, Colette sempre conta mais ou menos.   Seu nome verdadeiro, Sidonie-Gabrielle Colette (Saint-Sauveur-en Puisaye, 1873-Paris, 1954), e era a quarta filha de Sidonie Landoy, uma mulher culta e liberal casada pela segunda vez com o ex-capitão Jules-Joseph Colette. Sua mãe a considerava “uma joia de ouro”, e ela recebeu uma sólida educação laica. Talvez por isso, os disfarces que usou ao longo de sua tumultuada vida esconderam a genialidade de uma escritora qu

A redescoberta de Halldór Laxness

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Por Salvatore Scibona Halldór Laxness.    Durante os meses finais da Segunda Guerra Mundial, o editor Alfred A. Knopf encomendou um relatório do leitor, consistindo em um formulário em papel azul com algumas perguntas, sobre um romance traduzido de um islandês chamado Halldór Laxness que entrava no seu radar de considerações. A seção B do formulário instruía o leitor: “Se você nos recomenda a publicação do livro, apresente seu principal motivo em uma única frase”. O leitor respondeu: “Aqueles que lerem este livro jamais o esquecerão”.   O romance, Gente independente , conta a história de um camponês islandês Bjartur que se renomeia Bjartur de Sumarhúsum em homenagem à miserável propriedade rural que conseguiu comprar após dezoito anos de servidão. Nenhum obstáculo de Deus ou do homem o separará de sua independência, mesmo que ele e sua família se destruam no processo. Diante desse cenário sombrio, o leitor observou: “Certas passagens são de tamanha beleza, tão repletas de compreensão d

Dez breves poemas de Adonis em “Tocar a Luz”

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Por Pedro Belo Clara   Adonis. Foto: Inma Flores     I.   Hoje o céu escreveu o seu poema com tinta branca Chamou-lhe neve     II.   O teu sonho rejuvenesce enquanto tu envelheces O sonho cresce ao andar em direcção à infância     III.   Para chegar à luz tens de te apoiar na tua sombra     IV.   Palavras – asas para pássaros que tomam                 os sonhos como ninhos     V.   Poesia – que não ataca nem resiste                 rosa sem defesa de que o perfume                 é a única arma     VI.   No rosto do horizonte correm as lágrimas do tempo Deixa que a tua poesia as transforme em estrelas     VII.   Os nossos corpos não conhecem o adeus Encontro é o nome de cada uma das nossas células     IX.   Oh os nossos corpos – oásis neste deserto a que chamam alma     X.   O corpo é um outro Deus Só se dá a ver através de um véu   Ligações a esta post: >>> Em julho de 2021, nove poemas de Adonis e nota biográfica sobre o poeta sírio      * Tradução de Nuno Júdice em O Arco

Boletim Letras 360º #516

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    DO EDITOR   1. Caro leitor, iniciamos oficialmente nesta semana o ano 16 do Letras in.verso e re.verso . Espero que possamos continuar oferecendo, diariamente, bons textos sobre objetos artísticos de importância e relevância para nossa formação leitora.   2. Aproveito a ocasião para lembrar que até o dia 4 de fevereiro receberemos inscrições para aqueles que se interessam por enriquecer esse trabalho. Se você escreve resenhas (sobre livros ou filmes) ou ensaios, por exemplo, e procura um espaço para exercitar sua escrita junto ao público, eis um convite. Saiba tudo aqui e se restar alguma dúvida escreva para nós. 3. Para que continuemos online, sua ajuda é importante. E você pode colaborar de várias formas, seja no clube de apoios ou na aquisição de qualquer um dos livros apresentados aqui pelos links ofertados. Para conhecer outras maneiras de ajudar, visite aqui .   4. No mais, agradeço a sua companhia por mais um ano. Vamos que vamos! Carlos Drummond de Andrade. Foto: Gervasi