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Boletim Letras 360º #450

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DO EDITOR 1. Caro leitor, durante a semana, esteja atento às redes do Letras: divulgaremos os três livros enviados pela editora Mundaréu para o primeiro sorteio no âmbito da rede de apoio que iniciamos para manutenção deste blog. 2. O sorteio acontece no próximo mês. Na edição 448 deste Boletim já revelamos um deles . E você pode se inscrever até a dia 25 de novembro. Todas as informações sobre essa proposta estão disponíveis no menu ao lado, no final desta publicação ou aqui .   3. Esteja em paz, fique bem, boas leituras e muito obrigado por sua preciosa companhia por aqui e noutras redes do Letras ! Paulina Chiziane, prêmio Camões 2021. Foto: Liliana Henriques.   LANÇAMENTOS   Três romances de Paulo José Miranda reunidos pela primeira vez .   Este volume reúne os três primeiros romances do autor, através dos quais procurou penetrar, em linguagem límpida e pensamento fino, nos meandros da criação a partir de três notáveis artistas: Cesário Verde, João Domingos Bomtempo e Antero de Que

Breve ensaio sobre a beleza na arte

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Por Marcelo Moraes Caetano Emily Kame Kngwarreye. Ntange Dreaming, 1989.   Para Cassirer, a beleza é uma constante do fenômeno humano, sem necessidade de teorias metafísicas sutis e complicadas para a sua explicação.   No entanto, ela sempre foi alvo de paradoxos em meio às diversas correntes filosóficas. Até a época de Kant, a filosofia da beleza era ligada a fatores estranhos e exógenos, principalmente nas culturas “civilizadas” (ou “policiadas”, como diriam Auroux ou Derrida) a que se vinculavam a experiência estética e a própria arte. Em A crítica do juízo , entretanto, Kant deu a prova convincente da autonomia da arte no Ocidente em face de conexões obrigatórias com outros ramos do saber, como, na época, principalmente em relação à teologia ou, pior ainda, à ciência. É claro que a Arte Poética de Aristóteles, séculos antes, e embora remanescente apenas em fragmentos, dera o primeiro passo nesse sentido, com o qual se dialogou (e se dialoga) desde a sua vinda à luz até hoje. A art

Teatro, de Bernardo Carvalho

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Por Pedro Fernandes Bernardo Carvalho. Foto: Edilson Dantas O pensamento e toda a formação de nossa civilização ocidental apresentam-se articulados sob o signo de uma dicotomia que dispensa as continuidades entre as formas pela cisão. Em parte, isso nos serviu compreendermos sobre os organismos e seus sistemas, do mais simples ao mais complexo, e disso engendrarmos outros modelos que estabelecem alguma ordem no funcionamento da coletividade. Por outro lado, a dissociação está na base das crises que enfrentamos enquanto sistema e, desde o advento da psicanálise, como indivíduos. A essa altura, sabemos — se não, ao menos desconfiamos — que a dicotomia distintiva é ela própria a crise, o que ao longo da nossa história cobrimos com remendos capazes de disfarçar suas cisuras, não sem uma dose de força e barbárie.   Desde o começo da sua literatura, Bernardo Carvalho parece consciente disso e poderíamos designar como o seu principal interesse os impasses estabelecidos no conflito entre polo

Entre os mecanismos de Aira

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Por Tiago D. Oliveira Depois de atravessar as páginas de A trombeta de vime , de César Aira, fiquei pensando sobre os limites de um texto e percebi que entrava paulatinamente em um universo que se revigora conforme o mundo gira em torno de seu próprio eixo. São doze textos que dificilmente serão classificáveis, o que promove o livro para um lugar que corta o próprio tempo em que foi escrito para se apresentar além, muito além do que nos acostumamos a conformar.   A mistura de gêneros e de discursos faz com que as narrativas desenvolvam um híbrido entre as palavras, leva o leitor a sentir analiticamente a expansão das fronteiras e limites do fazer literário. Ao ponto que a leitura acontece, percebe-se que o atravessamento dos textos acontece como parte do projeto estético e filosófico que Aira pensou e conseguiu desenvolver lançando seu livro para fora, em um lugar que não para de crescer. Logo no primeiro texto do livro fiquei ensimesmado com a datação, o que me fez pensar em alguma fo

O tempo em A montanha mágica: anotações da leitura de Paul Ricœur

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Por Joaquim Serra   Thomas Mann. Foto: Bridgeman Imagens   É inegável, diz Ricœur, que A montanha mágica seja um romance sobre o tempo. Hans Castorp, o homem comum escolhido pelo narrador, passará sete anos no sanatório “até que o trovão da declaração da guerra de 1914 o arranque do feitiço da montanha mágica; a erupção da História, porém, só o restituirá ao tempo dos de baixo para entregá-lo a essa ‘festa da morte’ que é a guerra” (p. 200). Para Ricœur, o fio condutor da obra é o confronto de Hans Castorp com o tempo abolido do sanatório Berghof. O filho enfermiço da vida, em visita ao primo Joachim (tuberculoso e há seis meses internado), adentrará o mundo dos mortos para se tornar íntimo dele, se aclimatar e vivê-lo na pele. O projeto frustrado de Hans Castorp é o de passar três semanas com aqueles que não reconhecem essa medida de tempo, o que irá gerar, num primeiro momento, a convivência dos contrários para aflorar a significância do tempo. Segundo Ricœur, “as primeiras discussõ

Akhmátova e Modigliani, um amor nascido da arte

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Por Andrés Seoane Retrato de Anna Akhmátova por Amedeo Modigliani.     “Tudo aquilo aconteceu na pré-história de nossas vidas: a sua muito breve; a minha, muito longa. O sopro da arte ainda não havia incendiado, transfigurado essas duas existências. Era a hora diáfana e passageira que sucede a aurora.” Assim recordava, anos depois, a poeta russa Anna Akhmátova (1889-1966) o incendiário e fugaz amor que dividiu com o artista italiano Amedeo Modigliani (1884-1920) na efervescente Paris da belle époque .   Uma relação, fina e delicadamente construída pela escritora francesa Élisabeth Barillé (Paris, 1960), que mergulhou nesta história depois de reconhecer Akhmátova numa escultura do artista leiloada em Paris no ano de 2010 batendo todos os recordes depois alcançar o preço de 43 milhões de dólares. Encantada pelo busto e pela história que nele poderia estar guardada, a autora de ascendência russa viajou a São Petersburgo para interrogar os arquivos ainda preservados da poeta.   Viajando at