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Boletim Letras 360º #572

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Virginia Woolf. Coleção Kirkpatrick, Universidade de St Andrews, St Andrews, Escócia.   LANÇAMENTOS   Uma completa seleção de ensaios de Virginia Woolf feito por Leonardo Fróes .   Umas das maiores ficcionistas do século XX, Virginia Woolf foi também ensaísta prolífica e inovadora, tendo escrito profissionalmente resenhas e artigos para periódicos, como o Times Literary Supplement , durante toda sua vida. Tal como na prosa de ficção, também nos ensaios ela ultrapassa os limites dos gêneros literários, propondo uma forma de pensar e de escrever mais aberta e menos categórica, que não se conformava aos padrões vigentes, de tradição fortemente masculina: “um livro de mulher não é escrito como seria se o autor fosse homem”. Os ensaios reunidos neste volume — com seleção, tradução, apresentação e notas de Leonardo Fróes — foram escritos entre 1905 a 1940 e cobrem os principais temas de sua vasta produção, com destaque para os ensaios literários e os biográficos, ambos majoritariamente dedic

A memória de Borges

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Por Alejandro Zambra Dois amigos incansáveis passam a última noite de 1970 traduzindo Shakespeare. Os amigos se chamam Borges e Bioy Casares. Não são exatamente mestre e discípulo, mas de alguma maneira o velho Borges inventou Bioy. Ou, melhor dizendo, é Bioy, com suma cortesia, que se deixou inventar, com a condição de manter alguns favoráveis sinais distintivos: ao lado de Borges será sempre jovem; ao lado de Borges será sempre longo, porque escreve romances, os romances que Borges aceitou não escrever para que Bioy os escrevesse.   Naquela noite, a de 31 de dezembro de 1970, após jantar peru com purê, os amigos incansáveis trancam-se a traduzir Shakespeare. “Com Borges dormimos um cadinho, versificando em espanhol as bruxas de Macbeth”, escreve Bioy em seu diário, e a imagem reaparece de forma invariável: em 10 de janeiro diz que trabalharam “cabeceando entre hendecassílabo e hendecassílabo”, e em 13, que traduziram “entre cabeceios”, e em 18 é Borges quem aceita que trabalhem “na

Alguém ainda quer levar o autor para a cama?

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Por João Victor Uzer Bertha Wegmann   Na aula de sociologia, a aluna discutindo O Espírito Protestante de Max Weber, chamou o autor pelo primeiro nome. A professora questionou: “Que intimidade é essa com o autor?”, ao que a aluna respondeu: “Somos íntimos sim, até levei ele para cama ontem à noite”. A aluna referia-se ao fato de ter passado a noite deitada em sua cama, com a luz de cabeceira acesa, estudando o livro. Essa é uma anedota boba, mas que, de forma humorada, mostra a relação entre livro e leitor.   O ato de ler é naturalizado pelo senso comum e é tomado como algo orgânico, mas as formas de ler, a relação entre leitor e livro modificou-se consideravelmente com o tempo. A começar pelo fato de que a leitura é adotada simplesmente como recreação, quando também se trata de um exercício físico e mental. Conforme argumenta o filósofo Antonio Gramsci: “Deve-se convencer muita gente de que o estudo é também um trabalho, e muito cansativo, com um tirocínio particular próprio, não só

Em “Dias perfeitos”, Wenders é mais Wenders que nunca

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Por Ernesto Diezmartínez Durante a primavera de 1983, o cineasta alemão Wim Wenders visitou o Japão para realizar um documentário sobre Tóquio, ou melhor, sobre uma Tóquio inexistente, aquela retratada no cinema de Yasujiro Ozu (1903-1963), “um paraíso que outrora foi realidade”, como o próprio Wenders disse numa entrevista recente. O documentário que se chamou Tokyo-Ga , foi filmado em 1983, mas editado até 1984 — Wenders dirigia sua obra-prima, Paris, Texas (1984) — e estreou finalmente em 1985 em Um Certo Olhar, mostra paralela à seleção oficial do Festival de Cannes.   Wenders e seu então jovem fotógrafo, o futuro três vezes indicado ao Oscar Edward Lachman, chegaram ao Japão no 20º aniversário da morte de Ozu e vagaram por Tóquio por várias semanas, capturando momentos, ações e cenários completamente aleatórios: os barulhentos e lotados salões de pachinko , um “estádio” tranquilo onde os japoneses praticavam suas tacadas de golfe, o cuidadoso processo de fabricação dos pratos sin

Coelho maldito, de Bora Chung

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Por Sérgio Linard Bora Chung. Foto: Hye-young.   Talvez seja desnecessário reafirmar o fato de que grande parte do que se produz na literatura sul-coreana merece nossa detida atenção. Obviamente que como todos os materiais culturais que recebem farta ampliação de investimentos e de divulgações, a saturação, a produção de “enlatados” e a afirmação de ditames meramente declaratórios acabam sendo valas comuns em que os excessos acabam caindo. Este não é, sobremaneira, o caso de Coelho maldito . O livro de contos, publicado originalmente em 2017, chega ao Brasil trazendo, pela primeira vez, a autora para os leitores deste lado do Atlântico. Destaco, desde já, ser este um caso de leitura bastante recomendada, seja por sua qualidade de condução narrativa seja por sua abordagem de temáticas com primorosas ousadia e coragem já comuns — é verdade — em muitas produções literárias orientais.   Normalmente, a elaboração de contos exige, por parte do autor, um poder de concisão e de construção de

B. Traven: o homem que nunca esqueceu

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Por Barry Gifford Ilustração: Vasyl Savchenko   Realmente importa saber quem foi B. Traven? Foi alguma vez um serralheiro polonês chamado Feige? Um ator que virou jornalista radical em Munique chamado Ret Marut? Um emigrante alemão ou talvez norueguês chamado Traven Torvsan? Um estadunidense chegado da Europa que alguma vez trabalhou como marinheiro e desembarcou em Tampico em 1942 para nunca mais navegar? Ou era Hal Croves, que em 1947 se apresentou a John Huston como o agente do autor de O tesouro de Serra Madre , no Hotel Reforma, na Cidade do México? Era filho ilegítimo de um industrial judeu alemão chamado Emil Rathenau e de uma atriz chamada Josephine von Stenwarldt? Ou o filho ilegítimo do Kaiser Wilhelm e de uma atriz chamada Helen Mareck ou Helen Maret?  Por que Ret Marut — antissemita mas exaltado defensor do anarquista judeu Gustav Landauer na Baviera em 1919 —, que muitos pensam ter se tornado B. Traven, foi um contador de histórias e humanista que se isolou no México depo