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Quando uma gramática nos leva para longe

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Por Rafael Bonavina  Henrique Canary. Foto: Arquivo da Usina Editorial De tempos em tempos, um turbilhão de memórias passa pela nossa frágil razão e a leva consigo para sabe-se lá onde. É como se a lembrança nos agarrasse pelo colarinho e jogasse escada abaixo, e nós, sem qualquer meio de resistir a esse assalto cognitivo, rolamos pelos degraus, semiconscientes do que está acontecendo. Este ano começou, para mim, com um desses eventos interiores, causado pelo lançamento da Gramática da língua russa para brasileiros , escrita por Henrique Canary, professor de língua russa e doutor em literatura e cultura russa pela Universidade de São Paulo. O lançamento ocorreu no dia 31 de janeiro, no Café Colombiano, um centro de cultura acolhedor de São Paulo que também é um importante espaço de resistência latino-americana. A casa cheia de participantes, o autor empolgado pelo seu discurso sobre linguística, língua russa e sua relação pessoal com esse país tão intrigante e contraditório. E eu, ...

Amanhã não ousarão nos assassinar, de Joseph Andras

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Por Sérgio Linard  Joseph Andras. Foto: Rezvan S. Para Marguerite Yourcenar, todo romance é histórico. Para a autora, a narrativa que se apresenta, de um modo ou de outro, terá relações com o passado, incluindo-se aí as possibilidades de questionamentos ou de reafirmações. Os estudos acadêmicos e as inovações cada vez mais constantes das perspectivas acerca dos romances fazem com que o dito romance histórico seja classificado com um subgênero dentro deste grande guarda-chuva que é a tradição romanesca.  Grosso modo , destacamos como resultado de uma figuração histórica aquela narrativa que recorre ao arcabouço de um romance para ficcionalizar eventos que efetivamente aconteceram. Não pretendo me deter nestes detalhes, mas de pronto adianto que considerarei, nesta resenha, Amanhã não ousarão nos assassinar (a partir daqui citado apenas Amanhã... ) como fruto de um trabalho que busca resgatar — característica típica deste tipo de narração — um evento que efetivamente aconteceu....

Sirāt, a fracassada rave de Oliver Laxe

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Por Carlos Rodríguez  Sirāt (Espanha-França, 2025) começa com uma trama promissora que depois vacila. Luis (Sergi López) e seu filho Esteban (Bruno Núñez Arjona), um jovem que viaja com um cachorro, procuram por Mar, sua filha e irmã, respectivamente, em uma rave no deserto marroquino. Música, dança, drogas, o calor e as cores do deserto. Poderia ser um filme de Gaspar Noé, mas não, é o novo filme de Oliver Laxe. Recentemente, o diretor franco-espanhol tem insistido que o cinema, para ele, é uma experiência vivida nas salas de cinema. E de fato, em  Sirāt , Laxe oferece um espetáculo cinematográfico, especialmente através de seu do som, que surpreende o público na escuridão da sala. Isso apesar das deficiências do roteiro: os elementos usados para criar suspense — por exemplo, a presença da criança e do cachorro em cenas onde estão em perigo — são muito simplistas. Laxe privilegia vastas paisagens. Ele filmou Mimosas (2016), que sugere a intersecção de dois períodos tempora...

Um rodapé dostoievskiano

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Por Davi Lopes Villaça  Das várias estranhezas que compõem as Memórias do subsolo (1864), de Dostoiévski, gostaríamos de chamar a atenção para aquela discreta, mas muito significativa, nota de rodapé, assinada pelo autor, logo no início da narrativa, na qual ele que nos assegura do caráter ficcional de sua novela: “O autor das memórias e as próprias ‘memórias’, é claro, são inventados. No entanto, pessoas como o autor destas memórias não só podem como devem existir em nossa sociedade, levando em consideração as circunstâncias em que nossa sociedade, em geral, se desenvolveu. Eu queria apresentar ao público, com mais destaque do que o habitual, um dos tipos humanos de nosso passado recente. Trata-se de um dos representantes de uma geração que ainda vive. Nesta parte, intitulada ‘Subsolo’, essa pessoa apresenta a si mesma, seus pontos de vista e, de certa forma, quer esclarecer os motivos pelos quais ela surgiu, e tinha se surgir, em nosso meio. Na parte seguinte, virão as ‘memórias...

As Eruditas, de Molière, e a encenação de Emma Dante

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Por Amanda Fievet Marques Foto: Christophe Raynaud de Lage/ La Comédie Française As Eruditas (1672), de Molière, é uma comédia de costumes em cinco atos, que satiriza o pedantismo e a falsa erudição. A peça opõe fundamentalmente as irmãs Armande, que se diz filósofa e apregoa o primado do espírito sobre o corpo, e Henriette, que deseja se casar e constituir uma família com Clitandre. A posição de Armande é reiterada pela sua mãe, Philaminte — que, embora também se arrogue tão conhecedora da filosofia é incapaz de controlar seus humores contra o seu marido Chrysale, dominado por ela —, e por sua tia, Bélise, que crê lunaticamente ter todos os homens a seus pés. Já Henriette tem ao seu lado seu pai Chrysale que, para sua alegria, vai tentar casá-la com Clitandre — que a corteja e de quem ela gosta —, contra o desejo de Philaminte de casá-la com o falso poeta Trissotin.  A sátira do pedantismo se acentua e gera o riso pelo exagero, por exemplo, quando Philaminte despede sua empregada...

Boletim Letras 360º #678

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o Letras permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .   Orides Fontela. Foto: Fritz Nagib LANÇAMENTOS Toda obra de Orides Fontela outra vez disponível para os leitores. Investimento da editora Hedra acompanha o anúncio da organização da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de que a poeta paulista é a homenageada na edição do evento de 2026. Projeto tem fixação dos textos por Ieda Lebensztayin . 1. A poesia breve e densa de Orides Fontela coincide com a sua obra, constituída por apenas cinco livros avessos aos modismos de seu tempo e por isso entre os mais singulares da poesia brasileira do século XX. Quando se mudo...