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Prosa sem cabeça

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Por David Toscana  Sebastián de Llanos Valdés, A cabeça de S. João Batista. Talvez o decapitado mais famoso da história seja João Batista. Leiamos esta passagem bem conhecida de Mateus: “Durante uma festa de aniversário, a filha dançou e agradou tanto a Herodes que ele jurou dar-lhe o que pedisse. Instigada pela mãe, ela pediu a cabeça de João Batista numa bandeja. O rei entristeceu-se, mas atendeu ao pedido devido ao juramento feito aos convidados. João foi decapitado na prisão, e sua cabeça entregue à jovem, que a levou à mãe.” Aprecio essa concisão dos antigos, a ênfase na essência em vez dos detalhes, sem sacrificar o poder da narrativa. Num romance contemporâneo, teríamos mais páginas. As palavras “dançou e agradou” se multiplicariam com os movimentos eróticos de Salomé e as vestes e véus que gradualmente se desprenderiam, revelando o fascínio de um corpo pelo qual Herodes jurou dar-lhe tudo o que pedisse. Haveria instrumentos de percussão, cítaras, alaúdes, harpas e flau...

Boletim Letras 360º #713

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DO EDITOR Continuamos a querer alcançar mais leitores. Há muito recebíamos o pedido de divulgarmos as novas edições e reedições, como fazemos neste Boletim há alguns anos, mas na nossa página do Facebook desde 2012, também no Instagram. Algumas adequações nesse outro espaço agora permitiu-nos cumprir com esse desejo. Abrimos um braço com o nome de @roldoletras. Se quiser, já pode seguir. É muito bem-vindo.  Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto a custear as despesas com domínio e hospedagem online. A sua ajuda continua essencial. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .  Julio Cortázar. Foto: Sara Facio LANÇAMENTOS Pela primeira vez no Brasil, a poesia de um dos principais escritores latino-americanos do século XX .  A pai...

Azul e dura, de Beatriz Bracher

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Por Gabriella Kelmer   Beatriz Bracher. Foto: Eduardo Knapp Quando os tempos são contrários, não raras vezes a literatura possibilita nosso contato com um escapismo tão inteiriço quanto é a submersão — exclusiva ao texto — ministrada pela linguagem. A obra literária pode sublimar a existência ao reduzir a acústica da realidade imediata, como meio legítimo de virar as costas ao abismo que se aproxima. O outro caminho é contrário e corresponde ao confronto com o presente, o que é potencializado pela singularidade da obra, repartida, muitas vezes, entre o dado estético e a especificidade com que a produção se vincula à realidade. Ler é epifânico também quando se evidenciam os retalhos das nossas circunstâncias, quando se dinamizam alguns dados históricos, políticos, sociológicos. Sendo indevido reduzir a esse escopo o fato literário, é igualmente discorde ignorar que a obra absorve e digere em alguma medida a realidade, reestruturando-a. Tendo precisado da primeira estratégia em algun...

Tratado do tempo: notas sobre Ressuscitar mamutes, de Silvana Tavano

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Por Vinicius de Silva e Souza Tenho evitado ler literatura brasileira contemporânea porque se deixar, leio apenas isso. Queria, esse ano, ler mais livros em inglês; mais clássicos; mais literatura estrangeira. Até tenho conseguido, apesar de me ver constantemente sequestrado pelas Histórias em Quadrinhos. Mas eis que peguei alguns brasileiros para ler nesse último mês —  Salvar o fogo , de Itamar Vieira Junior, poesia, é claro, sempre. Ressuscitar mamutes , em particular, me despertou bastante curiosidade porque, primeiro, já conheço Silvana de uma rápida oficina online que fizemos em um dia qualquer de 2022, se não me engano, e, segundo, por sua fala na Festa Literária Internacional de Paraty em 2024. Acrescento ainda um terceiro motivo: quão bem essa obra foi na temporada de premiações passada: levou o Oceanos na categoria prosa e figurou como finalista em diversos outros prêmios. Pois bem, me aventurei nessa leitura e o resultado não poderia ser mais — faltou adjetivo para concl...

Sintaxe caudalosa

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Por Thiago Teixeira De-Amenti. Leitura em família de uma passagem comovente de Os noivos . Já Otto Maria Carpeaux reclamava, em sua época, da ausência de Os noivos na formação dos leitores modernos. O que dizer, então, da nossa época? Um pouco diferente da Itália, onde o romance ainda figura na formação escolar, ele é aqui desconhecido até mesmo por quem declama amores pela literatura. Curiosamente, não faz muito tempo ele foi leitura corrente, mesmo com as edições fragmentadas ou adaptadas tão em voga até alguns anos atrás.  E não nos faltam traduções. Temos duas excelentes, uma mais antiga, do português José Colaço Barreiros, e uma mais recente, do brasileiro Francisco Degani. São, ambas, primorosas, baseadas na versão fidedigna, incluindo o episódio da Colônia infame. Claro que, devido a escolhas tradutológicas ou editoriais, nem tudo acaba sendo transmitido da versão italiana — e é possível que nem mesmo ouvidos italianos consigam captar todas as notas do original. Uma de...

Anne Carson, prêmio Nobel de Literatura

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Por Ernesto Hernández Busto Anne Carson. Foto: Pontus Lundahl Quem procura informações a respeito de Anne Carson nas capas dos seus livros encontrará apenas uma breve menção: “Nasceu no Canadá e ganha a vida ensinando grego antigo”. A escritora cultivou essa discrição com o mesmo cuidado que outros se dedicam a nutrir uma florida reputação. Concede poucas entrevistas, e as que dá costumam ser evasivas e, por vezes, desconcertantes. Por trás dessa autobiografia mínima, porém, reside uma extensa trajetória: um doutorado em Línguas Clássicas, anos de ensino em McGill, Michigan e Nova York, e uma obra que jamais separou os estudos acadêmicos da escrita criativa. Essa fusão é sua característica definidora. Tudo começa com Eros, o doce-amargo (1986), um ensaio sobre o desejo na Grécia Antiga que se lê como um poema. Nele, Carson propõe que o eros nasce de uma carência, e que essa falta só se torna visível em um triângulo. O glukupikron de Safo (“agridoce”, ou melhor, “doce-amargo”) não des...