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Percorrendo outras paragens da nação pelo Rio Negro em Um rio sem fim, de Verenilde S. Pereira

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Por Douglas Sacramento   Verenilde S. Pereira. Foto: Gabriela Biló. I Quando o literário serve de insumo para corroborar ou rasurar determinados discursos dados como verdades universais ganha estatuto de documento de uma memória coletiva, seja de grupos sociais e étnicos, seja do próprio país em que o escritor está inserido. Atento a esse movimento, o teórico indiano Homi K. Bhabha, em O local da cultura , discorre que o discurso de nação sempre emprega em seus atos cívicos e na história oficial a ideia de que “somos todos um”, produzindo um sentimento de pertença coletivo. Contudo, um país de modo unívoco é uma falácia, pois aqueles que ocupam as margens sociais experimentam a nação de modo outro. É nesse contexto que Bhabha propõe o conceito de contranarrativa . Para o teórico, essas são narrativas de rasura, que confrontam o discurso totalizante da nação; ao colocar a ideia de nação num campo de disputas, produzem “deslocamento contínuo da ansiedade do espaço moderno irremediave...

As cartas que sobreviveram: Caio F. pede contato a Hilda Hilst

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Por Felipe Vieira de Almeida  A troca de cartas é uma forma de comunicação que não experimentei e sinto que tenha se perdido, em grande medida. A iniciativa ainda é possível, mas, em outro tempo, o uso da carta trazia consigo uma faceta a mais nos relacionamentos de longa (ou dificultada) distância. Senti mais uma vez esse saudosismo pelo que não tive ao ler sobre as missivas trocadas ao longo de uma vida entre Caio Fernando Abreu e Hilda Hilst com todas as suas idas e vindas.  Falo de  Numa hora assim escura  editado pela jornalista Paula Dip. Amiga pessoal do escritor, ela recebeu o rico volume de cartas trocadas entre o autor e Hilda, a amiga, mentora, confidente e inspiração. Esse material foi salvo por intervenção do poeta Antonio Nahud Júnior, quando a fúria de Hilda Hilst, conhecida por seu temperamento intempestivo e personalidade forte, desejava incinerar tudo passada uma briga com o amigo.  Os papéis felizmente sobreviveram e aparecerem em livro a...

Boletim Letras 360º #698

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o Letras permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .  Orides Fontela. Foto: Fritz Nagib LANÇAMENTOS Às portas da Festa Literária Internacional de Paraty, a obra de Orides Fontela, homenageada na edição de 2026 do evento, ganha novos acréscimos com dois livros inéditos editados pela Hedra . 1. Conversas: escritos e entrevistas de Orides Fontela  traz quatro textos da poeta, três deles publicados originalmente em periódicos e um inédito. Nesses ensaios e depoimentos, a autora reflete sobre o fazer poético e a relação entre poesia e filosofia em suas dimensões estética, ética e política. O volume reúne ainda quinze entrevistas...

Onde a palavra erra: leitura do “Livro de erros”, de Maria Lúcia Dal Farra

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Por Eliane Santa Brígida Maria Lúcia Dal Farra. Foto: Portal da UFS “A marca suja da vida”¹, não o arrumado, o produzido, filtrado, o milimetricamente, racionalmente editado, manipulado, mas o que escapa. E escapa porque é potente em si e está alheio ao controle, é vivo, extrapola. E por escapar ao pretenso controle o chamamos erro, não reconhecendo que essa força, que resiste aos nossos cálculos, é a própria vida pulsando para além do humano, e dando a este a sua medida, confrontando-o com sua falência, e convocando-lhe a um novo pensar; renovando, no próprio humano, a sua capacidade inventiva, sua potência vital. O erro é motor de mudança, é potencial inventivo, convoca a uma nova perspectiva, nos impulsiona, quando nos tira do lugar confortável — como a poesia de Maria Lúcia Dal Farra².  A poetisa inicia seu Livro de erros  erigindo um pórtico, onde se coloca avisando aos seus leitores: o que o espera do outro lado é essa poesia maldita, desinquietante, que cai sobre o...

Luigi Pirandello e o papel ontológico do artista

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Por Juliano Pedro Siqueira   A vida, ou se vive ou se escreve. — Luigi Pirandello Luigi Pirandello. Foto: Bettmann A novela A tragédia de um personagem (1911) é um protótipo do que viria a ser o “teatro no teatro” ou metateatro. Segundo Carpeaux, Pirandello opta pelo estilo diferente da encenação convencional, focando no caráter ficcional das personagens, na imaginação e na ironia amarga. A sua abordagem assenta-se em dois terrenos paradoxais, sendo a tensão permanente entre a realidade e a ilusão. Personagens que de forma imagética exercem autonomia nas ações desenvolvidas na construção narrativa. Certa feita, o autor afirmou ter um velho hábito — para não dizer estranho e incomum — de estabelecer audiências com personagens candidatas a participarem das suas futuras obras. A maioria apresentam as suas razões de defesa, mostrando-se as suas reais pretensões e resistências. Nos primeiros parágrafos da Tragédia de um personagem , nota-se que o autor encontra dificuldades em pen...

Guerra civil e revolução no cinema de Ken Loach

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Por Michel Goulart da Silva No dia 17 de julho de 1936, ocorreu o levante militar liderado pelo General Francisco Franco, dando início à Guerra Civil na Espanha. Esse processo teve no filme Terra e liberdade (1995), premiados em Cannes, uma de suas melhores interpretações produzidas para o cinema. O diretor Ken Loach se baseou principalmente em relatos de pessoas que viveram o processo, como o escritor britânico George Orwell, em sua Homenagem à Catalunha .  Loach produziu, assim, uma obra épica emocionante, fazendo um debate entre tática e estratégia na luta política que se mostra relevante ainda na atualidade. O filme mostra desde a empolgação de vitórias em batalhas contra o franquismo até a tristeza de ver as traições das direções e a morte de numerosos combatentes da Revolução Espanhola. O centro da história narrada no filme é David Carr, membro do partido comunista inglês, que, ao se voluntariar para lutar na guerra civil, acaba sendo integrado a uma milícia comandada pelo P...