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Das influências pitagóricas segundo Charles Kahn

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Por Afonso Junior Durante muito tempo, o sistema conceitual de Aristóteles parece ter moldado o que se entendeu por filosofia — até mesmo influenciando a erudição medieval e moderna. É famosa a colocação de Galileu de que o estagirita era seu mestre, ainda que tenha desafiado suas premissas. Talvez por isso, alguns sábios da Antiguidade, como os pitagóricos, medidos pelo método aristotélico, tenham sempre ganhado um espaço menor na pesquisa, mesmo que tenham sido reconhecidas suas “influências”, desde Platão até o pensamento científico.  Pitágoras e os pitagóricos: uma breve história , de Charles Kahn, faz parte dessa redescoberta de um dos sistemas mais originais e de maior impacto na história do pensamento ocidental. Uma das grandes rupturas dos saberes iniciáticos como o pitagorismo (praticamente fundido ao orfismo em determinado momento), é a “criação da alma imortal”, a ideia de que a alma homérica, simples hálito do ser vivo, que vive como sombra sem força no Hades, pass...

Uma ressonância de Dostoiévski em Boca de ouro

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Por Rafael Bonavina  O solitário , Oswaldo Goeldi. Seria muito difícil negar a influência que Fiódor Dostoiévski teve sobre Nelson Rodrigues, tão difícil que poderíamos nos eximir da tarefa de apontá-la. Mas, para quem ainda não a conhece, basta nos remetermos à crônica “Uma banana como merenda”, em que ele nos diz: “Certa vez, um erudito resolveu fazer ironia comigo. Perguntou-me: ‘O que é que você leu?’. Respondi: ‘Dostoievski’. Ele queria me atirar na cara os seus quarenta mil volumes. Insistiu: ‘Que mais?’. E eu: ‘Dostoievski’. Teimou: ‘Só?’. Repeti: ‘Dostoievski’. O sujeito, aturdido pelos seus quarenta mil volumes, não entendeu nada. Mas eis o que eu queria dizer: pode-se viver para um único livro de Dostoievski. Ou uma única peça de Shakespeare. Ou um único poema não sei de quem. O mesmo livro é um na véspera e outro no dia seguinte. Pode haver um tédio na primeira leitura. Nada, porém, mais denso, mais fascinante, mais novo, mais abismal do que a releitura.” (p. 37-38) A fi...

Sobre Gestos utópicos em labirintos distópicos: uma inquietação

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Por Lucas Paolillo Nos laboratórios da criatividade individual, uma alquimia revolucionária transforma em ouro os metais mais vis da vida cotidiana. Trata-se antes de tudo de dissolver a consciência das coações, ou seja, o sentimento de impotência, por meio do exercício sedutor da criatividade: derretê-los no impulso criador, na afirmação serena do seu gênio. A megalomania, tão estéril no plano da corrida por prestígio do espetáculo, representa neste caso uma fase importante na luta que opõe o eu às forças coligadas do condicionamento. Na noite do niilismo que atualmente nos envolve, a fagulha criadora, que é a centelha da verdadeira vida, brilha com maior fulgor. E enquanto o projeto de uma melhor organização da sobrevivência aborta, existe, na multiplicação dessas fagulhas que pouco a pouco se fundem em uma única luz, a promessa de uma nova organização baseada desta vez na harmonia das vontades individuais. O devir histórico nos conduziu à encruzilhada na qual a subjetividade radical...

Ensaios do desespero, de Antonio Puppin

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Por Gabriella Kelmer Na epígrafe que antecede os contos de Ensaios do desespero , de Antonio Puppin, o poeta cristão San Juan de La Cruz afirma que “lloraré la morte ya/ y lamentaré mi vida”, versos a serem associados a um plano existencial de pecados. A escolha pela citação desdobra-se logo na presença da morte, matizada como irrupção violenta, dispositivo adormecido e fadiga existencial, sendo ela um dos temas a atravessar as nove narrativas curtas que compõem a coletânea, e no lamento incessante pela vida. A menção do título ao desespero é, nesse sentido, vinculada ao modo como cada conto introduz situações que, se não angustiantes em si mesmas, têm a morte e a dor existencial como limiar. O tom ensaístico é presente, por sua vez, em narrativas como “Fortuna”, “O outro” e, em especial, “Desespero e eternidade”, a apresentarem narradores em primeira pessoa cuja permanência no plano das ações é ocasional (sendo aliás inexistente na última narrativa, mais propriamente ensaio). Os conto...

Canto noturno de um pastor errante da Ásia: comentário e tradução

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Por Thiago Teixeira  O homem não passa de um caniço, o mais débil da natureza; mas é um caniço pensante.  — Pascal Edvard Munch, Melancolia .  “É preciso saber esquecer”. Esta bela frase é o do Nietzsche da “Segunda consideração extemporânea”: Da utilidade e desvantagem da história para a vida . Ele inicia o texto com uma imagem: o homem no alto de sua superioridade depara-se com um rebanho de animais e os inveja. Inveja-os, pois percebe que eles não se curvam ao peso do tempo, eles não têm uma noção de passado, uma memória, uma lembrança, e, por isso, estão aptos para a felicidade. Os animais são capazes de se esquecer, já o homem, ser histórico, é abatido pelo mal de Funes, el Memorioso e chega mesmo a viver de memórias, acumulá-las como um colecionador. Acontece que, para a felicidade, diz então Nietzsche, é preciso fazer concessões nessa postura excessivamente histórica: é preciso saber esquecer: “Considera o rebanho que passa ao teu lado pastando: ele não sabe o que ...

Boletim Letras 360º #705

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