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O talento marginal: uma breve reflexão do conto ”O passageiro da primeira classe”, de Tchekhov

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Por Juliano Pedro Siqueira  Édouard Vuillard, O vagão de primeira classe .  O ser humano, em sua interação social, é um inveterado carente em busca de aprovação e reconhecimento. Não importa quão habilidoso um indivíduo seja ou o esforço que ele despenda para atingir o sucesso pessoal, se não houver a contrapartida da validação alheia e os aplausos daqueles que o cercam. Basta olhar para algumas instituições espalhadas pelo mundo, que resolveram premiar personalidades que contribuíram para o progresso humano nas mais diversas categorias. Imagina um escritor. O desejo de qualquer um é contemplar o trabalho laureado por um Nobel, Pulitzer ou até mesmo ter o nome imortalizado em alguma Academia de Letras. Mas a história revela suas contradições quando o assunto é talento versus reconhecimento. Tomei o conto “O passageiro da primeira classe” de Anton Tchekhov para refletir como pode ser frustrante ou traumático quando uma pessoa dotada de talento ou exímia habilidade torna-se, de ...

Best-Sellers de outros tempos: Cuore, de Edmondo De Amicis

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Por Javier Pérez  Eduardo Arroyo. Cuore Retrato de Edmundo De Amicis   O livro, claro, é muito mais extenso e contém mais histórias, mas aqueles de nós que cresceram com os desenhos animados do Marco — aquele pobre menino que, com seu macaco Amedio, vivia inúmeras aventuras em busca da mãe — lembram-se de cada episódio da série com carinho especial e até sabem a letra da música-tema e o título original da obra: “Dos Apeninos aos Andes”. O carinho é outra questão, como o carinho que Kundera sentia pelas fotografias de Hitler passeando por Praga: ele não gostava de se lembrar de Hitler, mas gostava de se lembrar da sua infância. Edmondo De Amicis, autor da obra de enorme sucesso, foi um soldado, viajante, escritor e jornalista da segunda metade do século XIX. Figura de sucesso em sua época, com mais de uma quinzena de livros publicados, alcançou fama, fortuna e imortalidade com a coletânea de contos intitulada Cuore  ( Coração ) lançada primeiramente em outubro de...

A discreta rebeldia de Digger

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Por Nicolás Ruiz Berruecos  1 Acumulam-se as críticas negativas acerca do novo filme de Alejandro González Iñárritu, Digger . Todas elas acertam em certos aspectos, mas ignoram um ponto central. Este não é apenas mais uma sátira liberal. A visão limitada dos críticos estadunidenses reside em acreditar que sua rebeldia é meramente uma questão temática. Que é simplesmente um filme didático e repreensivo com uma agenda política óbvia. E, em certo sentido, é. Mas Digger não é interessante por sua posição sobre as mudanças climáticas ou o sistema político dos Estados Unidos. É interessante porque morde a mão que o alimenta. O tema não é novo e o vimos repetido em Hollywood desde a década de 1950, com Wilder e Minnelli. Mas, neste momento, com a autocomplacência de Hollywood e seus problemas políticos hipócritas, este ato inesperado, se não é original, é pelo menos rebelde. E não deveria passar despercebido. Dizer que o filme de Iñárritu é autoconsciente seria um eufemismo. Digger é um...

Entre arquivos e a figura paterna em Visita ao pai, de Cristovão Tezza

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Por Douglas Sacramento Cristovão Tezza. Foto: Renato Parada. Reprodução a partir da Folha de S. Paulo .   A literatura na contemporaneidade faz um retorno ao arquivo. Os autores têm retornado às suas próprias genealogias e construído ficção a partir dos materiais deixados e conservados pelos familiares. Ao tratar do verbete “Arquivo”, o livro Indicionário do contemporâneo  compreende que existe essa faceta do contemporâneo em “trabalhar com os restos”, resultando num acolhimento “dos espectros”. Na utilização do arquivo, os autores transformam e aglutinam seus materiais no literário. O arquivo está “sujeito a metamorfose”. É nesse processo de inserir, ampliar e estabelecer diálogos com o arquivo do pai por meio da autoficção que Cristovão Tezza constrói Visita ao pai  (2025). O autor, que nasceu em Santa Catarina, escreveu mais de vinte e cinco livros e possui obras publicadas em mais de quinze países, tem como obra mais conhecida e premiada O filho eterno (2007). Se em ...

Muito além da história

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Por Karl Ove Knausgård  Gerrit Dou. Um erudito apontando uma pena O trabalho de um editor que lida com o literário se realiza em uma espécie de sombra criada pelo escritor. Alguns editores saíram das sombras e são igualmente condenáveis e famosos, pois os dois papéis, “editor” e “famoso”, são uma espécie de contradição, na verdade, um tanto inconciliáveis. Um exemplo é Gordon Lish, que entre outras coisas foi editor de Raymond Carver e foi apelidado de Capitão Ficção. Outro é Maxwell Perkins, editor de Hemingway, que recebeu o epíteto de Editor de Gênio. Um dos trabalhos de edição mais importantes já realizados foi feito por Ezra Pound, certamente não como editor formal, mas como amigo, quando revisou sem piedade uma versão inicial de The Waste Land , de T. S. Eliot, e a refinou até alcançar a versão que conhecemos hoje.  O estilo editorial de Gordon Lish era igualmente independente e intransigente: foi na verdade a sua escrita que criou o estilo que associamos a Carver, que c...

Boletim Letras 360º #715

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DO EDITOR Continuamos a querer alcançar mais leitores. Há muito recebíamos o pedido de divulgarmos as novas edições e reedições, como fazemos neste Boletim há alguns anos, mas na nossa página do Facebook desde 2012, também no Instagram. Algumas adequações nesse outro espaço agora permitiu-nos cumprir com esse desejo. Abrimos um braço com o nome de @roldoletras. Se quiser, já pode seguir. É muito bem-vindo.  Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto a custear as despesas com domínio e hospedagem online. A sua ajuda continua essencial. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .    Clarice Lispector e Maury Gurgel Valente. Washington, 1955. LANÇAMENTOS As cartas de Maury Gurgel Valente para Clarice Lispector .   Em 1943, mesmo...