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Eleições com Héracles, ou os doze trabalhos de um povo

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Por Afonso Junior O país em meio ao caos. Um tirano ameaça. Militância digital. Entre Eurípides e o demônio maquiado pela mídia e pelo mercado financeiro. Por acaso estava lendo a peça de Eurípides no momento da avalanche que se abateu sobre o país. Vamos sair deste inferno? Resistir é preciso. Eurípides, nascido em Salamina c. 480 a.C., era filho de um proprietário de terras e estreou como dramaturgo no ano da morte de Ésquilo (455 a.C.). O tragediógrafo é mais famoso por sua versão da personagem de Medeia, a quem atribuiu o assassinato dos filhos. Sua contribuição maior tem sido vista como a ênfase na psicologia individual, em debates da sua época e no estudo das emoções extremas. Mas outro aspecto pode ser destacado: a reflexão sobre os deuses.  Assim, em As Bacantes , o deus Dionísio se vinga terrivelmente do rei Penteu que impede seu culto na cidade de seus ancestrais. Platão, que teria em torno de 20 anos quando da morte do dramaturgo, segue esta revisão dos mitos em busca da...

O riso da Medusa, de Hélène Cixous

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Por Ana Sainz Quesada  A ideia de que o contexto, seus atores, representantes e símbolos moldam o pensamento contemporâneo não é de forma alguma revolucionária; Hélène Cixous já a defendia em 1975 e continua a fazê-lo até hoje, com a publicação de O riso da Medusa , sem qualquer traço de obsolescência.  Judia francesa nascida na Argélia — talvez uma das poucas publicamente modestas por conta de sua origem —, Cixous explora o que, na época, era uma nova relação entre literatura e sujeito, entre linguagem e psicanálise. Ainda profundamente enraizada na tradição filosófica de seu tempo — ela foi contemporânea e colega de Jacques Derrida, Michel Foucault e Lacan —, sua escrita mantém uma busca contínua por brechas por onde a fluidez, desobediente e em constante transformação, possa se infiltrar, e a partir das quais ela reivindica o papel fundamental do inconsciente, um arquétipo presente em todo o texto e um de seus epicentros.  Hélène Cixous pratica a insubordinação formal:...

O Halloween e suas representações

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Por Michel Goulart da Silva O Halloween — conhecido também como Dia das Bruxas — teve, em grande medida, suas representações dominadas por imagens produzidas nos Estados Unidos ou pela associação ao cinema de horror. Esse processo se deu por conta da difusão de obras em diversas artes, na cultura popular e nas produções pela indústria de entretenimento e pela cultura de massa. Contudo, não pode se resumir o Halloween ao conjunto dos estereótipos comerciais. Esta celebração encontra-se ligada a fenômenos sociais relacionados às antigas crenças em torno da morte e à construção cultural do medo na sociedade que remonta a séculos ou mesmo milênios. Embora não haja uma absoluta certeza, essa data provavelmente surgiu devido a um festival praticado pelos celtas, povo que habitava as Ilhas Britânicas e possuía uma religião pagã séculos antes da penetração do cristianismo na região. Conhecido como Samhain, esse festival, realizado todos os anos entre 31 de outubro e 1º de novembro, era dedicad...

Fechado para balanço

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Por Lucas Paolillo “If we are to meet our critical moment in history, we need to reckon with the reality that we are not up against adversaries we have seen before. We are up against end times fascism.” — Em “The rise of end times fascism”, de Naomi Klein e Astra Taylor. Enquanto escrevo, corre o segundo turno das eleições de 2026. Por isso, o eventual leitor pode imaginar, não estou no momento mais apropriado para a meditação absorta. De modo que, peço licença, não consigo recalcar o mundo com vistas à escrita de um texto convencional ou mesmo me comprazer com ressonâncias alusivas. Para se ter uma ideia, houve quem sustentasse estarmos diante da eleição mais decisiva de nossas vidas, dado que o impacto em jogo, encruzilhada, se fará ecoar por décadas. Porém, antes do segundo turno, por todos os ângulos que se possa imaginar, não faltaram maneiras de subestimar este cenário. Como todo evento multifatorial desse porte, os motivos para uma afirmativa assim só podem ser bastante variados...

Leitura de orelhada

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Por Rafael Bonavina De tempos em tempos somos surpreendidos com algo tão antigo que, justamente por sê-lo, acaba esquecido e é apresentado como novidade. Não falo apenas dos casos, como o disco de vinil ou os compactos, de coisas que voltam à moda com um ar de vintage, pois esses até que têm seu charme de nostalgia. Apesar da pertinente discussão sobre a compra dessas mídias físicas como forma de recusa da situação precária de aluguel eterno que os streamings nos impõem, pretendo falar mais sobre uma prática que vem ganhando cada vez mais força nos últimos tempos: a leitura falada. Não é que as pessoas tenham abandonado de vez a prática de ler livros em voz alta para seus filhos, por exemplo, embora seja inegável que o número de adeptos dessa prática fundamental poderia ser maior. Contudo a leitura em voz alta era bastante comum em outros tempos, e não só para crianças, mas para adultos também. Sabe-se que as famílias se reuniam e liam livros assim, como um passatempo conjunto. O escr...

Oito poemas dos Diários do Exílio (volume III), de Yannis Ritsos

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Por Pedro Belo Clara Yannis Ritsos. Foto: Eric Ritsou I. (3 de fevereiro de 1950) Toda a noite os mortos trituram pedaços de gelo da lua. Já não sabemos o que fazer para não ouvir. E os ratos comem-nos o pão. O medo é maior que a raiva. II. (7 de fevereiro) Sombras carregadas de pedras o arame farpado esqueceste-te da pronúncia correcta do teu nome. Um gato preto corre com a lua presa à cauda. Que estranho —  Um silêncio tão grande E ninguém acorda. III. (15 de fevereiro) Onde é que este arame farpado termina? Caracóis rastejam sobre a roupa dos que foram assassinados. E porém não viemos ao mundo apenas para morrer. Porque de madrugada cheira a raspa de limão.  IV.  (24 de abril) A sombra da folha voltada por causa do sol. Descalça os sapatos. Descansa. Ou então recorda-te. As mãos dos lenhadores cheiram a resina. Atrás dos cestos pequenas raparigas compõem os roxos e os vermelhos. O teu erro é não quereres morrer. Mas talvez os mortos também sintam fome.  V. (5 de m...