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Quinquilharias, recordações e a alma de Wisława Szymborska

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Por Martín López-Veja


O Prêmio Nobel de 1996 descobriu para o mundo uma poeta que pouquíssimos conheciam fora da Polônia, receosa às entrevistas e que considerava que se confessar publicamente equivalia a perder a alma. Wisława Szymborska escrevia poemas transparentes que olhavam o mundo de um novo ângulo que se encontrava no interior dos seres e das coisas. Sua resistência em contar mais sobre sua vida do que aquilo que aparecia em seus poemas não intimidou Anna Bikont e Joanna Szczęsna, autoras da biografia Quinquilharias e recordações (Âyinè, tradução de Eneida Favre). Juntas, eles destilaram todas as vicissitudes da vida que habitava em poemas, resenhas, conferências e recitais; conversaram com amigos, reconstruíram sua árvore genealógica, recuperaram textos inéditos e organizaram uma história tão coerente que causou a curiosidade da própria Szymborska, que acabou concordando em se reunir com suas biógrafas, dizendo: “Certo, vamos esclarecer”.
O resultado são quase seis centenas d…

A cidade do vento, de Grazia Deledda

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Por Pedro Fernandes


As aparências enganam. E alguns enganos produzem desvios no destino com consequências irreversíveis. A narradora de A cidade do vento foi colorida com as mesmas tintas que sobraram da feitura de Emma Bovary: a mulher ávida por leituras, seu passatempo predileto, e profundamente marcada pela idealização amorosa ― se pela leitura, não sabemos, afinal, seus hábitos de leitora não são minuciosamente explorados. Sabemos que a modesta biblioteca que a família herdou pertencera ao seu tio bispo e que nela estão de livros não adequados à idade da narradora lidos na surdina da noite aos religiosos, dispensados de sua atenção: “todos os grandes clássicos, nossos ou traduzidos em língua italiana, muitos volumes em língua latina e livros religiosos, vidas de santos, bíblias e monografias religiosas”, descreve.
Os livros constituem ora em objeto de formação autodidata, visto lhe ser negada a educação formal e básica, ora o antídoto contra o ritmo monótono da vida. Por um golpe…

Pacarrete, de Allan Deberton

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Por Pedro Fernandes


Num país tomado pelo nivelamento do gosto cultural imposto pela cultura de massa, este filme é ao mesmo tempo um hino de amor à arte e um manifesto. De regresso à terra natal para acompanhar a irmã doente, Pacarrete volta a sonhar com a possibilidade de fazer reconhecida; mergulhada na cultura francesa, sente que seu destino é integrar o palco principal da tradicional festa da cidade e desempenhar um número de balé ― inspirado de Le Carnaval des Animaux, de Camille Saint-Saëns, e eternizado pela bailarina russa Anna Pávlova. Se ela conseguirá ou não realizar o feito, não cabe aqui revelar; fica o leitor desafiado a ver o filme sabendo que nada em Pacarrete é gratuito.
O conjunto bem elaborado dos elementos cinematográficos e uma narrativa que tende para o símbolo oferecem a dupla qualidade do verdadeiro cinema: contar uma história e transformá-la em imaginário. A personagem, inspirada numa figura com biografia fora do universo ficcional, é o rosto comum de imaginaç…

Conversas com suicidas

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Por Carlos Mayoral


Safo terá pulado do alto de uma pedra no fim da vida? Foi capaz de assumir que nunca poderia esquecer o amor não correspondido? Ao escutar o canto da sereia, o suicida sempre a imagina bela, atraente, necessária. Alfonsina Storni reflete sobre sentada na areia da praia de La Perla, em Mar del Plata. Deixou tudo amarrado, muito bem amarrado. Tomou cuidado para que seu filho não suspeite sobre a verdade: sua mãe deixou o hotel para observar o mar tranquilamente, embora o jovem acredite que se trate apenas de uma noite a mais. Alfonsina, entretanto, sabe que não. Alfonsina e, certamente, Safo também. Porque Safo é a poesia, diz-se. Ela alcançou a plenitude que ninguém alcançaria mais tarde, logo seu salto para o vazio do alto da rocha estava mais que justificado. E se a poesia, como diria depois Jaime Gil de Biedma, é o único recurso para dialogar ao mesmo tempo com os seus contemporâneos e os seus antepassados, quem sabe, isso não é agora uma conversa. Alfonsina sorri…

Um berço na Sicília

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Por Rafael Ruiz Pleguezuelos



Durante grande parte de sua vida, Luigi Pirandello foi seduzido pela ideia segundo a qual sua família poderia não ser sua, idealizando que pudesse ter sido trocado no berço ao nascer. Uma ama ainda mais fantasiosa acabou por fazer perdurar a dúvida para sempre. Em crises de egolatria entre infantil e suicida, percebia seu eu ― precisamente o dramaturgo da busca do eu ― menos mundano e mais espiritual que o da família onde havia nascido, um clã siciliano de cerradas tradições. A Sicília lhe parecia uma terra muito confusa e tradicionalista para ser sua, e levou a broma do filho trocado a tão longe que escreveu uma obra que ainda está por ser descoberta do grande público: essa Fábula do filho trocado que foi ofuscada pelo brilho cintilante de Seis personagens à procura de um autor. Pirandello jogou com o tema como uma pessoa tão séria como ele não podia fazer: produzindo uma grande obra a partir de uma simples suspeita. Muitos anos mais tarde, Andrea Camiller…

Boletim Letras 360º #381

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DO EDITOR
1. Caros leitores, abaixo estão as notícias divulgadas durante a semana na página no Facebook (ou não) e a atualização das demais seções deste Boletim com as recomendações de leitura, assuntos de arredores do campo de interesse do blog e a sugestão de visita a algumas das publicações apresentadas aqui. Obrigado a todos pela companhia ― sigamos juntos. Boas leituras!


LANÇAMENTOS
Nova tradução de O falecido Mattia Pascal, de Luigi Pirandello.
O que alguém faria se tivesse a chance de nascer de novo, de ser quem quisesse? Seria possível abandonar família, história, romper com a imagem que sempre teve de si mesmo? Tema caro ao italiano Luigi Pirandello, a autopercepção do sujeito em meio à sociedade em que vive leva a uma ruptura na vida de Mattia Pascal. O leitor acompanhará sua trajetória em meio ao embate entre identidade e sociedade, entre o passado e as possibilidades de futuro, em uma narrativa que flutua com elegância entre a melancolia e o humor e questiona a hipocrisia e…