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Das miudezas que não são miúdas em Escrevo seu nome no arroz, de Caetano Romão

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Por Douglas Sacramento Caetano Romão. Foto: Arquivo da editora Fósforo Em uma As aulas de Hebe Uhart , transcritas e reelaboradas por Liliana Villanueva, é abordada a relação perene entre linguagem e mistério. Nesse capítulo específico, a voz professoral, que aponta caminhos sobre a escrita e o labor literário, com suas dicas e frases eloquentes, pontua que, para escrever, são necessárias duas coisas: o sentido da linguagem e o sentido do mistério. Esse segundo sentido, que perpassa o literário, chama a minha atenção.  Para Uhart, o sentido do mistério encontra-se além do que está posto, muitas vezes oculto por trás da própria linguagem. Para isso, as personagens construídas pelo autor precisam ocupar, de alguma forma, esse lugar que instiga o leitor a procurar significados ocultos nessa zona nebulosa do mistério e que, de algum modo, a linguagem não consegue dar conta em sua plenitude. Essa aula de Hebe Uhart me veio à tona quando terminei Escrevo seu nome no arroz , de Caeta...

Neoconcretismo devassado e poético, as instaurações de Tunga

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Por Felipe Vieira de Almeida  Tunga é um artista brasileiro que me interessa singularmente, talvez por influência do pai, o poeta Gerardo Mello Mourão. As suas obras exalam literatura, poesia sobretudo, ao ponto de o próprio artista ter cunhado um neologismo para o que criava: instaurações.  O mercado contemporâneo de arte tenta a todo custo reter valor através de obras que existem como joias cujo valorização é medida não só pela raridade, mas também suposta pela relevância do artista que a criou. A performance, por outro lado, é o tipo de criação que por excelência não se permite capturar visto que está mais para um acontecimento e depende do corpo que a pratica, ainda que filmagens e fotografias tentem solidificar aquilo que acontece no tempo.  Híbrido entre os dois extremos, temos as obras que são instalações, associando os objetos de arte em um espaço com corpos, compartilhando limitações e possibilidades criativas com os exemplos já discutidos. Insatisfeito com essas...

Boletim Letras 360º #696

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o Letras permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .  LANÇAMENTOS Organizado por Caco Coelho e Crica Rodrigues, caixa reúne 150 crônicas de Nelson Rodrigues inéditas em livro, que posicionam o leitor na arquibancada, pronto para se deleitar com partidas emocionantes e vitórias memoráveis que contribuíram para moldar nossa identidade como nação . Da primeira conquista em 1958, na Suécia, seguida do bicampeonato no Chile, em 1962, passando pela dolorosa decepção de 1966, na Inglaterra, até chegar, em 1970, no México, à coroação do futebol que encantou o mundo e trouxe definitivamente para o Brasil a taça Jules Rimet, Nelson Rodrig...

O (des)dobrar do tempo-serpente em Macala, de Luciany Aparecida

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Por Monique Vitória Santos Rodrigues Luciany Aparecida. Foto: Arquivo do Estado de Minas    “Mulher negra da Bahia” é o título de uma fotografia registrada por Marc Ferrez, em 1885. Apesar de se conhecer o fotógrafo, não se tem conhecimento da identidade da mulher ali retratada. É a partir dessa lacuna histórica, tomando a figura da fotografada, que Luciany Aparecida constrói seu livro Macala (2022), e debruça-se na fabulação de quem seria essa mulher e qual sua história. Ainda que seja sua primeira obra poética, usar a literatura como forma de resgatar memórias ou questionar o passado não é um lugar incomum para Aparecida, afinal já publicou diversas narrativas que carregam tais dilemas, como o romance Mata doce (2023), Contos ordinários de melancolia (2017) e Florim (2020) — os dois últimos com seu pseudônimo Ruth Ducaso. Ademais, a autora é doutora, pesquisadora e professora do Programa de Pós-Graduação em Literatura e Crítica Literária da Pontifícia Universidade Ca...

O testamento do sr. Napumoceno da Silva Araújo, de Germano Almeida

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Por Gabriella Kelmer  Germano Almeida. Foto: Tiago Almeida (Reprodução do Expresso ) Não é tão fácil ter em mãos as versões físicas das obras do caboverdiano Germano Almeida, ao menos no Brasil. A exceção é uma edição do ano passado de A ilha fantástica , de 1994, publicada pela editora Oficina Raquel. Para além dessa incorrência, entretanto, é preciso recorrer inevitavelmente aos sebos e ao Kindle, contextos nos quais a bastante prolífica obra do escritor é encontrada sob o selo da editora portuguesa Caminho.  Embora tivesse cruzado com o nome do autor várias vezes, obtendo desses fortuitos encontros a distinção de ser ele incontornável para a prosa contemporânea de seu país, não conhecia em que medida esse impacto ocorrera, nem a partir de que procedimentos. Desejando iniciar o conhecimento com o escritor, aliás vencedor do prêmio Camões em 2018, recorri à edição virtual da obra para ler o seu primeiro romance, O testamento do sr. Napumoceno da Silva Araújo , publicado em 19...

Reconstrução e a sombra de John Ford

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Por Ernesto Diezmartínez  2025 foi um ano dos sonhos para o consagrado ator britânico Josh O’Connor: ele estrelou a mais recente obra-prima de Kelly Reichardt, Mente maestra (2025), viveu um romance discreto com Paul Mescal no sutil drama romântico-musical A história do som (Hermanus, 2025) e até roubou a cena de Daniel Craig em Vivo ou morto: um mistério Knives Out  (Johnson, 2025). No entanto, seu trabalho mais interessante estreou no início do ano, naquele que talvez seja seu melhor filme até o momento. Refiro-me a Reconstrução (Estados Unidos, 2025), o segundo longa-metragem de Max Walker-Silverman, apresentado fora de competição no Festival de Sundance de 2025. O’Connor interpreta Dusty Fraser, um rancheiro do Colorado que acaba de sofrer um desastre natural que também é existencial: seu rancho foi destruído em um dos incêndios florestais recorrentes que assolam o Oeste americano, deixando-o arruinado financeira e emocionalmente. O que um rancheiro pode fazer sem seu r...