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A mulher de Gilles e a releitura feminista de Bourdouxhe

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Por Felipe Vieira de Almeida  Madeleine Bourdouxhe Élisa é a esposa de um trabalhador da indústria pesada belga, criando duas filhas gêmeas e grávida novamente quando descobre que o marido, Gilles, mantém um caso com a irmã mais nova dela. É a partir desse enredo simples que a escritora belga Madeleine Bourdouxhe constrói a narrativa do livro A mulher de Gilles , título ambíguo cujo duplo sentido do título originial foi mantido pela tradutora Monica Stahel — Élisa é tanto esposa quanto propriedade de Gilles. O livro de Bourdouxhe foi publicado originalmente pela prestigiada editora Gallimard em um momento de valorização da literatura belga no meio literário francês após Charles Plisnier ter sido agraciado com o Prêmio Goncourt em 1937. Apesar da estreia auspiciosa em casa de renome, a obra, que teve recepção positiva com elogios muito direcionados ao estilo, perdeu força sob o rótulo de literatura proletária e chegou a ficar fora de catálogo durante anos.  Bourdouxhe participo...

Boletim Letras 360º #704

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto a custear as despesas com domínio e hospedagem online. A sua ajuda continua essencial. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras . Vinicius de Moraes. Foto: Otto Stupakoff   LANÇAMENTOS Obra recupera os mais de quarenta anos da lírica de Vinicius de Moraes, incluindo publicações de circulação restrita, além de poemas esparsos e inéditos . “O poeta tem o coração claro das aves/ E a sensibilidade das crianças”, escreve Vinicius de Moraes em seu primeiro livro, O caminho para a distância , publicado em 1933. A estreia, marcada pelo tom metafísico e religioso, anuncia uma trajetória única, inteiramente dedicada à poesia e aos seus desdobramentos. Com organização e apresentação de Eucanaã Ferr...

Por que há cada vez menos sexo nos romances?

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Por Javier Pérez Ilustração de A Book of Roxburghe Ballads   Alguns artigos precisam começar com uma fórmula ritualística, como se estivéssemos prestes a invocar nada menos que o próprio diabo. Assim vamos: há um pouco de tudo. Em quase todas as épocas, romances são escritos com mais ou menos sexo, com mais ou menos violência, e como o número de títulos publicados é astronômico, para cada dez exemplos que eu dou em uma direção, você pode encontrar outros dez que contradizem a tese. Há um pouco de tudo, e não se pode generalizar. Fique isso dito, e os cascos do bode já estão aparecendo atrás do teclado. Parece funcionar. Minha tese, no entanto, é que na literatura atual há menos sexo, e um sexo mais contido, do que na das últimas décadas. Minha experiência também indica que os editores estão cada vez mais inclinados a solicitar a remoção de certas cenas ou a torná-las mais “refinadas”, suprimindo alusões genitais explícitas, pedindo que se escreva carícias em botões rosados em vez d...

Romance com ficção

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Por Thiago Teixeira  Patrick Deville. Arquivo Radio France (Reprodução) Na guarda da capa vemos a fotografia de um homem jovem com a pele queimada de sol diante da varanda de uma cabana rústica. Todo de branco, não sabemos se em uniforme militar ou médico, mas certamente colonial, ele nos desperta uma reminiscência. Onde vimos uma imagem parecida? E então nos lembramos do raro registro do Rimbaud adulto, quando, já tendo rompido com a literatura, meteu-se no tráfico de armas em África, no que se tornou paradigma da figura do escritor que abandona a arte por uma vida aventurosa.  O nome do jovem rapaz é Alexandre Yersin, o renomado cientista que protagoniza o romance biográfico Peste e cólera , de Patrick Deville. O autor, como o biografado, é um homem de viagens e viu em Yersin uma figura central do século passado, descobridor do bacilo da peste bubônica, encarnando a ciência e a vida prática. Munido de documentação e seguindo as pegadas do biografado, o romancista reconstitui...

Os segredos do horror no filme O segredo da cabana

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Por Michel Goulart da Silva O filme O segredo da cabana  (2011) apresenta de forma bastante didática um conjunto de arquétipos característicos de um determinado tipo de filmes de terror, os slashers . Nesses filmes, é comum que um misterioso assassino persiga e mate um conjunto de pessoas, em grande medida jovens, podendo ser uma força sobrenatural ou não. Os crimes podem ocorrer em diferentes lugares, ainda que sejam frequentes os assassinatos que ocorrem em lugares distantes, como em florestas.   Essa cinematografia dominou por décadas o mercado de filmes de horror, se exaurindo em intermináveis e repetitivas franquias, entre as quais Halloween , Sexta-feira 13 , A hora do pesadelo e O massacre da serra elétrica . Como resposta ao esgotamento dessa cinematografia, foram realizadas reflexões que se utilizaram da metalinguagem, como a franquia Pânico e o filme O segredo da cabana . No filme de Drew Goddard um grupo de jovens vai passar alguns dias em uma cabana reclusa, em u...

Julian Barnes: o inesgotável diálogo

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Por Mauricio Montiel Figueiras  Julian Barnes. Arquivo Harry Ransom Center Entre as muitas constelações literárias que iluminaram as últimas décadas do século XX, poucas são tão singulares quanto aquela que a revista Granta reuniu em 1983 sob um nome que o tempo transformou em lenda: o dream team das letras britânicas. Esse time incluía nomes destinados a ocupar um lugar central na literatura contemporânea e entre eles se destacava Julian Barnes, dono de uma voz única que navegou pelas águas do romance, do conto e do ensaio com uma elegância que raramente perde de vista sua bússola irônica. A atribuição do Prêmio Princesa das Astúrias em 2026 confirma uma trajetória que, por décadas, tem sido parte essencial do panorama da literatura europeia. A extensa obra de Barnes se ergue sobre a convicção inabalável de que a memória, a história e a arte são territórios sujeitos a um incessante processo de reinterpretação. Seus livros percorrem esses domínios com uma combinação muito particu...