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Canto noturno de um pastor errante da Ásia: comentário e tradução

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Por Thiago Teixeira  O homem não passa de um caniço, o mais débil da natureza; mas é um caniço pensante.  — Pascal Edvard Munch, Melancolia .  “É preciso saber esquecer”. Esta bela frase é o do Nietzsche da “Segunda consideração extemporânea”: Da utilidade e desvantagem da história para a vida . Ele inicia o texto com uma imagem: o homem no alto de sua superioridade depara-se com um rebanho de animais e os inveja. Inveja-os, pois percebe que eles não se curvam ao peso do tempo, eles não têm uma noção de passado, uma memória, uma lembrança, e, por isso, estão aptos para a felicidade. Os animais são capazes de se esquecer, já o homem, ser histórico, é abatido pelo mal de Funes, el Memorioso e chega mesmo a viver de memórias, acumulá-las como um colecionador. Acontece que, para a felicidade, diz então Nietzsche, é preciso fazer concessões nessa postura excessivamente histórica: é preciso saber esquecer: “Considera o rebanho que passa ao teu lado pastando: ele não sabe o que ...

Boletim Letras 360º #705

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto a custear as despesas com domínio e hospedagem online. A sua ajuda continua essencial. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras . Cora Coralina. Três livros com inéditos da poeta em fase de publicação. LANÇAMENTOS Em novo livro de poemas, Geraldo Carneiro constrói um percurso em que experiência pessoal, criação e consciência da forma convivem sem hierarquias . Sua poesia não se alimenta de fumaças metafísicas; ao contrário, zomba disso ― ainda que se permita alternar o tom meditativo e o viés irônico, tão característico do autor. O poeta brinca com a passagem do tempo, o envelhecimento e a finitude, amparado quase sempre por uma dicção que evita a solenidade e o sublime, preferindo o humor e...

As sedes de Liana Ferraz

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Por Taynan Iris Liana Ferraz. Foto: Martín Zenorini Sede de me beber inteira (2022), de Liana Ferraz, é uma coletânea de poemas de textura muito leve e com uma certa simplicidade, mas de muita profundidade pelo teor sensível. É justamente por isso que o leitor, ao se achegar apenas na beirinha do rio dessa poesia, logo se vê envolvido por um reconhecimento de si, como se a palavra se fizesse líquido e, em sua superfície, refletisse aquilo que somos. Isto é, a experiência, por trás desses versos de linguagem minimalista, é um encontro consigo mesmo. É uma poesia que nos interpela; a palavra é utilizada, por essa poeta estreante no mercado literário, de modo a abarcar nossa vivência com o mundo e, sobretudo, com o nosso interior.  Antes mesmo de chegar aos versos, o título da coletânea demonstra isso. A sede enunciada poderia, a princípio, aludir a uma necessidade física. Não se trata, porém, da sede de água; revela-se, na verdade, como uma sede de beber-se por inteiro. É o desejo ...

A marquesa de Sade, de Rachilde

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Por Amanda Fievet Marques  Rachilde. Reprodução Franceinfo Do leite, a tradição louvou a inocência. No romance A marquesa de Sade (1887), da escritora francesa Rachilde — pseudônimo de Marguerite Eymery —, rubro, porém, é o leite que ingere diariamente Caroline, a mãe tísica e moribunda da pequena Mary.  O romance se inicia no trajeto feito a pé, na cidade de Clermont-Ferrand, da casa até o abatedouro, pela prima Tulotte, bem mais velha, e a pequena Mary, de sete anos. A prima leva numa mão a menina e, na outra, uma lata branca onde outrora se armazenava o leite. A criança, até aquele momento, entende apenas que naquele estabelecimento, “iam buscar leite toda tarde” (Rachilde, 1996, p. 5, tradução minha). As circunstâncias convergem, todavia, para que Mary comece a suspeitar do que ali se oculta. A mente da pequena, propensa a se indagar, põe-se involuntariamente a escrutinar o significante. O texto instaura, desde as linhas iniciais, uma linguagem de matadouro, que disputa c...

O aniversário, um alerta anti-Trump

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Por Ernesto Diezmartínez  No início de O aniversário  ( Anniversary ,   Estados Unidos, 2025), o oitavo longa-metragem do diretor polonês Jan Komasa, a respeitada professora Ellen Taylor (Diane Lane), catedrática da Universidade de Georgetown, esclarece e declara, diante de um grande grupo de alunos que ouvem atentamente sua aula/ palestra, que não é “nem liberal nem conservadora”, algo como o equivalente estadunidense do “não sou nem de direita nem de esquerda” que vemos nas nossas redes sociais. A verdade é que, quando alguém afirma não ser nem liberal nem conservador, provavelmente está tentando esconder suas verdadeiras inclinações políticas, o que acaba sendo absurdo porque, mais cedo ou mais tarde, essa aparente “neutralidade” será questionada. No caso da professora Taylor, não demora muito para percebermos que, muito além de sua hipócrita posição centrista, a mulher madura, mãe de quatro filhos e esposa de Paul (Kyle Chandler), um chef de sucesso, é uma verdadeira ...

Das elaborações do luto em Vida doçura, de Natércia Pontes

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Por Douglas Sacramento Natércia Pontes. Foto: Renato Parada/ Reprodução a partir de O Povo . I A vida de professor tem dessas: ao final da aula, ficam estudantes tirando dúvidas, enquanto os atrasados querem saber o que foi dito e explicado antes de chegarem. Num certo dia, um desses permaneceu e me fez um pedido: queria que eu escrevesse a introdução para o livro que iria publicar. Disse que aceitaria e pedi que me enviasse via e-mail. No mesmo dia, ao chegar em casa, me deparei com sua mensagem e o arquivo anexado. No meio do mês, quando as coisas estavam menos aceleradas, peguei o texto para ler. Era um livro híbrido entre prosa e poesia, escrito por um estudante estrangeiro, que girava em torno da elaboração do luto pela morte da mãe, falecida às vésperas de sua saída do continente africano rumo ao Brasil. Li e comecei a escrever a introdução. Noutro desses encontros ao fim da aula, perguntei sobre o luto e a figura materna. Ele encerrou a conversa de forma assertiva, dizendo que t...