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Naufrágios, de Diego Kullmann

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Por Marcelo Moraes Caetano   Temos diante de nós uma excelente obra nova de Diego Kullmann. Seu livro Naufrágios  (Jaguatirica, 2021) revela um autor capaz de navegar linguagens, cenários e personagens tão marcantes quanto diferentes — e até díspares.   O livro desconcerta por sua anotação (seria advertência?) pré-textual: “Baseado em histórias reais”. Isso se dá porque o texto parece aproximar-se da literatura surrealista, de uma metáfora muito concreta, de obras como A jangada de pedra , de José Saramago, ou Incidente em Antares , de Érico Veríssimo. Em todos esses livros, incluído o de Diego Kullmann, o território geográfico parte de uma possível inércia e ruma em direção ao protagonismo subjacente, como verdadeiro personagem-espaço com vez e voz.   As histórias (sur)reais, assim, se trançam num emaranhado claustrofóbico, na agonia sufocante de uma cidade que o mar deixa de “costelas expostas”, corroendo e engolindo, com sua selvageria indócil, “doze quarteirões inteiros” de uma só

“Me mataron los murmullos”: um comentário acerca da tensão entre o real e o insólito no conto “Paso del Norte”, de Juan Rulfo

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Por Felipe de Moraes   — O cassaco de engenho quando o carregam, morto: — É um caixão vazio metido dentro de outro.   João Cabral de Melo Neto, Dois parlamentos (1958-1960) Juan Rulfo em Nevado de Toluca. Autorretrato, anos 1940.      Meu objetivo neste pequeno ensaio será o de analisar, através de uma leitura cerrada dos aspectos formais, a tensão existente entre um “resíduo histórico”, portanto realista, da realidade e o insólito (ou “fantasmagórico”, nos dizeres do crítico Davi Arrigucci Jr.)  no conto “Paso del Norte”, do mexicano Juan Rulfo. Desentranhar os significados profundos contidos no relato através de sua sonoridade expressiva, sua estrutura dinâmica na forma de falas diretas, e sua divisão em três partes, são os aspectos aos quais pretendo dar mais ênfase. Sempre tendo em mente, contudo, que para um autor como Rulfo, qualquer que seja a abordagem utilizada, será sempre parcial frente a uma obra que nasceu clássica, como diz Borges, no sentido em que as gerações dos homens

Os contos de John Cheever: desejo, tragédia, redenção

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Por João Arthur Macieira John Cheever. Foto: Allen Green.     I  Desejo e literatura   Porque a literatura não é mera reprodução de sensações, mas uma experiência produtiva que acontece tanto em quem escreve como em que lê, a obra de um autor como John Cheever não está limitada ao próprio contexto cultural. A literatura também não é uma expressão essencial da subjetividade do autor, mas acontece justamente fora dela. Quando falamos de um autor como esse, é difícil não se deixar capturar pela explicação psicologizante ou biográfica do texto. Quem por acaso teve acesso aos seus diários intuirá porque toco nesse ponto: quando lemos aquelas linhas, deparamo-nos com um sujeito fragmentado, lutando para dar forma à própria subjetividade e sentido ao conjunto de sua vida. Ainda que essa seja uma marca dos personagens de Cheever e faça parte dos elementos que mobilizam suas narrativas, mas não de seu narrador. Seus diários parecem com uma tentativa angustiada de compreender a própria constitui

Boletim Letras 360º #425

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DO EDITOR   1. Caro leitor, espero que você esteja, dentro do possível, são e seguro. A seguir, estão as notícias apresentadas durante a semana na página do blog no Facebook e o conteúdo das demais seções de leitura criadas em momento posterior à existência deste Boletim. Reitero os agradecimentos pela companhia do nosso trabalho. Boas leituras! Nona Fernández. Foto: Massimiliano Minocri. Obra da escritora chilena chega ao Brasil.   LANÇAMENTOS As cores para um perfil sobre Paul Cézanne.   Em seus últimos anos de vida, recluso em Aix-en-Provence, no sul da França, e dedicando todas as suas energias à pintura, Paul Cézanne (1839-1906) vive uma das mais belas, profundas e vigorosas aventuras da arte moderna, influindo de maneira decisiva no rumo das artes plásticas do século XX e descortinando possibilidades que, ainda hoje, estão longe de terem se esgotado. Michael Doran, pesquisador do prestigioso Courtauld Institute, de Londres, coligiu, comparou, reuniu e anotou, em Conversas com Cé

Marcas de uma terra queimada: notas sobre o Caderno de memórias coloniais de Isabela Figueiredo

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Por Flaviana Silva   Pertencer a algo é mais do que estar, é a ousada decisão de ser. A sensação que fica após concluir a leitura do Caderno de memórias coloniais de Isabela Figueiredo é de que as palavras da leitora serão apenas um leve ruído, nada traduz a experiência de sentir essa narrativa “em carne e osso”. A obra captura a atenção e traz consigo temas fortes e caros para a Literatura portuguesa contemporânea, a narradora é filha de colonos e enuncia a sua experiência como observadora da relação entre os portugueses e os pretos de Moçambique, o que narra é muito mais do que a mera descrição dos fatos, ela expõe as feridas escondidas do colonialismo e não se recusa a se colocar como questionadora do seu contexto. O que não pode ser ignorado é que a narrativa é um espelho que elucida experiências da vida de Isabela Figueiredo, o que não define a totalidade da experiência já que a própria criadora afirma que entre o pai da narradora e o seu, prefere ficar com a imagem do seu pai,

O mulato, de Aluísio Azevedo

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Por Pedro Fernandes Aluísio Azevedo.   São pelo menos dois os lugares de recepção da obra de Aluísio Azevedo no Brasil. Primeiro, existe o escritor bem reconhecido, o autor de um romance que integra a literatura brasileira ao rol do naturalismo. Este é o lugar mínimo, se olharmos a quantidade de romances que nos legou; além de O cortiço , o livro desse primeiro autor, há pelo menos, só nesta forma literária, o romance, uma dezena a mais de títulos. Mas estes, por sua vez, pertencem ao escritor por se conhecer. E é, muito provável, que se fossem conhecidos os dois, mudaríamos ― ou pelo menos questionaríamos ― o lugar destinado na historiografia da nossa literatura, um dos mais intrincados capítulos da nossa memória cultural ainda por ser resolvido. É que, se no romance que levou o escritor a um lugar entre os naturalistas é feito das cores que assim o justificam, o romance agora tomado em questão, apesar de ser mostrado como um dos introdutores do naturalismo mais tem de romantismo e d