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Folk horror em Animais tropicais, de Javier A. Contreras

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Por Douglas Sacramento  Javier A. Contreras. Foto: Guaíra Maia Existe um imaginário antônimo do espaço citadino — o chamado lugar da organização cultural. No distanciamento das cidades também existe cultura, mas beirando o estranho e, por vezes, o diabólico. Os filmes de terror pontuam constantemente essa relação dicotômica e a literatura apresenta ótimos exemplos em que o distanciamento do urbano se relaciona com o encontro do mal, do transgressor e do selvagem. Lembro-me de um conto de Stephen King em que um casal, ao se afastar da cidade, encontra uma pequena comunidade no interior circundada por um grande milharal. O resultado é o encontro das personagens com uma sociedade governada por crianças que mataram todos os adultos e adoram uma divindade que vive no milharal alimentando-se dos jovens quando começam as transformações da adolescência. O sacrifício humano ocasionava num bem-estar comunitário e uma vida tranquila para aquelas crianças que organizavam e controlavam o poder ...

Chopin frio, a barcelonesa e o pianista. Coetzee conta um amor tardio

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Por Felipe Vieira de Almeida  Já escutei um terapeuta falar que o caminho mais rápido para perdermos a paixão por alguém é conhecer essa pessoa a fundo o mais rápido possível. O contato com as limitações cotidianas dissipa nossas fantasias e idealizações e nos permite enxergar o ser humano real que está por baixo de nossas projeções. Em O polonês,  J. M. Coetzee se inspira no amor idealizado de Dante Alighieri por sua musa Beatriz Portinari (Beatrice, a depender do tradutor) para nos entregar a história do relacionamento entre um pianista polonês setentão e uma socialite barcelonesa casada e com seus quarenta e tantos anos de idade. Entre os personagens há barreiras ao conhecimento profundo e rápido dos amantes, entre elas a diferença de idioma que se impõe como uma protagonista dessa história de amor, quase uma terceira protagonista que vem turvar essa relação de curta duração e longas consequências. O sul-africano laureado com Nobel de Literatura pelo que a Academia Sueca co...

Seis poemas de Wendell Berry

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Por Pedro Belo Clara  (Seleção e versões)* Wendell Berry. Foto: Guy Mendes  PLANOS ( The Broken Ground , 1964) O meu velho amigo, dono dum barco novo, aparece com um convite para pescar,  e eu digo que sim — ambos  sabendo que talvez nunca nos aprontemos a tal, é possível que passem anos até estarmos de novo livres no mesmo dia. Mas fazemos planos, em todo o caso, em honra da amizade e do bom tempo primaveril e do barco novo e da súbita imagem partilhada  de água cintilando sob o nevoeiro matinal.  A PAZ DAS COISAS SELVAGENS ( Openings , 1968) Quando o desespero pelo mundo toma conta de mim e de noite ao mínimo som desperto,   temendo no que a minha vida e a de meus filhos se poderá tornar,    saio e deito-me onde o pato-carolino repousa em sua beleza sobre a água, e a garça-real se alimenta. Venho para a paz das coisas selvagens, que não taxam as suas vidas com previsões  de tristeza. Venho até à presença das águas serenas.  E...

Boletim Letras 360º #693

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o Letras permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .  Leonardo Fróes (detalhe da capa de O fascínio das palavras )    LANÇAMENTOS Livro reúne, pela primeira vez, os principais ensaios de Leonardo Fróes .   Reconhecido e celebrado por sua obra poética, Leonardo Fróes (1941-2025) foi também um tradutor, ensaísta e resenhista de mão cheia, tendo produzido inúmeros textos sobre arte, natureza e literatura — seus temas prediletos — a partir de vastas e aprofundadas leituras sobre tais assuntos. O fascínio das palavras  reúne pela primeira vez os seus principais ensaios de literatura, escritos ao longo de meio sécu...

As troianas, de Sêneca

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Por Afonso Junior Eurípides encenou As troianas (Troades) em 415 a. C. refletindo sobre acontecimentos da Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.), em especial do massacre ateniense da rebelde ilha de Melos (416 a. C.): todos os homens foram mortos e todas as mulheres e crianças escravizadas.  Na era neroniana, coberta de sangue, quatro séculos mais tarde, a guerra era o eixo fundamental da Roma Imperial (a conquista da Gália por César, por exemplo, sempre foi vista como um genocídio), e a escravidão seguia sendo um pilar do sistema; contra os maus tratos com os escravizados, Sêneca mesmo advogou em suas cartas (por exemplo, Epístolas 47 e 95).  Neste tempo todo, outras obras sobre o tema da queda de Troia surgiram e com certeza moldaram o imaginário de Sêneca: a Andrómaca Cativa de Énio e Astíanax de Ácio, desaparecidas, além do impacto das obras de Virgílio e Ovídio. O resultado é uma sensibilidade propriamente romana, onde a dor se expressa fisicamente, a humilhação é exercid...

Memórias em poesia e prosa

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Por Chumbo Pinheiro  Rizolete Fernandes é uma caraubense, socióloga e escritora que traz nas veias o lápis, parafraseando aqui o que diz Clauder Arcanjo, escritor membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. A cronista e poeta com uma obra significativa para a nossa literatura, como Cotidianas (crônicas) e Tecelãs (poesia), entre outras, trouxe a lume Alguidar de memórias pinceladas .  Em História e memória , Jacques Le Goff, ao iniciar sua discussão sobre a memória, apresenta a importância e a significação em diversos campos das ciências deste fenômeno humano. Neste sentido, ao aproximar a memória da escrita refere Pierre Janet, para quem “o ato mnemônico fundamental é o comportamento narrativo ” e este “se caracteriza antes de mais nada pela sua função social, pois que é comunicação a outrem de uma informação, na ausência do acontecimento ou do objeto que constitui o seu motivo”, inteira, com Florès. (p. 367).  O autor de História e memória  ainda complemen...