António Lobo Antunes ou a escrita como profissão-de-fé
Por Pedro Fernandes É tão importante ser um bom cavador ou pedreiro como ser um bom escritor, temos é a tendência de mitificar os escritores e de colocá-los em pedestais. — Em Uma longa viagem com António Lobo Antunes António Lobo Antunes. Foto: David Clifford Toda criação humana de vulto é parte do empenho e esmero de alguém capaz de pisar onde muitos não ousaram a tanto. António Lobo Antunes é um dos últimos que revolucionou o romance no século XX, numa ocasião em que esta forma literária se encontrava refém de uma encruzilhada entre os modelos necrosados e as renovações disruptivas e vazias herdadas das vanguardas do século anterior, ou ainda, presa no interior das redomas estruturais. Seu compromisso inadiável com a palavra, a capacidade de dizer das sombras com a beleza luminosa do verbo, aproximou a literatura das belas artes. Numa sociedade em que a abertura democrática coincidiu com uma formação de algum interesse para o cultivo das letras, a publicação dos três primeiros ...