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Valor sentimental: os aperitivos nórdicos não cabem em prato pequeno

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Por Ignacio Ruiz de Gauna  Há um belo diálogo pouco antes do terceiro ato de Valor sentimental , no qual a estrela de Hollywood Rachel Kemp (Elle Fanning), que supostamente interpretará uma sósia da filha do diretor, Nora (Renate Reinsve), em um filme com claras nuances autobiográficas, admite sua incapacidade de compreender a personagem, questionando por que o papel não é interpretado pela própria filha do diretor, também atriz, que o rejeitou como sua primeira opção. “Não consigo alcançá-la”, diz ela. E é exatamente isso que acontece com o diretor, roteirista e criador em todos os sentidos de um filme que o domina e transborda como um punhado de areia por suas mãos. Uma premonição. Ou melhor, uma metalinguagem involuntária, receio. Joachim Trier, o aclamado cineasta norueguês, que já havia provado o sabor do sucesso com seu filme anterior, A pior pessoa do mundo (2021), deve ter matado aula na Escola Nacional de Cinema e Televisão (a mais prestigiosa do mundo) no dia em que expl...

A escrita e o ser em Análise de Vera Iaconelli

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Por Herasmo Braga No âmbito do tempo histórico, o cultivo e desenvolvimento da interação humana através da oralidade é muito maior quando comparado ao da escrita. Muitas tradições e concepções culturais continuam a ser transmitidas em maior número pelos percursos da oralidade, mesmo com toda relevância que a escrita ganhou nos últimos tempos na história humana. Em meio a essa maior compatibilização mediada pela linguagem oral, a escrita, por sua vez, realiza uma interface mais aprofundada dos indivíduos no âmago do seu ser. Aristóteles, como já mencionado em outras oportunidades, em sua Poética , expressa a constituição do homem pela narrativa. Seria, portanto, o homo narratum . Dessa maneira, não é de se estranhar, nas interpretações e inferências do cotidiano, a necessidade do indivíduo de construir sua própria narrativa, ser o protagonista da sua história, entre outras. Todavia, importa diferenciar como essa narrativa será escrita. Será ela tecida por uma escrita que se vive e, port...

Dois romances de Oscar Nakasato

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Por Eduardo Galeno Oscar Nakasato. Foto: Gilvam César Borges No geral, o romance Ojiichan me pareceu dar uma certa continuidade ao aclamado vencedor do Jabuti de 2012. Não quero falar de saga porque cada livro é uma história, mas de buscar conter respostas satisfatórias sobre a escrita de Oscar Nakasato, incluindo na bolsa a sua invenção da arte de contar. Em qual sentido, resumidamente, ele chega? No modo onde a ação passa do exercício social ao existencial. Para não ficarmos no clichê do fato de Satoshi ser idoso, quer dizer, na afirmação de um ídolo narrativo , verifiquei três posições que podem fugir da rotina na interpretação:  A primeira é a sensibilidade com que o protagonista participa do mundo, que antecipa a sua autonomia frente a ele. O saber nasce da percepção imediata do ambiente, do corpo, das marcas sensuais sobre a matéria. Ojiichan apreende a realidade antes de qualquer reflexão, desse modo, pelo viés da presença. O conhecimento surge como impressão acumulad...

Cinco canções de protesto (em tempos de guerra e turbulência social)

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Por Pedro Belo Clara  Arte: Diana Ejaita ONDE FORAM TODAS AS FLORES? ¹   (Pete Seeger/Joe Hickerson, 1955 / 1960) Onde foram todas as flores? Tanto tempo passou Onde foram todas as flores? Há tanto tempo atrás Onde foram todas as flores? Raparigas colheram-nas todas Oh, quando irão aprender? Oh, quando irão aprender? Onde foram todas as raparigas? Tanto tempo passou Onde foram todas as raparigas? Há tanto tempo atrás Onde foram todas as raparigas? Em busca de marido, todas elas Oh, quando irão aprender? Oh, quando irão aprender? Onde foram todos os maridos? Tanto tempo passou Onde foram todos os maridos? Há tanto tempo atrás Onde foram todos os maridos? Ser soldado, todos eles Oh, quando irão aprender? Oh, quando irão aprender? Onde foram todos os soldados? Tanto tempo passou Onde foram todos os soldados? Há tanto tempo atrás Onde foram todos os soldados? Aos cemitérios, todos eles Oh, quando irão aprender? Oh, quando irão aprender? Onde foram todos os cemitérios? Tanto t...

Boletim Letras 360º #679

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o  Letras  permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo  Letras .  John Steinbeck. Foto: Rolls Press LANÇAMENTOS Um livro atemporal sobre as vicissitudes da vida publicado originalmente em 1937,  Ratos e homens é um dos mais belos e aclamados textos do vencedor do Novel de Literatura John Steinbeck . Eles são uma dupla improvável: George é “pequeno e rápido, de cara fechada, com olhos inquietos e traços marcados, fortes”; e Lennie é seu oposto, um sujeito enorme com a mente de uma criança. Entretanto, de certa maneira, eles construíram uma família, juntos, apesar da solidão e da alienação. Trabalhadores braçais dos cam...

Quando uma gramática nos leva para longe

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Por Rafael Bonavina  Henrique Canary. Foto: Arquivo da Usina Editorial De tempos em tempos, um turbilhão de memórias passa pela nossa frágil razão e a leva consigo para sabe-se lá onde. É como se a lembrança nos agarrasse pelo colarinho e jogasse escada abaixo, e nós, sem qualquer meio de resistir a esse assalto cognitivo, rolamos pelos degraus, semiconscientes do que está acontecendo. Este ano começou, para mim, com um desses eventos interiores, causado pelo lançamento da Gramática da língua russa para brasileiros , escrita por Henrique Canary, professor de língua russa e doutor em literatura e cultura russa pela Universidade de São Paulo. O lançamento ocorreu no dia 31 de janeiro, no Café Colombiano, um centro de cultura acolhedor de São Paulo que também é um importante espaço de resistência latino-americana. A casa cheia de participantes, o autor empolgado pelo seu discurso sobre linguística, língua russa e sua relação pessoal com esse país tão intrigante e contraditório. E eu, ...