Prosa sem cabeça
Por David Toscana Sebastián de Llanos Valdés, A cabeça de S. João Batista. Talvez o decapitado mais famoso da história seja João Batista. Leiamos esta passagem bem conhecida de Mateus: “Durante uma festa de aniversário, a filha dançou e agradou tanto a Herodes que ele jurou dar-lhe o que pedisse. Instigada pela mãe, ela pediu a cabeça de João Batista numa bandeja. O rei entristeceu-se, mas atendeu ao pedido devido ao juramento feito aos convidados. João foi decapitado na prisão, e sua cabeça entregue à jovem, que a levou à mãe.” Aprecio essa concisão dos antigos, a ênfase na essência em vez dos detalhes, sem sacrificar o poder da narrativa. Num romance contemporâneo, teríamos mais páginas. As palavras “dançou e agradou” se multiplicariam com os movimentos eróticos de Salomé e as vestes e véus que gradualmente se desprenderiam, revelando o fascínio de um corpo pelo qual Herodes jurou dar-lhe tudo o que pedisse. Haveria instrumentos de percussão, cítaras, alaúdes, harpas e flau...