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O Diabo em O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov

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Por Davi Lopes Villaça


Em 2017 a Editora 34 publicou a mais recente edição no Brasil de O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov (1891-1940), na bela tradução de Irineu Franco Perpétuo. Escrito entre 1928 e 1940 – período que abrange o início da fase mais severa da censura na URSS e os anos da sanguinária repressão política conhecida como Terror stalinista – esse “Fausto russo”, como foi muitas vezes chamado, trata da visita de Satanás à Moscou dos anos 1920-30. Sátira mordaz da sociedade da época, expondo os interesses mesquinhos, na verdade ainda bastante burgueses, do cidadão comum, não é difícil de entender por que uma versão integral do livro só chegou às mãos do público soviético em 1973 (seu autor trabalhou nele até o fim da vida, decerto sabendo que jamais o veria publicado). Além disso, o livro fala de magia e religião, temas malquistos num tempo em que se preconizava o chamado realismo socialista, a se tornar em 1932 o estilo oficial do regime, em detrimento de todos os out…

Anima, de Paul Thomas Anderson

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Por Maurílio Resende


Anima é um curta-metragem classificado como one-reeler, porque possui duração aproximada de 12 minutos, tempo máximo de filmagem permitida por apenas um rolo de filme. Lançado em conjunto com o terceiro álbum da carreira solo de Thom Yorke (Radiohead, Atoms for Peace), a produção estreia no catálogo da Netflix e explora algumas das ansiedades e melancolias do músico e vocalista, construindo no processo uma miríade de paisagens oníricas assombrosas e encantadoras.
A história é simples: encontramos Thom Yorke em um vagão de metrô, no que parece ser a viagem de volta para casa depois de mais um dia de trabalho. Por através do torpor típico que parece acometer a todos no transporte público lotado, Yorke cruza olhares com uma mulher desconhecida, interpretada pela atriz italiana Dajana Roncione. Percebendo que a moça, ao descer do trem, esqueceu sua maleta de trabalho ao lado do banco em que estava sentada, Yorke dá início a uma jornada caótica para reencontrá-la, ultra…

Sete escritoras italianas além de Elena Ferrante que você precisa conhecer

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Desde a publicação do longo romance dividido em quatro tomos que conta a história de duas amigas, da infância à maturidade, passando por momentos singulares em comum e à distância, revisitando instantes conturbados da história italiana e das transformações de Nápoles, a obra de Elena Ferrante nunca mais foi a mesma: deixou o sucesso no seu país natal para se tornar Best-Seller que agrega leitores de todos os tipos e camadas. A chamada febre Ferrante serviu para que no Brasil se traduzisse e se publicasse em tempo recorde toda sua obra, incluindo as incursões da escritora pelo universo infantil. Como se isso não fosse suficiente, abriu os sentidos para um campo entre nós vasto, mas pouco percorrido, o da ficção publicada contemporaneamente na Itália e, na onda dos novos feminismos, o reencontro com obras de escritora desse país um pouco esquecidas, algumas, aliás, referidas pela própria autora da tetralogia napolitana. 
O rápido interesse pela reedição da obra de Natalia Ginzburg tão …

Joseph Conrad. O mar como uma moral

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Por Manuel Vicent


Numa tarde melancólica, uma criança fantasiosa, deitada de bruços na cama diante de um atlas aberto, para de navegar com o dedo indicador todos os mares azuis para adentrar com absoluta liberdade nas selvas mais perigosas. Com a cabeça cheia de barcos piratas, de baús de tesouro, de leões, presas de elefantes, chega um momento em que o menino coloca o dedo num ponto do mapa, o mais exótico, e pensa: “Um dia, quando for mais velho, irei aqui”. Alguns conseguiram realizar este sonho, mas só um se chamou Joseph Conrad.
Este menino não era filho de um conde polonês nem sua tia era princesa belga nem foi apresentado muito cedo ao imperador Francisco José numa audiência reservada no Hofburg de Viena. Os primeiros anos deste escritor, cujo nome de batismo era Jósef Teodor Konrad Korzeniowski, estão rodeados de sonhos aristocráticos que ele fomentava ou não se preocupava em desmentir, sempre fantasioso e rodeado de silhuetas fictícias. Assim deambulava pelo porto de Marselha…

Boletim Letras 360º #331

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Abaixo, o leitor e a leitora do Letras (re)encontra as notícias copiadas durante a semana em nossa página no Facebook: dos novos livros que chegam às nossas livrarias, dos novos interesses editoriais, uma e outra curiosidade ― coisas, enfim, que estão alinhadas com nosso universo. Não sequência têm dicas de leitura, que segue o itinerário nascido do texto de abertura nesta semana no blog, sobre a escritora mexicana Elena Garro. E depois outras dicas ― de vídeos raros e de textos nossos.


Segunda-feira, 8 de julho
Encontrados dois ensaios inéditos de Juan Rulfo.
Muito além do mito sobre as três décadas de silêncio depois da publicação de Pedro Páramo é certo que Juan Rulfo nunca deixou de escrever. Um material inédito acaba de vir a público e serve nas negociações entre a fundação que zela pela memória do escritor e a agência Carmen Balcells para publicação. O primeiro arquivo está constituído por cinco páginas e meia e o outro por 38 folhas: aquele é um ensaio que revisa a literatura br…

Ficção de realidade e realidade de ficção

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Por Amanda Lins


Pontes de Miranda, o professor de introdução ao direito diz incessantemente à turma sonolenta, leiam Pontes de Miranda. Algo no tom dele faz nascer em mim um ensaio de irritação, irritação a qual, a princípio, não consigo identificar o motivo. Mas anoto a sugestão-barra-imposição no canto do caderno e empurro a porta, indo em direção ao mormaço do mundo. As salas de aula no verão nunca são convidativas.
Nascimento em 1892... morte em 1979... escreveu diversos tratados sobre direito privado, vou lendo enquanto passo meus dedos pelas capas empoeiradas, formando um rastro de que estive ali, marcando-me nos sumários já comidos pelo tempo até a metade e nas contracapas quase inexistentes. Na biblioteca, o que entra de luz precisa antes dançar pelos resquícios de poeira, formando uma cortina que me banha de sol aos poucos e me convida, novamente, ao calor de fora. Posso sentar-me num banco e terminar de ler o romance que larguei durante a aula, reflito.
Ficamos sempre, os es…

Odes a Maximin, de Ricardo Domeneck

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Por Pedro Fernandes


A partir da descoberta dos versos de “Autopsicografia” em 1932 foi possível compreender um dos pontos-limite da lírica moderna; a questão, entretanto, não pode se reduzir aqui, nem começa com Fernando Pessoa e considerá-la como tal ou o poeta como a voz exclusiva de uma virada na poesia resulta em graves consequências para uma melhor compreensão sobre a própria história desse gênero literário, mesmo porque, conjeturas dessa natureza aparecem e são mais produtos das investidas para a construção de um mitologema no-do poeta de Mensagem no imaginário cultural português.
O valor dos versos de Pessoa se justifica pela ação provocativa; no contexto literário do poeta reafirma-se o ideário de uma ruptura com as formas simuladas da poesia, sobretudo, as nascidas no interior do romantismo que sedimentaram os valores de um sentimentalismo piegas corriqueiramente debandado para as rotações pessoais. Mas, no fim de tudo, não se oferece nenhuma revelação capaz de subverter os f…