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Boletim Letras 360º #481

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  DO EDITOR   1. Entre o domingo e a segunda-feira encerra-se a primeira temporada de sorteios com Kit de livros entre os apoiadores do Letras. A possibilidade de ajuda, recordo, continuará aberta e os sorteios de livros continuarão sempre que possível.   2. Quem ainda se interessar pelo próximo sorteio, fica ainda o convite! O ganhador receberá três livros da literatura brasileira em curso publicados pela editora-parceira Companhia das Letras: o romance O avesso da pele , de Jeferson Tenório; o livro de contos Gótico nordestino , de Cristhiano Aguiar; e o romance Ossos secos escrito pelo coletivo formado por Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado.   3. Para se inscrever é simples. Envia R$25 através do PIX blogletras@yahoo.com.br ; finalizada a operação, envia neste mesmo endereço (nosso e-mail) o comprovante.   4. Outras formas de colaborar com o Letras estão disponíveis aqui . E, cabe não esquecer que na aquisição de qualquer um dos li

A tragédia necromântica do doutor Fausto

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Por Raúl Rojas O primeiro encontro entre Mefistófeles e Fausto. Ilustração: Eugène Delacroix   Certamente poucos crentes podem conceber Deus o Criador em altas apostas com o diabo. Mas é o que acontece na incomparável tragédia Fausto de Johan Wolfgang von Goethe (1749-1832). No “Prólogo no céu”, no início do longo poema, Mefistófeles, um dos anjos decaídos, agradece a Deus por lhe perguntar “como vai tudo” na terra. O Senhor o repreende por não ver nada de bom na humanidade e mostra Fausto, “meu servo”, como exemplo. É aí que Mefistófeles aposta que pode levar o sábio Fausto à perdição, desafio que Deus aceita de imediato, acrescentando laconicamente: “o homem erra enquanto deseja”. Apenas outro texto na literatura mundial começa com uma aposta tão extravagante e herética: o Livro de Jó , que faz parte da Bíblia. Ali Lúcifer questiona a fé do piedoso Jó, que ele insinua que só se deve ao fato de Deus o ter agraciado com múltiplos bens e riquezas. O Todo-Poderoso aposta com Lúcifer que

O fim, de Karl Ove Knausgård (2)

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Por Pedro Fernandes Karl Ove Knausgård. Foto: Nina Rangoy     Na primeira parte da leitura sobre O fim , de Karl Ove Knausgård ( leia aqui ) observamos sobre o descompasso entre o conteúdo dessa passagem do romance e as demais. Evidenciamos esse tratamento como produto de um contínuo adiamento da conclusão que seria facilmente evitável se o longo ensaio sobre Mein Kampf e outros desdobramentos sobre a personagem seu autor e a história do Ocidente não existissem ou mesmo se fossem sintetizadas, ainda que seja fácil identificar alguma importância no cômputo geral da narrativa, o de, por exemplo, dissociar os valores entre essas obras a partir de reafirmação do eu enquanto entidade submetida na extensão do outro . Mas, existem outros detalhes que, preferimos, não sem deixar de acompanhar certo modo do próprio romancista, tratar num segundo texto.   Uma das constatações mais veementes nesta última parte de Minha luta é a reafirmação da linguagem como matéria enformadora das coisas, ges

“Nosferatu”, um século de vampiros e ocultismo

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Por Gregorio Belinchón Max Schreck como Nosferatu.    Friedrich Wilhelm Murnau viveu apenas 42 anos. Dos seus 21 filmes, sobreviveram 12. Numa época, a do salto do cinema silencioso para o cinema sonoro, em que reinavam prolíficos diretores e trabalhos industriais (aí estão os mais de 100 filmes de John Ford), Murnau filmou pouco, e um terço de sua filmografia se apagou ao longo do tempo. No entanto, ainda hoje ele é um dos cineastas mais importantes da história, o maior expoente do expressionismo, um criador cuja vida e carreira foram interrompidas por um acidente de carro. Mesmo seu melhor filme, Nosferatu (1922), um clássico que agora completa um século, esteve prestes a desaparecer quando os produtores perderam o processo de plágio contra a viúva de Bram Stoker, o escritor de Drácula , romance que inspirou e muito o filme de Murnau.   Apesar disso, um século depois, aí está a silhueta de Nosferatu, o morto-vivo, recortada no último lance de escada, aquelas unhas compridas, nariz p

Tolstói ou Dostoiévski, de George Steiner: a crítica literária como dívida de amor

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Por Pablo Sol Mora George Steiner. Foto: Contacto Photo   A vocação de crítico é misteriosa. Ninguém, como gracejava François Truffaut a respeito da crítica cinematográfica, declara aos nove anos: “Papai, quero ser crítico.” O que nos move a escrever sobre o que lemos? Ou melhor, por que não tentar ser um criador ou ser, simplesmente, um leitor? Qual o sentido? Para que serve a crítica? Serve a crítica? As perguntas são inescapáveis para quem faz dela parte fundamental de sua atividade literária, sobretudo para quem ela representa sua principal ou única atividade.   As confusões e mal-entendidos em torno da crítica são variados e persistentes. Talvez o maior seja o de que a crítica se ocupa, fundamentalmente, de censurar, no sentido de indicar defeitos e erros, de desaprovar; que ela é ou precisa ser negativa. O crítico como o ressentido estraga-prazeres da literatura. É claro que a crítica deve apontar os aspectos fracos de uma obra quando de fato os encontra e argumentar a respeito d

“Los combatientes deseos”

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Por Felipe de Moraes Sor Juana y la Virreina. Ilustração: Felix d’Eon. A lírica amorosa de Sor Juana Inés de la Cruz ocupa uma parte considerável de sua produção poética e se destaca no mundo barroco da Nova Espanha pela variedade de formas e estilos através dos quais é expressada. A monja, como conhecedora e leitora voraz que era, retrabalhou essa vasta tradição erótica que vem desde a antiguidade clássica, perpassa todo o Renascimento italiano, nas composições do dolce stil nuovo , e deságua na Espanha da Contrarreforma, no século XVI, onde é recebida pelos cultistas barrocos, como Góngora e Quevedo, e ali ganha uma nova dimensão poética expressiva através do conceptismo e da retórica palaciana. O objetivo neste breve ensaio, portanto, é fazer uma leitura comparada entre o romance 19, “Puro amor, que ausente y sin deseos...”, e o soneto 179, “Que explica la más sublime calidade de amor” 1 , escritos por Sor Juana, de modo a ressaltar semelhanças e diferenças entre ambos, observando