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Leitura de orelhada

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Por Rafael Bonavina De tempos em tempos somos surpreendidos com algo tão antigo que, justamente por sê-lo, acaba esquecido e é apresentado como novidade. Não falo apenas dos casos, como o disco de vinil ou os compactos, de coisas que voltam à moda com um ar de vintage, pois esses até que têm seu charme de nostalgia. Apesar da pertinente discussão sobre a compra dessas mídias físicas como forma de recusa da situação precária de aluguel eterno que os streamings nos impõem, pretendo falar mais sobre uma prática que vem ganhando cada vez mais força nos últimos tempos: a leitura falada. Não é que as pessoas tenham abandonado de vez a prática de ler livros em voz alta para seus filhos, por exemplo, embora seja inegável que o número de adeptos dessa prática fundamental poderia ser maior. Contudo a leitura em voz alta era bastante comum em outros tempos, e não só para crianças, mas para adultos também. Sabe-se que as famílias se reuniam e liam livros assim, como um passatempo conjunto. O escr...

Oito poemas dos Diários do Exílio (volume III), de Yannis Ritsos

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Por Pedro Belo Clara Yannis Ritsos. Foto: Eric Ritsou I. (3 de fevereiro de 1950) Toda a noite os mortos trituram pedaços de gelo da lua. Já não sabemos o que fazer para não ouvir. E os ratos comem-nos o pão. O medo é maior que a raiva. II. (7 de fevereiro) Sombras carregadas de pedras o arame farpado esqueceste-te da pronúncia correcta do teu nome. Um gato preto corre com a lua presa à cauda. Que estranho —  Um silêncio tão grande E ninguém acorda. III. (15 de fevereiro) Onde é que este arame farpado termina? Caracóis rastejam sobre a roupa dos que foram assassinados. E porém não viemos ao mundo apenas para morrer. Porque de madrugada cheira a raspa de limão.  IV.  (24 de abril) A sombra da folha voltada por causa do sol. Descalça os sapatos. Descansa. Ou então recorda-te. As mãos dos lenhadores cheiram a resina. Atrás dos cestos pequenas raparigas compõem os roxos e os vermelhos. O teu erro é não quereres morrer. Mas talvez os mortos também sintam fome.  V. (5 de m...

Boletim Letras 360º #714

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DO EDITOR Continuamos a querer alcançar mais leitores. Há muito recebíamos o pedido de divulgarmos as novas edições e reedições, como fazemos neste Boletim há alguns anos, mas na nossa página do Facebook desde 2012, também no Instagram. Algumas adequações nesse outro espaço agora permitiu-nos cumprir com esse desejo. Abrimos um braço com o nome de @roldoletras. Se quiser, já pode seguir. É muito bem-vindo.  Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto a custear as despesas com domínio e hospedagem online. A sua ajuda continua essencial. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .  Benjamin Wood. Foto: Marc Sethi LANÇAMENTOS Livro com o qual Benjamin Wood foi reconhecido com Booker em 2025 chega aos leitores brasileiros . Thomas Flett é u...

Asmática e degredada: transgressões além-tempo em Asma, de Adelaide Ivánova

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Por Luan Fontes Adelaide Ivánova. Foto: Acervo da escritora/ Reprodução da revista Claudia Em uma construção caleidoscópica de identidade, anunciada no próprio nome da protagonista, Vashti SeteBestas, voz condutora principal de Asma , obra poética da autora pernambucana Adelaide Ivánova, semifinalista do prêmio Oceanos e vencedora do prêmio APCA 2025 na categoria Poesia. A antiga rainha persa, primeira esposa de Xerxes, é centralizada nos versos de Ivánova e leva o leitor por sua jornada migratória pelo espaço-tempo, reconstruindo e/ou reinterpretando marcos insignes da historiografia ocidental, a partir de uma perspectiva feminina e disruptiva, em que não apenas escancara e denuncia, mas reconfigura as narrativas masculinas opressoras e excludentes, que, por muito tempo, sobrepuseram e silenciaram a voz e a vez das mulheres na memória historiográfica e na construção do mundo ocidental.  Assim se apresenta quando diz seu nome pela primeira vez, já anunciando a natureza dissidente e...

Proust e os sentidos da arte

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Por Amanda Fievet Marques  Andy Warhol, Marcel Proust.  De tão incensado grande escritor, embalsamado monumento da literatura francesa, pouco se diz que Proust ouvia cores. Em A prisioneira , movimento do romance Em busca do tempo perdido , a concepção de arte como reveladora de sensações e essências se constitui pela qualidade da linguagem capaz de expressar sensações de ordens de sentidos distintos, conjugando, por exemplo, visão, tato e olfato. Numa conversa com Albertine após seu retorno do Trocadéro, tratando de uma confusão que julga ter acometido Elstir, ao deplorar uma igreja por ela ser nova, o narrador propõe que seja isso uma contradição, pois o que importa é a inserção dos elementos numa percepção global que colha a intensidade das impressões. Como argumento, considera as casas recém-construídas nos bairros dos burgueses ascendentes, num subúrbio dilatado por um tom de branco, que será expresso através de uma linguagem de qualidade particularmente sinestésica: “a p...

O gesto no alvorecer da linguagem: Os imortais, de Paulliny Tort

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Por Wesley Sousa Paulliny Tort. Foto: Renato Parada Os imortais , livro de Paulliny Tort, está entre os acontecimentos literários recentes mais notáveis em nosso país e o que nele chama atenção de imediato é a maneira como enfrenta um problema, simultaneamente, estético, formal e temporal. Como representar “sujeitos” cuja experiência se situa aquém das formas de linguagem que estruturam nossa própria relação com o mundo? O enredo geral do romance trata de um grupo de neandertais que, ao deslocarem-se de região em região, enfrentam inúmeras dificuldades, desde problemas climáticos extremos, escassez de recursos, até a busca de abrigo e proteção entre os seus. A característica central é que os neandertais de Tort “não conversam falando: falam com o corpo, conversam mostrando, argumentam encadeando cenas e ações”. Nesse sentido, pode-se dizer que a formulação é decisiva, pois permite compreender que a ausência de diálogo verbal não significa ausência de comunicação. O romance des...