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Sintaxe caudalosa

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Por Thiago Teixeira De-Amenti. Leitura em família de uma passagem comovente de Os noivos . Já Otto Maria Carpeaux reclamava, em sua época, da ausência de Os noivos na formação dos leitores modernos. O que dizer, então, da nossa época? Um pouco diferente da Itália, onde o romance ainda figura na formação escolar, ele é aqui desconhecido até mesmo por quem declama amores pela literatura. Curiosamente, não faz muito tempo ele foi leitura corrente, mesmo com as edições fragmentadas ou adaptadas tão em voga até alguns anos atrás.  E não nos faltam traduções. Temos duas excelentes, uma mais antiga, do português José Colaço Barreiros, e uma mais recente, do brasileiro Francisco Degani. São, ambas, primorosas, baseadas na versão fidedigna, incluindo o episódio da Colônia infame. Claro que, devido a escolhas tradutológicas ou editoriais, nem tudo acaba sendo transmitido da versão italiana — e é possível que nem mesmo ouvidos italianos consigam captar todas as notas do original. Uma de...

Anne Carson, prêmio Nobel de Literatura

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Por Ernesto Hernández Busto Anne Carson. Foto: Pontus Lundahl Quem procura informações a respeito de Anne Carson nas capas dos seus livros encontrará apenas uma breve menção: “Nasceu no Canadá e ganha a vida ensinando grego antigo”. A escritora cultivou essa discrição com o mesmo cuidado que outros se dedicam a nutrir uma florida reputação. Concede poucas entrevistas, e as que dá costumam ser evasivas e, por vezes, desconcertantes. Por trás dessa autobiografia mínima, porém, reside uma extensa trajetória: um doutorado em Línguas Clássicas, anos de ensino em McGill, Michigan e Nova York, e uma obra que jamais separou os estudos acadêmicos da escrita criativa. Essa fusão é sua característica definidora. Tudo começa com Eros, o doce-amargo (1986), um ensaio sobre o desejo na Grécia Antiga que se lê como um poema. Nele, Carson propõe que o eros nasce de uma carência, e que essa falta só se torna visível em um triângulo. O glukupikron de Safo (“agridoce”, ou melhor, “doce-amargo”) não des...

Entre o crime, o remorso e o castigo

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Por Michel Goulart da Silva Em 1866, ao longo do ano, o escritor russo Fiódor Dostoiévski publicou os capítulos de uma de suas principais obras. Com o tempo, o romance Crime e castigo se tornou um clássico da literatura mundial como um denso estudo psicológico da violência e o impacto da sociedade na mente humana. A narrativa se desenvolve em torno de Raskólnikov, um jovem estudante que vive na pobreza e procura formas de tentar sobreviver. O desespero dessa condição o leva a assassinar Aliona Ivánovna, uma velha agiota que emprestava dinheiro a juros altos, e sua irmã mais nova, Lizavieta, que entra inesperadamente na cena do crime e é morta por Raskólnikov, para não deixar testemunhas. Os desdobramentos dos assassinatos, depois de perpetrados, ocupam a maior parte da obra, em especial destacando as consequências do crime para o homicida. Esse enredo pode parecer sem originalidade, em meio à massificação de histórias de investigação policial nas últimas décadas. Contudo, Crime e cast...

Boletim Letras 360º #712

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto a custear as despesas com domínio e hospedagem online. A sua ajuda continua essencial. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .  Annie Carson. Foto: Golli. Reprodução a partir do The Guardian   LANÇAMENTOS A guerra ficcionada pelo traço criativo e inventivo de e. e. Cummings .   O leitor de uma obra ambientada em uma guerra já espera relatos dolorosos, caóticos e nauseantes. Neste livro, o estadunidense e. e. Cummings nos apresenta esse panorama. Porém, a notabilidade da obra está justamente em sua capacidade de inserir esses elementos em um fundo parodístico, conduzindo-nos a um “front” inesperado. Cummings, poeta e artista plástico, transforma em tecido literário-pictórico ...

A infância sem nostalgia: Confissão, de Cláudia Lucas Chéu

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Por Jonas Leite Cláudia Lucas Chéu. Foto: Diana Tinoco Segundo Giorgio Agamben, o poeta “contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro” (Agamben, 2009, p. 62). A afirmação me parece especialmente adequada à leitura de Confissão , de Cláudia Lucas Chéu (n. 1978). Há neste livro um olhar que retorna à infância sem qualquer desejo de recuperá-la como um tempo feliz. O movimento é outro: lembrar significa aproximar-se novamente daquilo que foi difícil e que, de algum modo, continua presente. Publicado originalmente em 2020, pela Companhia das Ilhas, em Portugal, o livro recebeu edição brasileira da Reformatório em 2022 e foi semifinalista do Prêmio Oceanos em 2021. O que primeiro me chamou a atenção em Confissão foi a maneira como Chéu transforma a memória da infância em matéria literária sem protegê-la de suas zonas de desconforto. Apresentado pela própria autora como um exercício de poesia confessional, o livro constitui-se de...

A impossibilidade do Aleph

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Por Federico Guzmán Rubio  Incessantes e vastas como o universo, as interpretações de O Aleph  acumulam-se e sobrepõem-se umas às outras, sem a obrigação de refutar ou sequer se posicionar como a mais correta, já que o conto de Borges pode ser lido, essencialmente, como se quiser. Entre elas estão — nas inúmeras outras — Julia Kristeva com suas abjeções, Jean Baudrillard com seus simulacros e Michel Foucault com suas palavras e suas coisas, demonstrando que, com um pouco de imaginação teórica, tudo pode ser provado a partir de Borges. Longe de constituir um exemplo de superinterpretação, todos os conceitos, sistemas e dissertações formulados por vários estruturalistas e pós-modernistas são, a meu ver, um meticuloso ato de justiça: o mínimo que se pode exigir dos exegetas de uma obra que aspirou conter o infinito — seja a sério ou em tom de brincadeira — é que desenvolvam um número igual de leituras. Contudo, em sua ânsia de transcender o texto e se tornar uma interpretação do ...