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Cinco ideias fixas sobre crítica literária

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Por Jorge Téllez Ilustração: Hanna Barczyk    O crítico e o escritor são espécies diferentes   Com frequência, a escrita e a crítica aparecem no imaginário literário como práticas antagônicas. Talvez seja verdade que o escritor e o crítico, embora compartilhem do mesmo instrumento e objeto de trabalho, utilizem a linguagem de maneira diferente. Mas, a maioria das vezes a diferença demonstra duas necessidades entre as aparências básicas no mundo cultural: a autoafirmação e o rebaixamento do outro. Assim, que se qualifique um crítico como “escritor frustrado” e que se afirme que os escritores sabem pouco sobre literatura — para citar apenas dois dos lugares comuns a respeito — diz pouco do exercício da escrita ou da crítica e muito da vontade do interesse de polemizar da pessoa que reproduz essas insensatezes frequentemente.   Escrever resenhas me converte em crítico literário   Antes de comentar sobre isso, a pergunta é: por que alguém quereria se converter em crítico literário? Ou melh

Quincas Borba, de Machado de Assis

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Por Pedro Fernandes   A obra romanesca de Machado de Assis constitui um desenho muito bem elaborado, ainda que não deixe de apresentar alguns defeitos; é sobre a quantidade, especificamente, que a afirmativa se refere. Dez é uma unidade perfeita e o pequeno mundo que se ergue desde a Ressurreição ao Memorial de Aires esquadrinha de maneira insuperável as múltiplas feições da alma humana. Desse conjunto, Quincas Borba talvez seja o que melhor consegue esse feito, uma vez que, apesar de situado ainda a três romances do fim desse circuito criativo, reúne alguns dos elementos essenciais das obsessões genuinamente machadianas, quais sejam, o amor incorrespondido ou irresoluto, os jogos de interesses de variada sorte, o assoreamento das relações pela interferência do dinheiro, a ambição desmedida, as compulsões, o ciúme, a inveja, a loucura. As tantas propensões desse romance respingam negativamente na regularidade do edifício ficcional — ainda que seja perfeitamente justificável, como s

A obsessão dos olhos: Buñuel o voyeur

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Por Glafira Rocha Todo se hace en silencio como se hace la luz dentro del ojo. Jaime Sabines   Frame de Um cão andaluz , filme de Luis Buñuel.   Um olho no buraco da fechadura olha, observa, espia. Um marido ciumento do outro lado e uma agulha comprida e afiada que é inserida com a intenção de perfurar esse olho que irrompe no universo dos amantes. O olho se esvazia, sangra, o espião grita: perdeu um de seus valores mais preciosos. Na imaginação paranoica de um homem aprisionado pelo ciúme, acontece essa história que não tem relação com a realidade; ninguém vê, não há ninguém atrás da porta, embora sua resposta corresponda à sua fantasia, pois um cérebro não distingue entre o que realmente está acontecendo e o que a ilusão lhe indica. Os olhos são a sua obsessão, a visão do voyeur que participa do evento como ausente e presente ao mesmo tempo. O olhar que realiza um jogo de espelhos: o autor que imagina, o ator que representa, o espectador em sua poltrona, que também invade aquele cal

Todo (o) sentimento em todo (o) tempo: um pequeno itinerário para uma breve crítica poética

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Por Marcelo Moraes Caetano Ferenc Pintér.   Todo o sentimento (Bastos e Buarque, 2012) Preciso não dormir Até se consumar O tempo da gente. Preciso conduzir Um tempo de te amar, Te amando devagar e urgentemente. Pretendo descobrir No último momento Um tempo que refaz o que desfez, Que recolhe todo sentimento E bota no corpo uma outra vez. Prometo te querer Até o amor cair Doente, doente... Prefiro, então, partir A tempo de poder A gente se desvencilhar da gente. Depois de te perder, Te encontro, com certeza, Talvez num tempo da delicadeza, Onde não diremos nada; Nada aconteceu. Apenas seguirei Como encantado ao lado teu. Depois de te perder, Te encontro, com certeza, Talvez num tempo da delicadeza, Onde não diremos nada; Nada aconteceu. Apenas seguirei Como encantado ao lado teu. A poesia “Todo o sentimento”, escrita por Chico Buarque e Cristóvão Bastos, será encarada, nesta crítica, pela perspectiva imanente (cf. Todorov, 2009) do texto. Com isso, quero

Gustave Flaubert ou a invisibilidade autoral

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Por Toni Montesinos Gustave Flaubert. Ilustração: J. J. Sempé   Já dizia a dupla formada por Jules e Edmond de Goncourt, em seu diário de 1860, cujos relatos da história relegou ao esquecimento, mas cujo sobrenome tem eco constante no meio cultural gaulês e até internacional para o prêmio assim chamado, o que passou a ser realizado para cumprir com uma vontade registrada em testamento por Edmond. Referimo-nos a esta afirmação — “Oh, querer fazer algo novo custa caro!” — dita num período quando a França estava sofrendo uma avalanche de acontecimentos logo após Luís Napoleão Bonaparte, presidente da Segunda República Francesa, dar um golpe de estado para se tornar Napoleão III. Algo que geraria, como consequência direta no campo literário, o exílio de Victor Hugo e um clima de censura perpetrada contra os meios de comunicação.   Por exemplo, em 1853, os Goncourt foram processados ​​por um artigo que pretendia refletir o ambiente da rua de onde moravam até o endereço do jornal para o qual

Boletim Letras 360º #454

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    DO EDITOR   1. Caro leitor, na semana seguinte o Letras alcança 15 anos online.  2. Desde quando começou timidamente como um espaço pessoal para abrigar textos aleatórios, registros de leituras colhidos noutras regiões desse universo ao que somos hoje, 15 anos é um longo tempo. Nada aqui foi gratuito e tudo foi/ e é a duras penas.  3. Vale pensar que este espaço tem contribuído para o debate sobre a literatura e o literário num país que sempre deitou vistas grossas para o assunto ou se utiliza dele para subterfúgios outros, uma vez que padecemos da triste mania de reduzir a leitura a algum fator utilitário.  4. Não é fácil, é verdade, mas continuamos.   5. Lembro que no dia 26 de novembro, se divulgará o resultado do primeiro sorteio do nosso pequeno clube de apoios à manutenção do blog. Levará um kit com três livros ofertado pela Editora Mundaréu. Você pode saber tudo sobre como participar aqui . Se estiver numa das redes do blog, pode consultar mais detalhes no   Instagram , no