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Anne Carson, prêmio Nobel de Literatura

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Por Ernesto Hernández Busto Anne Carson. Foto: Pontus Lundahl Quem procura informações a respeito de Anne Carson nas capas dos seus livros encontrará apenas uma breve menção: “Nasceu no Canadá e ganha a vida ensinando grego antigo”. A escritora cultivou essa discrição com o mesmo cuidado que outros se dedicam a nutrir uma florida reputação. Concede poucas entrevistas, e as que dá costumam ser evasivas e, por vezes, desconcertantes. Por trás dessa autobiografia mínima, porém, reside uma extensa trajetória: um doutorado em Línguas Clássicas, anos de ensino em McGill, Michigan e Nova York, e uma obra que jamais separou os estudos acadêmicos da escrita criativa. Essa fusão é sua característica definidora. Tudo começa com Eros, o doce-amargo (1986), um ensaio sobre o desejo na Grécia Antiga que se lê como um poema. Nele, Carson propõe que o eros nasce de uma carência, e que essa falta só se torna visível em um triângulo. O glukupikron de Safo (“agridoce”, ou melhor, “doce-amargo”) não des...

Entre o crime, o remorso e o castigo

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Por Michel Goulart da Silva Em 1866, ao longo do ano, o escritor russo Fiódor Dostoiévski publicou os capítulos de uma de suas principais obras. Com o tempo, o romance Crime e castigo se tornou um clássico da literatura mundial como um denso estudo psicológico da violência e o impacto da sociedade na mente humana. A narrativa se desenvolve em torno de Raskólnikov, um jovem estudante que vive na pobreza e procura formas de tentar sobreviver. O desespero dessa condição o leva a assassinar Aliona Ivánovna, uma velha agiota que emprestava dinheiro a juros altos, e sua irmã mais nova, Lizavieta, que entra inesperadamente na cena do crime e é morta por Raskólnikov, para não deixar testemunhas. Os desdobramentos dos assassinatos, depois de perpetrados, ocupam a maior parte da obra, em especial destacando as consequências do crime para o homicida. Esse enredo pode parecer sem originalidade, em meio à massificação de histórias de investigação policial nas últimas décadas. Contudo, Crime e cast...

Boletim Letras 360º #712

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto a custear as despesas com domínio e hospedagem online. A sua ajuda continua essencial. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .  Annie Carson. Foto: Golli. Reprodução a partir do The Guardian   LANÇAMENTOS A guerra ficcionada pelo traço criativo e inventivo de e. e. Cummings .   O leitor de uma obra ambientada em uma guerra já espera relatos dolorosos, caóticos e nauseantes. Neste livro, o estadunidense e. e. Cummings nos apresenta esse panorama. Porém, a notabilidade da obra está justamente em sua capacidade de inserir esses elementos em um fundo parodístico, conduzindo-nos a um “front” inesperado. Cummings, poeta e artista plástico, transforma em tecido literário-pictórico ...

A infância sem nostalgia: Confissão, de Cláudia Lucas Chéu

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Por Jonas Leite Cláudia Lucas Chéu. Foto: Diana Tinoco Segundo Giorgio Agamben, o poeta “contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro” (Agamben, 2009, p. 62). A afirmação me parece especialmente adequada à leitura de Confissão , de Cláudia Lucas Chéu (n. 1978). Há neste livro um olhar que retorna à infância sem qualquer desejo de recuperá-la como um tempo feliz. O movimento é outro: lembrar significa aproximar-se novamente daquilo que foi difícil e que, de algum modo, continua presente. Publicado originalmente em 2020, pela Companhia das Ilhas, em Portugal, o livro recebeu edição brasileira da Reformatório em 2022 e foi semifinalista do Prêmio Oceanos em 2021. O que primeiro me chamou a atenção em Confissão foi a maneira como Chéu transforma a memória da infância em matéria literária sem protegê-la de suas zonas de desconforto. Apresentado pela própria autora como um exercício de poesia confessional, o livro constitui-se de...

A impossibilidade do Aleph

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Por Federico Guzmán Rubio  Incessantes e vastas como o universo, as interpretações de O Aleph  acumulam-se e sobrepõem-se umas às outras, sem a obrigação de refutar ou sequer se posicionar como a mais correta, já que o conto de Borges pode ser lido, essencialmente, como se quiser. Entre elas estão — nas inúmeras outras — Julia Kristeva com suas abjeções, Jean Baudrillard com seus simulacros e Michel Foucault com suas palavras e suas coisas, demonstrando que, com um pouco de imaginação teórica, tudo pode ser provado a partir de Borges. Longe de constituir um exemplo de superinterpretação, todos os conceitos, sistemas e dissertações formulados por vários estruturalistas e pós-modernistas são, a meu ver, um meticuloso ato de justiça: o mínimo que se pode exigir dos exegetas de uma obra que aspirou conter o infinito — seja a sério ou em tom de brincadeira — é que desenvolvam um número igual de leituras. Contudo, em sua ânsia de transcender o texto e se tornar uma interpretação do ...

Best-sellers de outros tempos: Sinclair Lewis em sua Rua Principal

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Por Javier Pérez  Sinclair Lewis. Foto: Edward Steichen. Reprodução a partir da Forbes . Sinclair Lewis foi o primeiro escritor dos Estados Unidos a receber o Prêmio Nobel de Literatura, e isso, de certa forma, marcou sua carreira, revestindo-a com uma camada de respeitabilidade que nunca realmente possuiu, já que jornalistas, repórteres, romancistas satíricos e humoristas nunca foram considerados respeitáveis. Presume-se que a literatura seja o domínio de pessoas sérias, embora figuras como Quevedo, Rabelais, Jonathan Swift ou o próprio Lewis, alguns degraus abaixo, existam para desmentir essa ideia. O autor em questão nasceu em 1885 em Minnesota e morreu em Roma em 1951. Esse é um dado que parece casual, mas se fosse o contrário — isto é, se estivéssemos falando de um autor nascido em Roma e que morreu em Minnesota — estaríamos, de fato, nos referindo a uma verdadeira autêntico acaso de estatística e uma espécie de fracasso estético. Contudo, com o rumo nesse sentido, podemos qua...