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Cadernos de delicada loucura (Parte 2)

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Por Antonio Yelo (A primeira parte deste texto foi traduzida aqui )   5 Susan Sontag tinha dezessete anos quando se casou com Philip Rieff, seu professor de sociologia na universidade. Rieff era onze anos mais velho que ela. No dia 3 de janeiro de 1951, a escritora anotou no seu diário:   “Casei com Philip com plena consciência + medo da minha própria vontade apontada para a autodestrutividade.”   A 4 de setembro de 1956 reflete em outro de seus cadernos:   “Quem inventou o casamento foi um torturador astuto. É uma instituição destinada a embota os sentimentos. Toda a questão do casamento se resume na repetição. O melhor que ele almeja é a criação de dependências fortes e mútuas.   Brigas acabam perdendo todo o sentido, a menos que a pessoa esteja sempre pronta a agir sobre elas — ou seja, terminar o casamento. Assim, depois do primeiro ano, a pessoa para de ‘perdoar’ depois das brigas — apenas recai num silêncio irritado, que passa a um silêncio comum, e depois continua outra vez.”  

O verão em que mamãe teve olhos verdes, de Tatiana Ţîbuleac

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Por Sérgio Linard Tatiana Ţîbuleac. Foto: Mario Gi. Quando a pretensão é não traumatizar filhos, o melhor caminho é não os ter. Assim dizem os populares, assim escolheu o nosso Brás Cubas. Mas a mãe de Aleksy o traumatizou e só conseguiu ter uma boa convivência com aquele adolescente em um eterno verão. Este romance da autora moldava Tatiana Ţîbuleac persegue, sob a perspectiva do filho já adulto, justamente aquele verão.   São as férias escolares; a mãe, que já tem uma relação bastante conturbada com sua única prole, encaminha-se até aquela escola destinada a jovens infratores, órfãos ou com algum “problema” que a sociedade autointitulada “normal” vê como suficiente para isolá-los da vida em sociedade. E aqui, já no começo do livro, entendemos o grau de repulsa que o jovem tinha por sua genitora:   “Naquela manhã em que a odiava mais do que nunca, mamãe completou trinta e nove anos. Era gorda e baixinha, burra e feia. Era a mãe mais imprestável que já havia existido. Observava-a pela

Visita ou Memórias e Confissões, de Manoel de Oliveira

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Por Solange Peirão   Visita ou Memórias e Confissões é um filme do cineasta português Manoel de Oliveira, apresentado ao mundo em 2015. Foi realizado em 1982. Porém, por determinação explícita de seu realizador, só poderia ser divulgado após sua morte, que ocorreu naquele ano. Não, segundo ele, porque tivesse algo surpreendente a revelar, ou proibitivo a esconder. Simplesmente, porque tratava-se de um filme autobiográfico, um filme sobre ele e sua família.   O fato é que essa condição já veio derramar sobre a película um certo clima de suspense que, igualmente, acabou por se tornar também uma de suas marcas.   Os principais personagens/atores (ou atores/personagens), quem serão? Manoel de Oliveira e sua família? Os visitantes/fantasmas (ou seriam fantasmas/visitantes?) da casa que, em princípio, vieram agradecer o jantar que os Oliveira lhes haviam oferecido recentemente? Ou, ainda, seria a própria casa?   Sobre documentário e ficção   Ao assistir Visita ou Memórias e Confissões sent

Hermann Hesse: a desaparição dos oráculos

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Por Christopher Domínguez Michael Hermann Hesse. Foto: Martin Hesse.   Estamos diante de um dos romancistas mais lidos do século XX. De 1904, quando apareceu Peter Camenzind , até quando não encontrei mais o exemplar de Narciso e Goldmund que eu havia localizado na semana passada, Hermann Hesse (1877-1962) é o rito de passagem na leitura para milhares de jovens em muitas línguas.   Ao contrário de outros “educadores”, a popularidade de Hesse sobreviveu ao menosprezo dos críticos e, acima de tudo, ao dissimulado aborrecimento de quem o leu e o esqueceu. Hesse não precisa mais de nós. Alguns, eu mesmo nestes dias, espantados ante a morte, precisam dele. Sinto falta e odeio o que Hesse talvez simbolize: a adolescência.    Os historiadores da vida cotidiana, uma ciência inexata, nos ensinam a desprezar as essências que identificam as idades consagradas da vida. Infância, adolescência, juventude, maturidade e velhice seriam, mais do que uma sucessão biológica, um museu de cera criado artif