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Boletim Letras 360º #683

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DO EDITOR O leitor que frequenta as nossas redes sociais terá descoberto antes deste boletim, a nossa alegria de anunciar neste Dia Mundial da Poesia uma novidade que acrescentará, certamente, às fronteiras do Letras . Nosso projeto se junta ao Observatório da Poesia Contemporânea, grupo de pesquisa da Universidade Federal de Pernambuco. A partir de abril, o leitor terá ao seu dispor uma série de publicações que visam responder uma variedade de questões que marca isso que temos chamado de poesia contemporânea : resenhas de livros de e sobre poesia, ensaios críticos interessados em problematizar a lançar alguma luz no vasto campo da criação poética em nosso tempo etc.  Reitero o convite. Aproveite para seguir a página do Observatório no Instagram   e esteja atento ao Letras  e também às nossas redes. Continuaremos a dedicar a atenção que sempre demos à força de toda criação literária. Agora, um pouquinho mais, é verdade. Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links f...

Casas de cultura, praias e livros

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Por Rafael Bonavina Charles Burchfield, Deserted House , 1918 Aceleração. Essa parece ser a palavra de ordem ao se tratar da cultura, que cada vez mais se assemelha a algo para aliviar rapidamente um desconforto, como um chiclete que se masca, embrulha e joga fora. Cada vez os vídeos estão mais curtos, mais estridentes e dinâmicos (mais danças, músicas, luzes e apupos), porém o conteúdo — produzido pelas chamadas inteligências artificiais —fica para as legendas, que raramente são lidas.  Não é raro ouvir que a literatura está se desenvolvendo também nessa linha: textos cada vez menores (microcontos, micropoesias) divulgados nas redes sociais com vídeos gravados pelos próprios autores. Isso não significa, claro, que uma literatura menos acelerada tenha deixado de existir, e até mesmo de tocar em questões importantes da atualidade. Pelo contrário, são muitos os textos que nos levam à incômoda reflexão sobre as limitações e contradições do nosso tempo. Ainda assim, eles acabam perdido...

O colibri, de Sandro Veronesi

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Por Sérgio Linard  Sandro Veronesi. Foto: Gianni Cipriano “Quantas pessoas estão sepultadas dentro de nós?” (p. 319) Esta pergunta poderia resumir perfeitamente o ótimo romance O colibri , do italiano Sandro Veronesi. Esta história, que se apresenta ao leitor de maneira não linear, garantiu ao autor, o segundo na história do prêmio, a receber por duas vezes o importantíssimo Strega. O título da obra e a justificativa dele, exposta já nas primeiras páginas, não sinalizam que o apanhado deste romance seria o de uma história do luto em vida ou, talvez, de uma vívida morte.  Na literatura contemporânea — com destaque especial para a europeia — a exploração da multiplicidade de formas dentro do gênero romance tem sido bastante comum. A plasticidade do gênero permite manifestações textuais das mais diversas e com o acréscimo rotineiro de textos da era da informação: a carta deu lugar ao e-mail; o bilhete, à mensagem de WhatsApp; e as grandes descrições que definiam algo deram lugar ...

O cavalo de Turim, de Béla Tarr

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Por Hugo Hernández  Béla Tarr pôs fim à sua carreira do cineasta com O cavalo de Turim (2011), vencedor do prêmio da Federação Internacional de Críticos de Cinema e do Urso de Prata do Júri no Festival de Berlim. O filme ficou como seu testamento. Ele foi um diretor inclassificável, quase um gênero em si mesmo. Segundo o diretor estadunidense Gus Van Sant, ele era “um dos poucos diretores verdadeiramente visionários”; e a obra do húngaro também representa uma influência significativa para o próprio Van Sant.  O cineasta húngaro geralmente evitou a causalidade e a narrativa em três atos: seus filmes oferecem mais do que histórias; são experiências que “se aproximam dos verdadeiros ritmos da vida”, como também afirma Van Sant. Eles exigem mais do espectador do que simplesmente juntar as peças dos eventos apresentados; convidam-no a assumir uma postura ativa (caso contrário, corre o risco de ficar entediado), a se abrir e se aventurar por caminhos menos conhecidos, onde a emoção...

Legado da forma

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Por Thiago Teixeira  Michel de Montaigne. Escola Francesa. Entender o ensaio, este gênero que tanto nos é caro e que, às duras penas, nos esforçamos para cultivar, talvez seja uma boa maneira de iniciar a sequência de textos que passaremos a publicar neste espaço. Isso significa, claro, revisitar o criador do gênero, Michel de Montaigne. Seus Ensaios , publicados em três volumes durante a vida, são a melhor companhia de leitura para quem ama literatura e filosofia. Montaigne escreve como quem conversa com o leitor, mostrando-se por inteiro, em uma sinceridade e franqueza que não encontramos nem mesmo entre os epistológrafos.  Mais do que a imagem de um homem renascentista, moderno, próximo a nós, Montaigne nos legou uma forma de expressão que concorre com a metodologia, visão ou postura científica. Para a entendermos um pouco, a melhor fonte talvez seja o segundo texto do terceiro volume, intitulado “Do arrependimento”, no qual ele deixa claro não estar pintando o retrato...

Percursos fluviais para chegar ao mar em O rio que me corta por dentro, de Raul Damasceno

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Por Douglas Sacramento Raul Damasceno. Foto: Arquivo do escritor. Existem inúmeros filmes e livros que retratam os períodos de descobertas e primeiros amores de adolescentes, jovens e adultos. Sempre fui muito afetado por esse tipo de estrutura narrativa. Acredito — e, depois de muitos anos de terapia, entendo melhor — que, por não ter vivido essas descobertas no tempo esperado, acabei suprindo a falta e descompasso consumindo enredos juvenis, ora felizes, ora nem sempre bem resolvidos. Quando analisamos obras centradas em questões LGBT+ e recortamos seus enredos — e o leitor que parar para pensar com certeza encontrará — sobram bons exemplos que não apresentam o tão esperado “final feliz” recorrente nas histórias que aqui me refiro.  Essas elucubrações me vieram quando estava imerso nos rios narrativos de Raul Damasceno, escritor cearense formado em História,  que, depois de se aventurar na escrita compondo roteiros, apresenta o seu primeiro romance: O rio que me corta p...