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Tradição e busca por liberdade em On The Road, de Jack Kerouac

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Por Vinicius de Silva e Souza Jack Kerouac Foto: Jerry Bauer Durante quase todo o mês de abril de 1951, aos 29 anos de idade, Jack Kerouac escreveu seu mais famoso livro. Tratado por muitos como uma obra canônica, lendária, “bíblia da geração beat”, como aponta a L&PM Editores, responsável pela obra do autor e dos seus pares no Brasil, mais como jogada de marketing do que constatação da realidade. Tantos anos depois da publicação, a leitura de On The Road  é cercada de polêmicas. Diante das inevitáveis mudanças culturais, ainda mais no atual milênio, fica difícil entender alguns aspectos do romance, mas também, talvez até em mesma medida, acredito que certo apelo ainda resiste e é totalmente compreensível. Fui pego de surpresa ao ver notas e reviews tão negativas no Goodreads. Avaliações essas que se repetem no Reddit, evidenciando um sentimento generalizado: On The Road é o espírito de seu tempo — mas apenas isso. Uma crítica na Amazon diz, em determinado momento: “A única ...

Boletim Letras 360º #694

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o Letras permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .  Elvira Vigna. Foto: Karime Xavier LANÇAMENTOS Nova tradução e edição de uma das novelas mais importantes para a narrativa insólita .   Com uma carta de recomendação nas mãos, Peter Schlemihl vai à casa de Herr Thomas John, um rico proprietário de terras, em busca de um emprego. Entre os convivas lá reunidos em uma recepção, está um misterioso homem vestindo uma casaca cinza. De seu bolso ele tira qualquer coisa que lhe peçam: uma luneta, uma tenda completa, três cavalos. Espantado, Peter trava conhecimento com o homem, que lhe faz a proposta: alguma maravilha em troca de...

Os entremeios que estruturam O livro das semelhanças, de Ana Martins Marques

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Por Weyna Moreira Macêdo Ainda que não te fossem dedicadas todas as palavras nos livros pareciam escritas para você — Ana Martins Marques Ana Martins Marques. Foto: Rodrigo Valente O livro das semelhanças , da poeta mineira Ana Martins Marques, constrói-se como um exercício simultâneo de escrita e leitura do mundo, no qual a própria estrutura do livro se torna matéria poética. Desde seu limiar, a obra anuncia seu projeto metalinguístico de maneira radical: o índice, ao listar itens convencionais de uma estrutura editorial, como “Capa”, “Nome do autor”, “Título”, “Primeiro poema”, cumpre uma função organizadora, mas também realiza uma operação poética mais complexa. Cada um desses elementos paratextuais, que normalmente funcionariam como meros suportes informativos, é ressignificado como instância criativa autônoma. Logo, o que seria tradicionalmente um sumário transforma-se em um primeiro gesto metapoético, transformando cada um desses elementos em um espaço de significação. Nele, a mo...

Coriolano: de apátrida maldito à mártir radical

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Por Juliano Pedro Siqueira  Oh mãe! Salvastes a pátria, mas perdestes o filho. Franz Anton Maulbertsch. Coriolano nos portões de Roma . (c. 1795) A dramaturgia de William Shakespeare tem um lugar de destaque no cânone da literatura mundial. Seja por sua magnitude trágica ou por seu aspecto humanístico, cujo efeito atingiu esferas atemporais. A atualidade dos seus textos, combinada com seu estilo de escrita profícuo, é tão impressionante que pode levar alguns a questionar sua existência. Isso quando não creditam sua vasta obra a eruditos anônimos, dada a imensidão de sua produção literária. Coriolano está longe de ser a peça célebre de Shakespeare. Provavelmente é a menos conhecida do público geral. Mesmo concorrendo por fora entre Macbeth e Hamlet , essa tragédia aborda as consequências nefastas de um poder que transita entre orgulho e sacrifício. Mas não apenas! Também se destaca pelas relações estreitas entre poder político e plebe; como se desencadeava as traições nos bastidor...

O cinema e o tema da vingança

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Por Michel Goulart da Silva Bela vingança (no título original, Promising Young Woman ) recebeu o Oscar de Melhor Roteiro em 2021. Protagonizado por Carey Mulligan, o filme está centrado na vingança de uma jovem mulher (Cassie) contra as pessoas que teriam levado sua melhor amiga (Nina) ao suicídio, depois de ter sido estuprada e ver o responsável pelo crime sair impune. Essa parece ser a história de tantos outros filmes — como aquelas da franquia conhecida no Brasil como Doce vingança . Contudo, a produção de Emerald Fennell se distancia dessa possível comparação em muitos sentidos. No começo do filme, tomamos contato com Cassie, quando aplica “lições” em homens que se aproveitam de mulheres vulneráveis. Ela vai a bares, finge estar bêbada e, quando os homens começam a assediá-la, os surpreende mostrando estar lúcida, os assustando. Nesses momentos procura mostrar a fragilidade desses homens, cuja masculinidade parece acabar diante de ter a sua frente uma mulher lúcida e sob contr...

Folk horror em Animais tropicais, de Javier A. Contreras

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Por Douglas Sacramento  Javier A. Contreras. Foto: Guaíra Maia Existe um imaginário antônimo do espaço citadino — o chamado lugar da organização cultural. No distanciamento das cidades também existe cultura, mas beirando o estranho e, por vezes, o diabólico. Os filmes de terror pontuam constantemente essa relação dicotômica e a literatura apresenta ótimos exemplos em que o distanciamento do urbano se relaciona com o encontro do mal, do transgressor e do selvagem. Lembro-me de um conto de Stephen King em que um casal, ao se afastar da cidade, encontra uma pequena comunidade no interior circundada por um grande milharal. O resultado é o encontro das personagens com uma sociedade governada por crianças que mataram todos os adultos e adoram uma divindade que vive no milharal alimentando-se dos jovens quando começam as transformações da adolescência. O sacrifício humano ocasionava num bem-estar comunitário e uma vida tranquila para aquelas crianças que organizavam e controlavam o poder ...