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Outras guerras, de Leonardo Brasiliense

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Por Henrique Ruy S. Santos  Leonardo Brasiliense. Foto: Marcelo Brum A solidão masculina é um tema recorrente na literatura moderna. Homens (ou garotos) acossados pelo peso de seus dilemas morais, da rejeição social ou da inadequação diante do mundo constituem personagens frequentes nesse universo ficcional. Puxando de cabeça: Crime e castigo ; O apanhador no campo de centeio ; Eurico, o presbítero ; A metamorfose , além de muitos outros.  O tema evidenciado e o tipo de personagem parecem exercer uma certa atração também sobre Leonardo Brasiliense. Roupas sujas (2017), seu melhor romance até agora (não obstante o mau título), ainda que se concentre em um drama familiar com uma certa multiplicidade de personagens, dedica uma atenção notável ao conflito interno de Antônio e seu afastamento do restante da família. Peixe estranho (2022), romance mais irregular, lida com um sujeito que vive com uma boneca de silicone para quem passa os dias a narrar a vida que teve com duas ex-es...

Abismos da leveza, de Rodrigo Petrônio

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Por Herasmo Braga Em meio a tantas ideias reproduzidas, mesmices estéreis com ares de novidades, idealismos pueris como os de originalidade, genialidade, ficamos surpresos quando somos apresentados pensadores com obras significativas, que provocam no mínimo atenção em pontos até então despercebidos por conta do cultivo hegemônico de olhares guiados para o mais do mesmo. Abismos da leveza , obra recentemente publicada por Rodrigo Petrônio, constitui um destes expressivos momentos de inteligência e lucidez teórica. O trabalho realiza consistentes diálogos com a tradição filosófica, com proposições elucidativas diante de dilemas e inquietações, além de aglutinar relevantes contribuições não só para compreensão do mundo das ideias, das artes, como também, da realidade em seu contexto mais atual e urgente. As premissas discursivas problematizam formas de pensar, no mínimo equivocadas, quando não inverossímeis, nas quais nos acostumamos, erradamente, em conceber como as questões de antinomia...

Seis poemas de Li Bai

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Por Pedro Belo Clara  (Seleção, versões e notas)* IN MEMORIAM ¹  (o poeta chora Ho Chi-Chang) O lugar de Ssu-ming tinha um louco, Ho Chi-Chang, o vento e os ribeiros punham-no frenético.  A primeira vez que o vi, em Chang-an, Chamou-me “um deus no exílio”. Oh, estimado amante da taça, Tornou-se a erva debaixo do pinheiro —  Ele que deu a sua tartaruga dourada em troca de vinho. Agora, sozinho, recordo-o — e as lágrimas caem. PARA TU FU, DA CIDADE DA COLINA ARENOSA ²   Por que vim até aqui, afinal?  A solidão é o meu destino na Cidade da Colina Arenosa. Velhas árvores erguem-se junto às muralhas da cidade; Escutam-se, dia e noite, as atarefadas vozes do outono. O vinho de Luh não tranquiliza o meu espírito, Nem as comoventes canções de Chi o tocam; Todos os meus pensamentos correm até ti, Com as águas do Min seguindo para sul, sem cessar.  REINVINDICAÇÃO   Se o céu não amasse o vinho, A Estrela do Vinho³ não existiria nas alturas;  Se a terra ...

Boletim Letras 360º #706

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto a custear as despesas com domínio e hospedagem online. A sua ajuda continua essencial. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras . Guillermo Cabrera Infante. Principal romance do escritor é reeditado no Brasil. LANÇAMENTOS Outro romance que se tornou marco na literatura brasileira ganha nova edição nos seus cinquenta anos .   Uma festa, na Belo Horizonte dos anos 1970, reúne uma extensa galeria de personagens, diversos e cativantes. Em A festa, de Ivan Angelo, o autor revoluciona a forma de se narrar o Brasil e sua história, cobrindo um passado que começa nos anos 1930 e chega, visionariamente, até as portas do século XXI.  O livro que se tornou um grande marco da literatura latino-a...

Das influências pitagóricas segundo Charles Kahn

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Por Afonso Junior Durante muito tempo, o sistema conceitual de Aristóteles parece ter moldado o que se entendeu por filosofia — até mesmo influenciando a erudição medieval e moderna. É famosa a colocação de Galileu de que o estagirita era seu mestre, ainda que tenha desafiado suas premissas. Talvez por isso, alguns sábios da Antiguidade, como os pitagóricos, medidos pelo método aristotélico, tenham sempre ganhado um espaço menor na pesquisa, mesmo que tenham sido reconhecidas suas “influências”, desde Platão até o pensamento científico.  Pitágoras e os pitagóricos: uma breve história , de Charles Kahn, faz parte dessa redescoberta de um dos sistemas mais originais e de maior impacto na história do pensamento ocidental. Uma das grandes rupturas dos saberes iniciáticos como o pitagorismo (praticamente fundido ao orfismo em determinado momento), é a “criação da alma imortal”, a ideia de que a alma homérica, simples hálito do ser vivo, que vive como sombra sem força no Hades, pass...

Uma ressonância de Dostoiévski em Boca de ouro

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Por Rafael Bonavina  O solitário , Oswaldo Goeldi. Seria muito difícil negar a influência que Fiódor Dostoiévski teve sobre Nelson Rodrigues, tão difícil que poderíamos nos eximir da tarefa de apontá-la. Mas, para quem ainda não a conhece, basta nos remetermos à crônica “Uma banana como merenda”, em que ele nos diz: “Certa vez, um erudito resolveu fazer ironia comigo. Perguntou-me: ‘O que é que você leu?’. Respondi: ‘Dostoievski’. Ele queria me atirar na cara os seus quarenta mil volumes. Insistiu: ‘Que mais?’. E eu: ‘Dostoievski’. Teimou: ‘Só?’. Repeti: ‘Dostoievski’. O sujeito, aturdido pelos seus quarenta mil volumes, não entendeu nada. Mas eis o que eu queria dizer: pode-se viver para um único livro de Dostoievski. Ou uma única peça de Shakespeare. Ou um único poema não sei de quem. O mesmo livro é um na véspera e outro no dia seguinte. Pode haver um tédio na primeira leitura. Nada, porém, mais denso, mais fascinante, mais novo, mais abismal do que a releitura.” (p. 37-38) A fi...