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Censura por omissão

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Por David Toscana  Ilustração de um cartão-postal antigo mostrando a censura, com um editor russo esmagado pelas novas regras introduzidas durante a Revolução Russa, por volta de 1917. Bob Thomas/Popperfoto via Getty Images Óssip Mandelstam disse que em nenhum país a poesia era tão importante como na Rússia, porque de onde tinha vindo podiam matar por causa de alguns versos. Na verdade, o poeta compôs um poema nada lisonjeiro para Stálin e recitou-o entre amigos, uma vez que nunca teria obtido permissão para o publicar. Acabou exilado na Sibéria, onde morreu de fome, de frio ou das duas coisas, e seu corpo foi jogado sabe-se lá onde. Esse país tem uma longa tradição de censura, desde os czares aos comunistas, e isso continua ainda em nosso tempo, na era Putin. Mas ali, como em quase todos os lugares, já não se procuram censurar os poetas, pois a censura de fato ocorre por falta de leitores. Hoje, os poetas são livres para lançar seus versos ao vento. Por mais que nós, escritor...

Boletim Letras 360º #711

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto a custear as despesas com domínio e hospedagem online. A sua ajuda continua essencial. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .  Vladimir Nabokov. Foto: Horst Tappe   LANÇAMENTOS Um dos romances mais delicados de Vladimir Nabokov, acompanha a formação de um jovem emigrado russo que atravessa a Europa em busca de pertencimento, amor e sentido. Uma narrativa sutil sobre desejo, exílio e as ilusões da juventude, escrita por um dos grandes estilistas da literatura do século XX . Martin Edelweiss é um jovem sem grandes planos ou ambições. Ele vive com a mãe e um tio numa propriedade na Suíça, depois de terem escapado da Revolução Russa. Sensível, reservado e dotado de um espírito poéti...

Doença e genialidade: o espírito trágico de Adrian Leverkühn em Doutor Fausto

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Por Juliano Pedro Siqueira Doutor Fausto , de Thomas Mann, é considerado, tanto pela crítica quanto por ele mesmo, como a obra da velhice. O grande empreendimento romanesco exigiu-lhe esforço hercúleo, custando-lhe sacrifícios físicos e intelectuais. A entrega sem medida culminou na versão mais melódica e filosófica da lenda do Fausto, colocando-a, talvez, em nível de paridade com o clássico poema trágico de Goethe. Em A gênese do Doutor Fausto: romance sobre um romance  — sua obra póstuma e autobiográfica —, Mann relata o percurso intelectual que o conduziu a escrever o romance de 1947. Segundo o romancista, o projeto é fruto do acúmulo de leituras e escritos, os quais reuniu por anos. A ideia de transformar os materiais disponíveis em forma de romance ocorreu-lhe quase que acidentalmente, quando estava finalizando a tetralogia, José e os seus irmãos . Naquela altura, o autor era um septuagenário, e seu vigor físico oscilava continuamente. Além do ofício de escritor, possuía uma v...

O surrealismo pletórico de Marosa di Giorgio

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Por Felipe Vieira de Almeida  Quem já se arriscou na leitura do Marquês de Sade descobre o erotismo do francês como quase alheio ao aspecto pornográfico e sedutor esperado tradicionalmente do erótico no sentido em que usa imagens sexuais, narra toda sorte de perversão sem, no entanto, permitir ao leitor se realizar com o que lê da mesma forma que o faz com escritas mais comerciais com este tema.  No Brasil, Hilda Hilst é outro exemplo nesse sentido. Escritora que flertou com o gênero e encontrou na ironia um veio rico em possibilidades subversivas dos clichês dessa literatura aos quais ela dizia se render, mas que, em realidade, ressignifica-os.  Nessa vertente, que é a da verdadeira criação literária, uma escritora uruguaia publicada na Coleção Sete Chaves — constituída por obras da literatura erótica — apresenta uma linguagem erótica desconcertante, cheia de vida e francamente estranha. A autora é Marosa di Giorgio e o livro Rosa mística . Trata-se de uma coletânea de c...

Passarinho que se debruça — o voo já está pronto! Considerações na biografia de João Guimarães Rosa por Leonencio Nossa (I)

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Por Herasmo Braga Como bem enaltecido por grande parte da crítica e dos leitores, a espera por uma biografia à altura de João Guimarães Rosa chegou ao fim. Possivelmente, não a definitiva, mas, com certeza, entre as melhores. O sertão está em toda parte na prosa de Leonencio Nossa, e no seu interior encontrou e teceu o escritor mineiro. Desmitificou o gênio e humanizou o criador imaginativo que muito viveu e dialogou com tudo que o identificou. Entre as inúmeras possibilidades presentes no livro, delimitam-se algumas considerações sobre o fazer literário em Guimarães Rosa. Neste primeiro momento, destacaremos a memória em três acepções contempladas no livro de Nossa: a memória criadora, a memória regionalista como matéria-prima para as narrativas e a memória como processo de autoconhecimento ficcional e real. O biógrafo apresentou, por meio de pesquisas, imagens, trechos das obras e de outros documentos, os caminhos que levaram o autor de Grande sertão: veredas a ser detentor de ...

Pensando os desencantos de um desenvolvimentista — ou Pequeno manual para elaborar reflexões sobre autores que ficaram pelo caminho

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Por Lucas Paolillo Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar e nessa linguagem emprestada. Assim, Lutero adotou a máscara do apóstolo Paulo, a Revolução de 1789-1814 vestiu-se alternadamente como república romana e como o império romano, e a Revolução de 1848 não soube fazer nada melhor do que parodiar ora 1789, ora a tradição revolucionária de 1793-1795. De maneira idêntica, o principiante que aprende um novo idioma traduz se...