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Odisseu e o amor que tudo suporta

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Por Juliano Pedro Siqueira  Marc Chagall, Odisseu e Penélope   A Odisseia , o grande épico de Homero, nunca esteve tão em evidência quanto nos últimos dias. Isso se deve à extravagante divulgação da adaptação da epopeia para o cinema pelo renomado diretor britânico Christopher Nolan. O longa-metragem tem dividido a opinião do público e da crítica em geral. Muitos o acusam de ter sido desleal ao texto homérico, pois teria fugido em demasia da sua proposta original, da seleção das personagens e até na construção dos cenários. Independentemente das controvérsias — proposital ou não — que cercam o trabalho do diretor, trata-se apenas de uma adaptação e não de uma tradução fidedigna. Distanciando-me das polêmicas de momento — deixo essa enfadonha tarefa aos críticos de cinema e aos formuladores de opinião —, o épico em voga despertou-me à memória um dos cantos mais brilhantes da Odisseia ; quando Odisseu defende sua fidelidade à Penélope diante de Calipso. O Canto V apresenta Odiss...

As outras Odisseias

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Por Ernesto Diezmartínez Cena de L'île de Calypson , de Georges Méliès. Uma curiosidade inevitável: a primeira adaptação cinematográfica da Odisseia , o poema épico situado na fundação da literatura ocidental, foi realizada por Georges Méliès, não apenas verdadeiramente o primeiro diretor de cinema, mas um autêntico taumaturgo cinematográfico: o primeiro a compreender a nascente sétima arte como uma máquina de ilusões, truques e maravilhas. Em L'île de Calypso: Ulysse et le géant Polyphème (1905), realizado apenas dez anos após a invenção do cinema, Méliès funde dois episódios da epopeia de Homero em um filme imaginativo, em plano-sequência, no qual Odisseu — o próprio Méliès — rejeita a ninfa Calipso enquanto enfrenta Polifemo, o monstruoso Ciclope, filho de Poseidon. Desde essa primeira abordagem cinematográfica, houve pouco mais de trinta adaptações diretas de todo tipo e natureza, além de muitas outras abordagens à emblemática jornada do herói concebida pelo poema épico e ...

Escutando os mortos no meio da natureza em Música de mortos suaves, de Ricardo Guilherme Dicke

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Por Douglas Sacramento  Ricardo Guilherme Dicke. Reprodução A literatura, como uma das muitas formas de arte, está inserida num campo de batalhas discursivas. Autores e obras disputam espaço dentro de um cenário editorial cada vez mais competitivo e produtivo, no qual determinadas produções literárias ganham destaque num período e podem ser esquecidas em outro. Logo, entender essa dinâmica faz parte do campo da crítica literária e, assim, muitos pesquisadores têm se dedicado a recuperar autores que sofreram processos de apagamento para trazê-los mais uma vez aos holofotes.  É o caso do pesquisador Rodrigo Simon de Moraes. Em sua tese de doutorado, defendida em 2021, ele estudou a obra do escritor mato-grossense Ricardo Guilherme Dicke. O interesse se construiu após a leitura de entrevistas em que Hilda Hilst o apontava como um dos melhores escritores brasileiros. Como os livros do autor estavam esgotados, Moraes entrou em contato com a filha de Dicke e, a partir desse encontro...

Voyeurismo no divã, os contos de Alberto Moravia

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Por Felipe Vieira de Almeida  Alberto Moravia. Foto: Ulf Andersen. Reprodução da Rádio France. Alberto Moravia foi um escritor e jornalista italiano de origem judaica nascido em 1907 cuja obra literária, iniciada ainda quando jovem e publicada às próprias custas, trouxe-lhe, entre outros dissabores, a perseguição do regime fascista em seu país.  Crítico contundente da família tradicional burguesa romana, Moravia precisou usar pseudônimos para continuar trabalhando como jornalista e posteriormente, então casado com a escritora Elsa Morante, chegou a fugir do regime se abrigando entre camponeses no interior da Itália.  Freud, Marx e Sade foram influências importantes na formação da sua trajetória intelectual e transparecem na abordagem irredutível da torpeza de setores da sua sociedade à época do regime fascista e mesmo durante a Guerra Fria. A coisa e outros contos  passou a fazer parte, em 2024, da Coleção Sete Chaves, curada pela crítica literária Eliane Robert Mora...

Boletim Letras 360º #702

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto a custear as despesas com domínio e hospedagem online. A sua ajuda continua essencial. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras . Elena Poniatowska.  Foto: Felipe Haro Poniatowski LANÇAMENTOS Livro da escritora mexicana,  Elena Poniatowska,  Prêmio Cervantes e uma das vozes mais importantes da literatura em língua espanhola, ganha edição no Brasil . Enquanto não te vejo, meu Jesus é um romance extraordinário inspirado na história real de Josefina Bórquez. Jesusa Palancares nunca teve uma vida fácil. Da infância marcada pela pobreza à participação na Revolução Mexicana, passando por décadas de trabalho, violência, perdas e resistência, ela narra sua trajetória com uma voz ...

Fausto e a contemporaneidade

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Por Herasmo Braga Rembrandt,  Fausto , 1650.  Aristóteles na  Poética afirma que o imitar é inerente ao ser humano. Se atentarmos para além das questões biológicas, a atividade que o homem mais realiza em sua jornada é interpretar. Podemos considerar sem sobressaltos ou exageros que a trinca de formação da compreensão do sujeito se dará pelas fontes históricas, filosóficas e literárias. Portanto, se a busca por algo é de muito saber, a vigência destes minadouros deve ter suas presenças marcantes. Fausto, seria, portanto, uma imagem significativa da modernidade tão em voga. A Modernidade, então, formou-se tendo como principal característica a centralidade no Eu. Junto a esse Eu-Centro, ao longo dos séculos, foram inseridas maneiras de ser e de se ver em que foi se evidenciando pari passu o acentuamento do Eu e, consequentemente, o apagamento do outro. Desta forma, o imaginário social do sujeito moderno era integrado apenas por maneiras individuais, soberbas, vaidades, e ...