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Onde a palavra erra: leitura do “Livro de erros”, de Maria Lúcia Dal Farra

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Por Eliane Santa Brígida Maria Lúcia Dal Farra. Foto: Portal da UFS “A marca suja da vida”¹, não o arrumado, o produzido, filtrado, o milimetricamente, racionalmente editado, manipulado, mas o que escapa. E escapa porque é potente em si e está alheio ao controle, é vivo, extrapola. E por escapar ao pretenso controle o chamamos erro, não reconhecendo que essa força, que resiste aos nossos cálculos, é a própria vida pulsando para além do humano, e dando a este a sua medida, confrontando-o com sua falência, e convocando-lhe a um novo pensar; renovando, no próprio humano, a sua capacidade inventiva, sua potência vital. O erro é motor de mudança, é potencial inventivo, convoca a uma nova perspectiva, nos impulsiona, quando nos tira do lugar confortável — como a poesia de Maria Lúcia Dal Farra².  A poetisa inicia seu Livro de erros  erigindo um pórtico, onde se coloca avisando aos seus leitores: o que o espera do outro lado é essa poesia maldita, desinquietante, que cai sobre o...

Luigi Pirandello e o papel ontológico do artista

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Por Juliano Pedro Siqueira   A vida, ou se vive ou se escreve. — Luigi Pirandello Luigi Pirandello. Foto: Bettmann A novela A tragédia de um personagem (1911) é um protótipo do que viria a ser o “teatro no teatro” ou metateatro. Segundo Carpeaux, Pirandello opta pelo estilo diferente da encenação convencional, focando no caráter ficcional das personagens, na imaginação e na ironia amarga. A sua abordagem assenta-se em dois terrenos paradoxais, sendo a tensão permanente entre a realidade e a ilusão. Personagens que de forma imagética exercem autonomia nas ações desenvolvidas na construção narrativa. Certa feita, o autor afirmou ter um velho hábito — para não dizer estranho e incomum — de estabelecer audiências com personagens candidatas a participarem das suas futuras obras. A maioria apresentam as suas razões de defesa, mostrando-se as suas reais pretensões e resistências. Nos primeiros parágrafos da Tragédia de um personagem , nota-se que o autor encontra dificuldades em pen...

Guerra civil e revolução no cinema de Ken Loach

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Por Michel Goulart da Silva No dia 17 de julho de 1936, ocorreu o levante militar liderado pelo General Francisco Franco, dando início à Guerra Civil na Espanha. Esse processo teve no filme Terra e liberdade (1995), premiados em Cannes, uma de suas melhores interpretações produzidas para o cinema. O diretor Ken Loach se baseou principalmente em relatos de pessoas que viveram o processo, como o escritor britânico George Orwell, em sua Homenagem à Catalunha .  Loach produziu, assim, uma obra épica emocionante, fazendo um debate entre tática e estratégia na luta política que se mostra relevante ainda na atualidade. O filme mostra desde a empolgação de vitórias em batalhas contra o franquismo até a tristeza de ver as traições das direções e a morte de numerosos combatentes da Revolução Espanhola. O centro da história narrada no filme é David Carr, membro do partido comunista inglês, que, ao se voluntariar para lutar na guerra civil, acaba sendo integrado a uma milícia comandada pelo P...

A experiência estética em Ulysses por uma formação leitora

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Por Herasmo Braga Leopold Bloom visto por James Joyce. Ulysses , de James Joyce, constitui uma das mais significativas obras da literatura e, no tocante à sua recepção, apresenta inúmeras particularidades. Algumas delas foram destacadas pelo crítico estadunidense Harold Bloom, para quem, assim como o pensamento de Freud, o feito estético do escritor irlandês influencia até mesmo aqueles que não conhecem ou nunca leram esse romance. Outra particularidade reside no fato de que, como ocorre com os grandes textos em prosa por excelência, este marco da literatura do século XX é frequentemente citado, mas, inversamente, pouco lido. Quais seriam, então, as razões para irmos além, mesmo após mais de um século da sua publicação? De início, trata-se de uma questão de honestidade intelectual. Interpretar, ainda que com dificuldades, os aspectos de uma obra literária mediante efetiva leitura constitui um passo importante. Assim como ocorre com Ulysses , outros livros de enorme contribuição, nã...

Meu passado nazista, de André de Leones

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Por Henrique Ruy S. Santos André de Leones. Foto: Roseli Vaz  Há um ditado que faz parte do vocabulário político, principalmente, de usuários da internet, que diz algo mais ou menos assim: “se um nazista se senta à mesa com 10 pessoas e ninguém se levanta, então há 11 nazistas”. Trata-se de um pensamento que coloca em questão conceitos como o de tolerância ou, indo além, a própria possibilidade de cumplicidade com aquilo que muitos esperam que seja considerado intolerável. André de Leones, em Meu passado nazista , parece partir dessa reflexão, mas o faz invertendo os polos: o que acontece quando 10 nazistas se sentam à mesa e a 11ª pessoa não levanta? Ou, pensando em termos de Brasil: o que fazer de um país que foi tomado de assalto pelo fascismo em anos recentes e no qual todos nós, invariavelmente, sentamos à mesa com fascistas, às vezes dentro de casa?  O protagonista de Leones neste romance é Leandro Helfferich, professor e escritor que durante boa parte do livro mora na p...

Cinco poemas de “Dream Work”, de Mary Oliver (1986)

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Pedro Belo Clara (Seleção e versões)* Mary Oliver. Frame do documentário Mary Oliver: Saved by the Beauty of the World . UMA OU DUAS COISAS 2. O voo galopante da borboleta leva-a delicadamente  pelo país das folhas, sendo competente o bastante para a levar onde quiser, seja isso onde for, parando aqui e acolá, desarrumando as húmidas gargantas das flores e a lama escura; sobe e desce, borboletando frenética e sem propósito, e por vezes, em demorados e deliciosos momentos, tão perfeitamente preguiçosa, montada, sem na brisa se agitar, num caule macio duma flor qualquer.  5. Uma ou duas coisas, é tudo o que precisas para atravessar o lago azul, a densa folhagem das árvores, e ir pelas duras flores dos relâmpagos — alguma profunda memória de prazer, alguma cortante experiência de dor.  7. Por anos e anos lutei apenas para amar a minha vida. E então a borboleta ergueu-se, leve, no vento. “Não ames demasiado a tua vida”, disse, e desapareceu mundo adentro.  POEMA MATINAL ...