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Doença e genialidade: o espírito trágico de Adrian Leverkühn em Doutor Fausto

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Por Juliano Pedro Siqueira Doutor Fausto , de Thomas Mann, é considerado, tanto pela crítica quanto por ele mesmo, como a obra da velhice. O grande empreendimento romanesco exigiu-lhe esforço hercúleo, custando-lhe sacrifícios físicos e intelectuais. A entrega sem medida culminou na versão mais melódica e filosófica da lenda do Fausto, colocando-a, talvez, em nível de paridade com o clássico poema trágico de Goethe. Em A gênese do Doutor Fausto: romance sobre um romance  — sua obra póstuma e autobiográfica —, Mann relata o percurso intelectual que o conduziu a escrever o romance de 1947. Segundo o romancista, o projeto é fruto do acúmulo de leituras e escritos, os quais reuniu por anos. A ideia de transformar os materiais disponíveis em forma de romance ocorreu-lhe quase que acidentalmente, quando estava finalizando a tetralogia, José e os seus irmãos . Naquela altura, o autor era um septuagenário, e seu vigor físico oscilava continuamente. Além do ofício de escritor, possuía uma v...

O surrealismo pletórico de Marosa di Giorgio

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Por Felipe Vieira de Almeida  Quem já se arriscou na leitura do Marquês de Sade descobre o erotismo do francês como quase alheio ao aspecto pornográfico e sedutor esperado tradicionalmente do erótico no sentido em que usa imagens sexuais, narra toda sorte de perversão sem, no entanto, permitir ao leitor se realizar com o que lê da mesma forma que o faz com escritas mais comerciais com este tema.  No Brasil, Hilda Hilst é outro exemplo nesse sentido. Escritora que flertou com o gênero e encontrou na ironia um veio rico em possibilidades subversivas dos clichês dessa literatura aos quais ela dizia se render, mas que, em realidade, ressignifica-os.  Nessa vertente, que é a da verdadeira criação literária, uma escritora uruguaia publicada na Coleção Sete Chaves — constituída por obras da literatura erótica — apresenta uma linguagem erótica desconcertante, cheia de vida e francamente estranha. A autora é Marosa di Giorgio e o livro Rosa mística . Trata-se de uma coletânea de c...

Passarinho que se debruça — o voo já está pronto! Considerações na biografia de João Guimarães Rosa por Leonencio Nossa (I)

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Por Herasmo Braga Como bem enaltecido por grande parte da crítica e dos leitores, a espera por uma biografia à altura de João Guimarães Rosa chegou ao fim. Possivelmente, não a definitiva, mas, com certeza, entre as melhores. O sertão está em toda parte na prosa de Leonencio Nossa, e no seu interior encontrou e teceu o escritor mineiro. Desmitificou o gênio e humanizou o criador imaginativo que muito viveu e dialogou com tudo que o identificou. Entre as inúmeras possibilidades presentes no livro, delimitam-se algumas considerações sobre o fazer literário em Guimarães Rosa. Neste primeiro momento, destacaremos a memória em três acepções contempladas no livro de Nossa: a memória criadora, a memória regionalista como matéria-prima para as narrativas e a memória como processo de autoconhecimento ficcional e real. O biógrafo apresentou, por meio de pesquisas, imagens, trechos das obras e de outros documentos, os caminhos que levaram o autor de Grande sertão: veredas a ser detentor de ...

Pensando os desencantos de um desenvolvimentista — ou Pequeno manual para elaborar reflexões sobre autores que ficaram pelo caminho

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Por Lucas Paolillo Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar e nessa linguagem emprestada. Assim, Lutero adotou a máscara do apóstolo Paulo, a Revolução de 1789-1814 vestiu-se alternadamente como república romana e como o império romano, e a Revolução de 1848 não soube fazer nada melhor do que parodiar ora 1789, ora a tradição revolucionária de 1793-1795. De maneira idêntica, o principiante que aprende um novo idioma traduz se...

Sinii Karandach e o poema-blecaute

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Por Rafael Bonavina Os últimos anos foram marcados por duas comemorações importantes para a literatura russa: em 2024, o poeta nacional Aleksandr Púchkin completou 225 anos; e, no ano passado, sua maior obra, o romance em versos Evguêni Onéguin , completou seu bicentenário. Os dois eventos receberam relativamente pouca atenção no Brasil,¹ mas na Rússia foram ambos muito importantes. Foram organizadas diversas palestras, cursos, homenagens e até edições comemorativas das suas obras. Em meio a todas essas homenagens, a editora moscovita Individuum lançou um curioso volume do artista urbano Sinii Karandach, intitulado Blecaute ( Блекаут , 2025). A obra trava um diálogo direto com Evguêni Onéguin , cuja capa é reproduzida logo depois da folha de rosto, como parte integrante do livro. Embora o texto de Púchkin seja a base de Blecaute , a intertextualidade entre os dois é extremamente tensa, senão conflituosa, pois Karandach intervém no texto oitocentista por meio do blecaute, isso é, apaga...

Doze poemas de Wendell Berry

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Por Pedro Belo Clara  (Seleção e versões)* Wendell Berry. Foto: Kate Mount CÂNTICO (para Robert Hazel) ( Broken Ground , 1964) Não é isto o que a morte significa — o espírito, triunfante na queda do corpo, louvando a sua ausência, alimentando-se de música. Se a vida não consegue justificar-se e explicar-se, a morte não o poderá fazer. Uma crença e um túmulo nunca igualaram a vida do que quer que seja. Flores amarelas despontam nas fendas de pedras antiquíssimas no começo de abril. Os trajes negros dos sacerdotes voltam-se   contra o frágil amarelo da luz e das pétalas; esperam na sua negritude obter alegria pela morte. Confiam que nada de sagrado é gratuito, e assim pagam pelas suas vidas. Caixas com ranhura no gradeamento do altar são a jukebox do mundo, a mente deixando moedas gastas em troca do conforto da ignorância.  POEMA DUMA NOITE DE INVERNO PARA MARY ( Farming: A Hand Book , 1970) Começava a regressar a casa, depois do anoitecer, olhei para o céu e vi a no...