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De quantos ff se compõe o Brasil? – Notas sobre Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus

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Por Amanda Fievet Marques  Publicado em 1960 pela editora Livraria Francisco Alves, o livro Quarto de despejo – Diário de uma favelada , da escritora Carolina Maria de Jesus, encontra ainda hoje seus leitores. Estes, recém-saídos da leitura de uma linha, de um parágrafo, de uma página, sentem-se subitamente tocados, tomados pela evidência da realidade da narradora, mulher, negra, mãe solteira de três filhos, favelada, catadora, que escreve sua vida pelas entradas do diário que lemos.  Há um canto que nasce das condições mais brutais, uma língua que se forma nos tremores e nas vertigens da fome, entre os odores do lixo onde a narradora-autora vai catar papel e o que comer. Como não há de comover o leitor? Comove. A música dos esfaimados, degradados, esquecidos pelo poder público, repudiados pelas elites, relegados à categoria de seres empestadores, ocultados nos quartos de despejo.  Supõem os desavisados que há de ser a língua de tal obra literária mera expressão espontâne...

Nos tempos de Casanova

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Por Thiago Teixeira  A fuga de Giacomo Casanova da prisão de Piombi em 1756. Ilustração do século XIX da revista Scribner's Monthly . Iniciei, não há muito, um percurso pelas quase quatro mil páginas das Memórias de Casanova ( ou História da minha vida) . O fim desse caminho ainda está bem distante, mas por ora o viajante já tem lá suas impressões de viagem, versando principalmente sobre a questão da memória humana e sobre o mundo representado pela obra.  Pois uma das coisas que me surpreendem até agora é a capacidade daquela mente em juntar tantos acontecimentos, detalhes, nomes — claro, desde que, inocente e provisoriamente, contemos com a boa-fé do pacto não ficcional.  A memória do autor é surpreendente: quase quatro mil páginas de relatos, descrições minuciosas, reconstituição de diálogos, uma miríade de nomes. Por ela simplesmente conhecemos o século XVIII europeu, seus costumes, classes sociais, códigos, valores, cultura, o que levou Blaise Cendrars a dizer que as...

É sempre a hora da nossa morte amém, de Mariana Salomão Carrara

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Por Gabriella Kelmer  Mariana Salomão Carrara. Foto: Renato Parada A inventividade da escrita de Mariana Salomão Carrara tem sido discutida através de uma produção romanesca bastante variada em temáticas (a morte, a infância, a justiça) e em perspectivas (a idosa, a árvore, o juiz), dizendo a autora, em tempos nos quais a criação se tem visto tantas vezes cooptada por um compromisso por vezes desmedido com a realidade e com a autobiografia, que há nas suas histórias um exercício de empatia a acionar os mecanismos da infância.  Em É sempre a hora da nossa morte amém , romance de 2021, fica evidente em que medida sua ficção surpreende ao permitir, às suas personagens, a singularidade e a irrepreensibilidade. Aurora, a narradora, é encontrada, aos setenta anos, vagando a esmo por uma estrada, sendo então levada a um abrigo de idosos. Sua memória está comprometida e a cada novo dia ela levanta novas possibilidades da vida perdida. Por todo o enredo, repetem-se elementos como a pre...

Lembrar também é inventar em Keith Jarret no Blue Note, de Silviano Santiago

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Por Vinicius de Silva e Souza Silviano Santiago. Foto: João Rangel Há livros que contam uma história e há livros que parecem tentar descobrir, enquanto são escritos, o que exatamente significa contar uma história. Keith Jarrett no Blue Note , de Silviano Santiago, pertence a essa segunda espécie. O romance não se entrega facilmente à distinção entre memória e invenção, entre experiência vivida e experiência narrada, entre o acontecido e que só pode existir porque alguém decidiu contá-lo. Mais do que narrar uma história, o autor parece interessado em observar o que acontece quando a memória se transforma em matéria literária — e quando a literatura, por sua vez, passa a interferir na própria memória. O título já anuncia uma espécie de chave de leitura. Keith Jarrett, o grande pianista de jazz, está no Blue Note, mas sua presença não funciona apenas como referência musical ou como elemento decorativo. O jazz funciona como um princípio de composição do romance. Há improvisação, repetição,...

Trezentos anos viajando com Gulliver

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Por Javier de Lucas  Peter László Péri. Viagem ao país dos Houyhnhnms: Gulliver e um Yahoo. The Trustees of the British Museum Swift, mestre da ironia, da sátira política e da linguagem A comemoração do tricentenário da publicação de As viagens de Gulliver (1726) é uma boa oportunidade para apreciar a abrangência desta obra e sua contínua relevância. No que diz respeito à sua abrangência, é importante abordar um mal-entendido muito comum: seu sucesso na literatura popular e, mais recentemente, em diversas adaptações para o cinema e a televisão, contribuíram para obscurecer o fato de que não se trata, de forma alguma, de um livro infantil. Na realidade, não é apenas um ápice do gênero no qual Swift se destacou — a sátira política — e de seu domínio e uso inovador da linguagem, mas também um dos melhores livros de filosofia política já escritos; um livro que influenciou outros grandes mestres da sátira política, como George Orwell, particularmente em sua obra A revolução dos bichos ...

Boletim Letras 360º #708

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto a custear as despesas com domínio e hospedagem online. A sua ajuda continua essencial. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .   Gonçalo M. Tavares. Foto: Ana Baião   LANÇAMENTOS O novo épico de Gonçalo M. Tavares Uma peste nos Estados Unidos. Uma segunda guerra civil que vai tomando forma. Dois extremistas em lados opostos do grande colapso. Um improbabilíssimo herói que surge para salvar a nação. Nesta epopeia satírica e distópica, testemunhamos o mais novo triunfo de um gênio da literatura mundial. O fim dos Estados Unidos da América  chega ao Brasil pela Dublinense.  Você pode comprar o livro aqui . Mais três títulos de William Blake no projeto que une texto e image...