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É sempre a hora da nossa morte amém, de Mariana Salomão Carrara

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Por Gabriella Kelmer  Mariana Salomão Carrara. Foto: Renato Parada A inventividade da escrita de Mariana Salomão Carrara tem sido discutida através de uma produção romanesca bastante variada em temáticas (a morte, a infância, a justiça) e em perspectivas (a idosa, a árvore, o juiz), dizendo a autora, em tempos nos quais a criação se tem visto tantas vezes cooptada por um compromisso por vezes desmedido com a realidade e com a autobiografia, que há nas suas histórias um exercício de empatia a acionar os mecanismos da infância.  Em É sempre a hora da nossa morte amém , romance de 2021, fica evidente em que medida sua ficção surpreende ao permitir, às suas personagens, a singularidade e a irrepreensibilidade. Aurora, a narradora, é encontrada, aos setenta anos, vagando a esmo por uma estrada, sendo então levada a um abrigo de idosos. Sua memória está comprometida e a cada novo dia ela levanta novas possibilidades da vida perdida. Por todo o enredo, repetem-se elementos como a pre...

Lembrar também é inventar em Keith Jarret no Blue Note, de Silviano Santiago

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Por Vinicius de Silva e Souza Silviano Santiago. Foto: João Rangel Há livros que contam uma história e há livros que parecem tentar descobrir, enquanto são escritos, o que exatamente significa contar uma história. Keith Jarrett no Blue Note , de Silviano Santiago, pertence a essa segunda espécie. O romance não se entrega facilmente à distinção entre memória e invenção, entre experiência vivida e experiência narrada, entre o acontecido e que só pode existir porque alguém decidiu contá-lo. Mais do que narrar uma história, o autor parece interessado em observar o que acontece quando a memória se transforma em matéria literária — e quando a literatura, por sua vez, passa a interferir na própria memória. O título já anuncia uma espécie de chave de leitura. Keith Jarrett, o grande pianista de jazz, está no Blue Note, mas sua presença não funciona apenas como referência musical ou como elemento decorativo. O jazz funciona como um princípio de composição do romance. Há improvisação, repetição,...

Trezentos anos viajando com Gulliver

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Por Javier de Lucas  Peter László Péri. Viagem ao país dos Houyhnhnms: Gulliver e um Yahoo. The Trustees of the British Museum Swift, mestre da ironia, da sátira política e da linguagem A comemoração do tricentenário da publicação de As viagens de Gulliver (1726) é uma boa oportunidade para apreciar a abrangência desta obra e sua contínua relevância. No que diz respeito à sua abrangência, é importante abordar um mal-entendido muito comum: seu sucesso na literatura popular e, mais recentemente, em diversas adaptações para o cinema e a televisão, contribuíram para obscurecer o fato de que não se trata, de forma alguma, de um livro infantil. Na realidade, não é apenas um ápice do gênero no qual Swift se destacou — a sátira política — e de seu domínio e uso inovador da linguagem, mas também um dos melhores livros de filosofia política já escritos; um livro que influenciou outros grandes mestres da sátira política, como George Orwell, particularmente em sua obra A revolução dos bichos ...

Boletim Letras 360º #708

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto a custear as despesas com domínio e hospedagem online. A sua ajuda continua essencial. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .   Gonçalo M. Tavares. Foto: Ana Baião   LANÇAMENTOS O novo épico de Gonçalo M. Tavares Uma peste nos Estados Unidos. Uma segunda guerra civil que vai tomando forma. Dois extremistas em lados opostos do grande colapso. Um improbabilíssimo herói que surge para salvar a nação. Nesta epopeia satírica e distópica, testemunhamos o mais novo triunfo de um gênio da literatura mundial. O fim dos Estados Unidos da América  chega ao Brasil pela Dublinense.  Você pode comprar o livro aqui . Mais três títulos de William Blake no projeto que une texto e image...

Nunca foi tão difícil voltar para casa: Christopher Nolan, Uberto Pasolini, Mario Camerini e a Odisseia, de Homero

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Por Michele Soares “Um bom filme e uma adaptação da Odisseia apenas razoável” é a conclusão a que chego, remoendo o assunto na volta para casa após ver pela segunda vez o filme The Odyssey ,¹  de Christopher Nolan. Também percebo que não há como evitar a conclusão dupla e penso em como ela reflete o modo como venho observando a recepção do longa. Por um lado, chegam até mim as opiniões dos colegas da área de Letras Clássicas, que já dissecaram, formal ou informalmente, todas as falhas, incongruências, limitações e pontos indigestos da mais recente adaptação do épico homérico; por outro, chegam as notícias do sucesso de bilheteria e da recepção acalorada do público geral, que alçam The Odyssey ao rol dos filmes não menos que excelentes. Após pouco mais de duas semanas em cartaz, o filme foi marcado como visto por 3 milhões de pessoas e conta com média 4,4 no Letterboxd , rede social para amantes da sétima arte e espaço on-line que muito frequento, sendo eu mesma uma não espec...

Córidon, de André Gide

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Por Pedro Fernandes André Gide. Foto: Laure Albin Guillot André Gide se situa entre os mais importantes autores da literatura moderna no entresséculos XIX-XX e uma das razões para merecer esse lugar se encontra na própria obra, marcada por um estilo idiossincrático e capaz de capturar as complexidades e contradições do seu tempo e plasmar de maneira original as questões de corte íntimo em contraste com a ordem vigente. Aliás, uma parte dessas qualidades foi mesmo sublinhada pela Academia Sueca aquando da atribuição do Prêmio Nobel de Literatura “pelos seus escritos diversificados e artisticamente significativos, nos quais os problemas humanos e as suas condições são apresentados com destemido amor pela verdade e com um apurado discernimento psicológico.” Córidon é um bom exemplo. Está na sua base um traço próprio do escritor: sua nem disfarçada ou nem desconhecida homossexualidade. Este é um tema que encontramos diversamente na sua literatura, mas com este livro que, depois de circula...