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Edgardo Cozarinsky

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Por Maya González Roux Edgardo Cozarinsky. Foto: Sophie Bassouls   Edgardo Cozarinsky morreu em sua cidade natal, Buenos Aires, no dia 2 de junho. Escritor e cineasta, cineasta-escritor ou apenas escritor, já que considerava a montagem o momento-chave do cinema — “os filmes são escritos durante a edição”, dizia. É difícil lançar uma única luz sobre este pródigo contador de anedotas, de memória colossal, figura sempre em busca e aberta à experiência, aos encontros casuais, ao imprevisível, amante da noite, das sombras e das elipses, generoso com os seus interlocutores. Talvez todas estas imagens se juntem numa só: a do viajante. Sim, Cozarinsky foi acima de tudo um curioso e incansável viajante.   Neto de imigrantes judeus que vieram da Ucrânia e da Moldávia para a Argentina no final do século XIX, Cozarinsky nasceu em 1939 (talvez dois anos antes, mas essa era uma anedota que ele reservava para os íntimos). Na juventude, ávido pelas novas ondas do cinema, foi um grande leitor de Cahie

Sobre lagos, quedas e relatos

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Por Caio Meirelles Aguiar Descrever o entorno na esperança de capturar, o objeto. Um manual de montagem para enxergar, a máquina. Uma lista de compras para saborear, o almoço. Uma receita médica para diagnosticar, a dor. Um mapa topográfico para delimitar, a alvorada. Um anfiteatro para iluminar, o vazio. A cena imaginada, porém presente, por cercamento.   Luigi Ghirri, Salisburgo (1977) fotografia analógica   Bons filmes, aqueles que de fato voltam à nossa memória e onde sempre há espaço para retorno, geralmente o são por possibilitar um contínuo desmembramento de camadas, significados e novas interpretações. Muito além de contar uma boa história ou nos impactar com fotografia e efeitos visuais impressionantes, acredito que os filmes que guardamos profundamente na memória são também aqueles que friccionam o tecido da vida; relações, comunicação, empatia, afeto e — principalmente — a dificuldade de se obter ou transmitir tudo isso.   Anatomia de uma queda (2023), escrito e dirigido pe

Boletim Letras 360º #592

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Jon Fosse. Foto: Tor Stenersen LANÇAMENTOS   A chegada ao Brasil da poesia do Prêmio Nobel de Literatura 2023 Jon Fosse .   Quando o nome do norueguês Jon Fosse foi anunciado para receber o mais importante prêmio da literatura em 2023, os leitores de outros idiomas o conheciam principalmente pela sua produção para o teatro, mas não demorou para que sua obra em prosa começasse a aparecer nas vitrines em todo o mundo. Fosse, no entanto, é “poeta de ofício”, isto é, iniciou-se na escrita fazendo poemas, já na adolescência, e nunca abandonou os versos desde então, como revelam os livros agora reunidos em  Poemas em coletânea , que acompanha uma produção que se estende de 1986 até 2016. Em todo esse período, com as tormentas próprias de uma obra visceral, os poemas de Fosse levam os leitores a experimentar um trânsito vertiginoso entre paisagem externa e vida interior, em que a peculiar geografia à sua volta — com suas cores intensas, dezenas de milhares de ilhas e lagos formando um mesmo t

Margeando as experiências estéticas pelas ficcionalizações narrativas

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Por Herasmo Braga Pablo Picasso. Mulher lendo .   Entre os diversos aspectos que revelam a precarização nas formas de se perceber o mundo ao redor encontra-se nos processos de incomunicabilidade em voga. Cada vez mais nos silenciamos pelas imagens, cada vez mais nos virtualizamos por meio de repetições, cada vez menos interagimos por ações dialógicas, cada vez menos apreendemos os sentidos. Isso não são traços pessimistas, mas simples descrição do que nos cerca. Precarizar as ações e efeitos interpretativos com perdas dos sentidos é comprometer a própria existência do ser.   Umberto Eco em Sobre a Literatura enuncia-nos a seguinte observação: “Os textos literários não somente dizem explicitamente aquilo que nunca poderemos colocar em dúvida, mas, à diferença do mundo, assinalam com soberana autoridade aquilo que neles deve ser assumido como relevante e aquilo que não podemos tomar como ponto de partida para interpretações livres”. Com base nestas primeiras observações de Eco paira um

A festa, de Ivan Ângelo

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Por Henrique Ruy S. Santos As coisas mais terríveis são aquelas que nos escapam. — Georges Bataille 1     Muitos anos depois, Beckett diria que até as palavras nos abandonam e que com isso tudo está dito. — Enrique Vila-Matas 2   Ivan Ângelo. Foto: Renato Parada   Quando o autoritarismo está à vontade, e o cerceamento de direitos impera; quando o assalto à dignidade é a regra, e as anomalias políticas são a normalidade; quando a técnica está a serviço da tortura e da violação física e psicológica, e as ferramentas da modernidade são vassalas da gestão da morte. Quando tudo isso faz parte do cotidiano, por que fazer literatura? Assediados pela realidade, é o momento em que os autores engajados se perguntam: “de que vale o que escrevo se meus semelhantes morrem das formas mais cruéis todos os dias?” Surgem em profusão artistas que ecoam a perplexidade de Adorno, que se perguntava diante da brutalidade nazista: “a poesia é possível depois de Auschwitz?”   Mas a literatura, como necessidad

A rainha dos cárceres da Grécia, de Osman Lins

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Por Gabriella Kelmer Osman Lins publicou seu último romance em 1976. A obra, que sucede sua narrativa de maior sucesso e consequência crítica, Avalovara , de 1973, consiste em ainda outro passo da exploratória trajetória do autor frente a sua arte, a partir da proposição de um robusto nível de reflexão quanto ao desenvolvimento da produção literária.   A rainha dos cárceres da Grécia , título deste derradeiro romance, atua em dois níveis narrativos simultâneos. O primeiro corresponde à narrativa externa, cujo argumento se pode atribuir à pregressa relação entre um professor de Biologia, narrador, e sua amante Julia Marquezim Enone, já falecida. A mediação entre os dois ocorre, na obra, a partir da busca do primeiro por ocupar as horas ociosas e fixar algo da imagem fugidia da mulher perdida. Por isso, como alternativa que reconhece como mais proveitosa a si e aos eventuais leitores de sua escrita, evita a descrição da existência daquela e lança-se na leitura analítica de um manuscrito