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Eco de Dostoiévski: revelações literárias nos diários de Lúcio Cardoso

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Por Juliano Pedro Siqueira  Van Gogh.  L'église_d'Auvers-sur-Oise , 1890. Ao ler os diários do escritor mineiro Lúcio Cardoso, fui grandiosamente surpreendido. Deparei-me com um conjunto de ideias autênticas que supera muito os tradicionais relatos pessoais e de memórias. O diarista escreveu sobre uma variedade absurda de temas, destacando o seu interesse peculiar pela literatura; que vai desde os clássicos até textos sagrados, como os da Bíblia. Divididos entre relatos íntimos e não íntimos, os diários revelam um homem de espírito inquietante e sagaz inteligência. A leitura permite perscrutar a alma transbordante do homem e do escritor, cuja existência era devotada à escrita e à reflexão de questões de corte universal. Através dos diários, Lúcio exerceu um tipo de crítica despreocupada com o julgamento alheio. Seu espaço é soberano e a criatividade está em consonância com a liberdade e a fecundidade do artista; sempre pronto a dar vazão as vozes internas que o sufocava. A es...

Jacó ou a ideia da poesia

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Por Alfonso Reyes Jacó, porém, ficou só; e lutou com ele um homem até que a alva subiu. (...) “Lutaste com Deus e com os homens, e venceu.” Gênesis 32, 24-28 Rembrandt. Jacó lutando com o anjo , c. 1659. Hoje em dia, estamos passando por uma crise que, resumidamente, tem sido classificada como uma luta pela liberdade artística. No que diz respeito à poesia, de um lado estão os defensores da tradição prosódica, como diz Claudel: metros, estrofes, combinações simétricas, rimas perfeitas e imperfeitas e até mesmo o acadêmico verso branco que o hábito vinha arrastando como um tronco. Do outro lado, as mil escolas e os punhados de dissidentes. Estes vão desde o rigor espiritual mais extremo, embora isso não apareça nos âmbitos formais, à negligência mais desleixada. E ainda há momentos ruins em que a obra poética pretende erguer as funções da escrita mediúnica ou sonâmbula; em que o poema usurpa a categoria de documento psicanalítico ou confissão aberta sobre o fluxo irrestrito de associaçõ...

A história do som: de um conto genial a um filme catástrofe

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Por Afonso Junior “Mas esse cilindro me lembrou do que eu havia perdido — que é, creio eu, uma vida que eu não conheci, mas da qual David fez parte. A vida real.” Este trecho é do conto “A história do som”, presente no livro de mesmo nome de Ben Shattuck. Ele é escritor e pintor, natural da costa de Massachusetts, Estados Unidos, como lemos no final do texto publicado online na The Common , e filho de um pintor e da dona de uma galeria de arte. O livro é uma coleção de contos que estabelecem ecos entre si.    No começo de “A história do som” lemos: “É abril de 1972 aqui em Cambridge”.  No filme, dirigido por Oliver Hermanus (2025), acompanhamos a vida de Lionel (Paul Mescal e Chris Cooper), autor da narrativa, na zona rural do estado do Kentucky e seu encontro com o pianista David (Josh O'Connor) — personagem que ecoa o amor do escritor por Henry David Thoreau —, no Conservatório de Boston, em 1917.  No começo do amor entre os dois homens, surge uma guerra. Algum tem...

Os monstros da nação em A febre, de Marcelo Ferroni

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Por Douglas Sacramento Marcelo Ferroni. Foto: Chico Cerchiaro Ao pensarmos em nação, alguns símbolos surgem de forma imediata: a bandeira, o hino, os feriados nacionais — como o 7 de setembro. Mas, existem narrativas que estão escondidas ou silenciadas quando pensamos na historiografia de um país. Lidamos com um campo de batalha entre lembrar e esquecer. A literatura, enquanto gestora e movimentadora de narrativas, pode tanto atestar a história oficial — varrendo para debaixo do tapete versões dissidentes — quanto trazer novas possibilidades de compreensão do país e da construção da nacionalidade.   Rachel Esteves, no ensaio “Literatura em regime de urgência no Brasil pós-2013”, faz um mapeamento da produção literária contemporânea e sua relação com as questões políticas do país. Para isso, a pesquisadora estabelece um período histórico que vai da Queda do Muro de Berlim, na Alemanha, em 1989, passando pelas Jornadas de Junho de 2013, culminando no impeachment da então p...

A cartografia do tempo inscrita nos corpos em Ressuscitar mamutes de Silvana Tavano

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Por Felipe Vieira de Almeida  Silvana Tavano. Foto: Eduardo Knapp “Não consegui lembrar da receita, mas minha mãe fazia assim”, foi o que ouvi de um cozinheiro ao tentar cozinhar um prato de sua infância; sem ter certeza da receita usada, ele se viu reproduzindo os movimentos e etapas gravadas em sua memória. Replicou com seu corpo o trabalho que via o corpo de sua mãe executar na cozinha. Aquela tentativa de trazer à comida um sabor através da memória do corpo foi a primeira vez em que pude enxergar a possibilidade de a memória afetiva se entremear na carne, nos ossos, nos nossos movimentos. Reencontrei esse jogo de impregnação afetiva na obra de Silvana Tavano. Em seu livro mais recente, Ressuscitar mamutes , Silvana Tavano faz uma transubstanciação literária ao amarrar diferentes gêneros textuais em um único fluxo onde recortes que poderiam ter vindo de revistas de divulgação científica se mesclam às reminiscências e explorações psicológicas de uma narradora que reexamina a traj...

Boletim Letras 360º #685

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o  Letras  permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo  Letras .  Michel Nieva. Foto: Coni Rosman    LANÇAMENTOS O segundo livro do escritor argentino Michel Nieva a chegar aos leitores brasileiros .   Bilionários do Vale do Silício são leitores devotos de ficção científica: investem montanhas de dinheiro no desenvolvimento de alta tecnologia para conquistar o futuro. Querem colonizar outros planetas, acabar com o envelhecimento e ser a porção ínfima e privilegiada da humanidade que vai se salvar, depois do fim do planeta Terra. Com uma prosa sarcástica para leitores desconfiados, Nieva faz uma crítica aguda ...