Postagens

A experiência estética em Ulysses por uma formação leitora

Imagem
Por Herasmo Braga Leopold Bloom visto por James Joyce. Ulysses , de James Joyce, constitui uma das mais significativas obras da literatura e, no tocante à sua recepção, apresenta inúmeras particularidades. Algumas delas foram destacadas pelo crítico estadunidense Harold Bloom, para quem, assim como o pensamento de Freud, o feito estético do escritor irlandês influencia até mesmo aqueles que não conhecem ou nunca leram esse romance. Outra particularidade reside no fato de que, como ocorre com os grandes textos em prosa por excelência, este marco da literatura do século XX é frequentemente citado, mas, inversamente, pouco lido. Quais seriam, então, as razões para irmos além, mesmo após mais de um século da sua publicação? De início, trata-se de uma questão de honestidade intelectual. Interpretar, ainda que com dificuldades, os aspectos de uma obra literária mediante efetiva leitura constitui um passo importante. Assim como ocorre com Ulysses , outros livros de enorme contribuição, nã...

Meu passado nazista, de André de Leones

Imagem
Por Henrique Ruy S. Santos André de Leones. Foto: Roseli Vaz  Há um ditado que faz parte do vocabulário político, principalmente, de usuários da internet, que diz algo mais ou menos assim: “se um nazista se senta à mesa com 10 pessoas e ninguém se levanta, então há 11 nazistas”. Trata-se de um pensamento que coloca em questão conceitos como o de tolerância ou, indo além, a própria possibilidade de cumplicidade com aquilo que muitos esperam que seja considerado intolerável. André de Leones, em Meu passado nazista , parece partir dessa reflexão, mas o faz invertendo os polos: o que acontece quando 10 nazistas se sentam à mesa e a 11ª pessoa não levanta? Ou, pensando em termos de Brasil: o que fazer de um país que foi tomado de assalto pelo fascismo em anos recentes e no qual todos nós, invariavelmente, sentamos à mesa com fascistas, às vezes dentro de casa?  O protagonista de Leones neste romance é Leandro Helfferich, professor e escritor que durante boa parte do livro mora na p...

Cinco poemas de “Dream Work”, de Mary Oliver (1986)

Imagem
Pedro Belo Clara (Seleção e versões)* Mary Oliver. Frame do documentário Mary Oliver: Saved by the Beauty of the World . UMA OU DUAS COISAS 2. O voo galopante da borboleta leva-a delicadamente  pelo país das folhas, sendo competente o bastante para a levar onde quiser, seja isso onde for, parando aqui e acolá, desarrumando as húmidas gargantas das flores e a lama escura; sobe e desce, borboletando frenética e sem propósito, e por vezes, em demorados e deliciosos momentos, tão perfeitamente preguiçosa, montada, sem na brisa se agitar, num caule macio duma flor qualquer.  5. Uma ou duas coisas, é tudo o que precisas para atravessar o lago azul, a densa folhagem das árvores, e ir pelas duras flores dos relâmpagos — alguma profunda memória de prazer, alguma cortante experiência de dor.  7. Por anos e anos lutei apenas para amar a minha vida. E então a borboleta ergueu-se, leve, no vento. “Não ames demasiado a tua vida”, disse, e desapareceu mundo adentro.  POEMA MATINAL ...

Boletim Letras 360º #697

Imagem
DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o Letras permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .  Heinrich Mann. Foto: AK Images LANÇAMENTOS Inspirado nas memórias de Julia Mann, mãe brasileira do autor, nascida em Paraty, o romance de Heinrich Mann transforma uma história familiar marcada por deslocamentos e encontros culturais em uma reflexão profunda sobre identidade, liberdade e pertencimento . O título da obra, sobretudo na Alemanha, ainda hoje causa estranhamento pelo uso da palavra “raça” aplicada a seres humanos. Mas em 1907, quando o romance foi publicado, o termo ainda não estava impregnado pela carga ideológica nefasta que adquiriria mais tarde com os desdobram...

Ingeborg Bachmann: maneiras de morrer

Imagem
Por María Negroni  Ingeborg Bachmann. Foto: Ullstein Bild. Reprodução a partir de RP Online As palavras caem sobre a página como grãos (a palavra pai , a palavra incesto , a palavra guerra ), contaminadas por sonhos, banalidades e esforços para compreender a podridão do mundo, e também, por telefonemas que nunca chegam, ou chegam sem aliviar minimamente o suplício da espera. Os burocratas da literatura, se tivessem lido o livro, diriam que Malina (1971) é um romance. Não é. É um livro sobre o inferno. O documento de uma crise e um tratado sobre o infortúnio afetivo que mergulha nas áreas mais esquivas da psique feminina. É também uma catástrofe luminosa onde uma utopia da escrita, seguindo Kleist, opõe-se à linguagem vil da realidade e aos discursos maníacos da ordem. A obra de Ingeborg Bachmann, escreveu seu biógrafo Hans Höller, “pertence a uma das mais angustiantes ofensivas da linguagem contra a dor traumática. Há nela um anseio pelo absoluto que faz do sofrimento uma condição...

Maria Martins, uma intérprete das expectativas decrescentes

Imagem
Por Lucas Paolillo “Havia carvalhos rugosos, enormes, que se contorciam e se esticavam no chão, abraçavam-se uns aos outros, e, firmes sobre seus troncos, parecendo torsos, lançavam com os braços nus apelos de desespero, ameaças furiosas, como um grupo de titãs imobilizados na raiva. Algo mais pesado, um langor febril pairava acima dos pântanos, recortando a superfície de suas águas entre arbustos de espinheiros; os liquens da margem, onde os lobos iam beber, são cor de enxofre, como se queimados pelos passos das bruxas, e o coaxar ininterrupto das rãs responde ao grito das gralhas que volteiam. Em seguida, atravessaram clareiras monótonas, plantadas aqui e ali de árvores jovens não podadas. Ouvia-se um ruído de ferro, pancadas fortes e numerosas: era, no flanco de uma colina, um grupo de exploradores de pedreiras quebrando as rochas. Estas se multiplicavam cada vez mais, e acabavam enchendo toda a paisagem, cúbicas como casas, chatas como lajes, estendendo-se, inclinando-se, confundin...