Postagens

A infância sem nostalgia: Confissão, de Cláudia Lucas Chéu

Imagem
Por Jonas Leite Cláudia Lucas Chéu. Foto: Diana Tinoco Segundo Giorgio Agamben, o poeta “contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro” (Agamben, 2009, p. 62). A afirmação me parece especialmente adequada à leitura de Confissão , de Cláudia Lucas Chéu (n. 1978). Há neste livro um olhar que retorna à infância sem qualquer desejo de recuperá-la como um tempo feliz. O movimento é outro: lembrar significa aproximar-se novamente daquilo que foi difícil e que, de algum modo, continua presente. Publicado originalmente em 2020, pela Companhia das Ilhas, em Portugal, o livro recebeu edição brasileira da Reformatório em 2022 e foi semifinalista do Prêmio Oceanos em 2021. O que primeiro me chamou a atenção em Confissão foi a maneira como Chéu transforma a memória da infância em matéria literária sem protegê-la de suas zonas de desconforto. Apresentado pela própria autora como um exercício de poesia confessional, o livro constitui-se de...

A impossibilidade do Aleph

Imagem
Por Federico Guzmán Rubio  Incessantes e vastas como o universo, as interpretações de O Aleph  acumulam-se e sobrepõem-se umas às outras, sem a obrigação de refutar ou sequer se posicionar como a mais correta, já que o conto de Borges pode ser lido, essencialmente, como se quiser. Entre elas estão — nas inúmeras outras — Julia Kristeva com suas abjeções, Jean Baudrillard com seus simulacros e Michel Foucault com suas palavras e suas coisas, demonstrando que, com um pouco de imaginação teórica, tudo pode ser provado a partir de Borges. Longe de constituir um exemplo de superinterpretação, todos os conceitos, sistemas e dissertações formulados por vários estruturalistas e pós-modernistas são, a meu ver, um meticuloso ato de justiça: o mínimo que se pode exigir dos exegetas de uma obra que aspirou conter o infinito — seja a sério ou em tom de brincadeira — é que desenvolvam um número igual de leituras. Contudo, em sua ânsia de transcender o texto e se tornar uma interpretação do ...

Best-sellers de outros tempos: Sinclair Lewis em sua Rua Principal

Imagem
Por Javier Pérez  Sinclair Lewis. Foto: Edward Steichen. Reprodução a partir da Forbes . Sinclair Lewis foi o primeiro escritor dos Estados Unidos a receber o Prêmio Nobel de Literatura, e isso, de certa forma, marcou sua carreira, revestindo-a com uma camada de respeitabilidade que nunca realmente possuiu, já que jornalistas, repórteres, romancistas satíricos e humoristas nunca foram considerados respeitáveis. Presume-se que a literatura seja o domínio de pessoas sérias, embora figuras como Quevedo, Rabelais, Jonathan Swift ou o próprio Lewis, alguns degraus abaixo, existam para desmentir essa ideia. O autor em questão nasceu em 1885 em Minnesota e morreu em Roma em 1951. Esse é um dado que parece casual, mas se fosse o contrário — isto é, se estivéssemos falando de um autor nascido em Roma e que morreu em Minnesota — estaríamos, de fato, nos referindo a uma verdadeira autêntico acaso de estatística e uma espécie de fracasso estético. Contudo, com o rumo nesse sentido, podemos qua...

Sobre meninos e o fantástico em A estranha máquina extraviada, de José J. Veiga

Imagem
Por Douglas Sacramento No livro O menino na literatura brasileira (Perspectiva, 1988), Vânia Maria Resende dedica um capítulo à presença da criança na obra de José J. Veiga. A autora aponta que a criança, inserida no universo fantástico das narrativas do escritor  goiano, está em contextos opressores, cerceada da liberdade que se espera nesta fase da vida. O realismo fantástico surge como escape, destoando de uma realidade tão crua e, por vezes, violenta. Assim, essas especificidades são caras ao projeto literário de Veiga. Essa relação, além de outros temas, é encontrada na literatura de José J. Veiga, reconhecida três vezes o Prêmio Jabuti (1981, 1983 e 1993). Com uma obra vasta, que transita entre o romance e o conto, ele é considerado um dos principais nomes do realismo mágico no Brasil. Desde 2014, os livros de Veiga, , outrora esgotados nas livrarias do país, têm sido reeditados. A publicação mais recente é A estranha máquina extraviada (2026), que, aliás, já integrava...

Censura por omissão

Imagem
Por David Toscana  Ilustração de um cartão-postal antigo mostrando a censura, com um editor russo esmagado pelas novas regras introduzidas durante a Revolução Russa, por volta de 1917. Bob Thomas/Popperfoto via Getty Images Óssip Mandelstam disse que em nenhum país a poesia era tão importante como na Rússia, porque de onde tinha vindo podiam matar por causa de alguns versos. Na verdade, o poeta compôs um poema nada lisonjeiro para Stálin e recitou-o entre amigos, uma vez que nunca teria obtido permissão para o publicar. Acabou exilado na Sibéria, onde morreu de fome, de frio ou das duas coisas, e seu corpo foi jogado sabe-se lá onde. Esse país tem uma longa tradição de censura, desde os czares aos comunistas, e isso continua ainda em nosso tempo, na era Putin. Mas ali, como em quase todos os lugares, já não se procuram censurar os poetas, pois a censura de fato ocorre por falta de leitores. Hoje, os poetas são livres para lançar seus versos ao vento. Por mais que nós, escritor...

Boletim Letras 360º #711

Imagem
DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto a custear as despesas com domínio e hospedagem online. A sua ajuda continua essencial. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .  Vladimir Nabokov. Foto: Horst Tappe   LANÇAMENTOS Um dos romances mais delicados de Vladimir Nabokov, acompanha a formação de um jovem emigrado russo que atravessa a Europa em busca de pertencimento, amor e sentido. Uma narrativa sutil sobre desejo, exílio e as ilusões da juventude, escrita por um dos grandes estilistas da literatura do século XX . Martin Edelweiss é um jovem sem grandes planos ou ambições. Ele vive com a mãe e um tio numa propriedade na Suíça, depois de terem escapado da Revolução Russa. Sensível, reservado e dotado de um espírito poéti...