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O testamento do sr. Napumoceno da Silva Araújo, de Germano Almeida

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Por Gabriella Kelmer  Germano Almeida. Foto: Tiago Almeida (Reprodução do Expresso ) Não é tão fácil ter em mãos as versões físicas das obras do caboverdiano Germano Almeida, ao menos no Brasil. A exceção é uma edição do ano passado de A ilha fantástica , de 1994, publicada pela editora Oficina Raquel. Para além dessa incorrência, entretanto, é preciso recorrer inevitavelmente aos sebos e ao Kindle, contextos nos quais a bastante prolífica obra do escritor é encontrada sob o selo da editora portuguesa Caminho.  Embora tivesse cruzado com o nome do autor várias vezes, obtendo desses fortuitos encontros a distinção de ser ele incontornável para a prosa contemporânea de seu país, não conhecia em que medida esse impacto ocorrera, nem a partir de que procedimentos. Desejando iniciar o conhecimento com o escritor, aliás vencedor do prêmio Camões em 2018, recorri à edição virtual da obra para ler o seu primeiro romance, O testamento do sr. Napumoceno da Silva Araújo , publicado em 19...

Reconstrução e a sombra de John Ford

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Por Ernesto Diezmartínez  2025 foi um ano dos sonhos para o consagrado ator britânico Josh O’Connor: ele estrelou a mais recente obra-prima de Kelly Reichardt, Mente maestra (2025), viveu um romance discreto com Paul Mescal no sutil drama romântico-musical A história do som (Hermanus, 2025) e até roubou a cena de Daniel Craig em Vivo ou morto: um mistério Knives Out  (Johnson, 2025). No entanto, seu trabalho mais interessante estreou no início do ano, naquele que talvez seja seu melhor filme até o momento. Refiro-me a Reconstrução (Estados Unidos, 2025), o segundo longa-metragem de Max Walker-Silverman, apresentado fora de competição no Festival de Sundance de 2025. O’Connor interpreta Dusty Fraser, um rancheiro do Colorado que acaba de sofrer um desastre natural que também é existencial: seu rancho foi destruído em um dos incêndios florestais recorrentes que assolam o Oeste americano, deixando-o arruinado financeira e emocionalmente. O que um rancheiro pode fazer sem seu r...

As estrelas de Compostela, de Henri Vincenot

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Por Amanda Fievet Marques Henri Vincenot. Foto: Ulf Andersen (Reprodução de franceinfo ) Ao eventual leitor dessa coluna que tenha apreciado o tema que evoquei em abril — isto é, as intersecções entre literatura e arquitetura no romance Pedras selvagens (1964), de Fernand Pouillon, que imagina o processo de construção da abadia cisterciense do Thoronet na Provença do século XII —, julgo ser de elementar cordialidade, se não dever de ofício, oferecer aqui um segundo pitaco.  Devo apontar que, disparidades à parte, tais intersecções também são centrais no romance histórico As estrelas de Compostela (1982), do pintor, escultor e escritor francês Henri Vincenot. Trata-se de um romance de iniciação que se passa na Borgonha do século XIII, e acompanha o desenvolvimento do jovem Jehan le Tonnerre (“João Trovão”) sob os auspícios de seu mentor, o Profeta, que o introduzirá aos valores e símbolos celtas; bem como sob os ensinamentos arquiteturais ministrados pelo mestre de obras da igreja,...

Bela é a verdade – notas sobre o romance histórico

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Por Thiago Teixeira Catherine M. Wood. Livros antigos Precisar o começo do romance histórico não é tão simples, pois isso depende da concepção que temos de romance e, claro, do tipo histórico em si mesmo. A depender do que consideramos romance, podemos dizer que o tipo histórico começa com Walter Scott, ou com Madame de La Fayette. Em nosso ensaio, como não acreditamos haver uma linha divisória tão clara entre romance e novela, ainda mais em textos escritos antes do século XVIII, consideraremos Madame de La Fayette como a pioneira, graças ao La Princesse de Montpensier . E o assunto fica ainda mais interessante quando incluímos, pelas mesmas razões, o Dom Carlos , de César Vichard de Saint-Réal, e o fascinante A princesa de Clèves , também de Madame de La Fayette.  E A princesa de Clèves não é apenas um dos primeiros do gênero histórico, é também o primeiro do gênero psicológico. Aliás, uma das maiores belezas da obra está justamente nesse encontro. Ocorre que a trama se passa em...

Boletim Letras 360º #695

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o Letras permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .  Valter Hugo Mãe. Foto: Bruno Alves    LANÇAMENTOS Novo romance de Valter Hugo Mãe é uma alegoria sobre os vícios, as virtudes e as contradições humanas . Em O século dos imbecis  o premiado escritor Valter Hugo Mãe constrói uma fábula tão divertida quanto inquietante sobre o mundo em que vivemos. Entre o riso e a reflexão, o autor investiga as contradições humanas e questiona quais valores ainda podem nos salvar em tempos de excessos, intolerância e desorientação. No alto das montanhas ergue-se a Malandrinha, palacete que domina a paisagem de um pequeno vilarej...

A Via Dolorosa de Iaperi Araújo

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Por Márcio de Lima Dantas  Uma geração vai, e outra geração vem;  mas a terra para sempre permanece. E nasce o sol, e põe-se o sol, e volta ao seu  lugar, de onde nasceu. — Eclesiastes, 1:4  1. O artista Iaperi Araújo (São Vicente, 21.07.1945) contribuiu para a tradição das imagéticas relacionadas à Via Crucis — conjunto de imagens-ícone contidas no Novo Testamento — que dizem de um profeta ou deus feito homem, tendo este sido responsável pelas ideias que constituem uma nova maneira de conceber as relações, dentro do que ficou reconhecido como práticas religiosas. Como sabemos, o dia de Pentecostes é considerado a fundação do Cristianismo, e a Igreja Católica sua instituição “oficial”. O artista logrou êxito ao plasmar tais discursos por meio de belas imagens, demonstrando domínio da arte de manusear o código pictórico. Um belo estandarte com cores bastante simbólicas abre o cortejo de estações: azul e ocre. Nada rivaliza, no Rio Grande do Norte, com essa obra deixad...