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Os significados da Degola, de Monique Malcher

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Por Douglas Sacramento  Monique Malcher. Foto: Renato Parada  Cortar cabeças. Degolar. Ato que perpassa o imagético das pessoas por meio das mídias e das artes, incluindo a literatura. Animais degolados para virar comida posteriormente ou humanos mortos por diferentes formas de execução; se lembrarmos o episódio histórico da Inconfidência, com Tiradentes, somos então marcados pela imagem da cabeça exposta em praça pública ainda na educação primária. No meu caso, a imagem me acompanha de outros lugares, porque presenciei esse tipo de violência perto de mim em algum momento da vida. Moro em um bairro periférico e estudei no Ensino Médio nesse mesmo bairro. Lembro-me de certo dia, ainda na escola, quando uma notícia se espalhou entre as turmas: viram uma cabeça em um poste das ruas da minha comunidade. Essa cabeça pertencia a um jovem envolvido com tráfico de drogas, colega de escola e tinha deixado a namorada grávida. Assim, a degola, para muitos, não está distante. Foi justamen...

Jorge Baron Biza, o homem do subsolo

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Por Alan Pauls  Jorge Baron Biza. Foto: Sem autoria/ Reprodução do jornal El País Aos vinte anos, Jorge Baron Biza mora em Buenos Aires, num apartamento com paredes pintadas de preto. Mantém as persianas fechadas, as janelas trancadas e as cortinas sempre puxadas. É o sua toca . Há dois anos que se embriaga regularmente. Conhaque, uísque, licores baratos, até álcool isopropílico, mas principalmente gim, cujas garrafas são amontoadas debaixo da cama à medida que as termina: a bebida é a marca registrada de um programa repleto de spleen que também inclui prostitutas, os últimos quartetos de Beethoven e, ocasionalmente, enfiar a cabeça no forno. É 1962, o auge da era existencialista. Mas a decadência de Baron Biza é hereditária, e talvez já fosse antiga quando seu pai, Raúl Barón Biza, era quem a exagerava: dândi, escritor de panfletos pornográficos, milionário, conspirador. • • •  Freiburg, Buenos Aires, Montevidéu; conveses de navios, escolas alemãs, governantas multilíngues. ...

Boletim Letras 360º #709

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto a custear as despesas com domínio e hospedagem online. A sua ajuda continua essencial. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .   Ibrahim Al-Koni. Foto: Basso Cannarsa. Reprodução de Lifo.gr LANÇAMENTOS A editora Tabla apresenta aos leitores brasileiros dois novos livros do autor líbio Ibrahim Al-Koni, autor do já conhecido entre nós O tumor.   1. O tibar   se passa no coração do Saara, onde a sobrevivência exige coragem e o deserto revela tanto quanto oculta. Um homem e seu mahri — o lendário camelo dos tuaregues — estabelecem um vínculo de lealdade absoluta. Quando a cobiça, a honra e as antigas tradições colocam essa união à prova, ambos são arrastados para um...

De quantos ff se compõe o Brasil? – Notas sobre Quarto de despejo, de Carolina Maria de Jesus

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Por Amanda Fievet Marques  Publicado em 1960 pela editora Livraria Francisco Alves, o livro Quarto de despejo – Diário de uma favelada , da escritora Carolina Maria de Jesus, encontra ainda hoje seus leitores. Estes, recém-saídos da leitura de uma linha, de um parágrafo, de uma página, sentem-se subitamente tocados, tomados pela evidência da realidade da narradora, mulher, negra, mãe solteira de três filhos, favelada, catadora, que escreve sua vida pelas entradas do diário que lemos.  Há um canto que nasce das condições mais brutais, uma língua que se forma nos tremores e nas vertigens da fome, entre os odores do lixo onde a narradora-autora vai catar papel e o que comer. Como não há de comover o leitor? Comove. A música dos esfaimados, degradados, esquecidos pelo poder público, repudiados pelas elites, relegados à categoria de seres empestadores, ocultados nos quartos de despejo.  Supõem os desavisados que há de ser a língua de tal obra literária mera expressão espontâne...

Nos tempos de Casanova

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Por Thiago Teixeira  A fuga de Giacomo Casanova da prisão de Piombi em 1756. Ilustração do século XIX da revista Scribner's Monthly . Iniciei, não há muito, um percurso pelas quase quatro mil páginas das Memórias de Casanova ( ou História da minha vida) . O fim desse caminho ainda está bem distante, mas por ora o viajante já tem lá suas impressões de viagem, versando principalmente sobre a questão da memória humana e sobre o mundo representado pela obra.  Pois uma das coisas que me surpreendem até agora é a capacidade daquela mente em juntar tantos acontecimentos, detalhes, nomes — claro, desde que, inocente e provisoriamente, contemos com a boa-fé do pacto não ficcional.  A memória do autor é surpreendente: quase quatro mil páginas de relatos, descrições minuciosas, reconstituição de diálogos, uma miríade de nomes. Por ela simplesmente conhecemos o século XVIII europeu, seus costumes, classes sociais, códigos, valores, cultura, o que levou Blaise Cendrars a dizer que as...

É sempre a hora da nossa morte amém, de Mariana Salomão Carrara

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Por Gabriella Kelmer  Mariana Salomão Carrara. Foto: Renato Parada A inventividade da escrita de Mariana Salomão Carrara tem sido discutida através de uma produção romanesca bastante variada em temáticas (a morte, a infância, a justiça) e em perspectivas (a idosa, a árvore, o juiz), dizendo a autora, em tempos nos quais a criação se tem visto tantas vezes cooptada por um compromisso por vezes desmedido com a realidade e com a autobiografia, que há nas suas histórias um exercício de empatia a acionar os mecanismos da infância.  Em É sempre a hora da nossa morte amém , romance de 2021, fica evidente em que medida sua ficção surpreende ao permitir, às suas personagens, a singularidade e a irrepreensibilidade. Aurora, a narradora, é encontrada, aos setenta anos, vagando a esmo por uma estrada, sendo então levada a um abrigo de idosos. Sua memória está comprometida e a cada novo dia ela levanta novas possibilidades da vida perdida. Por todo o enredo, repetem-se elementos como a pre...