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Passarinho que se debruça — o voo já está pronto! Considerações na biografia de João Guimarães Rosa por Leonencio Nossa (I)

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Por Herasmo Braga Como bem enaltecido por grande parte da crítica e dos leitores, a espera por uma biografia à altura de João Guimarães Rosa chegou ao fim. Possivelmente, não a definitiva, mas, com certeza, entre as melhores. O sertão está em toda parte na prosa de Leonencio Nossa, e no seu interior encontrou e teceu o escritor mineiro. Desmitificou o gênio e humanizou o criador imaginativo que muito viveu e dialogou com tudo que o identificou. Entre as inúmeras possibilidades presentes no livro, delimitam-se algumas considerações sobre o fazer literário em Guimarães Rosa. Neste primeiro momento, destacaremos a memória em três acepções contempladas no livro de Nossa: a memória criadora, a memória regionalista como matéria-prima para as narrativas e a memória como processo de autoconhecimento ficcional e real. O biógrafo apresentou, por meio de pesquisas, imagens, trechos das obras e de outros documentos, os caminhos que levaram o autor de Grande sertão: veredas a ser detentor de ...

Pensando os desencantos de um desenvolvimentista — ou Pequeno manual para elaborar reflexões sobre autores que ficaram pelo caminho

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Por Lucas Paolillo Os homens fazem sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. E justamente quando parecem empenhados em revolucionar-se a si e às coisas, em criar algo que jamais existiu, precisamente nesses períodos de crise revolucionária, os homens conjuram ansiosamente em seu auxílio os espíritos do passado, tomando-lhes emprestado os nomes, os gritos de guerra e as roupagens, a fim de apresentar e nessa linguagem emprestada. Assim, Lutero adotou a máscara do apóstolo Paulo, a Revolução de 1789-1814 vestiu-se alternadamente como república romana e como o império romano, e a Revolução de 1848 não soube fazer nada melhor do que parodiar ora 1789, ora a tradição revolucionária de 1793-1795. De maneira idêntica, o principiante que aprende um novo idioma traduz se...

Sinii Karandach e o poema-blecaute

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Por Rafael Bonavina Os últimos anos foram marcados por duas comemorações importantes para a literatura russa: em 2024, o poeta nacional Aleksandr Púchkin completou 225 anos; e, no ano passado, sua maior obra, o romance em versos Evguêni Onéguin , completou seu bicentenário. Os dois eventos receberam relativamente pouca atenção no Brasil,¹ mas na Rússia foram ambos muito importantes. Foram organizadas diversas palestras, cursos, homenagens e até edições comemorativas das suas obras. Em meio a todas essas homenagens, a editora moscovita Individuum lançou um curioso volume do artista urbano Sinii Karandach, intitulado Blecaute ( Блекаут , 2025). A obra trava um diálogo direto com Evguêni Onéguin , cuja capa é reproduzida logo depois da folha de rosto, como parte integrante do livro. Embora o texto de Púchkin seja a base de Blecaute , a intertextualidade entre os dois é extremamente tensa, senão conflituosa, pois Karandach intervém no texto oitocentista por meio do blecaute, isso é, apaga...

Doze poemas de Wendell Berry

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Por Pedro Belo Clara  (Seleção e versões)* Wendell Berry. Foto: Kate Mount CÂNTICO (para Robert Hazel) ( Broken Ground , 1964) Não é isto o que a morte significa — o espírito, triunfante na queda do corpo, louvando a sua ausência, alimentando-se de música. Se a vida não consegue justificar-se e explicar-se, a morte não o poderá fazer. Uma crença e um túmulo nunca igualaram a vida do que quer que seja. Flores amarelas despontam nas fendas de pedras antiquíssimas no começo de abril. Os trajes negros dos sacerdotes voltam-se   contra o frágil amarelo da luz e das pétalas; esperam na sua negritude obter alegria pela morte. Confiam que nada de sagrado é gratuito, e assim pagam pelas suas vidas. Caixas com ranhura no gradeamento do altar são a jukebox do mundo, a mente deixando moedas gastas em troca do conforto da ignorância.  POEMA DUMA NOITE DE INVERNO PARA MARY ( Farming: A Hand Book , 1970) Começava a regressar a casa, depois do anoitecer, olhei para o céu e vi a no...

Boletim Letras 360º #710

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto a custear as despesas com domínio e hospedagem online. A sua ajuda continua essencial. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .  Silviano Santiago. Foto: Nilton Fukuda   LANÇAMENTOS Livro apresenta ao público a história de um encontro iniciado em 1971, quando Hélio Oiticica criou o projeto visual para um conjunto de poemas de Silviano Santiago .  Concebido como livro e mantido inédito por mais de cinco décadas, XXXV reúne literatura e artes visuais em uma experiência em que texto, imagem, página e espaço são inseparáveis. A exposição nasce em torno da publicação do livro e recupera os caminhos dessa colaboração, seus documentos, imagens e processos de criação, aproximando du...

Entre o gesto cotidiano e aquilo que permanece quando tudo passa, está o livro Risque esta palavra, de Ana Martins Marques

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Por Weyna Moreira Macêdo  Estamos todos reunidos na praia da palavra infância (Marques, 2021, p. 19). Ana Martins Marques. Foto: Rodrigo Valente de Noronha Risque esta palavra  (2021) é o sétimo livro de poemas de Ana Martins Marques. Dividido em quatro partes — “A porta de saída”, “Postais de parte alguma”, “Noções de linguística” e “Parar de fumar” —, o volume reúne poemas marcados por diferentes formas de despedida: a morte, o fim de um amor, a passagem da infância, o abandono de um hábito e, também, a própria possibilidade de que um poema chegue ao fim. Assim, a unidade do livro está expressa justamente no modo como experiências tão diversas são submetidas a uma mesma atenção à linguagem. Diante disso, o próprio título anuncia uma dessas tensões: “riscar” pode remeter tanto ao gesto de apagar uma palavra quanto ao movimento de riscar um fósforo e, assim, fazê-la iluminar. Entre o apagamento e a aparição, o livro parece investigar aquilo que permanece quando alguma coisa de...