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Romance com ficção

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Por Thiago Teixeira  Patrick Deville. Arquivo Radio France (Reprodução) Na guarda da capa vemos a fotografia de um homem jovem com a pele queimada de sol diante da varanda de uma cabana rústica. Todo de branco, não sabemos se em uniforme militar ou médico, mas certamente colonial, ele nos desperta uma reminiscência. Onde vimos uma imagem parecida? E então nos lembramos do raro registro do Rimbaud adulto, quando, já tendo rompido com a literatura, meteu-se no tráfico de armas em África, no que se tornou paradigma da figura do escritor que abandona a arte por uma vida aventurosa.  O nome do jovem rapaz é Alexandre Yersin, o renomado cientista que protagoniza o romance biográfico Peste e cólera , de Patrick Deville. O autor, como o biografado, é um homem de viagens e viu em Yersin uma figura central do século passado, descobridor do bacilo da peste bubônica, encarnando a ciência e a vida prática. Munido de documentação e seguindo as pegadas do biografado, o romancista reconstitui...

Os segredos do horror no filme O segredo da cabana

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Por Michel Goulart da Silva O filme O segredo da cabana  (2011) apresenta de forma bastante didática um conjunto de arquétipos característicos de um determinado tipo de filmes de terror, os slashers . Nesses filmes, é comum que um misterioso assassino persiga e mate um conjunto de pessoas, em grande medida jovens, podendo ser uma força sobrenatural ou não. Os crimes podem ocorrer em diferentes lugares, ainda que sejam frequentes os assassinatos que ocorrem em lugares distantes, como em florestas.   Essa cinematografia dominou por décadas o mercado de filmes de horror, se exaurindo em intermináveis e repetitivas franquias, entre as quais Halloween , Sexta-feira 13 , A hora do pesadelo e O massacre da serra elétrica . Como resposta ao esgotamento dessa cinematografia, foram realizadas reflexões que se utilizaram da metalinguagem, como a franquia Pânico e o filme O segredo da cabana . No filme de Drew Goddard um grupo de jovens vai passar alguns dias em uma cabana reclusa, em u...

Julian Barnes: o inesgotável diálogo

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Por Mauricio Montiel Figueiras  Julian Barnes. Arquivo Harry Ransom Center Entre as muitas constelações literárias que iluminaram as últimas décadas do século XX, poucas são tão singulares quanto aquela que a revista Granta reuniu em 1983 sob um nome que o tempo transformou em lenda: o dream team das letras britânicas. Esse time incluía nomes destinados a ocupar um lugar central na literatura contemporânea e entre eles se destacava Julian Barnes, dono de uma voz única que navegou pelas águas do romance, do conto e do ensaio com uma elegância que raramente perde de vista sua bússola irônica. A atribuição do Prêmio Princesa das Astúrias em 2026 confirma uma trajetória que, por décadas, tem sido parte essencial do panorama da literatura europeia. A extensa obra de Barnes se ergue sobre a convicção inabalável de que a memória, a história e a arte são territórios sujeitos a um incessante processo de reinterpretação. Seus livros percorrem esses domínios com uma combinação muito particu...

De Tebas às areias de Arrakis: Édipo e Paul Atreides, marionetes do destino

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Por Rafael Pontes Max Ernst, Oedipus Rex   As profecias sempre fizeram parte do imaginário popular das antigas civilizações espalhadas pelo globo. Algumas previam bênçãos e glórias, ao mesmo tempo que anunciavam pragas, guerras, sangue e morte. Assim como as raízes de uma árvore, essas visões proféticas se espalhavam e penetravam na mente dos povos, moldando decisões, alimentando esperanças e despertando medos. Não eram simples palavras proferidas pela boca de um sábio, mas forças capazes de trazer o auge e a queda ao mesmo tempo. Como reflexo das inquietações humanas, a literatura apropriou-se desse imaginário profético por meio de icônicas obras, como a tragédia de Macbeth (1623), de William Shakespeare, na qual a ambição do protagonista é despertada pelas previsões proferidas pelas três bruxas. Suas ações e seus ideais foram simplesmente abandonados ao ouvir o futuro dito por elas. A partir desse momento, o protagonista se transforma em um ser irreconhecível, um homem diferente...

Boletim Letras 360º #703

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto a custear as despesas com domínio e hospedagem online. A sua ajuda continua essencial. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .   Selma Lagerlöf LANÇAMENTOS   Há muito sem uma obra inédita entre os leitores brasileiros, chegou a vez de conhecer algo a mais de Selma Lagerlöf, a primeira escritora reconhecida com o Prêmio Nobel de Literatura . Publicado em 1899, A lenda de uma casa senhorial  é um livro sensível e inusitado. A narrativa acompanha a trajetória de Gunnar Hede, um estudante de Uppsala que ama acima de tudo a música. Jovem herdeiro e violinista talentoso, Gunnar é acometido por uma sequência de infortúnios que acaba por conduzi-lo à loucura. Após perder a fortuna d...

A cartografia poética de Micheliny Verunschk

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Por Davy Douglas Fernandes Micheliny Verunschk. Foto: Fabio Seixo O título aqui não é escolhido por puro acaso. Micheliny Verunschk mapeia espaços físicos e líricos em contato com um personagem central que carrega consigo paralelos de dor e desejo, ausência e presença: a noite. Em Cartografia da noite (2010), a ciência cartográfica não é um mero elemento fabulatório, mas um princípio poético tão bem elaborado, dentro de uma obra tão coesa, que a experiência de leitura se assemelha a uma narrativa, desde o uivo da noite até o nascer do sol: “O sol/ devolve/ cada coisa/ que a noite/ furtou” (Verunschk, 2024, p. 163). Tal fato não surpreende, considerando o excelente trabalho que Verunschk apresenta como romancista, sendo oportuno destacar a obra com qual foi reconhecida com o Prêmio Jabuti, O som do rugido da onça (2011), assim como os romances Caminhando com os mortos (2023) e Depois do trovão (2025).  Além disso, a autora pernambucana é mestre em Literatura e Crítica Literária ...