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Boletim Letras 360º #588

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Chico Buarque em Roma, 1969. Arquivo Carlos Jobim. LANÇAMENTOS Novo livro de  Chico Buarque tem nas memórias a matéria-prima para sua ficção . Via San Marino, 12. No primeiro andar do prédio baixo e amarelo, o menino traça rotas no mapa-múndi que cobre a parede do quarto. A náusea sentida durante a navegação do Brasil à Itália ficara para trás e as viagens cartográficas vão sendo deslocadas, em escala menor, para os percursos pelas ruas de uma cidade a ser descoberta. Reminiscências diversas compõem esse trajeto: as primeiras manifestações do desejo; as partidas no gol a gol com Amadeo, o filho do quitandeiro; a escola e suas fugas; cartas, bilhetes e romance, toda uma escrita endereçada a Sandy L., sua paixão juvenil; a dor da apendicite. Em sua bicicleta niquelada com pneus brancos, Chico Buarque faz o zigue-zague por Roma, solta às vezes a mão do guidom e ensaia um equilíbrio fino entre lembrança e imaginação. Nesse passeio delicado, vislumbres da relação com o pai, a mãe e os irmão

Sloterdijk e os aspectos da modernidade

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Por Herasmo Braga Peter Sloterdijk. Foto: Daniel Biskup   Peter Sloterdijk na trilogia Esferas , para muitos considerada sua magnum opus , o homem sempre teve a necessidade de viver amparado em algo estável, consolidado, duradouro, e por conta disso elaborou ao longo da sua existência diversas camadas protetoras, constituidoras de imunidades para si, para que nada estivesse fora do controle ou da sua compreensão. Desse modo, elaborou, desenvolveu diversas cosmologias para que tudo em torno de si tivesse algum sentido e desse a necessária comodidade terrena. E assim, ao longo do tempo se firmou este imaginário que nada o inquietava, mesmo com o surgimento de novas ideias, novas rupturas que provocassem qualquer declínio deste ser estável, realizavam-se, então, substituições que, mesmo diante de novos paradigmas, o homem não perderia a sua segurança.   Todavia, inauditos contextos vão se constituindo e coadunando em um momento histórico ainda não experimentado pela humanidade: a moderni

A casa de barcos, de Jon Fosse

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Por Sérgio Linard Jon Fosse. Foto: Ole Berg-Rusten Receber um Nobel certamente é sonho de muitos que se propõem a escrever e a trabalhar com literatura. O prêmio, além do reconhecimento em vida, garante um considerável recurso financeiro para os vencedores e, claro, aumenta exponencialmente a venda de seus textos. Mas o selo de um prêmio desta monta, ainda que não pareça, infelizmente, não faz significar que o leitor terá em mãos um texto de qualidade. Sabemos, por exemplo, que muitos autores só chegam ao grande público mundial após o recebimento dessa outorga; outros, cujas obras são excepcionais, morreram sem nem mesmo terem sido lidos por aqueles que escolhem os vencedores. Entre as justiças e as injustiças que conduzem qualquer processo de seleção, há boas e há más descobertas. Jon Fosse, felizmente, é um caso do primeiro tipo.   Após o anúncio de sua vitória por suas “peças e prosas inovadoras que dão voz ao indizível”, não tardou para que muitos fossem os críticos que — sem prév

Kafka e o cinema

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Por José Agustín Mahieu Anthony Perkins como Josef K. em  O processo , de Orson Welles Examinando a filmografia dedicada a Franz Kafka, o que chama a atenção, mais do que a sua escassez, é o distanciamento concreto que a maior parte das obras estabelece da complexa urdidura criada pelo autor. Não se trata de uma infidelidade aos originais: em geral estas obras têm respeitado, talvez demasiadamente, os aspectos externos do mundo de Kafka. E já se sabe que no cinema inspirado na literatura nada engana mais do que a fidelidade formal. Acontece que o único cineasta suficientemente brilhante (e/ ou vaidoso) para ousar dar a sua própria interpretação de uma história do escritor tcheco foi Orson Welles em O processo : discutível, sem dúvida, mas nunca superficial.   Em primeiro lugar, parece óbvio que a persistente relutância do cinema ante a possibilidade de “adaptar” Kafka se deve em grande parte às suas dificuldades formais; não tanto pelos seus “roteiros”, quase sempre de uma enganosa sim

Os perigos do Imperador: um romance do Segundo Reinado, de Ruy Castro

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Por Henrique Ruy S. Santos Ruy Castro. Foto: André Dias Nobre O procedimento não é novo: um narrador inicia a obra relatando as condições fortuitas e acidentais por meio das quais veio a ter contato com os manuscritos ou os documentos que deram origem ao caso que será contado. O Romantismo, aqui e alhures, foi profícuo nesse tipo de artifício. Basta lembrar do nosso José de Alencar d’ A guerra dos mascates (e outros romances), do também lusófono Almeida Garrett e mesmo do Goethe do Werther , todos românticos cuja consciência literária e histórica os fazia entender que os meandros da escrita também podiam ser uma aventura que valia a pena ser contada.   De certo modo, é tomado por essa consciência histórico-literária que Ruy Castro inicia seu Os perigos do imperador com um prólogo dedicado a narrar “como esta história aconteceu — ou quase”. O prólogo menciona a hoje quase esquecida viagem de D. Pedro II aos Estados Unidos em 1876, viagem esta de que “nada de muito importante [...] res

Lia, de Caetano Galindo

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Por Gabriella Kelmer Caetano Galindo. Foto: Leticia Moreira   Existe algo curioso nas estreias literárias. Fui recentemente atraída por elas em resenhas anteriores, com O dia dos prodígios , de Lídia Jorge, e Memória de elefante , de António Lobo Antunes. Nas duas obras, em que estão registrados os primeiros movimentos de autores fundamentais à produção contemporânea portuguesa, demarcam-se proclividades estilísticas e temáticas que serviram às produções seguintes. Pessoalmente, a essencialidade da dicção da autora ainda reside para mim em Vilamaninhos, cuja nítida decrepitude entristecida não me foi sombreada por obras posteriores; de outro modo, o romance do autor antecipa em alguns aspectos a cúspide que, considero, é atingida em romances seguintes.   Faço essas considerações não para opor as duas estreias, aliás excepcionais, cada uma a seu modo, mas para balizar as diferentes maneiras pelas quais uma primeira publicação pavimenta alternativas, preocupações e recursos que, por veze