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Werner Herzog: em busca de fantasmas

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Por Luis Reséndiz Poucos cineastas se expressam com tanta precisão quanto Werner Herzog. Talvez seja seu forte acento bávaro, seu constante distanciamento irônico ou a maneira brilhante como articula e estrutura seus pensamentos, mas o fato é que, desde os documentários em que sua narração é a espinha dorsal até suas palestras, entrevistas e apresentações, ouvir Werner Herzog falar é sempre uma experiência enriquecedora. Como prova, apresento uma entrevista de mais de quarenta anos atrás. No final de 1982, Herzog apareceu pela primeira vez em um talk show noturno, o Late Show with David Letterman , para promover um de seus dois épicos amazônicos, Fitzcarraldo (1982). Entrevistador implacável e persistente, Letterman, como dizemos por aqui, pressionou o diretor por diversos ângulos, incluindo os inúmeros contratempos enfrentados pela produção — relatados em Burden of Dreams  (1982), de Les Blank, sobre a tortuosa realização de Fitzcarraldo  —, os perigos aos quais Herzog se e...

Sem despedidas, de Han Kang

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Por Sérgio Linard  Quando foi informada de que havia sido escolhida como vencedora do Nobel de literatura em 2024, Han Kang disse que seu maior objetivo para o momento seria a conclusão do novo romance no qual trabalhava há um tempo. Esta obra é Sem despedidas e falo dela aqui. Embora a autora defenda que o prêmio não acelerou a publicação do romance, o sentimento que se tem durante a leitura é justamente o contrário, o inacabamento do texto ou da ausência de uma lapidação maior e melhor do material literário. Um triste acontecimento que surpreende negativamente, porque um dos maiores elogios a serem feitos para a obra de Kang é o do minucioso cuidado com os detalhes de seus textos, algo visto em Atos humanos e elevado à excelência em A vegetariana .  Com  Atos humanos , a ideia de revisitar grandes e chocantes acontecimentos da sociedade coreana e utilizar esse processo como forma de ampliação da contação de traumas pessoais e coletivos começa a ser um espaço comum que...

Tradição e busca por liberdade em On The Road, de Jack Kerouac

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Por Vinicius de Silva e Souza Jack Kerouac Foto: Jerry Bauer Durante quase todo o mês de abril de 1951, aos 29 anos de idade, Jack Kerouac escreveu seu mais famoso livro. Tratado por muitos como uma obra canônica, lendária, “bíblia da geração beat”, como aponta a L&PM Editores, responsável pela obra do autor e dos seus pares no Brasil, mais como jogada de marketing do que constatação da realidade. Tantos anos depois da publicação, a leitura de On The Road  é cercada de polêmicas. Diante das inevitáveis mudanças culturais, ainda mais no atual milênio, fica difícil entender alguns aspectos do romance, mas também, talvez até em mesma medida, acredito que certo apelo ainda resiste e é totalmente compreensível. Fui pego de surpresa ao ver notas e reviews tão negativas no Goodreads. Avaliações essas que se repetem no Reddit, evidenciando um sentimento generalizado: On The Road é o espírito de seu tempo — mas apenas isso. Uma crítica na Amazon diz, em determinado momento: “A única ...

Boletim Letras 360º #694

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o Letras permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .  Elvira Vigna. Foto: Karime Xavier LANÇAMENTOS Nova tradução e edição de uma das novelas mais importantes para a narrativa insólita .   Com uma carta de recomendação nas mãos, Peter Schlemihl vai à casa de Herr Thomas John, um rico proprietário de terras, em busca de um emprego. Entre os convivas lá reunidos em uma recepção, está um misterioso homem vestindo uma casaca cinza. De seu bolso ele tira qualquer coisa que lhe peçam: uma luneta, uma tenda completa, três cavalos. Espantado, Peter trava conhecimento com o homem, que lhe faz a proposta: alguma maravilha em troca de...

Os entremeios que estruturam O livro das semelhanças, de Ana Martins Marques

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Por Weyna Moreira Macêdo Ainda que não te fossem dedicadas todas as palavras nos livros pareciam escritas para você — Ana Martins Marques Ana Martins Marques. Foto: Rodrigo Valente O livro das semelhanças , da poeta mineira Ana Martins Marques, constrói-se como um exercício simultâneo de escrita e leitura do mundo, no qual a própria estrutura do livro se torna matéria poética. Desde seu limiar, a obra anuncia seu projeto metalinguístico de maneira radical: o índice, ao listar itens convencionais de uma estrutura editorial, como “Capa”, “Nome do autor”, “Título”, “Primeiro poema”, cumpre uma função organizadora, mas também realiza uma operação poética mais complexa. Cada um desses elementos paratextuais, que normalmente funcionariam como meros suportes informativos, é ressignificado como instância criativa autônoma. Logo, o que seria tradicionalmente um sumário transforma-se em um primeiro gesto metapoético, transformando cada um desses elementos em um espaço de significação. Nele, a mo...

Coriolano: de apátrida maldito à mártir radical

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Por Juliano Pedro Siqueira  Oh mãe! Salvastes a pátria, mas perdestes o filho. Franz Anton Maulbertsch. Coriolano nos portões de Roma . (c. 1795) A dramaturgia de William Shakespeare tem um lugar de destaque no cânone da literatura mundial. Seja por sua magnitude trágica ou por seu aspecto humanístico, cujo efeito atingiu esferas atemporais. A atualidade dos seus textos, combinada com seu estilo de escrita profícuo, é tão impressionante que pode levar alguns a questionar sua existência. Isso quando não creditam sua vasta obra a eruditos anônimos, dada a imensidão de sua produção literária. Coriolano está longe de ser a peça célebre de Shakespeare. Provavelmente é a menos conhecida do público geral. Mesmo concorrendo por fora entre Macbeth e Hamlet , essa tragédia aborda as consequências nefastas de um poder que transita entre orgulho e sacrifício. Mas não apenas! Também se destaca pelas relações estreitas entre poder político e plebe; como se desencadeava as traições nos bastidor...