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A descoberta de um escritor extraordinário

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Por  Rafael M. Fogaça* Sadeg Hedayat Ao terminar a leitura de A coruja cega e outras histórias , do iraniano Sadegh Hedayat, fiquei com uma sensação semelhante à que me tomou depois de assistir ao filme Dançando no escuro , de Lars Von Trier, há alguns anos. Fui tomado por profunda comoção, a ponto de, por algum tempo, perder o sentido de orientação espacial. Composto pela novela que dá título ao volume e uma coletânea de 14 contos selecionados pelo tradutor, cada narrativa explora facetas diversas do lado mais obscuro da existência humana. Em “A coruja cega”, narrativa em primeira pessoa, o protagonista é um pintor viciado em ópio perseguido por alucinações que parecem advir de uma vida anterior. Incapaz de viver entre as pessoas comuns, ele passa os dias isolado em seu quarto, fumando a droga e escrevendo sobre acontecimentos terríveis em que esteve envolvido, sem que o leitor saiba se tais acontecimentos possuem ancoragem na realidade ou se não passam de delírios decorrentes dos ef

O Ateneu, de Raul Pompeia

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Por Pedro Fernandes   Há romances que sempre nos causam espanto quando reencontramos com eles tantos anos depois de sua publicação. A natureza desse sentimento é variada, mas parece que crescem por sua própria conta. No caso específico de O Ateneu , de Raul Pompeia, cujo desfecho de sua publicação coincide, qual libertação, com o dia de assinatura da Lei Áurea ― a 13 de maio de 1888 se publicava o penúltimo capítulo no folhetim da Gazeta de notícias ― é o vigor da linguagem capaz de transformar o estatismo da descrição em movimento. Esse tratamento faz do romance um livro à parte entre as criações do seu tempo e, só apenas por convenção historiográfica, tratamos de filiá-lo ao realismo quando o pensávamos melhor inscrito num naturalismo, num simbolismo ou mesmo armado com os ventos do pré-modernismo. Resulta comum essas indeterminações quando estamos diante de uma obra-prima.   Outro aspecto importante do livro que ganhou essa forma em meados do mesmo ano de quando apareceu como folh

Julien Gracq

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Por Christopher Domínguez Michael Julien Gracq. Foto: Louis Monier   Ao rejeitar, em 1951, o Prêmio Goncourt que lhe fora atribuído por Le Rivage des Syrtes , Julien Gracq subscreveu outro venerável costume literário francês, o anticonvencionalismo, estipulado em La littérature à l'estomac , esse tipo de manifesto pessoal. Gracq, nascido perto de Nantes, com o nome civil de Louis Poirier, em 27 de julho de 1910 e falecido em 22 de dezembro de 2007, havia chegado ao século XXI como um dos poucos autores vivos incluídos em Bibliothèque de La Pléiade. Sobrevivente heterodoxo do surrealismo, Gracq transitou entre o romance, o teatro, a crítica ou o livro de viagens sem prestar contas ao mercado de valores das ideologias políticas ou das modas intelectuais.   Autor de André Breton, quelques aspects de l’écrivain (1949), Préférences (1961), En lisant, en écrivant (1980) ou Lettrines I e II (1967 e 1974), Gracq também foi um crítico que lutou pelo romance, acusado como farsa do século

“Mais uma madalena, por favor!”

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Por Lourenço Duarte Ilustração: Nancy Liang Revisitar o passado sempre pareceu uma das grandes obsessões poéticas e literárias de sempre. Disputando o pódio com o amor, ou Amor, e a morte, as lembranças distantes assumem-se como um forte motor da poiesis , da criação. E é ao debruçarmo-nos um pouco mais sobre o tema que vemos surgirem certas premissas, por vezes opostas, acerca deste movimento de retorno: o ser que relembra em nada difere do conteúdo relembrado, do sujeito ido?; será impossível à pessoa atual transportar a sua consciência pelas coordenadas do tempo até ao instante remoto?; finda a memória, permaneço o mesmo, ou trago já no bolso da existência aquele que recordei? Estas seriam algumas das questões pertinentes a colocar.   A primeira ideia é bastante sedutora. De facto, assim como a crença de não estarmos a sonhar, quando o estamos, também as memórias nos fazem acreditar que nada é, naquele momento, mais do que aquilo que é. A velha questão cartesiana. Assim sendo, quem

Moldávia e outras histórias, de Timo Berger

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Por Joaquim Serra Em Moldávia e outras histórias , o poeta e tradutor Timo Berger, nascido em Stuttgart, Alemanha, acompanha excertos de vidas. Berger parece seduzido pelo momento de cisão, quando uma vida sai de uma linha previsível para entrar em outra muito mais distante e livre. A primeira história, que abre e dá título ao livro, trata de duas experiências distintas de relacionamento e de como cada um se sente numa relação tipicamente contemporânea. A modernidade das relações e a fragilidade com que suas personagens encaram o mundo globalizado não aparece apenas no desejo da personagem Verônica, uma Argentina movida pela aventura do mundo sem fronteiras, mas na própria relação entre esses seres vistos no sentimento encarnado da transitoriedade a qual representam. Verônica quer a definição das relações – uma certa exatidão que foge dela –, quer viver na Moldávia, de que tanto lhe falaram, o amor que não sente correspondido no relacionamento com um alemão. Depois de Verônica, num est

Nove poemas de Para que mar embarcas, Noé?, de Adonis

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Por Pedro Belo Clara Adonis. Foto: Magali Delporte A palavra esquece a palavra é raro a palavra falar Aram arim ram rama Ararat 1 Da montanha das neves estenderam-se até mim as mão de                 uma História errante espalhada no deserto da época mãos que cosem travesseiros às estrelas que sangram nos mapas e a impressão de tocar estilhaços de cabeças e de corpos nas                 nuvens que os tocam     ***     De onde e como vindes caminhos que conduzis ao precipício vertentes-declives mentira cósmica souks 2 cegos arrastam cidades cegas arrastadas por guerras cegas Neve de Ararat diz às tuas vasilhas para derramarem os seus                 álcoois aos pastores das estrelas e das lendas e sabe que as bocas das tuas profundezas explodirão um dia e que a tua neve confraternizará com os campos e os canais de irrigação     ***     Déspotas cada glândula é um furúnculo a saliva é Inflamação os lábios latido uma corrente em cada pescoço Para eles as guerras são conversa de água os