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No coração do mar: a história por trás de “Moby Dick”

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Por María Teresa Hernández Ainda é dia e o primeiro oficial passeia pelo convés do navio: um jovem e bonito que mais do que um arpoador remete a um herói de ação. Que essas baleias temam agora que o ambicioso Owen Chase (Chris Hemsworth) as tem na mira, porque seu mergulho gracioso e cadenciado será transformado em barris de gordura e óleo para o comércio. No coração do mar descreve a história por trás de Moby Dick (1851), mas não é baseado no romance de Herman Melville. Ao contrário, o roteiro é uma adaptação de uma obra que o estadunidense Nathaniel Philbrick publicou em 2000 para divulgar os acontecimentos que resultaram num capitão obcecado pelo assassinato de uma baleia branca: no início do século XIX, um baleeiro de onde partiu Nantucket, Massachusetts, e foi atacado por um cachalote enorme alguns meses depois.   Este poderia ser o filme perfeito, não fosse pelo fato de que o mais desejável em um filme que retrata Moby Dick — uma personagem tão desgastada como Romeu e Julieta o

Escritoras do Sul selvagem

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Por Bárbara Ayuso © Jesse McCloskey Os pântanos. Os trailer parks . As mansões do algodão. Os banjos. As bocas podres. As sílabas rastejando como lama. O white trash , a escória racista. Crianças sujas amontoadas em pick-ups , peles de animais selvagens secando ao sol, macacões jeans e bonés engordurados. Rifles, sucata enferrujada, destilarias em celeiros. Bandeiras confederadas. Rednecks , senhoras do sul, suadas vendedoras de bíblias. Tudo imundo que enxameia do Atlântico ao Golfo do México: o Sul, o gêmeo do malvado dos Estados Unidos. Fascinante e repulsivo ao mesmo tempo. Que lindo o Sul quando fica feio, quanto dura da peste até a derrota. Não existe lei que o dobre, mas é assim: decadência, quanto mais furiosa, mais bela.   Com tudo isso vocês devem ter pensado em William Faulkner, é claro. Na calamidade de O som e a fúria , na obscuridade do Santuário . Ou talvez no velho Sul de Tennessee Williams, na aspereza do Truman Capote menos novaiorquino, no empoeirado Cormac McCarthy,

José Manuel Caballero Bonald

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  A literatura salva de muitas coisas, do remorso de não escrever, do tédio da vida, do silêncio não criativo... É muito comum que se não fazemos algo que realmente nos recompense, entremos de uma forma perniciosa num tédio. E disso literatura me salvou. Disso e de estar vagando por aí, sem ofício ou benefício. Escrever me justifica, me alivia. Minha energia é liberada por meio da escrita e isso me tranquiliza.   — José Manuel Caballero Bonald, Letras Libres   O leitor de poesia não tem por que ler exatamente o que o escritor escreve. Pode ir mais longe ou não. O que importa é que linguagem o proporcione uma versão desconhecida da realidade, o leve a desaprender certas coisas para voltar aprendê-las de outra maneira.   — José Manuel Caballero Bonald, El Cultural   A literatura sempre contém uma boa dose de invenção, é coisa dela. A invenção é algo que está ligado à própria dinâmica da escrita.   — José Manuel Caballero Bonald, Zenda   José Manuel Caballero Bonald.   Os excertos expõem

Boletim Letras 360º #426

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DO EDITOR   1. Caro leitor, o Letras apresenta a seguir as notícias apresentadas durante a semana na sua página no Facebook e o conteúdo das demais seções de leitura criadas em momento posterior à existência deste Boletim. Reitero os agradecimentos pela companhia. Boas leituras! Annie Ernaux. Foto: Mehdi Chebil.   LANÇAMENTOS O novo projeto da editora Pinard inclui dois novos títulos para a coleção Prosa Latino-americana — iniciada pelo romance venezuelano Dona Bárbara, de Rómulo Gallegos . Seu apoio pode ser dado aqui .     1. Esgotado há mais de 30 anos no Brasil, Eu o supremo foi lançado em 1974 no Paraguai e se tornou um clássico instantâneo, sendo traduzido rapidamente para mais de 20 idiomas. Até hoje, é considerado o romance mais famoso e mais importante do país — sendo também uma das obras sobre ditaduras mais representativas da América Latina. Nesse romance, Roa Bastos parte da biografia do ditador José Gaspar Francia para tentar narrar o perfil do dirigente autoritário lati