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A vida como experiência literária em O azul também se revolta, de Paulo Gustavo

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Por Raísa Almeida Feitosa Que se compra comprando Poesia? Que carícia, que gozo, que produto, Que abismo, que impostura — roto fruto... Que dor temível — mar sem maresia — Vem se afogar na teia dos incautos? Poesia, perdão, é sol infausto! — Paulo Gustavo (2018) Paulo Gustavo de Oliveira (Recife, 1957) é um poeta e ensaísta com sete livros de poesia publicados, além de um livro de contos e dois de ensaio dedicados à obra de Marcel Proust. Mestre em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco, ele é membro da Academia Pernambucana de Letras desde 2015 e publica artigos e crônicas periodicamente na Revista Será? . Tendo como referência seu primeiro livro de poemas, Queda para o alto (1979), neste ano de 2026 totalizam-se quarenta e sete anos devotados à literatura, motivo para celebração e divulgação de sua poesia. O azul também se revolta (2018), assim como os títulos que o antecederam, O poder da noite (2004) e Coisas que se quebram (2015), é um livro que apresent...

As máscaras em Osamu Dazai

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Por Amanda Fievet Marques É notável na obra literária do escritor japonês Osamu Dazai, especialmente em As flores da bufonaria (1935) e Declínio de um homem (1948), o trabalho na construção das máscaras. A primeira revela Yozo Oba como bufão, enquanto a segunda realiza o desnudamento progressivo da personagem, conduzindo-o ao estado de homem em ruínas, cujo rosto já não cabe mais em nenhuma máscara. O percurso de Yozo, da pantomima à animalidade, ressalta a função primordial da comédia como mecanismo de sobrevivência nesse caso, bem como sua insuficiência. Com o gesto derradeiro, a queda da última máscara, Dazai emerge e se esvai. A primeira máscara: o bufão O livro As flores da bufonaria (1935) é a prequela do romance Declínio de um homem (1948). A ficção, em ambos, recolhe sua matéria, seus detritos, nas profundezas das sensações e lembranças do próprio Dazai.  No primeiro, Dazai desenvolve o período da internação de Yozo Oba num sanatório após a tentativa de duplo suicídio com...

Godzilla Minus One: o símbolo revisitado

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Por Davi Lopes Villaça  Antes de assistir a Godzilla Minus One (2023), de Takashi Yamazaki, eu já havia assistido a dois filmes com o monstro, ambos americanos: Godzilla de 1998 e Godzilla de 2014. Um mais esquecível do que o outro (embora o primeiro, assistido aos seis anos de idade, tenha me impressionado bastante). Por um longo tempo imaginei que filmes de Godzilla eram, em essência, bobagem. Nalgum momento alguém me contou que o monstro tinha um significado profundo para os japoneses, que ele era uma metáfora para as armas atômicas, mas isso não me parecia melhorar muito as coisas. Então, depois de escutar vários comentários positivos sobre o novo filme, fui ao cinema com amigos na expectativa de me divertir com uma bobagem muito bem produzida. Saí da sala positivamente surpreso, tendo enfim compreendido que, se Godzilla se tornara um monstro tão icônico, isso tinha a ver com sua grande força simbólica, e não apenas com nosso gosto por ver lagartos gigantes quebrando coisas....

A via crucis da mãe à procura do filho: sobre Coração sem medo, de Itamar Vieira Junior

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Por Douglas Sacramento Itamar Vieira Junior. Foto: Uendel Galter I Em  Histórias de leves enganos e parecenças , de Conceição Evaristo, o conto “Os guris de Dolores Feliciano” remete aos três filhos dessa mulher que foram mortos em ações policiais na periferia. O leitor é apresentado à forma como a mãe elabora o luto e a saudade por meio do ritual cotidiano de arrumar os pertences dos filhos no guarda-roupa. O gesto invoca os meninos de outro plano, criando um espaço de aconchego e marcando sua presença ao lado da mãe. O que mais chama atenção nesse conto é quando a mãe vai a um estúdio de televisão à procura dos filhos desaparecidos —, posteriormente, encontrados sem vida. A dor é tanta que Dolores Feliciano verte lágrimas de sangue e fica conhecida como Mater Dolorosa , em analogia à dor da mãe de Jesus diante do filho crucificado. II Ao pesquisar a obra de Itamar Vieira Junior no doutorado, percebi que as figuras femininas são centrais para a construção das tramas...

Masuaki Kiyota imprimia fotos com a mente e/ou Mutarelli escrevia uma vida com a literatura

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Por Felipe Vieira de Almeida Lourenço Mutarelli. Foto: Karime Xavier Por mais bem estabelecido que Lourenço Mutarelli seja como escritor, quando leio seu nome me vem à cabeça a capa do livro A máquina de fazer espanhóis , de Valter Hugo Mãe, de 2011, editado pela Cosac Naify. Nessa edição, a ficha catalográfica fica no final do livro e, só depois de ter lido tudo e ver por acaso quem assinava a capa, nunca esqueci a pertinência daquele trabalho. Mais de uma década depois, recebo um exemplar cedido por esse site para resenhar o livro mais recente do autor, Masuaki e/ou não deixe os cachorros latirem sozinhos , editado pela Companhia das Letras. Este é antes de tudo um frenesi de memórias, pesadelos, imagens, sobreposições e... fantasmas, tanto subjetivos quanto propriamente ditos no enredo. O livro começa como termina, logo após atingir uma voltagem altíssima, entretanto, o leitor também aprende a ler ao longo do processo. O início me pareceu lento e confuso, personagens que não são que...

Boletim Letras 360º #691

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o Letras permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras .    Paulo Hecker Filho.   LANÇAMENTOS Redescoberta após mais de seis décadas, uma das novelas mais divertidas, inusitadas e originais da literatura brasileira .  Um dos livros cult mais bem-guardados da literatura brasileira, O digno do homem  (1957) retorna em formato de bolso pela Editora Ercolano e confirma Paulo Hecker Filho como um escritor capaz de provocar, divertir e desestabilizar com a mesma intensidade. A novela acompanha Justino, um homem convicto de que possuir o maior do mundo  é condição para se tornar verdadeiramente digno de ser homem. ...