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A morte do girassol

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Por Juliano Pedro Siqueira E tudo, mesmo a negra cor, Parecia polido, irisado; O líquido engastava a glória Naquele raio cristalizado. — Baudelaire, As flores do mal Van Gogh.  Autorretrato com chapéu de palha , 1887. A história de um grande homem nem sempre dialoga com sua arte. Repleta de infortúnios e contradições, a vida de Vincent Van Gogh foi mergulhada em turbilhões de sentimentos obscuros, radicalmente contraproducentes às flamejantes cores reproduzidas em suas pinturas. Paralelamente às pinturas e desenhos, ele arriscou algumas profissões em resposta às cobranças familiares. A exemplo, quando foi enviado missionário, em 1879, ao vilarejo de Borinage, para pregar aos pobres mineradores. Contudo, em pouco tempo, fracassou miseravelmente, sendo destituído do ordenamento.  Vincent se considerava o degenerado da família. Aquele que atraía sobre si toda sorte de agouro, de modo que todos em sua volta acabavam inevitavelmente prejudicados. Foi o que ocorreu quando conheceu P...

Falando com os mortos

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Por Rafael Bonavina Há alguns anos, li o romance Uma história comum , de Ivan Gontcharóv, e me apaixonei novamente por esse incrível escritor com quem convivi por alguns anos de pesquisa. A trama é, como indica o título, quase cotidiana: um jovem de uma distante província vai para a cidade grande e é transformado pelo contato com a vida da capital. Esse romance ecoa fundo em muitas pessoas que, como eu, veem-se um pouco no protagonista dessa narrativa tão comum quanto impactante. Lembrei-me dessa história justamente por ter percebido a semelhança de um hábito meu com de um dos personagens principais do romance: Piotr Adúiev, um típico homem de ação da literatura russa do século XIX. Figura cativante, porém acabava sendo artificial em alguns pontos da narrativa. Pelas manhãs, Piotr recebia as cartas do dia e as lia antes mesmo de sair da cama, respondendo o que era necessário por meio de um aparato de escrita convenientemente colocado à cama. É claro que eu não tenho nada disso, e apena...

Casas de cultura, praias e livros

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Por Rafael Bonavina Charles Burchfield, Deserted House , 1918 Aceleração. Essa parece ser a palavra de ordem ao se tratar da cultura, que cada vez mais se assemelha a algo para aliviar rapidamente um desconforto, como um chiclete que se masca, embrulha e joga fora. Cada vez os vídeos estão mais curtos, mais estridentes e dinâmicos (mais danças, músicas, luzes e apupos), porém o conteúdo — produzido pelas chamadas inteligências artificiais —fica para as legendas, que raramente são lidas.  Não é raro ouvir que a literatura está se desenvolvendo também nessa linha: textos cada vez menores (microcontos, micropoesias) divulgados nas redes sociais com vídeos gravados pelos próprios autores. Isso não significa, claro, que uma literatura menos acelerada tenha deixado de existir, e até mesmo de tocar em questões importantes da atualidade. Pelo contrário, são muitos os textos que nos levam à incômoda reflexão sobre as limitações e contradições do nosso tempo. Ainda assim, eles acabam perdido...

Nelsinho: o último trágico rodrigueano

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Por Juliano Pedro Siqueira Nelson Rodrigues Filho, Foto: Daryan Dornelles. Era 30 de março de 1972, quando os agentes do DOI-CODI abordaram Prancha e o conduziu a uma base da Guarda Militar no Méier. Naquela altura, Prancha era um dos nomes mais procurados pelos órgãos de repressão ligados à ditadura. Detentor de uma aparência inconfundível, o homem que carregava a alcunha de Prancha tratava-se de Nelson Rodrigues Filho ou Nelsinho, filho do consagrado dramaturgo e cronista, Nelson Falcão Rodrigues.  Naquela altura, Nelsinho já vivia na clandestinidade depois de se tornar membro do Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8). Contrariando os conselhos do pai e do irmão Joffre, Nelsinho se engajou no movimento e chegou, inclusive, a elaborar o plano de assalto a um banco. Enquanto isso, adotou um estilo nômade; cercado de códigos e endereços secretos. Nem mesmo Nelson pai — que lutava pela débil saúde — sabia do real paradeiro do Nelson filho.  Antes da sua captura, sabendo Ne...

Nunca rimos tão deliciosamente quanto eles. Mikhail Bakhtin e o riso rabelaisiano

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Por Felipe Vieira de Almeida  Gargântua e Pantagruel. Ilustração de André Derain Estávamos preguiçosamente desperdiçando tempo depois de um almoço de domingo quando meu amigo esparramado no sofá da sala me disse “Olha o que eu te enviei” e eu já tinha aberto a notificação. Era o vídeo infame da chefe do Departamento de Justiça dos Estados Unidos defendendo que o bom desempenho do índice DOW ( Over 50 thousand! ) e da NASDAQ ( Smashing records! ) seria o bastante para evitar investigar o caso Epstein e os bilionários, nobres e famosos implicados direta ou indiretamente nos arquivos publicados. Acima do vídeo, o título “The DOW is now below 50K” e  na tarja preta abaixo lia-se “At least we can finally investigate pedophiles again” . Dei uma risada que foi quase só um sorriso enquanto ele me observava rindo feito menino que brinca com fogo; havia um peso naquela piada: era mais uma das muitas derrotas diárias a que somos expostos online. Rimos e em seguida caímos naquele est...

A inquietação saudável que a poesia nos proporciona

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Por Andrea Bajani  Dia após dia, o homem constrói cercados para que o resto da humanidade possa pastar em segurança dentro deles, e chama isso de sociedade. Os poetas pulam a cerca e semeiam o pânico entre os outros mamíferos que vagam mansamente por ali. E quando partem, uma inquietação percorre os corpos daqueles que ficam, como sangue envenenado prestes a entrar em suas veias. Nos romances de Roberto Bolaño, os poetas são indivíduos perigosos. Eles viram as cidades de ponta cabeça, fazem os cidadãos empalidecerem de medo. Os poetas de Bolaño são aventureiros, criminosos, valentões, vândalos. Sempre à margem da lei. Nos romances de Bolaño, as cidades são desestabilizadas pelos poetas. Porque eles têm olhos que inspiram medo.  Hordas de desajustados se movem entre as páginas de Os detetives selvagens . Auxilio Lacouture, a “mãe da poesia mexicana”), Arturo Belano, Ernesto San Epifanio, León Felipe. O que se sente em cada página é o tremor de uma época, ainda mais do que o de ...

Best-sellers de outros tempos: Mary Cholmondeley, um ensopado de lentilhas da era vitoriana

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Por Javier Pérez  Mary Cholmondeley relata em seus diários que um dia, quando era muito jovem, olhou-se no espelho e se achou feia, muito feia, e que naquele exato momento decidiu se dedicar à literatura para poder falar com as pessoas sem a obrigação de está diante delas. Foi assim que, aos dezesseis anos, começou a escrever seu primeiro romance. Não sabemos até que ponto isso foi uma mania, um complexo ou um reflexo exagerado de uma certa realidade material, mas o fato é que os poucos retratos dela que sobreviveram sugerem mais um senso de humor sarcástico do que qualquer defeito estético genuíno. Cholmondeley nasceu em 1859 na casa paroquial de Hodnet, onde seu pai exercia as funções pastorais condizentes com sua posição como segundo filho de uma família aristocrática. Ela era a terceira de oito filhos. Aparentemente, sua família descendia de Hugh Cholmondeley, que participou da expedição inglesa contra a Escócia em 1542 e ajudou a repelir a invasão escocesa da Inglaterra em 155...

Respirar

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Por Tiago D. Oliveira Claire Desjardins. Respirar Deram as mãos e ficaram em silêncio. A proposta era aguentar por três minutos, um de frente para o outro. Luíz Melodia cantou: “Se a gente falasse menos, talvez compreendesse mais.” Ele transformou em música uma deixa, uma prova de generosidade. Saber é dividir; só assim tem sentido. Um caminho. Sim, porque tatear a experiência humana e descrevê-la sem desperdícios talvez seja mais uma questão de voltar a senti-la do que simplesmente seguir o fluxo. Respirar é o primeiro passo. Cientistas da NASA descobriram que a crosta terrestre sobe e desce cerca de 1 cm ao ano. Esse movimento acontece devido à redistribuição das águas e do gelo, o que chamam de “oscilação glacial isostática”. Como se o planeta respirasse. Respirar é insistir. Arriscar a todo custo: a mais pura prova de vida. É também mandar um recado. E tantos são passados diariamente, mas não nos atentamos para o perigo que é viver sem se dar conta. “Quando se vê, já são 6 horas: h...

Best-sellers de outros tempos: Harriet Beecher Stowe na cabana do pai Tomás

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Por Javier Pérez  Harriet Beecher Stowe. Foto: Studio Southworth and Hawes Há momentos em que religião e literatura se fundem de forma tão perfeita que se torna difícil discernir onde termina o sermão e começa o romance, onde termina a moralismo e começa a lição moral, onde termina a conscientização e começa a panfleto. Harriet Beecher Stowe nasceu em Litchfield, Connecticut, em 14 de junho de 1811, e morreu em Hartford em 1º de julho de 1896. Ambos os lugares ficavam no que hoje seriam os estados do norte dos Estados Unidos, e vale ressaltar que Harriet nunca havia visitado o Sul antes de escrever A cabana do pai Tomás , nem mesmo para pesquisa ou para se familiarizar com a região. Quando viajou para a Flórida anos depois, foi para promover laranjas, que então começavam a ser comercializadas em todo o país, impulsionadas pela expansão das ferrovias. De fato, ela chegou a comprar uma casa em uma cidade chamada Mandarin, hoje um subúrbio de Jacksonville. Harriet era a sexta de onze ...

Debaixo de uma amendoim-acácia

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Por Tiago D. Oliveira Raoul Dufy, O baile popular (detalhe)  E há que se viver, mesmo sem conserto,  porque a vida é sempre tentativa.     — Carlos Drummond de Andrade Já é manhã de segunda-feira. Os carros seguem em direção à escola e eu sigo em outra. Entro na Filemon Andrade, sob os galhos de uma amendoim-acácia que se estica para tocar em minhas mãos. É uma manhã de primavera e me ponho a lembrar da madrugada anterior.  Está cada vez mais difícil aceitar um convite para sair à noite. Se for no meio da semana, chega a parecer quase uma ofensa, uma provocação. Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo que contar os dias para que chegasse logo a sexta-feira era o que hoje podemos chamar de “dar um scroll ”. Toda vez que preciso muito sair, ceder às convenções de uma vida minimamente social, coloco-me a pensar nos moradores de Tristão da Cunha, um pedacinho de terra no sul do oceano atlântico, onde moram pouco mais de 200 pessoas. Um dos lugares mais remotos...

Best-sellers de outros tempos: Pavel Melnikov nos bosques

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Por Javier Pérez  Pavel Melnikov , Ivan Kramskoi. Pavel Ivanovich Melnikov — porque seu patronímico é necessário aqui para evitar confusão com o engenheiro e militar Pavel Petrovich Melnikov — é um daqueles autores que poderíamos dizer que escreveu em um lugar remoto sobre coisas remotas. Tanto que, apesar de seu enorme sucesso local, sua obra só começa a ser traduzida e publicada por algum editor excêntrico no início da década de 1960. E, no nosso tempo, no caso em que tenha sido traduzido, é preciso mergulhar no fundo dos sebos para encontrar seu livro mais conhecido: Nos bosques .¹ Nascido em 1818 em Nijni Novgorod em uma família nobre, mas de forma alguma rica, até mesmo a data exata de seu nascimento permanece controversa devido às muitas mudanças e adversidades vividas por seu pai, um militar de baixa patente. Recebeu sua educação inicial de sua mãe, que herdou uma importante coleção literária de autores clássicos, russos e franceses, o que lhe incutiu o interesse pelas ...