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Mostrando postagens com o rótulo Os escritores

Olga Tokarczuk, a escritora questionadora do establishment polonês

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Por Tomasz Pindel

O Prêmio Nobel de Literatura para Olga Tokarczuk é, do ponto de vista polonês, uma surpresa, mas – o paradoxo vale a pena – uma surpresa esperada. Na Polônia, tínhamos consciência que ela não é apenas uma autora amplamente lida, apreciada e amada por muitos leitores, mas também que ela é simplesmente uma grande escritora com uma presença crescente no mundo.
Tokarczuk (1962) pertence à geração de escritores que apareceram nos anos 90 do século passado, e não é apenas um detalhe biográfico. Deve-se ter em mente que, em 1989, na Polônia, houve uma grande mudança no sistema político: o país deixa a era do “real socialismo real” e a dependência da União Soviética, inicia-se na democracia, no capitalismo e a cultura vive uma reviravolta enorme. O antigo establishment literário cai no esquecimento, mas os novos autores quase não interessam a ninguém. O público leitor compra maciçamente e devora literatura popular anglo-saxônica, todos esses thrillers, romances policiais, ro…

Rudyard Kipling, diferente e singular

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Por Antonio Lucas



Para Rudyard Kipling a vida era melhor compreendida se houvesse um livro no meio. Foi um autor exótico sem aceitar o exotismo como conduta. Um tipo tocado pela necessidade de escrever para ver melhor o mundo. As palavras foram o seu chão. E ele decidiu viver em pleno sol na literatura, contando histórias em quatro romances, em mais de 800 poemas, em inúmeros contos, centenas de cartas e em algumas memórias póstumas (como Something of myself'). 

Muito além de autor de O livro da selva, Kim e Intrepid Capittains, além dessa literatura de fantasia, além da fama e do dinheiro, há um homem marcado por profundas dores. Ainda aos cinco anos sofreu os maus-tratos de uma cuidadora: "Eu era espancado todos os dias... Comecei a ler tudo o que caía em minhas mãos, mas quando ela sabia que eu gostava disso mais que dos outros castigos, acrescentava-me a privação dos livros. de Foi então que comecei a ler às escondidas e consciente disso...", escreve em suas memórias…

Heinrinch Böll: o escritor, o homem

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Por Fernando Aramburu



Um escritor, sim. Um contador de histórias, também. Heinrich Böll concordou com essas definições; mas acontece que seus contemporâneos insistiram em lhe atribuir características que ele rejeitava repetidamente.
Ele não gostava de ser qualificado como escritor cristão, por mais que durante toda sua vida professasse constantemente sua fé com convicção. Maior irritação lhe causava ser chamado de moralista. Foi, sim, um homem de seu tempo, atento às questões sociais. Um homem que muitas vezes levantou a voz, participou de movimentos de protesto e apresentou suas opiniões políticas em inúmeras entrevistas, artigos, conferências. Um entrevistador certa vez perguntou a ele como se explicava que, para um grande número de cidadãos alemães, ele representava algo como a consciência moral da Alemanha. Ao que respondeu sem hesitar: “Porque pouquíssima consciência”. Böll percebia que tais atribuições à política e à moral simplificavam seu trabalho, se não o anulavam, tornando-…

Penelope Fitzgerald: a escrita interior

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Por Pilar Adón


Há muitas histórias da vida de Penelope Fitzgerald que parecem nos encorajar, inspirar, fazer com que vejamos que tudo pode acontecer se persistirmos e que nunca é tarde para começar. Somos fascinados por seu estilo, sua maneira de dizer tantas coisas e transmitir tantas emoções quando parece que ela quase não conta nada, mas também somos atraídos por sua biografia, esse compromisso e essa tenacidade literária que às vezes parecem derivar de uma teimosia saudável; somos seduzidos por sua erudição e tranquilidade, esse tipo de impassibilidade (diríamos oriental) que talvez constituiu uma das razões para adiar por tantos anos uma escrita que deveria ter começado antes. Entre outras coisas, porque tudo apontava que começaria mais cedo. Tudo parecia pronto, organizado e preparado para que a Srta. Penelope Knox escrevesse assim que saísse da universidade, tivesse sucesso e fosse uma das escritoras mais destacadas de sua geração. Mas, sabemos, não foi assim. Seu primeiro livr…

Frank O'Hara, o poeta da cidade

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Frank O'Hara (1926-1966) viveu em Nova York por quinze anos, de 1951 até sua morte em 1966, devido a um acidente de carro. Nessa época, escreveu centenas de poemas, vários por dia, digitados em alta velocidade numa Royal portátil. Ele era pianista, tocava Rachmaninov e, com a mesma cadência, com ritmo frenético e transbordante, fazia poesia; aliás, descrevia o ato de escrever à máquina com o mesmo verbo utilizado para materializar a música – tocar à máquina.

Sua chegada ao grande centro cultural estadunidense foi tardia; cresceu em Grafton, uma cidade rural de classe média instalada nas margens da Nova Inglaterra, Massachusetts. Daqueles anos, restou apenas algumas fotografias; ele, vestido de marinheiro, sentado na varanda de sua casa, ao lado de seus pais. No entanto, esse lugar provincial – a igreja, os cães, o cinema itinerante – foi-se apagando sem resistência ao longo do tempo e substituído pelo veio depois: uma missão na Marinha, Harvard, um ano na Universidade de Ann Arbo…

Elena Garro, uma escritora contra si mesma

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Por Jan Manrtínez Ahrens


Elena Garro (1916-1998) nunca encontrou a paz. Hipérbole de si mesma, sedutora e delirante, a vida da mais enigmática escritora mexicana do século XX é ainda uma ferida aberta no México e na América Latina. Falar sobre ela é sempre falar de quem o foi o lado contrário, obsessivo e doloroso, de Octavio Paz. Ela viveu contra ele e contra ele escreveu. Mas não reduziu sua biografia na luta contra o totem. Sua aproximação com o Partido Revolucionário Institucional (PRI) e seu serviço secreto e, sobretudo, seus enganos ante à matança de Tlatelolco, não a transformaram numa escritora maldita. Romancista, dramaturga e poeta, Garro fez de sua existência um conto fantástico, mas deu ao mundo uma literatura que só agora começa a ser contemplada em toda sua imensidão.
Há um dia na vida da escritora que marca toda sua vida. Foi o 24 de maio de 1937. Ante quatro testemunhas, Elena Garro, uma estudante que sonhava em ser bailarina, casou-se com o poeta Octavio Paz. Estavam …

Toni Morrison, sua voz continua na / com sua obra

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1993 foi um ano emblemático para a Academia Sueca. Uma mulher negra que escreveu sobre minorias deixou alguns dos nomes mais quistos pela crítica, como Thomas Pynchon e Philip Roth, foi a ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura. De Klerk e Mandela dividiram o Prêmio Nobel da Paz. Isto é, duas figuras fundamentais do fim do apartheid e uma romancista de excelência da literatura afro-americana foram reconhecidas pelos lugares mais importantes da história numa única ocasião, como se um acerto de contas vindo tarde demais. O que não é o caso: sabemos um pouco sobre as lutas, sobre a grandiosidade de seus feitos. Se existiu acerto de contas foi com as condições que os modelos sociais ditos em voga têm imposto no longo de nossa história; um embate cruel e totalmente fora do esperado padrão de humanidade. Dos escritores de posição semelhante à de Morrison, James Baldwin e Richard Wright já haviam morrido e Ralph Ellison, sempre lembrado como o mais interessante dos quatro, publicara apenas …