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Mostrando postagens com o rótulo Os escritores

Ingeborg Bachmann: maneiras de morrer

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Por María Negroni  Ingeborg Bachmann. Foto: Ullstein Bild. Reprodução a partir de RP Online As palavras caem sobre a página como grãos (a palavra pai , a palavra incesto , a palavra guerra ), contaminadas por sonhos, banalidades e esforços para compreender a podridão do mundo, e também, por telefonemas que nunca chegam, ou chegam sem aliviar minimamente o suplício da espera. Os burocratas da literatura, se tivessem lido o livro, diriam que Malina (1971) é um romance. Não é. É um livro sobre o inferno. O documento de uma crise e um tratado sobre o infortúnio afetivo que mergulha nas áreas mais esquivas da psique feminina. É também uma catástrofe luminosa onde uma utopia da escrita, seguindo Kleist, opõe-se à linguagem vil da realidade e aos discursos maníacos da ordem. A obra de Ingeborg Bachmann, escreveu seu biógrafo Hans Höller, “pertence a uma das mais angustiantes ofensivas da linguagem contra a dor traumática. Há nela um anseio pelo absoluto que faz do sofrimento uma condição...

Rosario Castellanos: a inteligência como única arma

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Por Raquel Lanseros  Rosario Castellanos. Foto: Rogelio Cuéllar A vida de Rosario Castellanos é tão fascinante, multifacetada e repleta de contrastes quanto sua própria personalidade e, claro, sua obra literária. Embora tenha nascido na Cidade do México em 1925, passou a infância em Comitán, Chiapas, terra natal de sua família. Deve existir algo de mágico nessa terra para que tantos grandes nomes da literatura mexicana tenham vindo daí; além de Rosario Castellanos, sabemos do seu amigo Jaime Sabines¹ ou do luminoso Efraín Bartolomé². Filha de uma importante família de latifundiários de Chiapas, proprietária de uma fazenda com escravos, Rosario Castellanos teve consciência desde cedo das injustiças que impediam no seu país o progresso dos povos indígenas: uma compreensão que, juntamente com ambições intelectuais consideradas impróprias para uma mulher de seu tempo e do momento histórico dominante, sempre a impediu de se sentir integrada à sociedade hierárquica de seu primeiro ambien...

Uma vanguarda caseira feita por um homem só

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Por Emmett Stinson Gerald Murnane. Foto: Morganna Magee   Frequentemente me perguntam por qual romance de Gerald Murnane os leitores devem começar, mas não há uma porta de entrada acessível (minha sugestão, no entanto, é sempre o conto “When the Mice Failed to Arrive”, que contém, em miniatura, os principais temas e técnicas que ele desenvolve ao longo de sua obra). As reações à obra de Murnane costumam ser extremas: muitos leitores, entre os quais me incluo, ficam obcecados, querendo ler tudo o que ele escreveu, enquanto outros o detestam, ficam confusos ou coisa pior. Os quatro últimos romances do escritor — Barley Patch , A History of Books , A Million Windows e Border Districts  — são obras exemplares do estilo tardio. Essa expressão foi cunhada por Theodor Adorno, que observa que o estilo tardio ocorre quando a “subjetividade” de um artista se “proclama ferozmente” a tal ponto que “rompa a forma arredondada em prol da expressão”. Nesse sentido, o artista rejeita as perfe...

Ana Paula Tavares, veias finas na terra

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Por Pedro Fernandes as palavras são como os olhos das mulheres fios de pérolas ligadas pelos nós da vida — Ana Paula Tavares Ana Paula Tavares. Foto: Matilde Fieschi São poucos dos reconhecidos escritores de Angola que encontraram certa projeção entre os leitores brasileiros sem antes ocuparem lugares de premiações expressivas como um Prêmio Camões. É o caso de José Eduardo Agualusa, que ingressou em nosso território no ponto alto da chegada dos escritores luso-africanos, de Ondjaki, que morou mesmo certo tempo por aqui, e de Djaimilia Pereira de Almeida. Os demais, um José Luandino Vieira, um Pepetela, já ingressaram nas listas do mais importante galardão para as literaturas de língua portuguesa. Enquanto isso, as lacunas são ainda enormes: Manuel Rui, Boaventura Cardoso, Uanhenga Xitu ou mesmo Ana Paula Tavares têm pouca ou nenhuma presença em um mercado editorial de fronteiras sempre alargadas, por exemplo, para o pop trash  despejado pelos Estados Unidos. Será que o Prêmio Camõ...

Violette Leduc: Minha mãe nunca me estendeu a mão

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Por Karen Villeda  Violette Leduc. Foto: René Saint-Paul A convidada , de Simone de Beauvoir, um romance que descreve o caso amoroso da filósofa com uma de suas alunas, foi o livro que levou Violette Leduc a se aproximar da autora. Era 1945 e Paris acabara de ser libertada e ela, que conhecera a filósofa por meio de amigos em comum, logo enviou-lhe um manuscrito: era L’Asphyxie (A asfixia), seu primeiro romance publicado no ano seguinte. Na altura Simone de Beauvoir concordou em ler o material e ficou cativada desde o início. A primeira linha era extremamente poderosa: “Minha mãe nunca me estendeu a mão”. A autora de O segundo sexo decidiu compartilhar essa história de uma infância reprimida com Albert Camus. Os escritos de Leduc também conquistaram o gosto do escritor, sendo dele a iniciativa de publicá-lo na coleção Espoir, que então coordenava para a editora Gallimard. L’Asphyxie , no entanto, passou despercebido, apesar dos elogios que recebeu de figuras como Jean Cocteau e J...

Ivan Klíma, resistir contra os totalitarismos com uma dose de esperança

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Ivan Klíma. Foto: David Konečný Ivan Klíma, nascido em Praga em 1931, descobriu que seus pais eram judeus depois da ocupação da Tchecoslováquia pelas tropas de Hitler. “Meus pais precisaram rejeitavar não apenas a religião, mas também sua identidade judaica. E já até o início da guerra, eu sequer tinha ouvido a palavra judeu, nem mesmo como um insulto.” Com a eclosão da guerra, ele foi forçado a usar a Estrela de Davi no peito com a palavra judeu escrita. O pequeno Ivan se trancou em casa e começou a ler sem parar.  Enquanto isso, uma proibição após a outra surgia. Primeiro, não era permitido sair da cidade, depois não era mais permitido ir ao teatro, ao cinema, à escola, ao parque... nem mesmo andar no primeiro vagão do trem.   E veio o campo de concentração. Ao ingressar em Terezín — a 80km de Praga —, ele se tornou um verdadeiro prisioneiro. Perdeu seu nome e passou a ser identificado com o código L54. Seu interesse pela literatura se solidificou ali. “A primeira coisa que ...

Andrea Camilleri, o escritor da memória italiana

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Por Paula Corroto  Andrea Camilleri. Foto: Leonardo Cedamo O sucesso literário chegou tarde para Andrea Camilleri (Sicília, 1925 — Roma, 2019), mas o que importa quando se consegue tornar seus romances, mesmo ambientados na Sicília, universalmente conhecidos, e seu protagonista, o detetive Salvo Montalbano,¹ um desses personagens irrepetíveis para sempre ancorados na memória do leitor?  Ele tinha quase 70 anos quando publicou A forma da água (1994), o primeiro livro com esse singular detetive, um excelente gastrônomo e ainda melhor investigador, capaz de caçar qualquer criminoso com deliciosas ideias que sempre apareciam nas páginas finais de seus romances. Desde então, ele escreveu outros mais de uma centena livros, incluindo os desta série — 37 ao todo —, mas também outros romances históricos e contemporâneos, além de livros de memória. O termo prolífico parece insuficiente para defini-lo.  A lâmpada radicalmente lúcida deste escritor, um fumante inveterado e um comun...

Sigrid Undset

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Por Alfonso Basallo Sigrid Undset. Foto: NTB Escandinávia, século XI. Um impulsivo marinheiro islandês chamado Viga-Ljot apaixona-se pela jovem norueguesa Vigdis, que retribui o seu amor, mas ele aproveita-se dela e viola-a. Os seus caminhos logo se separam; a jovem dá à luz um filho, supera circunstâncias terríveis e consegue restaurar a honra da família. Nutre um desejo de vingança contra Ljot, mas, como admitirá após o trágico final do romance, “amei-o mais do que qualquer outro homem”.   Na vida agitada do marinheiro, cheia de perigos e aventuras, a memória de Vigdis nunca se apaga completamente. Essa memória e o seu arrependimento transformam-no gradualmente, levando a um desfecho fatal que sela uma história comovente na qual Ulvar, o filho deles, desempenha um papel fundamental.  Sigrid Undset (1882-1949), autora de Fortællingen om Viga-Ljot og Vigdis (1909)¹, é universalmente conhecida pela trilogia de romances medievais que compõem Kristin Lavransdatter (1920-1922), am...

Philippe Jaccottet partiu à luz do inverno

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Por Pascal Maillard Philippe Jaccottet. Foto:  Ayse Yavas   Depois da morte de Philippe Jaccottet em 2021, viramos mais uma página na história da poesia. Sentimos que deixamos definitivamente para trás a literatura do século XX. Nascido na Suíça em 1925, Jaccottet foi o último de uma geração de grandes escritores. A geração dos anos 1920. Ele era um ano mais novo que André du Bouchet; dois anos mais novo que Yves Bonnefoy, falecido em 2016; cinco anos mais novo que Jean Starobinski, que nos deixou em março de 2019. Ele também era dois anos mais velho que Jacques Dupin, falecido em 2012.   Uma mesma geração. Quatro grandes poetas: Du Bouchet, Dupin, Bonnefoy, Jaccottet. E a amizade os unia. Jean Starobinski foi um dos maiores divulgadores de suas obras. Começaram a escrevê-las na década de 1950. Vários pontos em comum os uniam: o distanciamento do surrealismo; a desconfiança compartilhada em relação às imagens; uma poesia ética fundada no sujeito e na verdade do vínculo co...

Um novato chamado Balzac

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Por Carlos Yusti O escritor que imitaria sem hesitar, e que de alguma forma constituiria, em meu museu pessoal de mitos, um ideal, uma fonte inesgotável de inspiração, poderia ser Honoré de Balzac. Embora não o Balzac perseverante, obstinado, incansável e disciplinado que escreveu (sob a pressão de dívidas, credores e editores) uma obra literária profusa, e que, em muitas de suas páginas, conseguiu alcançar, com gênio indiscutível, enorme versatilidade literária e uma grandiloquência mais realista do que metafórica. Não. Minha inclinação é para outro Balzac, aquele que, devido a um ansioso apetite, adquiriu uma adiposa constituição, aquele Balzac preocupado em ser um dândi, e que, por causa disso, gastou fortunas em ternos chamativos ou luxos extravagantes e desnecessários; aquele Balzac que ansiava acima de tudo por sucesso financeiro, por ser um burguês menos imbecil e insuportável do que o burguês retratado em seus romances ou na vida real, com quem sempre conviveu à distância devid...