Ilustração: T. Hanuka O sexo sempre esteve presente na literatura, embora nem sempre de maneira explícita. Há escritores que mergulharam em sua própria sexualidade como se a arte pudesse ser campo para um exercício psicanalítico e findaram por revelar a partir dessa intimidade o lado mais escuro sobre. Esta lista apresenta um conjunto de livros nos quais os escritores se desnudam, livros que dispensam o pudor para narrar cenas de elevado tom. Christine Angot, até o presente uma romancista francesa quase desconhecida no Brasil embora tenha sido autora de um livro chamado Pourquoi le Brésil ?, tem sido lida como uma das principais figuras que se filiam à tradição da qual faz parte nomes como o de Anaïs Nin. Em 1999, ela publica L’Inceste , a obra pela qual sempre tem sido lembrada, por se tratar de uma narrativa que recupera a relação incestuosa entre um pai e uma filha. Les Petits , outra obra sua, já inicia com uma felação sob o chuveiro que termina numa penetração anal an...
Por Pedro Fernandes Macunaíma é uma obra-síntese da virada porque passou a literatura brasileira. Única naquela ocasião por redesenhar as fronteiras da identidade de um povo que, passado muitos anos de sua independência, ainda insistia com a aquela dependência cultural dos modelos europeus. Publicada em 1928, a obra com o subtítulo “o herói sem nenhum caráter” foi escrita em pouco mais de um mês – dezembro de 1926 – e passou por sucessivas revisões até ficar pronta. Apropriando-se da trajetória errante do herói clássico, a narrativa é também uma epopeia do herói da nossa gente, nascido no “fundo do mato-virgem”, às margens do rio Uraricoera, descendente da tribo dos tapanhuma, em busca da famosa pedra muiraquitã. Mário de Andrade, concorda Antônio Bento com o afirmado pela crítica nacional, “foi na verdade o grande bandeirante e desbravador da cultura nacional de seu tempo. Queria que os brasileiros escrevessem mais ou menos como o povo fala comumente neste país. Pretendia mesmo ...
Por Pedro Belo Clara Afresco de uma jovem nomeada Safo. Pompeia, 55-79 d. C. Se passares por Creta 1 vem ao templo sagrado, onde mais grato é o pomar de macieiras e do altar sobe um perfume de incenso. Aqui, onde a sombra é a das rosas, no meio dos ramos escorre a água, e no rumor das folhas vem o sono. Aqui, no prado onde todas as flores da primavera abrem e os cavalos pastam, a brisa traz um aroma de mel. … Vem, Cípris 2 , a fronte cingida, e nas taças de oiro voluptuosamente entorna o claro vinho e a alegria. *** E de súbito a madrugada de sandálias de oiro. *** No ramo alto, alta no ramo mais alto, a maçã vermelha ali ficou esquecida. Esquecida? Não, em vão tentaram colhê-la. *** Vésper 3 , tu juntas tudo quanto dispersa a luminosa aurora, trazes a ovelha, trazes a cabra, só à mãe não trazes a filha. *** Desejo e ardo. *** ...
Por Alfredo Monte Michel Laub. Foto: Renato Parada I Em Diário da queda , seu quinto romance, Michel Laub apresenta o narrador, seu pai e seu avô, entrelaçando-os numa tessitura que permite ao leitor envolver-se nas angústias e impasses de três gerações, quase num único movimento, ainda que a estrutura pareça dividi-los de forma estanque (temos seções intituladas: “Algumas coisas que sei sobre o meu avô”; “Algumas coisas que sei sobre o meu pai”; “Algumas coisas que sei sobre mim”; mais adiante, “Mais algumas coisas que sei sobre o meu avô”; “Mais algumas coisas que sei sobre o meu pai”; “Mais algumas coisas que sei sobre mim”). Todos os três escrevem textos: o avô, dezesseis cadernos manuscritos, antes de suicidar-se (encontrado pelo filho, quando tinha catorze anos); o pai, aventurando-se a escrever suas memórias após receber um diagnóstico médico terrível da boca do seu próprio filho; e este, escritor por profissão, nosso ponto de...
Por Marilena De Chiara Ninguém é alguém, um só homem imortal é todos os homens. Jorge Luis Borges, “O imortal”* Aquiles velado e Odisseu, c. -470. Museu Britânico 1. O corpo e a mente Uma fórmula é, ao mesmo tempo, uma sequência contínua — de operações, de palavras, de gestos — e uma interrupção. Quebra o fluxo anterior e sugere os passos a seguir, para que a retomada tenha mais intensidade e seja mais precisa. A natureza da forma dos poemas homéricos revela a sua natureza linguística dual: a Ilíada e a Odisseia são, ao mesmo tempo, canto e memória, invocação do presente e uma evocação do passado. Captam a história — mítica, mitológica e fundacional — por meio da sequência narrativa, interrompida por epítetos e fórmulas que reiteram a posição e a função de cada personagem e de cada intercâmbio ritual. Aquiles é “o de pés velozes”, Odisseu é “ardiloso”. O primeiro é treinado para a guerra e a glória; o segundo, para a estratégia e a retórica. Ambos lutam em ...
Por Pedro Fernandes António Lobo Antunes. Foto: Leonardo Cendamo. António Lobo Antunes é autor de uma literatura rizomática. Cada romance seu é metonímia para o todo de sua obra, visto que, desponta como um pequeno filamento de um mesmo caule. Na filosofia pós-estruturalista o rizomático — termo derivado da imagem biológica do rizoma, caule subterrâneo em forma de raiz que se estrutura por multiplicação de outros filamentos — se ilustra uma compreensão estrutural do saber, igualmente múltiplo e sem respeitar uma subordinação hierárquica ou diretriz determinada. Na apropriação feita para o nosso caso, a adjetivação se reveste com os dois conceitos inferidos. No caso de Eu hei-de amar uma pedra , sua raiz é o episódio do reencontro de um homem com um amor da juventude que julgava desaparecido, o restabelecimento do enlace e a manutenção até à morte, guardado por uma sorte de acordo tácito dos amantes; dele deriva a variedade de episódios controlável apenas pela suspensão ci...
Por Pedro Belo Clara Rabindranath Tagore. Foto: Curatorial Assistance Inc. / E.O. Hoppé Estate Collection O PRIMEIRO BEIJO O céu ficou silencioso e de olhos baixos, Os pássaros calaram todos os seus cantos; O vento emudeceu; a música das águas acabou De repente; o murmúrio da floresta Morreu lentamente no coração da floresta. Na margem deserta do rio tranquilo, Nas sombras do anoitecer desceu silenciosamente O horizonte sobre a terra muda. Nesse momento no silencioso e solitário alpendre Beijámo-nos pela primeira vez. Nesse momento exacto, ao longe e perto Repicaram os sinos e soaram os búzios Nos templos dos deuses apelando ao culto. Um estremecimento percorreu o infinito mundo das estrelas E os nossos olhos encheram-se de lágrimas. INTERMINÁVEL AMOR Parece-me que te amei de inúmeras maneiras, inúmeras vezes, Na vida após vida, em eras após eras eternamente. O meu coração enfeitiçado fez e voltou a fazer o colar das canções Que tomaste como uma pre...
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