Boletim Letras 360º #673

DO EDITOR

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Eugénio de Andrade. Foto: António Pedro Ferreira



LANÇAMENTOS

Poderia ser a poesia completa, mas eis uma antologia que apresenta ao leitor brasileiro algo da poesia de Eugénio de Andrade.

Nos poemas de Eugénio de Andrade, cuja produção vai da década de 1940 a 2001, o desejo ocupa espaço central. É como se o erotismo, no sentido mais amplo da palavra, fosse sua maneira de compreender e de se relacionar com o mundo: o sorriso é o convite, a entrega que torna todas as coisas possíveis, e o oposto disso seria o desprezo, a mudez, a falta de interesse. No poema “Quase epitáfio”, ele diz: “Amei o desejo/ com o corpo todo.// Ah, tapai-me depressa./ A terra me basta./ Ou o lodo.” Esta edição é uma oportunidade para se conhecer uma das vozes mais fascinantes da literatura de língua portuguesa, até então pouco difundida entre os leitores brasileiros. Ao abordar a fragilidade, o desejo homoerótico e o arrebatamento provocado pela paixão, o poeta trata também da solidão e do significado de estar vivo. “Da beleza, da bárbara/ orgulhosa beleza, quem sabe defender-se/ sem medo do coração lhe rebentar?” Organizada por Eucanaã Ferraz, Os amantes sem dinheiro e outros poemas é publicada pela Companhia das Letras. Você pode comprar o livro aqui.

Mais um romance da escritora guadalupense Maryse Condé ganha tradução e edição brasileiras. 

Segu é um romance histórico ambientado no século XVIII que acompanha o destino de uma família da cidade de Segu, importante centro político e comercial da África Ocidental. Em meio à expansão do islamismo, ao avanço do tráfico de pessoas escravizadas e às profundas transformações sociais da região, a narrativa segue diferentes gerações cujas trajetórias se espalham pelo continente africano e pelo Atlântico. Ao articular história, cultura e conflitos de identidade, o romance constrói um amplo retrato da África pré-colonial e das forças que moldaram o mundo moderno. Publicação da editora Pinard; tradução de Dyhorrani Beira. Você pode comprar o livro aqui.

É possível que um pedreiro escreva um diário? Este é um romance que se compõe como um diário. Ou, ao revés, um diário que termina por compor um romance sobre o dia a dia de um pedreiro (e sua coletividade) no interior da Argentina.

O que se narra em Diário de um pedreiro poderia se passar no interior ou na cidade, em qualquer lugar da América Latina. Estão presentes aqui as relações entre os trabalhadores na obra, as construções, a experiência pessoal, mas não apenas isso. Também se toma contato com questões sociais ligadas ao alcoolismo, à precariedade do mundo laboral, às violências sociais e raciais, por vezes xenofóbicas. Também aparecem, neste caso específico, o contato entre línguas originárias e as do colonizador, assim como o pano de fundo político e partidário de momentos que ainda podemos reconhecer, e seus impactos sobre a vida das pessoas. Como romance-diário, a narrativa é fragmentária, pessoal, emotiva, a um só tempo violenta e amorosa, afetuosa e testemunhal. O narrador-personagem compartilha com seus colegas ― e com nosotros ― a vida e a alienação desses trabalhadores, rompendo estereótipos e ampliando vozes que quase nunca se expressam por meio da escrita e da literatura. Em resenhas e textos críticos surgidos na imprensa internacional sobre este Diário de um pedreiro, não raro emerge a pergunta: É possível que um pedreiro escreva um diário? No contexto preconceituoso geral, pode-se pensar outra questão: é possível que um pedreiro escreva? Essa sensibilidade está neste Diário, escrito por um pedreiro que acede aos estudos e olha, de dentro, a sociedade onde trabalha e cria vínculos (patronais, filiais, fraternais etc.). Se a colher e a marreta embrutecem, o que podem fazer as canetas, os papéis e os teclados de computador? Prepare-se, leitor, leitora, para adentrar o universo de cal e letra de Mario Castells, que escreve numa linguagem mesclada, tanto entre línguas, quanto entre gírias, oralidade e escrita no mesmo gesto. Experimentamos aqui a tensão permanente entre pontos de vista, criticidade e alienação. Memória, denúncia (da exploração, da desigualdade) e humor andam juntos neste Diário surpreendente de um intelectual cuja vida se assentou no trabalho braçal. Com tradução de Sérgio Karam, o livro sai pela Autêntica Contemporânea. Você pode comprar o livro aqui.

Uma sátira eletrizante e comovente sobre o significado do colonialismo, da escravidão e da liberdade.

Doris Scagglethorpe é uma menina de dez anos que mora com os pais e as três irmãs na área rural da Inglaterra. Certo dia, enquanto brinca de pique-esconde, é raptada e levada de navio para a Grande Ambossa. Lá, é escravizada e perde o direito ao próprio nome ― que agora é Omorenomwara. Submetida desde o primeiro dia a uma série de violências psicológicas, físicas e morais, ela sonha em conseguir fugir e voltar para casa. Publicado originalmente em 2008, Raízes loiras é uma sátira que imagina como seria o mundo se os negros tivessem escravizado os brancos. Como seria se o continente africano fosse o local mais rico e poderoso do planeta, e os demais fossem colônias subjugadas a seus interesses e desmandos? Consagrada com o Booker Prize pelo romance Garota, mulher, outras, Bernardine Evaristo ocupa um lugar único na literatura contemporânea. Autora de uma obra extremamente engenhosa, não teme experimentar com a forma e a linguagem, nem tratar de assuntos dolorosos e incômodos sobre um período atroz que deixou marcas permanentes em nossa sociedade. Raízes loiras é publicado pela Companhia das Letras com tradução de Camila von Holdefer. Você pode comprar o livro aqui.

Coworking e outros poemas, de Heitor Ferraz Mello
 
Há uma epopeia em frangalhos na superfície aparente deste novo livro de Heitor Ferraz Mello. Um “épico/ em tamanho menor”, no qual a promessa de aventura já está mais do que desmentida e mesmo o naufrágio, motivo forte da poesia moderna, é reencenado sem nenhum heroísmo nas “águas turvas do presente”. Tudo parece existir para acabar, melancólico, no mural de uma padaria ou numa cama de hospital chamada Epic II. No entanto, do fundo falso dos poemas, a voz lírica de Heitor se projeta, insistindo em captar alguma beleza na constelação efêmera das cinzas do cigarro, na imagem do velho João Gilberto “apoiado à dignidade de um violão”, na forma sempre única de cada jaca crescendo entre os galhos, na brincadeira do “caipora alucinado” partilhada com a mãe.  Uma “explosão de luz” insinua, para além do cotidiano emperrado, a permanência da vida sem desígnios, como o pavão que exibe “seu leque de olhos pintados e cores”. Por outro lado, consciente do caráter postiço dessa percepção, Heitor desfigura seu possível lirismo, fazendo os indícios da catástrofe contemporânea contaminarem a própria recordação, como na lembrança das flores de ferro dos portões, agora substituídas por vidros blindados “onde passarinhos azuis e doidos/ livremente se esborracham”. De sua posição desassombrada, o poeta também vê o lado opaco da cauda, a cloaca do pavão. Um “corpo feito de cacos” se apresenta, incompleto, em cada poema. E é por essa sua desagregação, afinal, que o sujeito se perde entre os desbotados resíduos daquilo que antes se mostrava como uma contraditória experiência coletiva, encarnada nos choques da vida urbana tão bem formulados pelas tensões da poesia do século passado. Em seus livros mais recentes, Heitor elabora uma versão deliberadamente arrefecida dessa experiência, num quadrante histórico no qual o iminente colapso global, pressentido diariamente, é anunciado (de maneira cada vez mais banal) como um inevitável destino. Nivelado pelo acachapante presente, tudo aqui é composto de “nossa matéria descartável”, como na irônica sobreposição, por “mero acaso/ de palavras”, entre o corpo morto do herói troiano e o “destino de Heitor” na voz do GPS de um carro de aplicativo.  O empenho do poeta não se limita, porém, à enésima reverificação crítica do esgotamento dessa experiência em sua inflexão tardia. Neste momento de acelerada circulação de dados conduzida por algoritmos, no qual, tantas vezes, as obras artísticas são rapidamente consumidas sem se consolidarem como repertório compartilhado, Heitor mantém sua poética rente às coisas imediatas, as únicas verdadeiramente disponíveis, mas, de maneira talvez surpreendente, aposta ainda na fagulha de revelação que pode surgir da fruição estética. Assim, a tarefa de “medir o mundo” é assumida integralmente pelo poeta, que nos convida também a “vislumbrar o paraíso” em “cinco segundos apenas/ da alegria pura de Martha Argerich”, por meio de sua própria linguagem, “estropiada e viva”. (Renan Nuernberger) Publicação das Edições Jabuticaba. Você pode comprar o livro aqui.

REEDIÇÕES

Nova edição do livro que marcou a trajetória da escritora Vanessa Barbara. 

Publicado originalmente em 2008 pela extinta Cosac Naify e vencedor do prêmio Jabuti de reportagem, O livro amarelo do terminal é um mergulho no cotidiano frenético do Terminal Rodoviário Tietê, em São Paulo. Aclamado por seus leitores, ele retorna às livrarias em nova edição, com um projeto gráfico totalmente renovado e que remete aos novos bilhetes de passagem de ônibus emitidos com códigos de barras, conquistando assim uma nova geração de viajantes. Borrando as fronteiras entre jornalismo e literatura, esta obra tornou-se um registro atemporal do funcionamento da segunda maior rodoviária do mundo, no qual Vanessa Barbara assume ao mesmo tempo os papéis de historiadora e investigadora, exploradora e cronista, dissecando a “cidade de chicletes abandonados, de pessoas com pressa e de coisas perdidas”. Com seu olhar sagaz e humor sutil já consagrados, Barbara recolhe trechos de conversas, achados e perdidos inusitados ― espingardas, motos, máquina de serrar azulejos, dentaduras e uma mão mecânica, para citar alguns exemplos ― e revela as histórias por trás dos milhares de anônimos que passam diariamente pela estação, numa mistura de registros que vão do relato de observação à sátira, flagrando o absurdo e o lirismo da vida em trânsito. Como bem observou o cineasta e documentarista João Moreira Salles no texto de orelha, a escritora “chegou à conclusão de que o Terminal Rodoviário do Tietê […] é uma versão condensada do mundo ― e, como tal, pedia um Vasco da Gama, um Lévi-Strauss, uma Mata Hari e um Woodward & Bernstein”. Para escrever este livro épico, entretanto, a autora “assumiu o papel dos quatro”. Assim, a nova edição de O livro amarelo do terminal convida o leitor a revisitar ou a descobrir pela primeira vez essa obra essencial do jornalismo literário brasileiro, confirmando o talento de Vanessa Barbara para capturar o coração de uma metrópole em movimento. Publicação da editora Fósforo. Você pode comprar o livro aqui.

Nova edição do primeiro romance de Ondjaki. 

Luanda, anos 1980. Entre o despertar da cidade, os cheiros da chuva e a vida escolar, um menino observa seu mundo em transformação. Entre colegas, professores cubanos e o cotidiano familiar, sua infância se entrelaça às tensões políticas de uma Angola recém-independente, ainda em meio à guerra civil. A rotina de brincadeiras, despedidas e descobertas revela, em paralelo, um país que busca se reinventar. Bom dia, camaradas combina delicadeza narrativa e olhar poético para captar a força da memória e a riqueza dos afetos cotidianos. Com lirismo e humor, Ondjaki recria a infância em Luanda, ao mesmo tempo em que retrata um momento decisivo da história de seu país. Com sua escrita sensível e inventiva, Ondjaki retrata pelos olhos de um menino a vida cotidiana de um país em ebulição, fazendo de Bom dia, camaradas não apenas um retrato de época, mas também uma celebração da solidariedade, da imaginação e da esperança. Publicado originalmente em 2001, Bom dia, camaradas sai, agora, com introdução inédita do autor e posfácio de Rita Chaves. Reedição da Companhia das Letras. Você pode comprar o livro aqui.

Esta é uma edição reduzida, de recesso, por isso o Boletim Letras 360º é apresentado sem as costumeiras seções complementares.

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