António Lobo Antunes

Quando fui para África, ainda que contasse com pouca experiência cirúrgica, tinha de fazer amputações, tinha que fazer essas coisas tramadas que há a fazer em tempo de guerra...

— António Lobo Antunes, entrevista para Francisco José Viegas, Ler.




António Lobo Antunes nasceu no dia 1º de setembro de 1942, em Lisboa, de onde saiu muito raramente para os compromissos facultados pelos livros e para a guerra em Angola, nos estertores do período colonial, entre 1971 e 1973. “Tive a sorte de ter uma infância muito boa, passada em Benfica que, na altura, era um microcosmos, das várias classes sociais, tudo aquilo misturado, larguinhos, pracinhas.”

Era o mais velho de seis irmãos. De todos, foi com João Lobo Antunes — neurocirurgião que em Portugal se designou com “príncipe da medicina” — que estabeleceu uma relação mais forte: “porque vivíamos dois a dois, em cada quarto, e o João era o meu companheiro.”

No que concerne à sua relação com a família, António Lobo Antunes tem a dizer: “Talvez por na família haver uma grande contenção e uma grande austeridade, ainda hoje falo com o meu pai mais de literatura do que dos nossos sentimentos pessoais… Sou capaz de falar de emoções e sentimentos com os meus amigos, mas, com os meus pais, há um enorme pudor, não sei se estão bem afectivamente, em que partido é que eles votam”, disse em uma de suas muitas crônicas que completam dia após dia as lacunas deixadas pela obsessão de escrever seus romances.

Licenciou-se em Medicina e sempre afirmou ter ido para essa área por uma obra acaso, herança familiar, produto do que acontecia à maior parte dos filhos de médicos: “Na verdade, nunca quis ser médico. Mas eu era o mais velho e, naquela altura, quando se chegava ao quinto ano, tínhamos de escolher entre ciências e letras. Ora, eu tinha treze anos — o meu pai perguntou-me o que é que eu queria fazer, eu disse que queria ser escritor e, portanto, queria ir, naturalmente para a Faculdade de Letras.” 

O pai, sempre descrito por António Lobo Antunes como um amante dos livros, da literatura e das coisas belas, recomenda-o que, “se eu queria ser escritor, o melhor seria tirar um curso técnico, que isso me daria uma preparação melhor. Eu penso que ele estava preocupado com a ideia de eu ter de ser professor de liceu e que tivesse uma vida mais ou menos difícil e triste, e achava que a medicina poderia ser uma via melhor para mim.” 

Nas ciências médicas, especializou-se em psiquiatria, por pensar, na altura, que era parecido com literatura. E talvez. Muito do exercício clínico, dos volteios complexos do interior das pessoas e suas perturbações (medos, ansiedades, inseguranças, submissões, silêncios, ocultações, angústias) estão na base dos seus romances. 

Mas o tempo não deixou de impor a vocação: a atividade clínica, com a entrada definitiva na vida de escritor, foi substituída menos de uma década depois de retornar da África, esse episódio que mudou radicalmente a vida de António Lobo Antunes. : a sua estadia no meio médico foi exercida, em grande parte, durante a guerra colonial.



“Quando fui para África, ainda que contasse com pouca experiência cirúrgica, tinha de fazer amputações, tinha que fazer essas coisas tramadas que há a fazer em tempo de guerra… Então, levava o tratado de cirurgia, o furriel enfermeiro, que não podia ver sangue, ia-me lendo aquilo tudo, os procedimentos, e eu ia operando. Felizmente nunca nos morreu ninguém assim. Portanto, a minha relação com a medicina era essa.”

Passado os quatro anos de horror, entre um conflito feito de uma ambição premente do poder de mandar, da “vã cobiça”, para recordar a passagem camoniana, António Lobo Antunes regressou a Portugal. A escrita, que jamais abandona desde quando se descobre encantado com o sentido de juntar palavras aos cinco anos de idade, o acompanha durante a vida no front, nas inúmeras cartas em que relatava sua estadia, e depois permanece sendo sua maneira antidepressiva.

“Depois, quando voltei de África, fazia bancos em vários sítios porque ganhava muito pouco dinheiro como interno e, depois, chegava a casa e continuava a escrever. Mas, mesmo em Angola, mesmo debaixo de fogo, mesmo nos abrigos, eu continuava a escrever sempre. Por um lado, funcionava como anti depressivo.”

No que concerne à política, apenas uma vez foi militante da Aliança Povo Unido, coligação eleitoral de esquerda, ativa entre 1978 e 1987, em Portugal, liderada pelo Partido Comunista Português e que teve papel relevante no poder pós-25 de Abril. No entanto, em relação à questão do poder, o escritor praticaria uma retirada silenciosa, ainda que não tenha se escusado de opinar, quando interpelado sobre os destinos do país. Esse distanciamento, António Lobo Antunes também coloca na lista da formação e da herança do seu pai, que era, como dizia, um anarquista.

Foi, sensivelmente, a partir de 1985 que António Lobo Antunes passou a se dedicar exclusivamente ao ofício da escrita. Referiu apenas ter conhecido pessoas do meio artístico depois de se tornar um escritor. Entre elas, José Cardoso Pires, um dos seus melhores amigos. Embora não diretamente ligado ao meio artístico, é de referir Daniel Sampaio, fundamental para a publicação das suas primeiras obras; foi dele a preocupação de falar com as editoras e trazer a público o Memória de elefante, em 1979. 

Na altura, o que o autor escrevia era deixado pelos cantos; exercitava-se e não acreditava ter alcançado a forma ideal da sua escrita. Eram os amigos, por vezes, que se apropriavam desses papéis e o foi esse o caso que o empurrou para as mãos do público. Assim, quando se publica o primeiro livro, já avançava na escrita do terceiro. Por isso mesmo, é que no mesmo ano de 1979, aparece Os cus de Judas, possivelmente seu romance mais conhecido, e que forma com Conhecimento do inferno (1980), sua trilogia do período da Guerra Colonial, que, bem podemos designar com a Trilogia do inferno.

Os temas estabelecidos nos primeiros livros, derivados da experiência em África, são transversais à vasta obra de António Lobo Antunes, mas também o estágio de desvalia dos indivíduos na contemporaneidade e os itinerários labirínticos pela escuridão dos seres, atento a temas como a doença, a morte, a solidão, a frustração de viver/ não amar ampliam a rica lista de interesses. 

Numa entrevista em 1992 para o jornal Público, afirmou ter começado a abordar um tema que até então não tinha feito parte dos seus romances: a ternura. “No fundo nos sentimentos, nas emoções, no fundo em face dos grandes temas que acabaram por ser sempre os mesmos ao longo dos livros todos: a solidão, a morte, necessariamente também a vida, depois o amor ou a ausência dele, e penso que cada vez mais a ternura.” Sua obra, portanto, singrou os espaços obscuros, mas também os de luz — as extensões que formam a alma humana.

A sociedade urbana da média burguesia lisboeta é a mais tratada nos seus livros, uma vez que esta sociedade caracterizou o seu próprio ambiente familiar — todo escritor não produz uma obra espontaneamente, mas da necessidade de compreender, dentre outros aspectos, certa questão da sua realidade, desmascarar seus demônios. Por isso, a lembrança de ser António Lobo Antunes um romancista prendado por certo apego autobiográfico, efeito apontado corriqueiramente pela crítica; mas, claro, como tudo, deve ser tomado não com muita convicção, afinal, o trabalho do escritor é, sobretudo, nesse caso o do exercício com a palavra e sua capacidade de produzir imagens.

Se no pós-25 de Abril, a obra de António Lobo Antunes se insere no gosto do público leitor, ganhando logo o ambiente acadêmico fora do seu país — até então ainda muito afeito ao escritor de obra concluída — com o tempo, o culto cedeu espaço para certo esquecimento, o que não foi um motivo para a desistência ou reformulação de curso da sua literatura. A displicência dos de casa coincidiu com as constantes descobertas da porta para fora. Logo, a sua obra se tornou uma das mais traduzidas no estrangeiro, colocando-a no radar das apostas para o Prêmio Nobel de Literatura.

António Lobo Antunes, aludiu numa entrevista à Visão, em setembro de 1996, que as principais influências nos seus livros vieram dos cinemas estadunidense e italiano, dos andamentos da música, e também de alguns escritores que o encantaram na adolescência, como sejam: Louis-Ferdinand Céline, Ernest Hemingway, Jean-Paul Sartre, Albert Camus, André Malraux, Júlio Verne e Emilio Salgari; mais tarde, foi a descoberta de Georges Simenon e posteriormente dos russos com Lev Tolstói e Anton Tchekhov. “A minha família tem pouco sangue português: sou meio brasileiro, meio alemão. Fui formado, sobretudo, pela literatura dos estrangeiros, norte-americanos em particular: Faulkner, Scott Fitzgerald, Thomas Wolf.” — declarou ao Jornal de Letras, em novembro de 1985.

Escrever todos os dias foi a necessidade primeira da vida. “É sempre igual: começo a escrever às duas da tarde, quando posso, às dez da manhã, mas nem sempre é possível, e trabalho até às duas, três da manhã, com uma pausa para almoçar e outra para jantar.” É no seu escritório, uma pequena sala de duas assoalhadas junto do Cemitério do Alto de S. João, que António Lobo Antunes escreveu a maior parte da sua obra. 



“Eu escrevo livros para corrigir os anteriores.” E, sim, sua obra é uma grande sinfonia, com reentrâncias diversas e absorção de vozes de igual maneira: “em relação a mim, escrever é uma forma de fuga ou de equilíbrio… Por outro lado, há a sensação de qualquer coisa que nos foi dada e que temos obrigação de dar às outras pessoas: quando não trabalho sinto-me culpado. Há ainda a sensação do tempo, ou seja, ter na cabeça projectos para 200 anos e saber que não vamos viver 200 anos...”


Obra

Designado como autor de uma literatura difícil, António Lobo Antunes nunca se deixou reconhecer pelo epíteto de hermético. Como foi definido pela crítica, a sua escrita é um caso singularíssimo na literatura universal. “Nenhum autor escreve como António Lobo Antunes”, registrou Miguel Real. “Certamente que terá havido influências — é impossível não havê-las. Porém, o importante não será a manta de retalhos de possíveis influências que uma especiosa tese de doutoramento detetará aqui e ali, mas, diferentemente a conceção bem firme hoje da absoluta singularidade estética da escrita de António Lobo Antunes. Todos os escritores possuem uma escrita singular (por isso são escritores), mas alguns são mais escritores que outros. E António Lobo Antunes é-o de modo absoluto.” 

O crítico complementa que ser um escritor de modo absoluto, “Significa que os seus livros revelam uma nova dobra da língua portuguesa, um novo horizonte estético para esta, uma nova forma de combinação de palavras até então nunca descoberta. Por isso, os romances de António Lobo Antunes confundem o leitor, habituado à gramática de mestre-escola; por isso, os romances de Eça torturavam a mente clássica de Antero e irritavam Fialho de Almeida; por isso não se falou de Húmus ao longo de quarenta anos (até à publicação da biografia de Raul Brandão escrita por Guilherme de Castilho).”

O leitor tem algum esforço de leitura porque, por exemplo, não é raro haver mudanças de narrador, o entrecruzamento de vozes e temporalidades distintas — um novelo para quem foi educado durante séculos na tendência de seguir “o fio da meada”. Com esse exercício singular, António Lobo Antunes subverte todas as categorias da narrativa tradicional, incluindo a sua tarefa de contar uma história. 

Numa de suas crônicas, o próprio escritor assim se apresenta: “Aquilo que por comodidade chamei romances, como poderia ter chamado poemas, visões, o que se quiser, apenas se entenderão se os tomarem por outra coisa. A pessoa tem de renunciar à sua própria chave / aquela que todos tempos para abrir a vida, a nossa e a alheia / e utilizar a chave que o texto lhe oferece. De outra maneira torna-se incompreensível, dado que as palavras são apenas signos de sentimentos íntimos, e as personagens, situações e intriga os pretextos de superfície que utilizo para conduzir ao fundo avesso da alma.” 

Nesse mesmo texto, singularmente intitulado “Receita para me lerem”, emenda que a sua verdadeira aventura “é aquela que o narrador e o leitor fazem em conjunto ao negrume do inconsciente, à raiz da natureza humana. Quem não entender isto apercebecer-se-á apenas dos aspectos mais parcelares e menos importantes dos livros: o país, a relação homem-mulher, o problema da identidade e da procura dela, África e brutalidade da exploração colonial, etc., temas se calhar muito importantes do ponto de vista político, ou social, ou antropológico, mas que nada têm a ver com o meu trabalho.”

Seus livros são muito obsessivos, atestam alguns da crítica. As crônicas ocupam quase uma dezena de títulos; os romances, quase quatro; e escreveu esparsamente conto e poesia. No romance, gênero que o fez reconhecido estão, além dos três títulos referidos acima, Explicação dos pássaros, 1981; Fado alexandrino, 1983; Auto dos danados, 1985; As naus, 1988; Tratado das paixões da alma, 1990; A ordem natural das coisas, 1992; A morte de Carlos Gardel, 1994; O manual dos inquisidores, 1996; O esplendor de Portugal, 1997; Exortação aos crocodilos, 1999; Não entres tão depressa nessa noite escura, 2000; Que farei quando tudo arde?, 2001; Boa tarde às coisas aqui em baixo, 2003; Eu hei-de amar uma pedra, 2004; Ontem não te vi em Babilônia, 2006; O meu nome é Legião, 2007; O arquipélago da insónia, 2008; Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar, 2009; Sôbolos rios que vão, 2010; Comissão das lágrimas, 2011; Não é meia noite quem quer, 2012; Caminho como uma casa em chamas, 2014; Da natureza dos deuses, 2015; Para aquela que está sentada no escuro à minha espera, 2016; Até que as pedras se tornem mais leves que a água, 2017; A última porta antes da noite, 2018; A outra margem do mar, 2019; Diccionário da linguagem das flores, 2020; e O tamanho do mundo, 2022. 

António Lobo Antunes recebeu todos os prêmios mais relevantes dentro e fora do seu país, incluindo o Camões, em 2007. Foi um dos primeiros escritores vivos (e o segundo, depois de Fernando Pessoa) a ver sua obra editada pela prestigiada Bibliothèque de la Pléiade. O escritor morreu em 5 de março de 2026. 


* Este texto foi revisto a 5 de março de 2026.

Comentários

AS MAIS LIDAS DA SEMANA

11 Livros que são quase pornografia

António Lobo Antunes ou a escrita como profissão-de-fé

Herscht 07769, de László Krasznahorkai

Memória de minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez

Boletim Letras 360º #682

Sete poemas de Miguel Torga