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Mostrando postagens com o rótulo Davi Lopes Villaça

Uma palavra para o Mal

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Por Davi Lopes Villaça No novo Nosferatu (2024), de Robert Eggers, o advogado Thomas Hutter está atravessando o interior de uma bárbara Transilvânia, a caminho do castelo do Conde Orlok, quando, numa noite, depara-se com uma cena sinistra e inexplicável: um grupo de camponeses, guiados por uma jovem nua montada num cavalo, exuma um cadáver e lhe crava uma estaca no peito. Mais tarde, no castelo, ao tocar no assunto com seu sinistro anfitrião, Thomas escuta-o dizer: “Temo que ainda haja por aqui muitas superstições que podem parecer antiquadas para um jovem com seu alto nível de instrução. Estou ansioso para me mudar para sua cidade de mentalidade moderna, que não conhece nem acredita nesses contos de fadas mórbidos”. Não podemos ver o rosto do vilão, mas é como se ele piscasse para a câmera. A ironia é clara: o poder de Orlok, o grande bruxo vampiro, é maior lá onde nada se sabe nem de vampiros, nem de bruxaria, nem de muitas outras coisas. O filme recupera a velha crítica ao iluminis...

Godzilla Minus One: o símbolo revisitado

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Por Davi Lopes Villaça  Antes de assistir a Godzilla Minus One (2023), de Takashi Yamazaki, eu já havia assistido a dois filmes com o monstro, ambos americanos: Godzilla de 1998 e Godzilla de 2014. Um mais esquecível do que o outro (embora o primeiro, assistido aos seis anos de idade, tenha me impressionado bastante). Por um longo tempo imaginei que filmes de Godzilla eram, em essência, bobagem. Nalgum momento alguém me contou que o monstro tinha um significado profundo para os japoneses, que ele era uma metáfora para as armas atômicas, mas isso não me parecia melhorar muito as coisas. Então, depois de escutar vários comentários positivos sobre o novo filme, fui ao cinema com amigos na expectativa de me divertir com uma bobagem muito bem produzida. Saí da sala positivamente surpreso, tendo enfim compreendido que, se Godzilla se tornara um monstro tão icônico, isso tinha a ver com sua grande força simbólica, e não apenas com nosso gosto por ver lagartos gigantes quebrando coisas....

Moscou feliz

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Por Davi Lopes Villaça Foi num orfanato que a menina Moscou Ivánovna Tchestnova ganhou nome, patronímico e sobrenome, conforme lemos nas primeiras páginas de Moscou feliz , romance inacabado do escritor russo-soviético Andrei Platónov (1899-1951). O nome, deram-lhe em homenagem à cidade; o patronímico, em memória de Ivan, “um simples soldado russo do Exército Vermelho, caído em combate” (designação de fato coletiva, pois quantos não foram os Ivans que caíram em combate pela Revolução?); o sobrenome, derivado do russo tchéstnyi (puro, honesto), “como sinal da honestidade de seu coração, que ainda não tivera tempo de se corromper” (p. 19). Assim, por esse segundo batismo, o caminho da menina órfã se confunde com o da recém-criada URSS. Filha de todos e de ninguém, imaculada pelo tempo, desligada da História, Moscou, sonhando tornar-se paraquedista, segue os passos de um país que desejou romper todas as amarras com o passado e dedicar-se à construção de uma sociedade inteiramente nova, d...

Um rodapé dostoievskiano

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Por Davi Lopes Villaça  Das várias estranhezas que compõem as Memórias do subsolo (1864), de Dostoiévski, gostaríamos de chamar a atenção para aquela discreta, mas muito significativa, nota de rodapé, assinada pelo autor, logo no início da narrativa, na qual ele que nos assegura do caráter ficcional de sua novela: “O autor das memórias e as próprias ‘memórias’, é claro, são inventados. No entanto, pessoas como o autor destas memórias não só podem como devem existir em nossa sociedade, levando em consideração as circunstâncias em que nossa sociedade, em geral, se desenvolveu. Eu queria apresentar ao público, com mais destaque do que o habitual, um dos tipos humanos de nosso passado recente. Trata-se de um dos representantes de uma geração que ainda vive. Nesta parte, intitulada ‘Subsolo’, essa pessoa apresenta a si mesma, seus pontos de vista e, de certa forma, quer esclarecer os motivos pelos quais ela surgiu, e tinha se surgir, em nosso meio. Na parte seguinte, virão as ‘memórias...

O verdadeiro criador de tudo, de Miguel Nicolelis

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Por Davi Lopes Villaça   A ciência teve, nos tempos modernos, um papel importante no processo de desmitologização e dessacralização do mundo. Ela nos mostrou que o homem não ocupa o centro do universo e que a natureza, essa entidade impessoal, se desenvolve de acordo com leis próprias, insensível ao destino de suas crias. Foi um duro golpe para o nosso ego, que se amparava na ideia de que éramos os protagonistas da história universal ou, pelo menos, de que os astros não eram de todo indiferentes às nossas façanhas. A perda dessas ilusões contribuiu também para a ruptura de um vínculo precioso com o mundo exterior, outrora garantido pelo simbolismo de mitos e religiões, que determinavam nossa interação com o que acreditávamos ser algum tipo de ordem natural e divina ― mas que era, acima de tudo, uma ordem humana, engendrada em nós mesmos para dar forma mais compreensível à realidade. Depois, quanto mais passávamos a conhecer o mundo, menos familiar ele se tornava para nós. Entre o i...

José Lins do Rego: um drama das origens

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  Por Davi Lopes Villaça   Apesar da extensão de sua obra, Zé Lins do Rego é romancista quase exclusivamente lembrado como o Criador do Ciclo da cana de açúcar , conjunto das suas cinco primeiras narrativas, que são aquelas mais diretamente ligadas às memórias de infância no engenho do avô e ao relato da decadência desse mundo que fora o de seus antepassados. Os romances que escreveu depois, por outro lado (com a exceção de Fogo morto , que a crítica tende a incluir no  Ciclo ), foram muitas vezes considerados apenas à margem dos primeiros, espécie de leitura complementar àquela que seria a parcela mais significativa do trabalho do escritor. Essa predileção pelo Ciclo teria se dado por outros motivos que não apenas uma distinção qualitativa entre esses romances.  Em primeiro lugar, destaca-se a maior comodidade que a crítica geralmente encontrou em trabalhar com um ciclo de narrativas, interligadas por tema e enredo, do que com um conjunto de narrativas isoladas, que...

Análise de “O Falcão”, de Luis Fernando Verissimo

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  Por Davi Lopes Villaça   A crônica, e de maneira mais surpreendente a crônica humorística, acaba sendo, pela sua aparência de coisa cotidiana, pelo seu tom descontraído e despretensioso, um lugar de profundezas inesperadas, como demonstrou Antonio Candido em “A vida ao rés do chão”. Pode ser também um lugar de grande sofisticação formal, de árduas conquistas estilísticas, cujo resultado muitas vezes é, ironicamente, a impressão de uma escrita fácil e espontânea. Há vários exemplos disso na obra de Luis Fernando Verissimo. Proponho-me a analisar sua crônica, “O Falcão”, cujas primeiras linhas dão-nos já uma amostra do poder de síntese desse autor.   “Só uma palavra descrevia a vida de Antônio. Foi a palavra que ele usou quando viu o tamanho da fila do ônibus. ― Que merda!”   Antônio leva, portanto, uma vida “de merda” ― ou seja de pouco valor, muito ordinária, ruim. Mas essa palavra, ao ser reciclada da fala do próprio personagem, carrega ainda outro sentido, d...

Sobre “O meio”, de Dostoiévski

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Por Davi Lopes Villaça Edvard Munch. O assassino . 1910.  Reprodução. Dostoiévski acreditava que uma sociedade deveria estar apoiada sobre valores morais sólidos – para ele, os valores transmitidos pelo cristianismo e há muito enraizados na alma do povo russo. O indivíduo deveria ser capaz de distinguir entre o bem o mal e fazer suas escolhas com base nessa distinção. Isto num momento histórico (tal como o nosso) de profundo relativismo moral, em que valores são continuamente colocados em questão. Não por acaso o tema da amoralidade ocupa um lugar tão importante em sua obra madura. O estudante Raskólnikov, de Crime e castigo , comete um assassinato para provar-se acima de quaisquer convenções morais; logo descobre, porém, que a ideia do bem e do mal estava tão entranhada nele que não podia refutá-la sem enfrentar sérias consequências psíquicas. É a partir do sofrimento decorrente de seu crime e, por fim, do reconhecimento de sua culpa que o herói recupera e consolida ...