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Mostrando postagens de março, 2026

A palavra-legado de Noemi Jaffe

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Por Gabriella Kelmer Noemi Jaffe. Foto: Zanone Fraissat Em Te dou minha palavra , obra publicada pela Companhia das Letras em 2025, Noemi Jaffe desvela-se, na epígrafe, na figura de um mosquito embevecido pela atração incômoda e perigosa de um vulcão em erupção, do qual consegue se afastar atabalhoadamente. A analogia se torna clara à medida que o texto avança, refigurando-se nos trens, nas menções ao campo de concentração, no cotidiano da família judia e trabalhadora do Bom Retiro, no espraiamento identitário por músicas, filmes e livros da menina filha de sobreviventes do nazismo, para quem a cultura e a rebeldia são réplicas potentes. Remanescente de uma vivência autoficcional reelaborada desde os seis, os oito, os onze, os quatorze anos, funciona o passado de vórtice para uma discussão complexa e refrativa do tempo. O mosquito é ela, autora e narradora, mas também a criança que ela foi; o vulcão é o fascínio exercido simultaneamente pela história da catástrofe que resultou na mudan...

O herói de mil faces: a digital de Aristóteles e Campbell no cinema

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Por Pilar R. Laguna   Poucas questões têm obcecado tanto escritores, roteiristas e dramaturgos quanto o que faz uma história funcionar. O volume de especulação que isso produziu é inegável, e escolas e cursos de escrita continuam a lucrar bastante. Existem inúmeros manuais e guias práticos que ensinam, passo a passo, os segredos da narrativa, tentando resolver algo essencialmente antropológico. Poderíamos negar que a arte de contar histórias acompanha a humanidade desde que recebemos esse designativo? Das pinturas rupestres e canções folclóricas às cartas de amor e à invenção do cinema, é revelador parar e considerar o quanto do que nos rodeia constitui uma história, real ou imaginária. E, ainda mais, como somos capazes de atribuir uma história a coisas que não a possuem — como um encontro entre dois estranhos na rua, um objeto perdido ou uma frase tirada de contexto. As histórias são uma ferramenta essencial para a construção da identidade e, portanto, tanto indivíduos quanto grup...

Texaco, de Patrick Chamoiseau

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Por Amanda Fievet Marques Patrick Chamoiseau. Foto: Lea Didier Publicado em 1992 e laureado com o Prix Goncourt do mesmo ano, Texaco é o terceiro romance do escritor francês de origem martinicana, Patrick Chamoiseau. O romance traça um afresco da história da Martinica, por meio da narrativa fragmentária e não-linear das reminiscências de Marie-Sophie Laborieux, que começa a rememorar pela vida do seu avô, depois pela de seu pai, Esternome e, por último, pela sua.  A narrativa mnemônica de Marie-Sophie, que opera pela exposição intermitente das suas lembranças, trabalha pela tessitura das oralidades, as histórias que lhe contaram e que agora ela reconta, e que existem sob a História oficial: “(…) histórias das quais nenhum livro fala, e que para nos entender são as mais essenciais” (Chamoiseau, 1991, p. 49).¹ Seu avô, senhor Pol, havia sido um escravo envenenador — ofício que se praticava contra as colheitas e o gado do branco escravagista, o Béké , em língua crioula da Martinica —...

Nelsinho: o último trágico rodrigueano

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Por Juliano Pedro Siqueira Nelson Rodrigues Filho, Foto: Daryan Dornelles. Era 30 de março de 1972, quando os agentes do DOI-CODI abordaram Prancha e o conduziu a uma base da Guarda Militar no Méier. Naquela altura, Prancha era um dos nomes mais procurados pelos órgãos de repressão ligados à ditadura. Detentor de uma aparência inconfundível, o homem que carregava a alcunha de Prancha tratava-se de Nelson Rodrigues Filho ou Nelsinho, filho do consagrado dramaturgo e cronista, Nelson Falcão Rodrigues.  Naquela altura, Nelsinho já vivia na clandestinidade depois de se tornar membro do Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8). Contrariando os conselhos do pai e do irmão Joffre, Nelsinho se engajou no movimento e chegou, inclusive, a elaborar o plano de assalto a um banco. Enquanto isso, adotou um estilo nômade; cercado de códigos e endereços secretos. Nem mesmo Nelson pai — que lutava pela débil saúde — sabia do real paradeiro do Nelson filho.  Antes da sua captura, sabendo Ne...

Boletim Letras 360º #681

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o  Letras  permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo  Letras .  António Lobo Antunes (1942-2026). Foto: Bruno Simões Castanheira LANÇAMENTOS Uma saga que retrata de forma magistral os últimos dias de nobreza de uma linhagem aristocrática húngara. Inspirado na própria família do autor, Nelio Biedermann, Lázár é um dos grandes acontecimentos literários do ano . Lajos von Lázár vem ao mundo junto à alvorada do século XX. Seu nascimento é, ao mesmo tempo, um milagre e uma maldição, e sua verdadeira herança, um segredo que ele jamais conhecerá. Há gerações, os von Lázár governam suas terras na Hungria, abrigados em um castelo...

António Lobo Antunes ou a escrita como profissão-de-fé

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Por Pedro Fernandes É tão importante ser um bom cavador ou pedreiro como ser um bom escritor, temos é a tendência de mitificar os escritores e de colocá-los em pedestais. — Em Uma longa viagem com António Lobo Antunes António Lobo Antunes. Foto: David Clifford Toda criação humana de vulto é parte do empenho e esmero de alguém capaz de pisar onde muitos não ousaram a tanto. António Lobo Antunes é um dos últimos que revolucionou o romance no século XX, numa ocasião em que esta forma literária se encontrava refém de uma encruzilhada entre os modelos necrosados e as renovações disruptivas e vazias herdadas das vanguardas do século anterior, ou ainda, presa no interior das redomas estruturais. Seu compromisso inadiável com a palavra, a capacidade de dizer das sombras com a beleza luminosa do verbo, aproximou a literatura das belas artes.  Numa sociedade em que a abertura democrática coincidiu com uma formação de algum interesse para o cultivo das letras, a publicação dos três primeiros ...

Algumas palavras sobre Orbital, da Samantha Harvey

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Por Vinícius de Silva e Souza Samantha Harvey não poderia ter encontrado título mais apropriado para o seu mais recente e premiado romance. Orbital , que chegou aos leitores brasileiros pela editora DBA, com tradução de Adriano Scandolara, sintetiza a sua composição: muito mais do que apenas se referir a o que os protagonistas estão vivendo, habitando uma estação espacial a milhares de quilômetros distante da Terra, a palavra também refere os movimentos desenvolvidos pela própria narração de um romance de expressão lenta e contemplativa, sempre girando nos mesmos personagens fazendo as mesmas ações. Como um planeta cumprindo os seus ciclos. Os protagonistas são Roman e Anton, da Rússia; Chie, do Japão; Nell, do Reino Unido; Pietro, da Itália; e Shaun, dos Estados Unidos. Tamanha mistura poderia ser um desafio para qualquer escritor, levando em conta o manejo de figuras de culturas tão diferentes entre si. No entanto, é no deslocamento e na variação que Samantha  Harvey contorna as ...

(Re)imaginação é poder nas lentes de Kleber Mendonça Filho

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Por Luis Fernando Novoa Garzon O cineasta Kleber Mendonça Filho só pode ser plenamente entendido em seu impulso e transbordamento glocal — entendido aqui como intersecção de dinâmicas horizontais e verticais, de fixos e fluxos, do universal e do particular. O tempo-espaço que condiciona seu olhar é uma periferia da periferia, em que grassa um cosmopolitismo revirado, assumido na corrosão do cosmopolitismo raso que o subordina. Por isso, são tantas e tão contraditórias as camadas de identificação entranhadas neste Recife que é, ao mesmo tempo, cenário e personagem de seus filmes. Nesta cidade cindida, o cineasta recompõe trajetos ruinosos e escapes labirínticos e nos induz a saltos para dentro, trazendo à luz recônditos acervos para fazer frente a uma espiral que não para de dilapidar referentes sociais, culturais e cognitivos. A mensagem liminar é que, nos marcos de imaginários coletivos irredimíveis, nada está definido. Isso, em tempos de sobredeterminação financeira e midiática, ...

Bibelôs ausentes na estante em Uma delicada coleção de ausências, de Aline Bei

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Por Douglas Sacramento  Aline Bei. Foto: Isadora Arruda No  Dicionário Michaelis , uma das definições para o verbete  ausência  é “a falta do que se supunha existir”. A ausência, ao analisarmos e interpretarmos essa definição dicionarizada, pressupõe que algo existiu, mas desapareceu de uma hora para outra. Contudo, a sensação de falta permanece como uma constante, ou seja, a presença fantasmática continua a se manifestar. É essa a temática de  Uma delicada coleção de ausências , livro com que Aline Bei encerra a Trilogia Involuntária. A escritora paulistana foi finalista do Prêmio Jabuti, em 2022, com segundo volume,  Pequena coreografia do adeus , e venceu o Prêmio São Paulo de Literatura, em 2018, com o primeiro,  O peso do pássaro morto .  Mas, antes de entrar no romance, não consigo me afastar — enquanto leitor afetado pela obra — da minha própria experiência. A ausência também marcou minha relação com o livro. Durante a leitura, eu...