Levantado do Chão, de José Saramago


Por Pedro Fernandes




Sobre Levantado do Chão, disse, certa vez, José Saramago:

"Um escritor é um homem como os outros: sonha. E o meu sonho foi o de poder dizer deste livro, quando terminasse: 'Isto é o Alentejo'. Dos sonhos, porém, acordamos todos, e agora eis-me não diante do sonho realizado, mas da concreta e possível forma do sonho. Por isso me limitei a escrever: 'Isto é um livro sobre o Alentejo'. Um livro, um simples romance, gente, conflitos, alguns amores, muitos sacrifícios e grandes fomes, as vitórias e os desastres, a aprendizagem da transformação, e mortes. É portanto um livro que quis aproximar-se da vida, e essa seria a sua mais merecida explicação. Leva como título e nome, para procurar e ser procurado, estas palavras sem nenhuma glória - Levantado do Chão. Do chão sabemos que se levantam as searas e as árvores, levantam-se os homens e as suas esperanças. Também do chão pode levantar-se um livro, como uma espiga de trigo ou uma flor brava. Ou uma ave. Ou uma bandeira. Enfim, cá estou outra vez a sonhar. Como os homens a quem me dirijo."

Isso está impresso na contra-capa da edição brasileira do romance publicado pela Bertrand Brasil e é, sem dúvidas, o que é Levantado do Chão: um romance sobre a luta da gente simples em sair do círculo vicioso da miséria a que fora condenada desde sempre pelos do Poder.

Este é o quarto romance da leva dos escritos pelo escritor português. O primeiro, foi Terra do Pecado, romance que deveria se chamar A Viúva e cujo título foi propositalmente alterado pelo editor em busca de um produto vendável; depois, escreveu A Claraboia, um romance que permanece inédito depois de silenciado pelos editores para publicação; e, Manual de Pintura e Caligrafia, o livro que provocou alguma pequena atenção entre a crítica portuguesa. Exceto o segundo, que não o conheço, os outros dois romances, julgue a crítica o que julgar, os tenho como importantes para hoje termos o Saramago que temos ou mesmo para a existência em sua plenitude do romance agora comentado.

Mais que um livro sobre o Alentejo, seus homens e dos movimentos de luta à repressão latifundiarista e ao regime totalitarista de Salazar. Mais que um simples romance. Levantado do Chão é uma obra que vem registrar os lances do Poder em torno e sobre os mais fracos, os do chão, de um poder, pois, de repressão e de opressão (do Estado, da Polícia e tudo justificado pela cadência do discurso religioso, em que a Igreja, na figura do padre Agamedes, cumpre com o dever da preservação da ordem e pelo silenciamento por eles instituídos).

Levantado do Chão é uma obra que vem registrar o levantar-se de toda uma classe operária ao redor do mundo, que os movimentos em Portugal em muito se assemelham, por exemplo, aos acontecidos aqui pelo Brasil, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Na luta dos trabalhadores do Alentejo, posta na família dos Mau-Tempo, reside a luta dos povos em torno do desmantelamento da ordem de cerceamento da liberdade e dos sujeitos, além de com isso, demonstrar que as engrenagens de tudo que está aí são construtos dos homens e que portanto cabe a eles sua revisão.

Apesar de ter sido este romance recebido com desatenção pela mídia ou associado simplesmente o modelo romanesco do Neo-realismo, tenho comigo que Levantado do Chão é um romance magnificamente trabalhado, não só porque surge aí o verdadeiro estilo de narrar reconhecidamente do escritor José Saramago, este que ressignifica a pontuação e a sintaxe, mas pela densa textualidade que marcará peças como Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis e O Evangelho segundo Jesus Cristo, por exemplo. Nele, levanta-se do chão a própria escrita assinalando também um processo de libertação das amarras da gramática. O tema tornado forma. E a história levada a uma universalidade. Um título indispensável aos leitores.


Comentários

AS MAIS LIDAS DA SEMANA

11 Livros que são quase pornografia

As ilustrações de Carybé para Macunaíma, de Mário de Andrade

Dez poemas e fragmentos de Safo

O quebranto das palavras com “a”: Diário da queda, de Michel Laub

Aquiles e Odisseu: a fórmula memorável e seus ecos futuros

Eu hei-de amar uma pedra, de António Lobo Antunes

Seis poemas de Rabindranath Tagore