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Canto noturno de um pastor errante da Ásia: comentário e tradução

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Por Thiago Teixeira  O homem não passa de um caniço, o mais débil da natureza; mas é um caniço pensante.  — Pascal Edvard Munch, Melancolia .  “É preciso saber esquecer”. Esta bela frase é o do Nietzsche da “Segunda consideração extemporânea”: Da utilidade e desvantagem da história para a vida . Ele inicia o texto com uma imagem: o homem no alto de sua superioridade depara-se com um rebanho de animais e os inveja. Inveja-os, pois percebe que eles não se curvam ao peso do tempo, eles não têm uma noção de passado, uma memória, uma lembrança, e, por isso, estão aptos para a felicidade. Os animais são capazes de se esquecer, já o homem, ser histórico, é abatido pelo mal de Funes, el Memorioso e chega mesmo a viver de memórias, acumulá-las como um colecionador. Acontece que, para a felicidade, diz então Nietzsche, é preciso fazer concessões nessa postura excessivamente histórica: é preciso saber esquecer: “Considera o rebanho que passa ao teu lado pastando: ele não sabe o que ...

Romance com ficção

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Por Thiago Teixeira  Patrick Deville. Arquivo Radio France (Reprodução) Na guarda da capa vemos a fotografia de um homem jovem com a pele queimada de sol diante da varanda de uma cabana rústica. Todo de branco, não sabemos se em uniforme militar ou médico, mas certamente colonial, ele nos desperta uma reminiscência. Onde vimos uma imagem parecida? E então nos lembramos do raro registro do Rimbaud adulto, quando, já tendo rompido com a literatura, meteu-se no tráfico de armas em África, no que se tornou paradigma da figura do escritor que abandona a arte por uma vida aventurosa.  O nome do jovem rapaz é Alexandre Yersin, o renomado cientista que protagoniza o romance biográfico Peste e cólera , de Patrick Deville. O autor, como o biografado, é um homem de viagens e viu em Yersin uma figura central do século passado, descobridor do bacilo da peste bubônica, encarnando a ciência e a vida prática. Munido de documentação e seguindo as pegadas do biografado, o romancista reconstitui...

Bela é a verdade – notas sobre o romance histórico

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Por Thiago Teixeira Catherine M. Wood. Livros antigos Precisar o começo do romance histórico não é tão simples, pois isso depende da concepção que temos de romance e, claro, do tipo histórico em si mesmo. A depender do que consideramos romance, podemos dizer que o tipo histórico começa com Walter Scott, ou com Madame de La Fayette. Em nosso ensaio, como não acreditamos haver uma linha divisória tão clara entre romance e novela, ainda mais em textos escritos antes do século XVIII, consideraremos Madame de La Fayette como a pioneira, graças ao La Princesse de Montpensier . E o assunto fica ainda mais interessante quando incluímos, pelas mesmas razões, o Dom Carlos , de César Vichard de Saint-Réal, e o fascinante A princesa de Clèves , também de Madame de La Fayette.  E A princesa de Clèves não é apenas um dos primeiros do gênero histórico, é também o primeiro do gênero psicológico. Aliás, uma das maiores belezas da obra está justamente nesse encontro. Ocorre que a trama se passa em...

A loucura como topos da literatura e da filosofia

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Por Thiago Teixeira  A imagem resulta escandalosa porque desafia o princípio de contradição  (Octavio Paz) Dante Gabriel Rossetti. Hamlet e Ofélia (detalhe) Estamos lendo Duns Scoto, filósofo escolástico medieval, e ele está enfrentando o maior desafio para um filósofo: responder às provocações céticas. E ele as enfrenta assim:  “Se objetares que, se a imagem sensível pode apresentar-se como um objeto; portanto o intelecto, em virtude deste erro da faculdade da imaginação, pode errar ou pelo menos ser impedido, de tal maneira que não possa operar como acontece nos sonhos e com os loucos; pode-se responder que, embora o intelecto seja impedido quando há tal erro na faculdade da imaginação, no entanto, nesta circunstância, o intelecto não erra porque não exerce nenhum ato.” Ele está respondendo ao argumento do engano dos sentidos, que se desdobra no argumento do sonho, da embriaguez e da loucura. Os céticos (especificamente os acadêmicos) questionam a nossa capacidade de co...

Aforismos de um imoralista

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Por Thiago Teixeira André Gide. Foto: Laure Albin-Guillot O imoralista é o romance em que a influência de Nietzsche mais se faz presente na obra de André Gide. O protagonista Michel leva às últimas consequências o individualismo, o abandono da moral cristã, o desprezo pela fraqueza e pela doença, e positivamente passa a adotar um amor à vida, aos sentidos, aos prazeres, à força, ao corpo. Os valores cristãos são simplesmente substituídos pelos valores de um novo homem, em sentido de plena positividade perante a vida e a ação. Mas quem realmente conhece Nietzsche percebe a presença dele em outros aspectos do récit (Gide não chamava O imoralista de romance, mas de récit ), sobretudo quando se lembra das considerações que ele fazia a respeito da História. Nietzsche pregava uma História que levasse o homem à ação, uma História que não fosse negação da vida, mas afirmação, uma História que, em vez de domesticar o homem, o levasse à invenção, percebendo que a vida é um quadro em branco so...

Legado da forma

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Por Thiago Teixeira  Michel de Montaigne. Escola Francesa. Entender o ensaio, este gênero que tanto nos é caro e que, às duras penas, nos esforçamos para cultivar, talvez seja uma boa maneira de iniciar a sequência de textos que passaremos a publicar neste espaço. Isso significa, claro, revisitar o criador do gênero, Michel de Montaigne. Seus Ensaios , publicados em três volumes durante a vida, são a melhor companhia de leitura para quem ama literatura e filosofia. Montaigne escreve como quem conversa com o leitor, mostrando-se por inteiro, em uma sinceridade e franqueza que não encontramos nem mesmo entre os epistológrafos.  Mais do que a imagem de um homem renascentista, moderno, próximo a nós, Montaigne nos legou uma forma de expressão que concorre com a metodologia, visão ou postura científica. Para a entendermos um pouco, a melhor fonte talvez seja o segundo texto do terceiro volume, intitulado “Do arrependimento”, no qual ele deixa claro não estar pintando o retrato...