Boletim Letras 360º #652
DO EDITOR
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| Can Xue. Foto: Simone Padovani |
A obra de Okounji, fluida e magnificamente clara, é uma busca fervorosa pelas origens naturais e míticas, um eco da palavra ancestral, que dialoga com a terra original e nos recorda a poesia de Léopold Senghor. Nascido no Congo, em 1962, e radicado na França, sua extensa obra obteve premiações importantes, entre elas, o Prix de Poésie Contemporaine PoésYvelines (2008), o Grand Prix Littéraire d’Afrique Noir (2010), o Prêmio Léopold Sédar Senghor de Poesia do Cenáculo Europeu Francófono (2014) e o Prêmio Internacional de Poesia Benjamin Fondane (2016). Como uma sede de ser homem, ainda, primeira antologia em português do poeta franco-congolês, inclui poemas do Ciclo de um céu azul (1996), Segundo poema: poema do chão da infância (1998), A alma ferida de um elefante preto (2002), Vento louco me bate (2003), Prece aos ancestrais (2008), Estelas do raiar do dia: diálogos entre a Ampili e o Pampu (2011) e Cantos do grão semeado (2014). Os acontecimentos da vida pessoal do autor e da vida social do seu país, permeados pela tentativa de reconstrução íntima e coletiva no período pós-independência, são abordados e reinventados com recursos estéticos próprios da escrita poética, tais como o emprego intencional de metáforas, a variação entre versos curtos e longos, a disposição dos textos com a intenção de explorar seus efeitos visuais e sonoros. A poesia de Gabriel Mwene Okundji aborda as lutas pela independência de seu território de origem, a defesa da liberdade de pensamento e de expressão, a valorização das identidades étnicas e culturais a partir do reconhecimento de sua pluralidade interna, a crítica às tentativas de homogeneização das identidades étnico-culturais em função de um projeto de nacionalismo dependente e o intercâmbio entre suportes de expressão, que incluem as interferências sobre a herança linguística do colonizador, o uso das línguas locais e a interação entre recursos da oralidade e da escrita. Segundo o poeta Edimilson de Almeida Pereira, que assina o posfácio da presente publicação, “a violência e o medo, a contradição e o engano, bem como a beleza e a sensibilidade, a cooperação e o sonho estão no tecido dessa antologia. Num tempo de rupturas dos pactos que sustentam a vida em comunidade, a obra de Okundji — sem ignorar a herança histórica dessas rupturas — demonstra a importância de recuperarmos ‘a sensibilidade necessária ao humano em sua relação com o cosmo’”. Para Guilherme Gontijo Flores, tradutor da antologia, a poesia de Gabriel Mwene Okundji é de uma potência que muito raramente encontrada em livros. “Nela vemos a um só tempo a força da escrita e a mutabilidade da fala, o assentamento na ancestralidade e o devir do presente, em suma, a poesia como filosofia, história, rito e congregação de uma coletividade. Ela tem sua estética, que é poderosíssima, mas é como se aqui o esteticismo de fato devesse ceder a uma força vital que, em seu animismo assumido e em seu reconhecimento da tradição teghe desdobrado em língua francesa, pedisse para circular seu movimento por outros lugares.” Para a primeira publicação em português da obra Gabriel Mwene Okundi foi acrescentado ao volume o texto em prosa Aprender a dar, aprender a receber, que é um verdadeiro testamento poético em vida de Okundji. Publicação da Ars et Vita. Você pode comprar o livro aqui.
A Zona Franca de Manaus atraiu para o
Amazonas milhares de migrantes em busca de uma vida melhor. Era símbolo do
progresso. Sem recursos, a família de Sol, protagonista de Degola, vai
morar em uma ocupação. Quando chovia, tudo virava barro, e era com ele que Sol
modelava pequenas criaturas que depois esmagava. Era gostoso destruir o que ela
mesma havia criado. As galinhas ficavam em redor dela, estranhando a menina,
temerosas. Aquele lugar tinha mesmo fama de perigoso. A vida de todos e de tudo
— humanos, animais, plantas, solo, água e ar — era violentada. Já adulta, Sol
sabia que precisava desfazer, ao menos em parte, o que dela foi feito quando
criança. Aprender a nadar se torna o caminho para essa transformação. Um rito
de passagem, que a autora descreve com beleza e originalidade magníficas. Degola
é um delicado exercício de imaginação e de linguagem. A precisão e a
incisividade da poesia se combinam com a complexidade narrativa do romance. O
resultado é um pequeno milagre da escrita. Publicação da Companhia das Letras. Você pode comprar o livro aqui.
Uma investigação sobre o emaranhado
do poder na Itália dos anos 1970.
Itália, 1978. O homem que
conduziria uma ampla coalizão política não chega ao Parlamento no dia da
histórica votação. Aldo Moro, presidente do Partido Democrata Cristão e
ex-primeiro-ministro da Itália, fora sequestrado pelas Brigadas Vermelhas. Ao
longo de 55 dias de cativeiro, políticos, familiares, imprensa e até mesmo o
papa discutem sobre sua condição: negociar com os sequestradores ou aceitar seu
destino? Ao dissecar o que foi dito e, sobretudo, o que foi silenciado nas
cartas de Moro e nos comunicados das Brigadas, Leonardo Sciascia revela que
outra saída era possível. Entretanto, havia interesse em manter Moro vivo? Mais
do que um episódio da história italiana, O caso Moro é uma investigação
sobre o poder. O livro tem tradução de Federico Carotti; publica-se pelo Selo
Manjuba. Você pode comprar o livro aqui.
Uma meditação sobre o diálogo
Fedro, de Platão, e especialmente sobre o modo como nele se pensa a dupla
natureza de eros.
Eros é uma forma de “loucura” — um
desejo de posse e um perder‑se num mundo de ilusão —, mas é também “divino”,
uma experiência da beleza que desperta a alma para a interrogação da verdade. O
fio dessa meditação é dado pela discussão da relação entre filosofia e poesia,
do carácter poético‑literário do texto platónico e da origem das imagens
platónicas de eros nos poemas de Safo e em toda a tradição poética dos gregos.
Esse fio leva também à reflexão sobre múltiplos ecos das questões platónicas em
autores como Nietzsche e Proust e, acima de tudo, sobre a interpretação do
Fedro nas obras de Hegel, Heidegger e Thomas Mann. Desta forma, o livro faz
pensar no eros platónico como uma experiência surpreendentemente moderna de
subjetivização e autenticidade — mas, ao mesmo tempo, como uma experiência da
beleza e da verdade que devemos questionar se não estará irremediavelmente
perdida para nós. Três Discursos sobre Eros, de João Constâncio, é uma
das obras que integram a coleção de livros Ensaio Aberto publicada pela Tinta-da-China Brasil. Você pode comprar o livro aqui.
REEDIÇÕES
Dedicado às netas Lucia e
Margarida, este foi o último dos livros de Lygia Fagundes Telles a ser escrito
pela autora antes de sua morte, em 2022.
Lançado em 2007, Conspiração de
nuvens foi o último livro escrito por Lygia Fagundes Telles, autora de
obras-primas como As meninas e Ciranda de pedra. Composto sob o
impacto da morte de seu único filho, Goffredo, ela reuniu em livro textos
autobiográficos, experimentos ficcionais e crônicas que recorrem a lembranças
pessoais para registrar o que havia de mais poético e caro em sua vida — apesar
do luto. Segundo Lúcia Telles, que assina o emocionante posfácio a esta edição,
“o que a deixou em pé pronta para a luta foi sua criação, sua literatura. Foi
assim com este livro, que trouxe para a escritora, para a mulher, para a mãe e
para a avó, a possibilidade de continuar viva”. Com revisão da autora e textos
de Ignácio de Loyola Brandão, Ubiratan Brasil e outros jornalistas sobre a
recepção do livro à época de sua primeira publicação, esta edição de Conspiração
de nuvens traz de volta aos leitores a possibilidade de acessar a vida e os
pensamentos de uma escritora essencial para a literatura e história
brasileiras, em sua versão definitiva. Esta é também uma de suas obras mais
pessoais, com histórias de família e reflexões próprias sobre literatura,
política e a vida, numa seleta de crônicas, contos e memórias. Publicação da
Companhia das Letras. Você pode comprar o livro aqui.
RAPIDINHAS
Milton Hatoum imortal. O escritor é agora um integrante da Academia Brasileira de Letras; foi eleito no dia 14 de agosto para a cadeira deixada por Cicero Sandroni.
Romance de estreia de Eugen Weiss
em nova edição. O livro, também o primeiro de Weiss, veio a público quando o
escritor contava setenta anos e chegou aos finalistas do Prêmio Jabuti em 2017;
agora, Tristorosa ganha caprichada reedição pela editora Quelônio.
Mais das memórias de Patti
Smith. As livrarias estadunidenses recebem em novembro Bread of Angels,
o livro que acompanha a trajetória da multiartista desde a infância até o
estrelato no punk rock. A obra marca os 50 anos do disco Horses e
chega aos leitores brasileiros no primeiro semestre de 2026 pela Companhia das
Letras.
Catulo & Horácio. A
Ateliê Editorial prepara a publicação de uma antologia reunindo textos dos dois
poetas romanos organizada e traduzida por Trajano Vieira. O livro integrará a
Coleção Clássicos Comentados.
DICAS DE LEITURA
1. O tambor, de Günter
Grass (Trads. Lúcio Alves e Rachel Valença, Nova Fronteira, 608p.) A
vida de Oskar, interno de um hospício, marcada pelo desejo perene de não
crescer se tornou um marco da vida adversa numa Alemanha marcada pelo colapso
moral e social. Você pode comprar o livro aqui.
2. Caminho de pedras, de Rachel
de Queiroz (José Olympio, 176p.) Uma mãe decide se integrar em uma nova célula
composta com a missão de atuar contra o fechamento dos primeiros caminhos da
liberdade com o levante do governo Vargas que resultaria na ditadura militar. Você pode comprar o livro aqui.
3. A voragem da expressão,
de Francis Ponge (Trad. Jorge Coli, Editora da Unesp, 168p.) Uma coletânea que
reúne poemas em prosa, rascunhos, reflexões sobre poesia e fragmentos de correspondências
de um ícone da poesia francesa do século XX. Você pode comprar o livro aqui.
VÍDEOS, VERSOS E OUTRAS PROSAS
Ainda a Imprensa Nacional de
Portugal. Na edição passada deste Boletim, recordamos algumas publicações digitais
oferecidas pelo selo português da obra e seu entorno de Camilo Castelo Branco,
escritor que alcançou o bicentenário neste ano de 2025. Nesta semana, a casa
disponibiliza, no formato de edição crítica quatro títulos de outro nome incontornável
da literatura de língua portuguesa, Almeida Garrett. Coordenada por Sérgio
Nazar David, a edição reúne O corcunda por amor, Tio Simplício, Falar
verdade a mentir e O Conde de Novion. Está disponível aqui.
BAÚ DE LETRAS
Günter Grass? Recorde por aqui
este breve perfil do escritor alemão. Foi publicado aqui no Letras em
abril de 2015 e com ele, você encontra outros caminhos em torno da obra
e da biografia de Grass encontrados até então neste blog, incluindo um texto polêmico em que em tempos muito distante já denunciava o perigo de Israel.
Ted Hughes nasceu no dia 17 de agosto
de 1930. Dentre as passagens do poeta inglês pelo Letras, recordamos a
de janeiro do ano passado, quando nosso colunista e também poeta Pedro Belo
Clara nos brindou com cinco poemas do livro O falcão à chuva. Para dizer
que não deixamos de um todo de repetir a
circularidade dos calendários.
DUAS PALAVRINHAS
A literatura vive da crise,
floresce entre os escombros e sua função é profanar cadáveres.
— Günter Grass
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