As marcas do vampiro em Virgínia mordida, de Jeovanna Vieira

Por Vinícius de Silva e Souza




Em sua estreia no romance, Jeovanna Vieira consegue algo invejável: pegar o leitor e deixá-lo incapaz de não concluir o livro — algo que, recentemente, aconteceu comigo apenas com a leitura de A vegetariana, de Han Kang. Virgínia mordida, à primeira vista, parece um romance nichado, mas é justamente nesse aspecto que reside sua principal qualidade: o ritmo próprio e sua narrativa, que é a história de uma mas também de tantas pessoas ao mesmo tempo. 

Como os começos dos feminicídios nesse tempo recordes, o começo da história é quase o mesmo: uma mulher presa a um relacionamento abusivo que escala a violência até os níveis mais extremos. Nos casos mediatizados, quase todas as vezes, fatais. Não é o caso de nossa protagonista. Por mais verossímil que fosse, uma narrativa de abuso e machismo concluir-se com a morte da vítima, muito facilmente, ficaria esvaziada de sentidos para além da denúncia, por isso, sabiamente, o romance de Jeovanna Vieira explora, sim, a violência do relacionamento que retrata para os níveis mais extremos, à sua maneira, e fixa-se na cena mais simbólica e chocante (e que também explica o título da obra).

No entanto, a atitude de Henrí sobre Virgínia no táxi não se restringe apenas ao plano físico e literal; atua em plano figurado, tanto pelo ato cometido quanto pelo seu alvo. Como um vampiro ao contrário, o homem já vinha sugando a mulher desde o princípio: a paciência, a sanidade, a segurança, a saúde mental e, na derradeira mordida, conclui o processo de esvaziar a vida da protagonista. Quer dizer, vampiro ao contrário, porque se exerce no movimento contrário da figura clássica de um vampiro que apenas durante a mordida exerce a sucção. 

O fato do ato ter ser concretizado não no pescoço, mas na vagina da personagem, não poderia ter sido mais certeiro: a fera ataca exatamente no local onde sua dominância é exercida ao máximo, justamente no maior objeto de desejo do homem, ou homem-fera como ele. É evidente a marca que deixa em Virgínia após esse ato que encerra de vez um ciclo do qual a protagonista não conseguia sair, evidenciando o que ocorreu ali: se não um feminicídio literal, configurou-se em um figurado por funcionar como o assassinato de algo profundo, dentro de Virgínia.

Se, quando pensamos relacionamentos abusivos, logo prospectamos mulheres em formação, reféns não só dos homens, mas também de uma ingenuidade comum à certos períodos da vida, Virgínia e sua maturidade, sua altivez e independência nos mostra que mesmo conquistas tão caras às mulheres não as liberta do fantasma que as assombra em toda parte e ao longo das suas vidas. 

De maneira perspicaz, o romance de Jeovanna Vieira oferece o círculo social da sua protagonista com diversas mulheres, toda uma rede de apoio que incessantemente alerta Virgínia da sua situação, mas mesmo isso (e também o famoso histórico de Henrí) não é suficiente para quebrar a cegueira dessa mulher, refém da vontade mais básica do ser humano: amar e ser amada.  

Muito chama atenção a conclusão do romance, que deixa uma ânsia por mais, algo admirável em um livro que tanto entrega, de maneira tão intensa, em tão poucas páginas, mostrando um bom domínio na arte de escolher como contar e como parar de contar. Virgínia não narra de maneira confessional e dramática, como alguém que sofreu e agora nos conta exatamente o quê e como aconteceu, mas sim com mecanismos interventores que aliciam e enriquecem a construção da prosa. 

Uma excelente estreia, nos deixando ansiosos pelo que mais Jeovanna Vieira poderá nos apresentar nos próximos livros.


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Virgínia mordida
Jeovanna Vieira
Companhia das Letras, 2024
192 p.

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