A palavra-legado de Noemi Jaffe

Por Gabriella Kelmer

Noemi Jaffe. Foto: Zanone Fraissat

Em Te dou minha palavra, obra publicada pela Companhia das Letras em 2025, Noemi Jaffe desvela-se, na epígrafe, na figura de um mosquito embevecido pela atração incômoda e perigosa de um vulcão em erupção, do qual consegue se afastar atabalhoadamente. A analogia se torna clara à medida que o texto avança, refigurando-se nos trens, nas menções ao campo de concentração, no cotidiano da família judia e trabalhadora do Bom Retiro, no espraiamento identitário por músicas, filmes e livros da menina filha de sobreviventes do nazismo, para quem a cultura e a rebeldia são réplicas potentes. Remanescente de uma vivência autoficcional reelaborada desde os seis, os oito, os onze, os quatorze anos, funciona o passado de vórtice para uma discussão complexa e refrativa do tempo. O mosquito é ela, autora e narradora, mas também a criança que ela foi; o vulcão é o fascínio exercido simultaneamente pela história da catástrofe que resultou na mudança dos pais da Polônia para o Brasil, pela infância e adolescência, vividas durante o período mais exuberante da cultura brasileira, ainda sob jugo ditatorial, e por um interesse ineludível pelas palavras, sua potência, seu mistério, o que nelas fica inscrito das identificações que compõem o contexto multicultural de onde vem a autora. 

A obra se realiza em duas partes e em uma série de capítulos, tendo sido indexada pela editora como “ensaios”. É verdade que há a iniciativa ensaística, perscrutadora de termos e traduções, comentadora de autores e compositores e dadas passagens, mas o refazimento do passado, a estetização biográfica, a narração inventiva (e sem dúvidas completiva) e a aparição enternecedora do insólito são marcas de uma indiscutível autoficção, constituída a partir do hibridismo de gêneros — além do ensaio, há marcas estilísticas e estruturais do diário e do conto, assim como do romance, este justificado por um mesmo compasso fragmentado que não impede a narrativa de avançar e encerrar seu propósito unitário, bem como pela diversidade de vozes, tons e formatos e por uma mesma e fugidia imagem poliédrica, resultante da soma das múltiplas faces da personagem-narradora-autora que se apresentam ao leitor.

“O corpo vai pendendo para baixo, e lá embaixo encontro uma menina. Desde que ela descobriu, com quatro ou cinco anos, que seus pais eram sobreviventes de uma guerra contra os judeus e que sua mãe guardava numa caixa dentro do armário um diário escrito na Suécia – um diário que ela só podia olhar mas não ler, já que nem ler ela sabia, e o diário estava escrito em i-u-g-o-s-l-a-v-o –, essas vidas viraram histórias e as pessoas, personagens. A menina vivia nessas histórias e não prestava para a realidade” (Jaffe, 2025, p. 11).

Os dois momentos da obra resultam de experiências distintas. A primeira, “Palavras da família”, diz respeito às línguas que circundam o lar multilinguístico no qual o iugoslavo, o ídiche, o húngaro, o hebraico e o alemão, idiomas a que o português se soma como identidade e estrangeirismo inescapável, servem para propósitos diferentes, aludindo à vivência religiosa, aos mistérios do ocultismo, à sobrevivência de um povo perseguido, aos ditados, aos trava-línguas. Inscrevem-se nessas manifestações os pais da família Jaffe; são eles, já ausentes no presente da narração, quem preenchem de afeto e de sentido os idiomas com que brinca e se enternece a narradora. O pai, a quem é dedicada a obra, viveu por anos no campo de trabalho; a mãe, geradora de apagamentos da história familiar tão cortantes quanto bem-intencionados, sobreviveu ao campo de concentração e à tortura. Tendo sido vitimados pelo genocídio, os dois personificam formas diferentes e contraditórias da existência após a experiência catastrófica: o pai lembra obsessivamente e, em alguma medida, não pode abandonar o passado vivido; a mãe, depois de registrar as memórias em diários, recusa o exercício da memória, caminhando para o futuro sem cerimônias de despedida. É a filha quem segue as pistas deixadas na mediania entre uma posição e outra; sem dizer ou lembrar tudo, não se pode evadir do que passou (e que se manifesta em retratos, em diários e em anotações transpostos à obra).



A segunda parte, “Palavras dos outros”, afasta-se um pouco mais da perspectiva dos pais, embora eles permaneçam como figuras centrais das quais a menina e a adolescente deliberadamente rejeitam e acolhem. Fulguram as experiências formativas para além da vivência familiar, constituindo essa parte como um mosaico de referências culturais que estruturam muitos capítulos: Demian revela a relação da menina com a obra do alemão Hermann Hesse, fonte de um deslocamento definitivo na concepção infantil do bem e do mal; O eu profundo e outros eus é uma discussão dos heterônimos pessoanos, que servem à oposição entre a irmã (Caeiro) e a narradora-personagem (Campos), iniciando ainda uma difusão identitária que leva à criação de heterônimos próprios; Refazenda se inicia com a canção homônima de Gilberto Gil, partindo daí para refletir sobre o corpo, a convenção, o prazer do presente, o desejo e o medo irresistíveis da indocilidade e da insubordinação. Em cada uma dessas menções, a que se somam Maria Bethânia, Chico Buarque e Milton Nascimento, o romance Meu pé de laranja lima, “O poema em linha reta”, Guimarães Rosa, Charles Chaplin e a versão cinematográfica de A cartomante, a perspectiva é de metamorfose, servindo a cultura para as descobertas do eu em formação. As palavras, os poemas e o prazer da linguagem se tornam marcas da adolescente de outro modo pouco afeita aos estudos. 

“Dormindo, eu sonhava com trens e navios: trens que nunca chegavam, que subiam para as nuvens em vez de prosseguir nos trilhos, estações abandonadas onde minha mãe se perdia, pessoas loucas pulando das plataformas, no mar, nos trilhos. Estações e portos: aportar, abordar, aguardar, os uniformes, o quepe, marinheiros, pessoas cuja vida é não estar — por opção ou pela força das circunstâncias —, palavras e lugares vagamente presentes, que parecem pertencer mais à memória do que aos mapas, eram parte da memória dos dois, mas quem sonhava e se lembrava deles era eu. Guardo lembranças vicárias e, por dona Lili se dedicar ao esquecimento e me encarregar de lembrar o que ela precisou esquecer, lembro da vida dela mais do que ela mesma era capaz. São lembranças alimentadas por poemas, pelos dramas do meu pai, por histórias lidas em outros livros e por lugares onde estive: museus, cidades e, principalmente, Auschwitz e Strasshof, confirmações assustadoras do que eu imaginava desde pequena” (Jaffe, 2025, p. 63).

Há um trabalho linguístico inconfundível, artístico, de alguém que afirma serem “Línguas e palavras como ossos, estruturando o corpo e o mundo, como se eu morasse nelas” (Jaffe, 2025, p. 29). A narração oscila entre o pretérito e o presente, tanto refletindo sobre o que passou como solidificando a impressão da permanência do vivido; ela também revolve terreno dormente, concebendo zonas difusas à experiência que não são inteiramente elucidadas, por onde age o esquecimento, ou a reticência (aliás internamente discutida). A reinvenção do mundo a partir da arte, o desejo da diferença e da revolução socialista, o pavor do sexo e a imoralidade do corpo se mostram sinais de uma autenticidade transitiva, que permite o acesso à vivência muito particular da geração que se sucedeu ao horror nazista, acomodando-se a um novo mundo de cultura e de costumes e experienciando um tempo — os anos 1960 e 1970 — em que pensar o futuro ainda era possível. Em todas essas instâncias, consolida-se o ato de revelar os próprios falseamentos, de contabilizar os próprios excessos, de determinar a origem de si, o que corresponde à expectativa e à coragem necessárias ao exercício autoficcional.

Logo após a epígrafe da obra, antes de se iniciarem as partes já discutidas, um capítulo não nomeado revela a chegada da velhice — ainda no gerúndio — como condição para a escrita. São o rosto e as rugas, assim como um grave acidente doméstico, os responsáveis pela reescrita do passado, e é o envelhecimento comparado às travessias de Riobaldo, no intransponível e imenso Liso do Sussuarão, e dos hebreus, no deserto entre o Egito e a Terra Prometida. A comparação, que estabelece vínculo entre as agruras e as penitências do ambiente e o sofrimento intrínseco do gradual padecimento do corpo, revela em alguma medida uma dor interna tanto genuína quanto hiperbólica, assumindo a autora, capítulos e capítulos mais tarde, que desejou poder resistir e viver, como viveram os pais, em “uma aventura de resistência, em que tudo fosse difícil, com obstáculos intransponíveis para a protagonista enfrentar” (Jaffe, 2025, p. 161).

 Estão aí delineados, em dois atos distantes na obra, a narração como forma de compreender e enfrentar o mundo. Se há, de um lado, o desejo de ser ela mesma sobrevivente, de compartir com os pais um heroísmo que eles mesmos negavam, também se manifesta, de outro, o impulso criador que torna possível a ficcionalização do passado e a estetização da vida. A velhice, diferentemente dos obstáculos externos — a perseguição nazista, a mudança de país, a travessia do ambiente inóspito –, talvez não submeta o corpo ao movimento e à escassez, mas estabelece a necessidade, irresistível como a atração do vulcão, de estabelecer a fatura de toda uma vida, na qual se descobrem outras tantas experiências e símbolos, assim como a somatória de muitas dores.

“Nunca iria se esquecer do diário da mãe, até no sexo ou lavando louça. Seria como se o diário tivesse sido escrito não para ela, como sua mãe dizia, mas nela. Ela seria escrita em sérvio e traduzida para o português. Com ashkazém e tudo” (Jaffe, 2025, p. 192).

O último capítulo da obra chama-se “Começo” e retoma, como se pode inferir, alguns dos elementos do início, voltando à velhice e ao confronto com o passado de que ela é condição. Começar é também, na obra de Jaffe, uma maneira de estabelecer a concretização do legado, de realizar uma promessa necessária, e continuar. Fiquei profundamente tocada durante a leitura nessa porção da obra, que, embora criticamente comentada pela autora como um certo “final feliz” (que não pretendo revelar), diz muito do que mais me atraiu na experiência: a evidenciação do empreendimento humano e criativo pelo qual as coisas ganham sentido, relações, peso. Talvez seja verdade que foi o Álvaro de Campos que outrora ensinou a uma menina a rebeldia, o pensamento, o desajuste, ou talvez essas coisas já fossem nela viventes antes dele e de sua oposição ao acesso imediato ao mundo de Caeiro; os sonhos com navios e trens podem ter acontecido com a frequência sugestionada, ou foram fabricação estabelecida a posteriori; os poemas autorais transcritos podem ou não ter sido refeitos a partir da visão mais polida, mais madura da professora de literatura que escreve no presente. Fato é que isso importa menos do que o resultado dessas operações, do que a iniciativa subjetiva que se revela na seleção do texto, do heterônimo, dos símbolos, do significado a tudo atribuído. É a inteligência, a criatividade, a ação humana de atribuir formato e linguagem à experiência o motivo central porque recomendo a leitura, conquanto seja ela ainda recomendável por muitas outras e já elucidadas razões.


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Te dou minha palavra
Noemi Jaffe
Companhia das Letras, 2025
208p.

 


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