Algumas palavras sobre Orbital, da Samantha Harvey

Por Vinícius de Silva e Souza




Samantha Harvey não poderia ter encontrado título mais apropriado para o seu mais recente e premiado romance. Orbital, que chegou aos leitores brasileiros pela editora DBA, com tradução de Adriano Scandolara, sintetiza a sua composição: muito mais do que apenas se referir a o que os protagonistas estão vivendo, habitando uma estação espacial a milhares de quilômetros distante da Terra, a palavra também refere os movimentos desenvolvidos pela própria narração de um romance de expressão lenta e contemplativa, sempre girando nos mesmos personagens fazendo as mesmas ações.

Como um planeta cumprindo os seus ciclos.

Os protagonistas são Roman e Anton, da Rússia; Chie, do Japão; Nell, do Reino Unido; Pietro, da Itália; e Shaun, dos Estados Unidos. Tamanha mistura poderia ser um desafio para qualquer escritor, levando em conta o manejo de figuras de culturas tão diferentes entre si. No entanto, é no deslocamento e na variação que Samantha Harvey contorna as possíveis falhas, pois tudo que sabemos dos protagonistas é o que vemos de fora (suas tarefas repetitivas de observar plantas e bactérias, examinar sangue e cuidar de camundongos), com apenas alguns vislumbres de suas interioridades (igualmente repetitivas). 

O narrador escolhe apenas passar pelos personagens, sem mergulho, e conciliar descrições dessas figuras com descrições dos movimentos externos à estação espacial, como quem observa tudo de cima, o que caracteriza-o propriamente como também um astronauta de outra estação acima desta em que transcorrem as ações. E aqui podemos especular este como um Deus ou algo do gênero, mas o vejo semelhante a uma força mais abstrata, talvez o próprio Universo em si. Orbitando coisas que orbitam outras coisas dentro dele próprio. Eterno movimento circular repetitivo.

A ausência de um enredo propriamente dito justifica a comparação da autora com Virginia Woolf, mas, pelo menos nesta obra, Samantha Harvey mostra-se muito mais visual do que interessada, como dissemos, no interior dos personagens. E isso aproxima Orbital de um filme contemplativo, de movimentos curtos, fotografia trabalhada e ações singelas. Distante de Mrs. Dalloway, por exemplo, mas bastante próximo, em seu próprio jeito, de As ondas.

Segundo romance mais curto a vencer o prestigioso prêmio Booker, Orbital engana com a sua pouca quantidade de páginas, pois uma vez que nele mergulhamos, e feito em sua total completude, atenção e devoção às palavras de Harvey, é imensa a quantidade de significados e de beleza extraídos desta primorosa obra.


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Orbital
Samantha Harvey
Adriano Scandolara (Trad.)
DBA Editora, 2024
178 p.

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