As máximas de Ptahhotep
Por Afonso Junior
Saiu entre nós uma nova tradução das máximas de Ptahhotep, a cargo do doutor em teologia pela Universidade de Bonn, Alemanha, frei Volney José Berkenbrock. A coleção Sabedoria Universal, na qual a obra foi inserida, traz a produção sapiencial de diversos povos, do filósofo chinês Confúcio ao ensaísta libanês Khalil Gibran.
Ptahhotep era o administrador geral do faraó Isesi (da quinta dinastia egípcia, governou entre 2414 e 2375 a.C.), cuidava dos bens, dos milhares de funcionários e da justiça, o que depois se chamaria de vizir. No século XIX, um engenheiro e arqueólogo de origem francesa, Prisse d'Avennes, comprou, próximo a necrópole de Tebas, um papiro com uma cópia das máximas do vizir (“ensinamentos” diz o papiro). No seu “prólogo”, anuncia o rei: “Ensina primeiro o discurso! Assim, ele será um exemplo para os filhos dos altos funcionários”.
Os “discursos” curtos e diretos ensinam o comportamento adequado, mas também o comportamento que corresponde à Ordem cósmica — Maat. “Maat é grande, sua ação é contínua [...] Castiga-se aquele que desobedece às leis dela” (5). Eles nos dão um vislumbre da filosofia anterior aos gregos, tão misturada a um cosmos habitado pelo divino quanto um Timeu de Platão. O pesquisador José Carreira pensa que a “domesticação espiritual” faz parte de um conjunto de regras (como a domesticação de animais e o cercamento dos campos) que se seguiu à criação de Estados ordenados (cerca de 3000 anos antes de Cristo).
As máximas reunidas giram em torno da adequação — pois “a antecâmara do rei tem uma norma” (13), o autodomínio — “olha pela tua boca e domina o coração” (24); e discorrem de moderação e de como controlar o vício da ganância. São inúmeros os conselhos muito práticos: “A resistência surge quando alguém se sente prejudicado” (34); “O respeito que se tem diante dos mansos é maior do que se tem diante dos rigorosos” (20). Por outro lado, temos uma filosofia que ilumina o cotidiano: “Uma mulher alegre traz boa sorte” (37).
A fala e a escuta são ações que exigem extrema atenção: falar o que é necessário e silenciar com respeito evitam a humilhação e a ira dos poderosos. Pois “saber ouvir está acima de tudo” (epílogo). Esse tipo de adiamento de impulso está presente também nos ensinamentos dos estoicos, de Zenão de Cítio (século III a.C.) a Sêneca (século I).
A tradução agora apresenta privilegia uma linguagem próxima, refletindo a escrita direta do sábio — reflete sobre um “temperamento esquentado”, uma “cara fechada”, ou o “ataque de raiva”. A verdade (Maat), é o “âmago mais íntimo da ética egípcia” (Carreira, p. 110), pois o que importa é ser “conforme a ação de Maat” e as honrarias advém “da realização de Maat para o rei” (epílogo).
Para quem estuda a filosofia posterior, essas máximas são uma janela ao diálogo interior egípcio (com seu Ka ou a vitalidade individual) e à ideia de ética cósmica, depois retomada, por exemplo, pelos estoicos com seu Pneuma divino que qualifica os movimentos do fluxo material. E para quem duvida das influências dos povos anteriores, convém lembrar deste fragmento de Clemente de Alexandria: “Zenão falou bem dos indianos” [...] (Stoicorum Veterum Fragmenta, 1.241, von Arnim).
Na cosmologia egípcia, a deusa Maat é quem auxilia o Sol a revitalizar o mundo continuamente. E, se o Sol é o princípio que tudo permeia no Egito (depois enfatizada na teologia do faraó Akhenaton), o Fogo divino é o deus que tudo dispõe na filosofia estoica.
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As máximas de Ptahhotep
Volney Berkenbrock (tradução, notas e comentários)
Editora Vozes, 2026
72 p.
Referências:
CARREIRA, José Nunes. Filosofia antes dos Gregos. Lisboa: Edições Europa-America, 1994.
VON ARNIM, Hans Friedrich August. Stoicorum veterum fragmenta. Stuttgart: In Aedibus BG Teubneri, 1905, vols 1 e 2.
CARREIRA, José Nunes. Filosofia antes dos Gregos. Lisboa: Edições Europa-America, 1994.
VON ARNIM, Hans Friedrich August. Stoicorum veterum fragmenta. Stuttgart: In Aedibus BG Teubneri, 1905, vols 1 e 2.

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