Os monstros da nação em A febre, de Marcelo Ferroni

Por Douglas Sacramento


Marcelo Ferroni. Foto: Chico Cerchiaro



Ao pensarmos em nação, alguns símbolos surgem de forma imediata: a bandeira, o hino, os feriados nacionais — como o 7 de setembro. Mas, existem narrativas que estão escondidas ou silenciadas quando pensamos na historiografia de um país. Lidamos com um campo de batalha entre lembrar e esquecer. A literatura, enquanto gestora e movimentadora de narrativas, pode tanto atestar a história oficial — varrendo para debaixo do tapete versões dissidentes — quanto trazer novas possibilidades de compreensão do país e da construção da nacionalidade.
 
Rachel Esteves, no ensaio “Literatura em regime de urgência no Brasil pós-2013”, faz um mapeamento da produção literária contemporânea e sua relação com as questões políticas do país. Para isso, a pesquisadora estabelece um período histórico que vai da Queda do Muro de Berlim, na Alemanha, em 1989, passando pelas Jornadas de Junho de 2013, culminando no impeachment da então presidenta Dilma Rousseff, no Brasil, em 2015 — acontecimentos importantes para compreender a ascensão da extrema direita no nosso país. Esteves denomina essas produções de “literatura de urgência”, caracterizada por uma situação em que o escritor no limite precisa tomar partido, produzindo narrativas que apresentem outras versões dos acontecimentos em curso. 

Esse contexto na literatura brasileira contemporânea marcado por um olhar atento e um questionamento crítico das nuances da política nacional está no cerne da obra de Marcelo Ferroni. Vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, em 2011, com Método prático da guerrilha, e do Prêmio Jabuti, em 2021, com Corpos secos, o escritor paulista publicou A febre em 2023. Este é um romance que aborda a pandemia de Covid-19 e a ascensão da extrema direita no Brasil, tendo como figura basilar a representação do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro.

Ambientado no Rio de Janeiro a narrativa de A febre acompanha Marco, quando recebe uma ligação da madrasta pedindo que vá ao apartamento do pai, Abel, para cuidar dele enquanto ela se afasta por apresentar sintomas de Covid-19. Desde o início, algo estranho ronda a casa e a figura paterna. Depois de alguns acontecimentos perturbadores Marco é levado a chamar o irmão Cláudio. Juntos, os dois passam a viver sob o sobrenatural que cerca a casa, o pai e a pandemia.

Concomitantemente, essa experiência se articula com a história política do país: Abel representa os horrores da ditadura militar; Cláudio surge como a reatualização dessa época — é um bolsonarista; e Marco, por sua vez, tenta apagar e esquecer esses acontecimentos, mas a partir de um “jeitinho brasileiro” de compreensão da história da nação, ora concordando, ora repudiando o passado nefasto que envolve a família. 

Em paralelo a essa experiência aterrorizante vivida pelos irmãos, temos Joana, irmã de Marco e Cláudio, uma lésbica, de esquerda, que mantém uma relação conturbada com a família. Afastada desse âmbito, Joana vive da agricultura familiar e seu corpo carrega as marcas de violências familiares; ela foi maltratada e espancada pelos próprios irmãos na adolescência, Depois de sonhar com a mãe morta, sente que precisa visitar o apartamento do pai, como se algo a chamasse de volta àquele espaço carregado de memórias e horrores.

Antes do enredo até agora resumido, o que chama a atenção é o título do romance e a febre é, nesse caso, entre as múltiplas nuances de leitura, um dos principais sintomas da Covid-19 e a metáfora de um país adoecido pela política negacionista de um governo de extrema direita. Além disso, a casa — espaço que remete ao passado e ao presente da nação — parece derreter sob o calor dessa febre, mostrando que sua estrutura é frágil. É logo nas primeiras páginas que descobrimos como a narrativa nos dita como é a casa: 

“A ilustre família, ilustre como as mais respeitadas de bem, acumulou tantos ódios ao longo dos anos que a própria casa se tornou ressentida e venenosa. A porta dos fundos está morna ao toque e resiste à pressão de dona Inez, como se estivesse colada. A cozinha está escura, mas escura que a manhã. E parece não só quente, como também úmida. Ela tranca a porta depois de entrar, guarda as chaves e aperta a bolsa contra o peito. Há pratos, talheres e panelas amontoadas na pia, e um leve cheiro de podre, talvez da lixeira mal fechada.” (p. 9)



Se a figura do pai significa os horrores da ditadura e a figura do filho mais velho, sua perpetuação — como mostra o discurso repercutido por Bolsonaro e seus apoiadores —, a casa funciona como um espaço que abriga verdades prestes a emergir. Em A febre, os mortos querem vingança; os mortos que Abel ajudou a dar fim enquanto trabalhava para os ditadores, e os mortos da pandemia, vítimas da política negacionista que encontra eco em Cláudio. 

“Os mortos escapam pra a superfície e se arrastam até a velha empregada. Ela se vira na direção da saída, ouve suas respirações pesadas, precisa fugir, mas as mãos tremem ao buscar as chaves na bolsa. O cheiro do lixo fica mais forte, é cheiro de peixe estragado e fezes e cadáveres de frango. Um corpo suado está ali atrás dela, depois de décadas preso na escuridão. Inez encontra as chaves emboladas, os dedos não têm forças para envolvê-las. Uma maré oleosa, de coisas guardadas, mas não esquecidas, a atinge e sobre pelas narinas.” (p.11)

As monstruosidades e o sobrenatural presentes no romance mantêm uma ligação direta com os acontecimentos postos à prova quanto à sua veracidade. A saga vivida pelos irmãos para cuidar do pai mostra a fragilidade do vínculo familiar, mas, principalmente, o caráter reacionário de Cláudio e a complacência de Marco — que não questiona nem confronta, mas acaba reproduzindo determinados discursos estruturais de violência. Isso fica evidente, por exemplo, quando Marco confunde um médico negro com o motorista da ambulância: 

“Confundiu o paramédico com o motorista, é verdade. Marco é uma pessoa que admite os erros. É que tem tanta coisa na cabeça nesse momento, tanta maldição do passado, insepulta, surgindo a cada passo que ele dá naquela casa, que está difícil conciliar a sanidade, pensar de forma clara. Mas tentou se corrigir, não tentou?” (p. 134)

Se o leitor acompanha essa dinâmica entre o sobrenatural e a história do Brasil, Joana seria um ponto de combate da narrativa. Em uma passagem, a narrativa de A febre expõe quando os irmãos a agridem — clara alusão aos horrores vividos pelos torturados no período da ditadura. Aqui, um horror que culmina em delegacia e em mais violência, agora legitimadas pela figura paterna. Abel, o pai, apoia os filhos e reafirma ao mais velho a ideia de que mulher precisa de corretivo, isto é, de punição física: 

“Sentiu as canelas arderem, imobilizadas. Gritou e chorou, uma membrana cobria seus olhos, ela puxava o ar e uma parede de plástico impedia a respiração. Cláudio tinha visto num filme, os soldados estavam a vítima na cama e acertavam sua com o sabonete enrolado numa toalha. O saco plástico na cabeça foi seu toque pessoal. Ela gritou sufocada, gritou e chorou, engasgou, enquanto as toalhas pesadas desciam com força.” (p. 184)

Assim, ao retornar ao apartamento após sonhar a mãe morta, Joana confronta a tríade masculina de seu núcleo familiar e materializa as metáforas que atravessam o romance. O desfecho é em aberto e, de certo modo, esperançoso: a entrada dessa mulher em um espaço dominado pela extrema direita ocorre justamente no momento em que a casa — e o país — se deteriora, arrastando consigo seus milhares de mortos, que também parecem invocar vingança. A figura femina adentra esse espaço em busca de mudança e luta contra a apropriação dos símbolos da nação feita pela direita. 

“A mãe está de novo com ela e as sombras avançam. Joana ouve os grunhidos das tias e a celebração do patriarca, vê a raiva se erguer, vê os fantasmas, ela sabe que não dá para fugir, eles crescem e se encharcam, incham a casa de ódios antigos. Cantam o hino e ganham as ruas, cidadãos de bem que mastigam e mordem, cada família tem os seus escondidos pelos cantos. [...] Quando a porta se escancara pra cuspir seu veneno, Joana se protege com o escudo. As risadas hesitam, os uivos crescem. Joana brande a espada e investe contra a escuridão.” (p. 187-188)

Com A febre Marcelo Ferroni constrói um romance que, além de entreter, convoca o leitor a questionar e repensar um dos períodos mais nebulosos da história recente do Brasil. Neste romance nada é o que parece ser, tudo é muito bem elaborado, e isso o engrandece. Mesmo ao pecar, por vezes, nas explicações de suas imagens metafóricas, o romance se sustenta e se enquadra plenamente na chamada literatura de urgência, porque busca compreender e tensionar esse Brasil dinâmico e fragmentado pelas manifestações sociais diversas do pós-2013.


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A febre 
Marcelo Ferroni
Companhia das Letras, 2023
192 p.

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