A noite das barricadas, de H. G. Cancela

Por Pedro Fernandes

H. G. Cancela. Foto: Adriano Miranda



O que podem a história e a memória ante a invisível e intragável força do tempo? Pela extensão deste século, quando a civilização ocidental começa a vislumbrar as linhas de travessia capazes de inserirmo-nos outra vez em um conjunto tão amplo e variado de transformações, podemos oferecer duas respostas a esta pergunta, uma contrária a outra. 

A primeira é positiva e imprime a certeza de que sem a história e a memória não teríamos chegado até aqui, mesmo com todos os erros e impasses, porque, graças a essas duas matérias, pudemos organizar a complexa realidade e construir perspectivas que nos permitem avançar na consolidação de novos valores na feitura interminável da humanidade. É uma resposta a essa altura até um pouco ingênua, visto que, passível ao esquecimento e à manipulação, a história e a memória podem servir no exato rumo inverso ou de peregrinação circular entre os círculos do mesmo inferno. 

Diante disso, a segunda resposta encontra-se vestida do ceticismo segundo o qual tais mecanismos, se exercem, pouco podem cumprir nos desenvolvimentos da humanidade, sobretudo numa ocasião em que os limites da ordem civilizacional passam às mãos de uma seleta parcela refugiada negativamente em valores que os ignoram porque autocentrados na acumulação do lucro e do poder, linha essencial para as ideologias dominantes, sejam à direita ou à esquerda. Mas também agora descobrimos como isso pode resvalar no conformismo ou relativismo, igualmente (ou mais) caros e perigosos à nossa condição e aos nossos destinos. 

A pergunta e os desdobramentos por entre as diversas outras questões que se abrem nas três bifurcações antes estabelecidas motivam os desenvolvimentos de A noite das barricadas, de H. G. Cancela. Neste romance, o quinto na já consolidada expressão literária do escritor, autor também de poesia, ensaio, crítica e teoria, somos indiretamente confrontados com o discurso aparentemente franco, no modelo do último acerto de contas, de um dissidente da luta armada na África colonial portuguesa. 

Algumas características aqui nos colocam em contato com a literatura de António Lobo Antunes cujo interesse principal foi o de perscrutar as complexidades dos indivíduos sequestrados, voluntaria ou involuntariamente, para a cloaca do Estado — particularmente em romances como Os cus de Judas; ou ainda com Viagem ao fim da noite, de Louis-Ferdinand Céline, encontrado na liberdade discursiva do protagonista ou mesmo no sentido literal, uma vez que este homem qual Ferdinand Bardamu, atravessa, triplamente uma noite: a da história, no rescaldo das vagas revolucionárias do fim do século XX na Europa; a da sua vida, passada sempre na sombra; e a do pensamento, cultivado entre a anarquia, o niilismo e o pessimismo.

O romance de H. G. Cancela, no entanto, possui dicção própria e o indivíduo em questão está fora — ou pelo menos assim se acredita — do diapasão Estado-homem e do lugar do revoltado porque a certa altura se decidiu por conta própria tatear livremente um ponto a partir do qual possa, além de observar os melindres do poder e dos seus opositores, contribuir para a desagregação daquele e desbaratar a farsa em que todos se encontram engalfinhados em nome de ideais tão abstratos quanto ilusórios nas suas existências materiais. E é nesse campo que o romance ataca a história e a memória, a fim de mostrar suas contradições no papel de salvaguardas da humanidade. 

Não é o caso de acusar H. G. Cancela como um autor que, com isso, incentive empurrar a última pá de cal na sepultura daquele papel exercido pela história desde o apogeu do Positivismo ou pela memória desde alguns dos acontecimentos mais traumáticos no século XX. Não. Se há interesse, é fazer ouvir a voz ignorada para percebermos história e memória como, semelhante a qualquer estrutura fundeada pelas mãos dos homens, falíveis e capazes de se exercer como parte da matéria daqueles nossos enganos que chamamos fato, acontecido, vivido, verdade, realidade.

Conduzido em discurso indireto, interceptado por um fio ou outro de diálogo e pelo que é um relato do narrador/ autor, uma vez que este organiza a narração e ao mesmo tempo desenvolve o livro que a contém, o relato de A noite das barricadas é o do Capitão Augusto. Ele reconta a sua vida, incidindo-se por dois interesses específicos. O primeiro deles é o intervalo que marca a sua passagem para a clandestinidade desde quando ao invés de retornar para uma nova missão em África conforme estava designado pelo exército se decide escapar para Paris, de onde, em esquivo convívio com exilados do regime, comanda uma dispersa comuna anarquista cujo interesse é o de sabotar alguns dos pilares da sociedade no âmbito do período final da ditadura em Portugal.

Nesse ínterim, o Capitão explica como usou da confiança obtida na corporação para passar incólume aos controles do Estado; um camuflado, mas alguém que apostou novos alvos, alheios aos perseguidos pela resistência. Aos olhos da ordem, as práticas do que não chega a ser uma organização, é espalhar a desordem, anestesiando os setores que mantêm os indivíduos presos à camisa-de-força de cidadãos; para Augusto uma maneira de agir contra as bases essenciais opressoras que ao seu ver não era especificamente a ditadura, mas o poder. O fim do regime marcaria o início de outro e a recomposição em algum tempo das mesmas forças negativas: o controle e subjugação das pessoas, o enriquecimento desproporcionado das castas, a corrupção etc. O fim do regime reanimaria, assim, outras frentes, talvez ainda piores, porque perfeitamente integradas nas fronteiras da farsa, a mesma que o próprio capitão presencia ao ingressar numa Paris sacudida pelos levantes de 1968. 

Se as atividades dos chamados Comandos — como batiza a imprensa os atentados a bancos, a figurões, a setores e instituições da ordem ou de sua sustentação — não possuem um papel específico, porque o Capitão sabe da impossibilidade de escapar do poder, visto perceber enquanto varia os seus alvos que este não é uma entidade nuclear ou fixa mas pulverizada e movente, elas não são despropositadas, como quer o Estado ou como observará indiretamente a arqueóloga Helena ao entrar em contato com as escabrosas violências (para ela) praticadas por este senhor que ao deixar a prisão diz-se condenado a morrer e para isso cumpre uma última vez a travessia de dissidente entre Portugal e França. É nessa viagem ao lado do filho (narrador/ autor) e a arqueóloga, imposta por ele, que se destrinça todo emaranhado de acontecimentos da vida de Augusto, revelado apenas em certa altura da narrativa, quando deixa a prisão quinze anos depois, por motivos de saúde.

Esse interesse, note-se é dos mais ricos, não apenas pela complexidade de uma vida propositalmente acentuada, dos segredos revelados ao sabor de um acaso também este administrado por este Capitão, mas pelas inúmeras opiniões que constituem, supostamente, o segundo interesse encontrado como parte no funcionamento da narrativa. É através delas que é possível observar as matrizes do que poderia servir a um tratado acerca do poder e da violência. O romance não deixa de admitir que o livro que lemos é, em parte, o produto de um livro fracassado ou de um livro alguma vez perseguido pelo próprio Augusto mas decidiu abandonar a ideia da escrita por saber e acreditar na existência de livros demais no mundo, livros que uma vez dissecados sequer resultam numa ideia aproveitável. 

Quando impõe a travessia entre a sua propriedade em Évora e Paris, este homem sabendo ser o último de uma era fundada no modelo que ele representa possui a ciência ainda de que se fazer ouvido é sua última maneira de angariar qualquer coisa capaz de permitir entrar para a história não como a figura engendrada pela imprensa; quer se servir da história para nela ingressar por seu próprio passo mesmo que isso precise se fazer com se faz, por via indireta: é a alternativa que encontrou de negar o eventual heroísmo ressaltado se fosse ele próprio o autor do que escreve.

A ousadia dessa personagem que tem a riqueza das figuras execráveis oferecidas pela literatura não para a simpatia ou antipatia dos leitores, mas para dissecar os contrassensos do homem — afinal, em algum momento todos se identificam em parte ou agem como Augustos — é também a de H. G. Cancela com A noite das barricadas. Nada é gratuito na estruturação do romanesco. O enredo é extremamente simples: duas personagens envoltas numa bruma de silêncios se encontram por golpe de um forjado acaso confrontadas durante longos três dias com um figurão regressado do seus nebulosos passados que mesmo à beira da morte não poupa os limites das redomas de cada um com uma biografia e opiniões controversas; mas complexo nos seus elementos e, em parte de sua composição é a maneira de concentrar o drama, mantendo-o sempre em suspensão e é um modo de capturar ora o tateio da memória de Augusto ora o do próprio narrador/ autor com a organização do relato. 

O uso do discurso indireto foi justificado pelo lugar do protagonista, mas serve também, a este lado, para corroborar com as dificuldades em precisar o que se conta, em manter as especificidades do contraditório, como se nos exigisse retomar certas passagens a fim de acessar com clareza o que se conta, uma alternativa que na oralidade é sempre resolvida com a repetição ou reiteração do contado. E é, sabiamente nos tempos em que muitos deixaram de respeitar as instâncias discursivas para atribuir o narrado à voz do escritor, uma estratégia de não se atribuir ao próprio Cancela o que a sua personagem defende ou quer defender e isso se nota muito claramente quando o discurso indireto é de forma peremptória interceptado pela forma direta, entre aspas, no exato momento em que a tese, chamemos assim, controversa se apresenta. 



O relato ora distende e contrai e é importante nesse ritmo a variação entre o que é discurso do narrador/ autor e o que é discurso do Capitão Augusto. Há uma justificativa para isso que tem a ver com o tempo de cada um e mesmo com a constituição de suas personas. Homem do nosso tempo, desinteressado dos liames da história, o filho de Augusto atalha, atavia, pouco reflete e se faz o instrumento de repetição, por uma atitude que tanto tem do peso da autoridade do pai ausente como do que dele se descobre refratário a fim de resolver mesmo de maneira idealizada sua condição de homem acomodado no galho familiar que lhe coube. Exemplo disto, é como ele conduz o patrimônio herdado e ignorado pelo pai, que, mesmo não renegando, desfazendo-se, pouco fez para sua manutenção. Ou como se dedica a reconstituir a biografia e o pensamento do Capitão Augusto. 

Este, por sua vez, está entre os que não se reconheceram no seu tempo porque estiveram envolvidos na tarefa de construir um lugar próprio na história e não se reconhecem no tempo vigente, porque suas maneiras de agir e de pensar se tornaram obsoletas, fora dos limites do aceitável ou ocupando o lugar de fora da lei. Duplamente proscrito, este é o homem tal como a história e a sociedade o engendrou em última agonia. Por isso, o seu discurso é vagaroso, repetitivo, não nos termos mas nas práticas e circunstâncias, autocentrado e, porque interessado no que corre fora do comum, como dissemos, sempre afinado com o contraditório. Seu tom monocórdio respinga na matéria segundo a qual esse tempo final é doloroso e rápido para quem o vive, cansativo e lento para quem o testemunha. Eis, porque, ao acreditar que Augusto aceitaria viver outra vez na propriedade em Évora, o filho se pergunta, por quanto tempo ele precisará aturar o pai, ou porque, Helena se mostra decidida a dar cabo do resto de vida do Capitão quando não suporta ouvir a maneira descarnada — e sob o ponto de vista dela, cínica — com que relata os acontecimentos de um passado que a incomoda.

A história e a memória não servem em A noite das barricadas apenas como material, isto é, não é um interesse do romance revolver o passado, individual ou coletivo, para reproduzi-lo ou substituí-lo por uma versão mais coerente ou autêntica. Tampouco repeti-lo. Procura compreendê-lo pelo lado de fora dos limites erguidos pelos ganhadores ou perdedores; é um romance bissetriz. Seu interesse, afinal, é o tempo: a maneira como história e memória o capturam, como cada ponto de vista o determina e o constitui, sua durée relativa para cada um dos pontos constituintes do triângulo da narrativa, a maneira como o poder e a violência nele se inscrevem e a variação dos seus valores, ou mesmo como nele nos inscrevemos sem considerarmos as interseções que nos organizam — não deixemos de notar, nesse último quadro, e porque estamos no plano de um texto literário, o que denotam (pela matéria do mito e da sua máscara, a história).

O tempo, por fim, se entrevê no título do romance e mesmo Augusto, em algum momento, explica-se como a cisão encontrada entre os que resistem e os que atacam, os revolucionários e os à serviço da ordem dominante, a barricada. Mas, esse sentido se amplia à medida que o romance avança: do sentido literal derivado do que o Capitão testemunha nas ruas de Paris em 1968 à posição por ele assumida, tal como recordamos; do sentido histórico, o ponto de viragem para os portugueses com o fim da noite que se abateu sobre Portugal por quase meio século ao sentido metafórico que encontramos na tripla travessia exercida pelas três personagens que compõem este romance, cada uma com ou encerrada na sua própria noite. É, por esses sentidos, síntese da história e da memória, fora, como lemos, das suas dimensões de verdade, esclarecimento e salvaguarda do indivíduo e do tempo, que H. G. Cancela nos provoca a escapar dos sectarismos tão vivos nos dias vigentes, ao ponto de nos impedir ao diálogo enquanto seguimos adestrados por nossos ódios em interminável fermentação. 

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