Ilustração: T. Hanuka O sexo sempre esteve presente na literatura, embora nem sempre de maneira explícita. Há escritores que mergulharam em sua própria sexualidade como se a arte pudesse ser campo para um exercício psicanalítico e findaram por revelar a partir dessa intimidade o lado mais escuro sobre. Esta lista apresenta um conjunto de livros nos quais os escritores se desnudam, livros que dispensam o pudor para narrar cenas de elevado tom. Christine Angot, até o presente uma romancista francesa quase desconhecida no Brasil embora tenha sido autora de um livro chamado Pourquoi le Brésil ?, tem sido lida como uma das principais figuras que se filiam à tradição da qual faz parte nomes como o de Anaïs Nin. Em 1999, ela publica L’Inceste , a obra pela qual sempre tem sido lembrada, por se tratar de uma narrativa que recupera a relação incestuosa entre um pai e uma filha. Les Petits , outra obra sua, já inicia com uma felação sob o chuveiro que termina numa penetração anal an...
Por Pedro Fernandes É tão importante ser um bom cavador ou pedreiro como ser um bom escritor, temos é a tendência de mitificar os escritores e de colocá-los em pedestais. — Em Uma longa viagem com António Lobo Antunes António Lobo Antunes. Foto: David Clifford Toda criação humana de vulto é parte do empenho e esmero de alguém capaz de pisar onde muitos não ousaram a tanto. António Lobo Antunes é um dos últimos que revolucionou o romance no século XX, numa ocasião em que esta forma literária se encontrava refém de uma encruzilhada entre os modelos necrosados e as renovações disruptivas e vazias herdadas das vanguardas do século anterior, ou ainda, presa no interior das redomas estruturais. Seu compromisso inadiável com a palavra, a capacidade de dizer das sombras com a beleza luminosa do verbo, aproximou a literatura das belas artes. Numa sociedade em que a abertura democrática coincidiu com uma formação de algum interesse para o cultivo das letras, a publicação dos três primeiros ...
Por Pedro Fernandes Existirmos, a que será que se destina? — Caetano Veloso Livra-me da culpa dos crimes de sangue, ó Deus, Deus da minha salvação! E a minha língua aclamará a Tua justiça. — Sl 51:14 László Krasznahorkai. Foto: Matyas Szollosi Todos carregamos em nosso interior a nuvem escura que pode nos insuflar para o irremediável. Com ela ou não também uma voz ininterrupta que nos conta uma história com ramificações tão diversas e nem sempre alcançamos um ponto final; com essa voz dialogamos, e por vezes, ela nos provoca a conversa, reaviva outras vozes ou se deixa interceptar. Esse fio que nos aparece com a formação da parte da nossa consciência responsável pela linguagem e deve nos acompanhar até a morte serviu de maneira muito diversa à elaboração de uma literatura centrada na interioridade, o que, na história do romance, ficou marcado com o início de uma era de renovação da forma narrativa estabilizada com a expressão realista do século XIX. Mais tarde, ao juntar esses procedim...
Por Pedro Fernandes Não foi esse o primeiro livro do Gabriel García Márquez que tive a oportunidade de ler. Como também não foi Cem anos de solidão . Mas sobre o primeiro livro que li do escritor colombiano posso falar noutra ocasião. Para agora falo desse que é, sem dúvidas, um dos mais poéticos do romancista. É verdade que, quem leu o livro que deu ao escritor colombiano o título do Nobel (mesmo sabendo que o prêmio é dado pelo conjunto da obra, todos sabemos que há nesse conjunto “ o livro ” , aquele que marca o que chamaríamos de ponto alto na trajetória de todo escritor) - o já citado Cem anos de solidão - ao ler este Memória de minhas putas tristes perceberá logo um certo “ desnível ” quanto a arrumação linguística do texto. Deixe que eu me explique. É que aqui linguagem é límpida, sem certo barroquismo que se nota no seu estilo literário, o que não o faz, isso deve ficar claro, ser um menor entre os outros livros do conjunto da obra de Gabo. ...
DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto. A sua ajuda continua essencial para que o Letras permaneça online. Esses links de os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras . William Blake. Thomas Phillips, 1807. National Portrait Gallery, Londres (detalhe). LANÇAMENTOS O regresso por outras vias à obra de um dos mais singulares poetas da literatura . William Blake foi um visionário que, em conversas espirituais com filósofos, pintores, profetas e poetas, criou uma obra poética e pictórica vigorosa e única, na qual se destacam poemas como “Songs of Innocence and of Experience”, “The Marriage of Heaven and Hell”, “Milton: A Poem in Two Books” e “Jerusalem: The Emanation of the Giant Albion”. Em Milton: um po...
Por Pedro Belo Clara Miguel Torga. Foto: Eduardo Gageiro. LIVRO DE HORAS ( O Outro Livro de Job , 1936) Aqui, diante de mim, Eu, pecador, me confesso De ser assim como sou. Me confesso o bom e o mau Que vão ao leme da nau Nesta deriva em que vou. Me confesso Possesso De virtudes teologais, Que são três, E dos pecados mortais, Que são sete, Quando a terra não repete Que são mais. Me confesso O dono das minhas horas. O das facadas cegas e raivosas, E o das ternuras lúcidas e mansas. E de ser de qualquer modo Andanças Do mesmo todo. Me confesso de ser charco E luar de charco, à mistura. De ser a corda do arco Que atira setas acima E abaixo da minha altura. Me confesso de ser tudo Que possa nascer em mim. De ter raízes no chão Desta minha condição. Me confesso de Abel e de Caim. Me confesso de ser Homem. De ser um anjo caído Do tal Céu que Deus governa; De ser um monstro saído Do buraco mais fundo da caverna. Me confesso de ser ...
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