A origem, de Christopher Nolan

Por Pedro Fernandes

DiCaprio em grande forma em A origem, isso depois de uma outra estreia singular no cinema, Ilha do medo, de Martin Scorcese


Até hoje Ilha do medo, de Martin Scorcese era, para mim, o melhor filme de 2010. Perdeu seu posto para A origem, de Christopher Nolan. O filme é primoroso e retoma no espectador seu estágio de inteligência constantemente solavancado por bestialidades que dominam as telas do cinema hoje. O enredo é simples; pode ser resumido em poucas linhas. Um ladrão de sonhos, Dom Cobb (Leonardo DiCaprio) é contratado para plantar uma ideia no inconsciente de um homem. Pronto está feito o nascimento de uma narrativa labiríntica e complexa que exige de nós olhos abertos a cada virar de cena.

Misto de sonho e realidade, o filme se apodera de questões caras à psicanálise, à física, à filosofia e sobre a própria técnica do fazer cinema. Para Nolan, isso tudo posto à prova não é novidade. O diretor vem aperfeiçoando a sua técnica de manipulação dos laços ficção-realidade desde quando lançou Amnésia (2000) — filme também guiado pelas linhas da mente, e Seguinte (1998) seu primeiro filme.

A tessitura labiríntica de A origem custou tempo. Segundo os jornais sobre cinema, o diretor teria levado nada menos do que dez anos para elaborar a trama. É claro que nesse intervalo de tempo, ele trabalhou em outras grandes produções, mas aqui, pela complexidade do projeto, ele preferiu construir um amadurecimento só possível com o acúmulo de outras experiências e com um tempo próprio.

O filme lembrou-me o referido Ilha do medo. Em ambos a realidade é projeção/ construto da mente humana, e difícil é precisar o fim de uma e o começo da outra. Fez-me lembrar ainda o primeiro Matrix (1999), de Lana Wachowski e Lilly Wachowski — os demais são questionáveis — pela operacionalização dos labirintos cerebrais como que máquinas potentes capazes de erguer nosso estágio de civilização e capazes também de destruí-los. 

Lembro aqui da figura da mulher fatal — a mulher de Dom, interpretada pela atriz Marion Cotillard. Ela morreu, mas continua a invadir os sonhos do marido. Espécie de vírus que se lhes apresenta em todos os projetos de invasão para sabotar o roteiro elaborado.

Tudo nesse filme vale a pena: a trilha sonora — que novamente me remete ao filme de Scorsese, claro, aqui pincelado pelos versos de Michel Vaucaire de Non, je ne regrette rien imortalizados por Edith Piaf, que é a música usada para acordar do transe os envolvidos no projeto de manipulação dos espaços oníricos. 

Também a fotografia, os efeitos efeitos que novamente me remeteram ao primeiro Matrix são de qualidade excepcional. Enfim, como já bem notou a crítica, esta incursão de Christoper Nolan reitera que, apesar de tudo, parece ainda residir inteligência em Hollywood.


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