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Mostrando postagens de agosto, 2026

Abismos da leveza, de Rodrigo Petrônio

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Por Herasmo Braga Em meio a tantas ideias reproduzidas, mesmices estéreis com ares de novidades, idealismos pueris como os de originalidade, genialidade, ficamos surpresos quando somos apresentados pensadores com obras significativas, que provocam no mínimo atenção em pontos até então despercebidos por conta do cultivo hegemônico de olhares guiados para o mais do mesmo. Abismos da leveza , obra recentemente publicada por Rodrigo Petrônio, constitui um destes expressivos momentos de inteligência e lucidez teórica. O trabalho realiza consistentes diálogos com a tradição filosófica, com proposições elucidativas diante de dilemas e inquietações, além de aglutinar relevantes contribuições não só para compreensão do mundo das ideias, das artes, como também, da realidade em seu contexto mais atual e urgente. As premissas discursivas problematizam formas de pensar, no mínimo equivocadas, quando não inverossímeis, nas quais nos acostumamos, erradamente, em conceber como as questões de antinomia...

Seis poemas de Li Bai

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Por Pedro Belo Clara  (Seleção, versões e notas)* IN MEMORIAM ¹  (o poeta chora Ho Chi-Chang) O lugar de Ssu-ming tinha um louco, Ho Chi-Chang, o vento e os ribeiros punham-no frenético.  A primeira vez que o vi, em Chang-an, Chamou-me “um deus no exílio”. Oh, estimado amante da taça, Tornou-se a erva debaixo do pinheiro —  Ele que deu a sua tartaruga dourada em troca de vinho. Agora, sozinho, recordo-o — e as lágrimas caem. PARA TU FU, DA CIDADE DA COLINA ARENOSA ²   Por que vim até aqui, afinal?  A solidão é o meu destino na Cidade da Colina Arenosa. Velhas árvores erguem-se junto às muralhas da cidade; Escutam-se, dia e noite, as atarefadas vozes do outono. O vinho de Luh não tranquiliza o meu espírito, Nem as comoventes canções de Chi o tocam; Todos os meus pensamentos correm até ti, Com as águas do Min seguindo para sul, sem cessar.  REINVINDICAÇÃO   Se o céu não amasse o vinho, A Estrela do Vinho³ não existiria nas alturas;  Se a terra ...

Boletim Letras 360º #706

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto a custear as despesas com domínio e hospedagem online. A sua ajuda continua essencial. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras . Guillermo Cabrera Infante. Principal romance do escritor é reeditado no Brasil. LANÇAMENTOS Outro romance que se tornou marco na literatura brasileira ganha nova edição nos seus cinquenta anos .   Uma festa, na Belo Horizonte dos anos 1970, reúne uma extensa galeria de personagens, diversos e cativantes. Em A festa, de Ivan Angelo, o autor revoluciona a forma de se narrar o Brasil e sua história, cobrindo um passado que começa nos anos 1930 e chega, visionariamente, até as portas do século XXI.  O livro que se tornou um grande marco da literatura latino-a...

Das influências pitagóricas segundo Charles Kahn

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Por Afonso Junior Durante muito tempo, o sistema conceitual de Aristóteles parece ter moldado o que se entendeu por filosofia — até mesmo influenciando a erudição medieval e moderna. É famosa a colocação de Galileu de que o estagirita era seu mestre, ainda que tenha desafiado suas premissas. Talvez por isso, alguns sábios da Antiguidade, como os pitagóricos, medidos pelo método aristotélico, tenham sempre ganhado um espaço menor na pesquisa, mesmo que tenham sido reconhecidas suas “influências”, desde Platão até o pensamento científico.  Pitágoras e os pitagóricos: uma breve história , de Charles Kahn, faz parte dessa redescoberta de um dos sistemas mais originais e de maior impacto na história do pensamento ocidental. Uma das grandes rupturas dos saberes iniciáticos como o pitagorismo (praticamente fundido ao orfismo em determinado momento), é a “criação da alma imortal”, a ideia de que a alma homérica, simples hálito do ser vivo, que vive como sombra sem força no Hades, pass...

Uma ressonância de Dostoiévski em Boca de ouro

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Por Rafael Bonavina  O solitário , Oswaldo Goeldi. Seria muito difícil negar a influência que Fiódor Dostoiévski teve sobre Nelson Rodrigues, tão difícil que poderíamos nos eximir da tarefa de apontá-la. Mas, para quem ainda não a conhece, basta nos remetermos à crônica “Uma banana como merenda”, em que ele nos diz: “Certa vez, um erudito resolveu fazer ironia comigo. Perguntou-me: ‘O que é que você leu?’. Respondi: ‘Dostoievski’. Ele queria me atirar na cara os seus quarenta mil volumes. Insistiu: ‘Que mais?’. E eu: ‘Dostoievski’. Teimou: ‘Só?’. Repeti: ‘Dostoievski’. O sujeito, aturdido pelos seus quarenta mil volumes, não entendeu nada. Mas eis o que eu queria dizer: pode-se viver para um único livro de Dostoievski. Ou uma única peça de Shakespeare. Ou um único poema não sei de quem. O mesmo livro é um na véspera e outro no dia seguinte. Pode haver um tédio na primeira leitura. Nada, porém, mais denso, mais fascinante, mais novo, mais abismal do que a releitura.” (p. 37-38) A fi...

Sobre Gestos utópicos em labirintos distópicos: uma inquietação

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Por Lucas Paolillo Nos laboratórios da criatividade individual, uma alquimia revolucionária transforma em ouro os metais mais vis da vida cotidiana. Trata-se antes de tudo de dissolver a consciência das coações, ou seja, o sentimento de impotência, por meio do exercício sedutor da criatividade: derretê-los no impulso criador, na afirmação serena do seu gênio. A megalomania, tão estéril no plano da corrida por prestígio do espetáculo, representa neste caso uma fase importante na luta que opõe o eu às forças coligadas do condicionamento. Na noite do niilismo que atualmente nos envolve, a fagulha criadora, que é a centelha da verdadeira vida, brilha com maior fulgor. E enquanto o projeto de uma melhor organização da sobrevivência aborta, existe, na multiplicação dessas fagulhas que pouco a pouco se fundem em uma única luz, a promessa de uma nova organização baseada desta vez na harmonia das vontades individuais. O devir histórico nos conduziu à encruzilhada na qual a subjetividade radical...

Ensaios do desespero, de Antonio Puppin

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Por Gabriella Kelmer Na epígrafe que antecede os contos de Ensaios do desespero , de Antonio Puppin, o poeta cristão San Juan de La Cruz afirma que “lloraré la morte ya/ y lamentaré mi vida”, versos a serem associados a um plano existencial de pecados. A escolha pela citação desdobra-se logo na presença da morte, matizada como irrupção violenta, dispositivo adormecido e fadiga existencial, sendo ela um dos temas a atravessar as nove narrativas curtas que compõem a coletânea, e no lamento incessante pela vida. A menção do título ao desespero é, nesse sentido, vinculada ao modo como cada conto introduz situações que, se não angustiantes em si mesmas, têm a morte e a dor existencial como limiar. O tom ensaístico é presente, por sua vez, em narrativas como “Fortuna”, “O outro” e, em especial, “Desespero e eternidade”, a apresentarem narradores em primeira pessoa cuja permanência no plano das ações é ocasional (sendo aliás inexistente na última narrativa, mais propriamente ensaio). Os conto...

Canto noturno de um pastor errante da Ásia: comentário e tradução

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Por Thiago Teixeira  O homem não passa de um caniço, o mais débil da natureza; mas é um caniço pensante.  — Pascal Edvard Munch, Melancolia .  “É preciso saber esquecer”. Esta bela frase é o do Nietzsche da “Segunda consideração extemporânea”: Da utilidade e desvantagem da história para a vida . Ele inicia o texto com uma imagem: o homem no alto de sua superioridade depara-se com um rebanho de animais e os inveja. Inveja-os, pois percebe que eles não se curvam ao peso do tempo, eles não têm uma noção de passado, uma memória, uma lembrança, e, por isso, estão aptos para a felicidade. Os animais são capazes de se esquecer, já o homem, ser histórico, é abatido pelo mal de Funes, el Memorioso e chega mesmo a viver de memórias, acumulá-las como um colecionador. Acontece que, para a felicidade, diz então Nietzsche, é preciso fazer concessões nessa postura excessivamente histórica: é preciso saber esquecer: “Considera o rebanho que passa ao teu lado pastando: ele não sabe o que ...

Boletim Letras 360º #705

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DO EDITOR Na aquisição de qualquer um dos livros pelos links fornecidos neste boletim, você pode obter um bom desconto e ainda ajuda a manter este projeto a custear as despesas com domínio e hospedagem online. A sua ajuda continua essencial. Esses links e os que postamos em publicações de nossa página no Facebook ou em outras redes são seguros. Em hipótese alguma, use links apresentados por terceiros passando-se pelo Letras . Cora Coralina. Três livros com inéditos da poeta em fase de publicação. LANÇAMENTOS Em novo livro de poemas, Geraldo Carneiro constrói um percurso em que experiência pessoal, criação e consciência da forma convivem sem hierarquias . Sua poesia não se alimenta de fumaças metafísicas; ao contrário, zomba disso ― ainda que se permita alternar o tom meditativo e o viés irônico, tão característico do autor. O poeta brinca com a passagem do tempo, o envelhecimento e a finitude, amparado quase sempre por uma dicção que evita a solenidade e o sublime, preferindo o humor e...