O projeto abandonado de Ted Hughes

Por David Medina Portillo 

Ted Hughes. Foto: Noel Chanan



É quase desnecessário lembrar que a vida e a obra de Ted Hughes (1930-1998) constituíram, em seu tempo, um verdadeiro fenômeno, não apenas cultural, mas também social. Hughes foi talvez o único poeta inglês do século XX considerado uma celebridade, estampando as capas de importantes revistas e veículos de comunicação, nem sempre voltados para a literatura. A origem dessa celebridade é duvidosa, como sabemos. Duvidosa e lamentável, pois obscureceu a voz formidável que anima sua poesia, particularmente a de Crow, um dos livros mais perturbadores já escritos.

A vida de Ted Hughes é marcada pela tragédia, uma fatalidade de proporções sobre-humanas. Sylvia Plath cometeu suicídio e também a sua segunda companheira, Assia Wevill, que, tragicamente, morreu ao lado da filha do casal, a pequena Shura de apenas quatro anos de idade. Esses eventos estão diretamente relacionados à criação de Crow, que Hughes começou a escrever após três anos de silêncio, na sequência da morte de Sylvia Plath. Segundo Christopher Reid, editor da correspondência do poeta, a origem desse livro reside na colaboração e troca de ideias com seu amigo íntimo, o artista gráfico e escultor Leonard Baskin. 

Hughes sempre foi fascinado pelas imagens de pássaros de Baskin, particularmente sua série de corvos com feições antropoides. Algumas semanas após a morte de Sylvia Plath, e para ajudá-lo a lidar com o luto, Baskin pediu-lhe que escrevesse uma série de poemas com a ideia de ilustrar uma edição de seus desenhos. Hughes aparentemente aceitou o desafio, embora tenha abandonado o projeto pouco depois. 

Contudo, em uma carta datada de 2 de março de 1966, o poeta comenta com Baskin três anos depois: “O projeto CROW não desapareceu, mas tornou-se uma epopeia popular que terá a extensão de um romance: prosa bosquímana, mas com mais poemas do que prosa. Deus está tendo um pesadelo: uma Voz o está atacando. E ele não consegue entender o que se passa…” 

Seguindo as datas dos poemas, o que conhecemos como Crow começou formalmente em 1966 e foi abruptamente interrompido pelas mortes de Assia e sua filha em 1969, um ano antes da primeira edição do livro. No entanto, graças à publicação dos Collected poems de Hughes em 2003, sabemos que existiram poemas posteriores e até mesmo anteriores ao livro de 1969, mas que nunca foram incluídos na primeira edição.

A minha primeira leitura de Hughes se deve a Jordi Doce, poeta, editor e tradutor notável que verteu Crow na década de 1990 e que agora, um quarto de século depois e com base nos Collected poems retorna para revisar e traduzir a obra inteira sob o título Crow, o ciclo completo.¹ Quando li a edição da Hiperión, desconhecia não apenas a tragédia que emoldura o livro, mas também o conflito interno do qual Crow emergiu, mais como um propósito inacabado do que um impulso esgotado. 

Após as mortes de Assia e de sua filha, como já mencionamos, Hughes abandonou o projeto e, ao retornar, nunca conseguiu recuperá-lo inteiramente. Existem relatos dispersos, tanto pessoais quanto de terceiros, nos quais o poeta lamenta não conseguir reencontrar a atmosfera temperamental, espiritual e mental, a exaltação criativa que o levou ao limiar das portas de uma nova experiência, tão diferente para ele quanto para a poesia inglesa da época.

Como Jordi Doce relata em seu lúcido e exaustivo prólogo (quase um livro à parte), a poesia de Hughes representou uma saudável ruptura com o decoro modesto do pós-guerra, um herdeiro tardio do “delta insípido e plácido do pós-Romantismo”. Um impasse tranquilo que foi prontamente apelidado pelo humor do The Spectator como The Movement (O Movimento) e que, Stephen Spender, escrevendo na Encounter, também não hesitou em criticar como um movimento de “professores que, provenientes das Redbrick Universities, se ressentem de serem chamados de senhor doutor [elite professoral]”. 

Nesse contexto, Hughes emergiu como o improvável herdeiro da tradição de Blake, Milton e até mesmo Shakespeare, a quem dedicou o monumental Shakespeare and the Goddess of Complete Being (1992). É claro que as vozes do modernismo britânico também estavam presentes: Yeats, Eliot, Dylan Thomas, D. H. Lawrence e outros. No entanto, havia ainda um substrato cuja ressonância pertencia exclusivamente a ele. A este respeito, Jordi Doce escreve que “Hughes nasceu totalmente equipado, com seu próprio estilo inconfundível, enraizado na tradição aliterativa da Idade Média e nas veias mais germânicas da língua inglesa, algo que até mesmo um falante não nativo pode perceber”.

Juntamente com esse estilo, devemos destacar outro fator: a genealogia mítico-trágica que Hughes extrai de sua formação como antropólogo. Em 1951, ingressou no Pembroke College, em Cambridge, mas em 1953 trocou o currículo de letras por arqueologia e antropologia, juntando-se à escola de Cambridge sob a forte influência de Sir James Frazer. Daí deriva sua obsessão pelo animismo das culturas primitivas. E foi Baskin quem sugeriu que ele lesse, precisamente, o estudo de Paul Radin sobre a mitologia do trickster (em linhas muito gerais, trata-se de uma espécie de bufão da mitológico, trágico e sagrado, capaz de assumir diversas formas animais, humanas ou sobrenaturais) entre as culturas primitivas da costa noroeste do Pacífico da América do Norte, tão crucial para a concepção do ciclo de poemas de Crow. Essa era uma das fontes imaginativas para seus desenhos de corvos, uma referência à qual Hughes se mostrou muito receptivo. 

Tanto que ele resenha dois livros de John Greenway, Literature Among the Primitives e The Primitive Reader, tão importantes quanto a obra de Radin para a compreensão do universo simbólico adotado na concepção de Crow. Em ambos os volumes, Greenway trata (em suas palavras) da “melhor produção literária da humanidade no milhão de anos anterior à introdução da escrita”. A resenha de Hughes foi publicada originalmente na The New York Review of Books, na edição de dezembro de 1965, época em que o projeto de Crow começava a tomar forma.

Qual a diferença entre a primeira edição de Crow e o ciclo completo encontrado em Collected poems a partir do qual Jordi Doce traduziu agora? Como dissemos, ecoando os próprios relatos de Hughes, em vez de concluir a obra, o poeta interrompeu o processo e nunca conseguiu retomá-lo. No entanto, a verdade é que ele continuou escrevendo e publicando outros poemas do trickster em pequenas edições restritas, às vezes de forma independente, outras vezes incorporando novos textos às edições que se seguiram ao lançamento da Faber & Faber em 1970. 

De qualquer forma, trata-se de um labirinto editorial, com exemplares aparecendo em selos efêmeros ou pequenos, como a Gehenna Press, dirigida por seu amigo Baskin, ou a Rainbow Press, editora de Hughes e sua irmã Olwyn. Esses poemas, não incluídos no volume de 1970, abrangem os anos de 1967 a 1973. O dado é relevante porque ressalta o processo criativo que ocasionalmente precedeu a primeira edição de Crow, mas que se estendeu muito além dela. Jordi Doce chega a observar que Hughes ainda nutria essa obsessão por um ou dois anos antes de sua morte, em 1998. 

Uma observação importante de Paul Keegan, o primeiro editor dos Collected Poems, é que sua compilação foi meramente um registro do que já havia sido publicado em livros ou periódicos. Os manuscritos inéditos mantidos em diversas coleções, a mais importante delas na Universidade Emory, em Atlanta, ainda precisam ser explorados. Keegan enfatiza que, embora os Collected Poems “ratificassem um conjunto conhecido de obras […] eles também oferecem novas evidências: o poeta encontrado nessas páginas ainda não foi totalmente assimilado”. 

Com a tradução de Jordi Doce publicada no 55º aniversário da primeira edição, agora temos acesso completo a Crow em espanhol e podemos confirmar o que Keegan disse. Basta ler “Crow on the Beach”, um dos poemas centrais de 1970, e “A Flayed Crow in the Hall of Judgement”, que não pertence a Crow, mas a Cave Birds (1975), e que Jordi Doce o inclui neste ciclo porque suas afinidades são mais do que evidentes. Finalmente, os poemas que Hughes disse ter deixado de fora em uma carta a John Fisher (“mais cinquenta poemas”) estão incorporados na seção intitulada, precisamente, “Poemas não incluídos nas edições da Faber & Faber”.


Ligações a esta post:
>>> É possível ler seis poemas de Crow, vertidos para o português por Pedro Belo Clara e publicados numa das edições do projeto De Versos — aqui.


Notas da tradução:
1 O autor refere à tradução para o espanhol publicada pela Hiperión, em 1999, com o título de Cuervo. Mais adiante a versão Corvo, o ciclo completo é nossa, a partir do título original, também em língua espanhola, Cuervo, el ciclo completo


* Este texto é a tradução livre de “El proyecto abandonado de Ted Hughes”, publicado aqui, em Letras Libres.

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