É sempre a hora da nossa morte amém, de Mariana Salomão Carrara

Por Gabriella Kelmer 

Mariana Salomão Carrara. Foto: Renato Parada



A inventividade da escrita de Mariana Salomão Carrara tem sido discutida através de uma produção romanesca bastante variada em temáticas (a morte, a infância, a justiça) e em perspectivas (a idosa, a árvore, o juiz), dizendo a autora, em tempos nos quais a criação se tem visto tantas vezes cooptada por um compromisso por vezes desmedido com a realidade e com a autobiografia, que há nas suas histórias um exercício de empatia a acionar os mecanismos da infância. 

Em É sempre a hora da nossa morte amém, romance de 2021, fica evidente em que medida sua ficção surpreende ao permitir, às suas personagens, a singularidade e a irrepreensibilidade. Aurora, a narradora, é encontrada, aos setenta anos, vagando a esmo por uma estrada, sendo então levada a um abrigo de idosos. Sua memória está comprometida e a cada novo dia ela levanta novas possibilidades da vida perdida. Por todo o enredo, repetem-se elementos como a presença da filha a quem chamava ao ser localizada e de uma amiga exuberante da juventude, as duas chamadas Camila; a existência de um marido, Antônio, com quem foi casada por uma porção variável de anos; e a ausência de um cachorro vivo, o Perdoai, e de um cachorro morto, o Ofendido. 

“Minha filha Camila tinha uma cor ensolarada puxada do pai, um cabelo forte que crescia rápido na frente dos olhos e eu mandava que cortasse a franja, mesmo já moça eu insistia com a coisa da franja porque ela andava de bicicleta com o cabelo no olho e a gente põe filhos no mundo pra andarem de bicicleta, as cabeças debaixo dos pneus dos ônibus, tudo porque não cortaram a franja e enxergam mal, um charme” (Carrrara, 2021, p. 13).

Fixar qualquer uma dessas figuras é absolutamente complexo, o que ocorre tanto pela variabilidade dos relatos de Aurora como pelos arroubos, pelos sonhos, pela inteligência demonstrada vez e outra pela narradora. Assim, misturam-se a versões muitíssimo trágicas dos acontecimentos — os quais não detalharei além de dizer que envolvem muito frequentemente a morte, visando à manutenção do que há de reviravolta na obra — a confecção de aparente autoengano, o prazer nas palavras e nas imagens e a amnésia, diagnóstico que gera dúvidas mesmo ao neurologista que atende a verborrágica narradora.
  
Ela relembra a filha muito frequentemente (a menos que não se recorde de ter tido filha alguma) e se apavora quase sempre com a possibilidade da morte de Camila, sendo esse o tema que dá título à obra como o equívoco cometido pela protagonista ao enunciar a oração cristã e evocar repetidamente o fim da vida, ao invés de demarcar o amparo da última hora. A filha, pela vulnerabilidade dos primeiros dias, pela movimentação adolescente, mais tarde até mesmo por certas escolhas indevidas da vida adulta, está sempre se equilibrando sobre um precipício inevitável, irresistível, vivendo a mãe, essa idosa que relembra e inventa, costurando de lado a lado aquilo que a atormenta ao que chama de “ilhas de memória”, um persistente processo de perda. Ou, a depender da leitura que se faz da obra, uma consciente autojustificação. 

“Então era isso que eu tinha, uma vizinha desernegizada que olhava a Camila em troca de umas aulas para o neto delinquente enquanto as aulas na escola pública que inclusive era a melhor da região sugavam todas as minhas iludidas pretensões de influenciar e elevar criaturas, num desgaste que atacava o meu reflexo e um salário que chegava a me fazer escolher se eu compraria papel higiênico para mim ou carne para ela, e isso é um exemplo aleatório, mas é irônico porque minha mãe tinha sido mais ou menos subgerente de um subsetor de fábrica de papel higiênico e nem para isso ela me valia àquela altura” (Carrara, 2021, p. 41).

Ocorre que Aurora, professora de português, como não nega o zelo com os sujeitos e predicados, conforme situam memórias variadas, compreende sem dúvidas o caráter inaugural da linguagem, a medida em que são as palavras elas mesmas indicativas, como signos, de um novo nascer do sol; também previne, em diferentes momentos do romance, que não enxerga tanto valor na veracidade quanto há nas afetações e melindres da memória, perguntando-se “que valor têm esses fatos se não a sensação que tenho de serem a minha história” (Carrara, 2021, p. 56). Aurora por vezes demonstra, ao contrário da Rosa, a assistente social empenhada em lhe reconstruir a vida, a hesitação em permitir, na rede de alternativas que lança, a captura de elementos que solidifiquem os caracteres e revelem, em meio ao desvario, a presença do outro (não mais imaginado).



No cerne de tudo, estão a morte da filha e o horror gerado por ela. Sendo a consciência da mortalidade um fardo tão nosso, seria injusto descrever esse medo como desmedido; em Aurora, é esse pavor antes desajustado às expectativas e às relações sociais. A morte é vultuosa e paira sobre todas as coisas, inclusive sobre as mais ternas descrições. Não há dúvidas de que a sua negação, o temor do dia em que ela irromperia, resultou no estado de coisas que encontramos no presente da narrativa.

“Fiz uma cova no quintal, bem perto das rosas, e como ataúde me vali de um saco de sisal onde vinham as batatas da feira, pensei se acordava Camila para o funeral, mas não quis que ela visse o corpinho hirto e entendesse que era isso a morte, e já se pusesse a imaginar os destinos da carcaça sob a terra, desintegrações, formações putrefativas, então quando ela desceu do seu quarto festejada pelo outro animal que também ainda não entendia a morte mesmo tendo acompanhado a agonia e o enterro, ela estranhou as batatas espalhadas pelo chão da cozinha, perguntou sobre Dido, com a sua vozinha arranhada de sono, os cabelos para cima, o pezinho sempre descalço contra a minha vontade, e eu disse que o Ofendido morreu” (Carrara, 2021, p. 66).

Há algo impreterivelmente humano, dolorido em Aurora, como narradora vulnerabilizada pela idade, pelo abandono; mas essa humanidade transita e se dinamiza repentinamente, arrebanhando a polissemia do termo (“humano”, tantas vezes dizemos, como se isso fosse sinônimo apenas de sensibilidade e não também de performance, de enganação, de indulgência com nós mesmos). Aparece então algo de artifício, de omissão, de revelação acidental (“Outro dia acabei revelando que Antônio foi funcionário no Instituto Médico Legal”, diz ela, a certa altura, propondo uma escorregadela na invencionice, o desvelamento de algo que preferiria ter mantido omitido). 

Dito isso, são duas as razões centrais por que recomendo a leitura desse romance, estando as duas envolvidas em alguma medida pela perspectiva com que são narrados os fatos. A primeira diz respeito à aparição dessa narradora intangibilíssima, que seduz e repele, que cria a desconfiança e depois a apazigua, com uma inocência distraidamente genuína. É um prazer reencontrar contemporaneamente esse nível de articulação em uma primeira pessoa cujos marcadores identitários nos convencem a acolhê-la tão imediatamente, interpelando-nos frequentemente sobre a medida com que nos damos à suspensão da crítica quando confrontados pelo apelo irresistível da perspectiva do outro. Além disso, é evidente a eficiência e o autoconvencimento da personagem, o que gera paralelos interessantes tanto entre Aurora e os ficcionistas como entre Aurora e nós mesmos, a quem as mentiras são também fundamentais à sociabilidade e, em alguma medida, ao respeito por quem somos. 

“Embora ela perceba tantas coisas, não parece notar que pode ser até difícil aos trinta e poucos anos a mulher decidir se quer ter um filho. O difícil mesmo, porém, é ter setenta e cinco e não conseguir decidir se deseja ter tido um filho” (Carrara, 2021, p. 184). 

A segunda corresponde à já discutida – embora nunca suficientemente – aparição da morte como fundamento romanesco, o que desvela uma maternidade vivida como fardo, como culpa, sendo a morte, como já observamos aliás ao resenhar Passeio ao farol, de Virginia Woolf, a marcação indelével que legam as mães aos seus filhos (os pais, curiosamente ou não, não assumem para si esse peso nas narrativas). Que Aurora legasse outras coisas à Camila seria de toda forma inevitável, sendo o final do romance uma sugestão definitiva da minuciosa elaboração das personagens que o compõem.

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É sempre a hora da nossa morte amém
Mariana Salomão Carrara
Editora Nós, 2021
272 p.


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