Comentário ao Carmilla, de Sheridan Le Fanu
Por Afonso Junior
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Joseph Sheridan Le Fanu nasceu em 1814 em Dublin, cidade onde viveu até 1814. Pertenceu a uma família de fé anglicana, com acento calvinista. O pai faleceu endividado e a sua biblioteca precisou ser usada para cobrir as dívidas. Felizmente, pode estudar Direito no Trinity College de Dublin e exerceu o jornalismo. É quando as suas histórias de fantasmas vieram junto de romances históricos e outros estilos.
Mas foi com o sobrenatural que Le Fanu ganhou fama dentro e fora do seu país: Carmilla (1871-1872), por exemplo, influenciou a criação de Drácula (1897) por Bram Stoker e, graças a ele, as vampiras fazem parte de qualquer reino do gênero que se preze (até mesmo as fantasias mais toscas da heterossexualidade).
O relatório Visum et Repertum (Visto e Relatado) do médico austríaco Johann Flückinger (de janeiro de 1732), a partir de uma investigação de vampirismo que exumou vários corpos na atual Sérvia (os quais foram decapitados), incendiara a imaginação europeia na altura. Em 1797, Goethe tinha escrito uma balada (“A Noiva de Corinto”) sobre uma virgem que retorna do além-túmulo sedenta de vida.
Podemos ver como, com sua prosa elegante e segura, Le Fanu rompeu com as repressões de sua época trazendo a metamorfose da sexualidade reprimida — ainda mais no romance de duas mulheres. A condessa morta sofre um acidente às portas de um castelo onde vivem a solitária Laura e seu pai com poucos criados. Laura é envolvida pela aura de charme da aristocrata, que fica pálida de dia e se enche de força à luz da lua.
De então, um relacionamento quente e mórbido se estabelece: “Você acabará morrendo para permitir que eu continue quente e viva”, diz Carmilla. Mas, entorpecida, a jovem Laura parece não perceber nada estranho. Lembra as sereias ou o transe: o “ardor de um amante”, os lábios quentes e os beijos são evocados. Como no “Sonho de uma noite de verão”, os amantes estão possuídos. Grande parte do livro dedica-se às ondas instáveis destas duas personagens.
O pai da vítima atribui as desconfianças do médico a uma imaginação propícia aos hipogrifos e dragões. O tema é amplificado em todas as narrativas de terror, nas quais o cientista/ detetive sempre acha que a realidade foi domesticada. Isso em um filme, seria o cético engolido por um tentáculo.
Nesse ínterim, um tema interessante de Carmilla é como o pai fala da Natureza (providencial, bondosa, divina, lembrando o estoicismo) e como a vampira a vê: “Criador! Natureza! Essa doença que invadiu o campo é natural. É natural. Todas as coisas procedem da natureza”. Agindo “como a Natureza ordena”, ela mesma é uma predadora “normal”.
O texto de Le Fanu é complexo, atraente, atual. Até mesmo as ameaças à mulher estão presentes. Esta criatura teve um passado de violência: “Quase fui assassinada em minha cama” — amor e morte estão muito próximos. Laura se sente “afundando lentamente”, a bela hóspede exerce uma espécie de gaslighting: uma canção de ninar, enquanto Laura chega ao estrangulamento e à convulsão. Para reestabelecer a ordem, um padre e um general. Carmilla vira ninja para fugir dos caçadores. O mostro é erguido, uma estaca, um grito, uma fogueira.
Mais elegante que Drácula; sutil e atmosférico como O médico e o monstro, de Robert Stevenson, Le Fanu merece estar entre os três pilares do gótico vampírico, ao lado de John William Polidori (O vampiro) e de Bram Stoker.
A edição de Carmilla feita pela Wish/ Clepsidra, lida no Clube de Leitura LGBTI+ São Paulo, tem ilustrações incríveis de Caroline Murta, prefácio e posfácio de Carlos Primatti, o autor da tradução, breve biografia do escritor feita por Renata Philippov, além de incluir o conto “O juiz Harbottle” (1872), também de Le Fanu, uma narrativa epistolar sobre “o juiz enforcador” atormentado por aparições fantasmagóricas em seus últimos anos de vida. Sensacional.
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Carmilla
Joseph Sheridan Le Fanu
Joseph Sheridan Le Fanu
Carlos Primatti (Trad.)
Wish/ Clepsidra, 224
Wish/ Clepsidra, 224
192 p.
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