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O conto da ilha desconhecida, de José Saramago

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Por Pedro Fernandes Esta é capa da edição brasileira de O conto da ilha desconhecida  (Companhia das Letras) Semelhante a uma parábola, O conto da ilha desconhecida apresenta-nos apenas um fato que se desdobra em dois momentos na narrativa: primeiro acontece de um homem que bate à porta do rei para pedir um barco, no intuito de encontrar uma ilha desconhecida; o segundo marca-se pela concessão do pedido, a busca e o sonho ou o sonho e a busca, marcados na tentativa de encontrar a ilha desconhecida. O pedido tão simples, assim como são simples os fatos que dele decorrem é o que marca o primeiro momento do texto, é o que desencadeia toda uma história sobre descobrimentos, conforme Gomide (2001), “sobre a possibilidade da criação e sobre a possibilidade do amor”. (p.363) Além destes dois descobrimentos apontados, acrescento mais um; este é a mola propulsora do texto: o descobrimento do ser enquanto ser. O pedido de um barco pode nos parecer simples à primeira vist...

Memórias do subsolo, de Fiódor Dostoiévski

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por Pedro Fernandes "Tanto o autor como o texto destas memórias são, naturalmente, imaginários." Famosa negativa da literatura feita pelo autor de Memórias do subsolo logo numa nota de entrada a primeira parte do texto que mais na frente se é corroborada pela própria personagem: "Está claro que eu mesmo inventei agora todas estas vossas palavras." Negativas que instauraram ou pelo menos reintroduziram novas reflexões entre as complexas fronteiras entre ficção e realidade; onde que estaria o fim de um e início do outro. Memórias do subsolo, de 1864, antes, portanto de obras como Crime e castigo, é não apenas por constatações desse tipo mais uma obra clássica da literatura. Não também pelo fato de seu autor ser colocado entre os clássicos, mas é que nela o rico estilo de narrar dostoiévskiano - suas indas e vindas, seus meneios com a palavra e com o pensamento - e além disso, o caudal de reflexões que este texto instaura naquele mais inocente leitor são e...

Vida e obra de Shmuel Yosef Agnon

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Por Noé Gruss Clássico da literatura hebraica moderna, Agnon possui uma originalidade certa em sua concepção literária e em seu estilo. Por outro lado, sua obra está em harmonia perfeita com sua vida. Os contos procedem de um realismo autêntico, a despeito da impressão que eles dão de ser antes de tudo um tecido de misticismo e de fantasia, tal opinião, justificando-se, ao que parece, pelo estilo enraizado na literatura antiga, medieval e religiosa. Para compreender essas contradições aparentes, é necessário debruçar-se sobre a própria história de Agnon desde a sua primeira infância. Notemos, desde já, que o universo de Agnon compõe-se de Butchatch, sua cidade natal, e de Israel, onde viveu grande parte da sua vida, assim como da Alemanha onde viveu vários anos depois de ter recolhido contos de rabinos, de tsadikim , de hassidim . Assim, Agnon se inspirou quase que exclusivamente no que viu com seus próprios olhos. Infância na Galícia Nasceu em 17 de julho de 1888 em uma ...

Thomas Mann

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Thomas Mann é de Lübeck, Alemanha. Um dos maiores da literatura em seu país e, por que não (?), da literatura universal; ganhou o Nobel de Literatura em 1929. É o autor de clássicos como A montanha mágica , Doutor Fausto , Morte em Veneza , três títulos que colocamos como indispensáveis na bibliografia de qualquer leitor. Tem o autor uma ligação importante com o Brasil. Sobre o país deixou vários escritos. A relação se dá pela mãe: Júlia da Silva Bruhns era brasileira e casou-se com o comerciante Johann Heinrich Mann. E certamente Mann leu Da infância de Dodô , um livro de memórias da mãe, escrito já quando adulta, em que ela narra o tempo de quando viveu por aqui. Segundo a crítica, Mann teria se inspirado nela para a composição da personagem Gerda Arnoldsen em Os Buddenbrocks ; para a senadora Rodde de Doutor Fausto  e Consuelo de Morte em Veneza . A carreira como romancista tem início desde 1893, quando começa a publicar seus textos em prosa e artigos para...

O atual estágio que ainda estamos (II)

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Por Pedro Fernandes Prometi não fazer nenhum discurso acalorado pela data; entretanto, é mais que eu. Não resisti, e eis que me posto a dizer o que se segue: Outro dia comentei por aqui (veja no final do texto) acerca de uma pesquisa que apontava números de um país homofóbico chamado Brasil. Pois, os números dessa pesquisa só vem confirmar outra estatística: a do elevado número de mortes a homossexuais no país, que segundo pesquisa do Grupo Gay da Bahia foi de 198 em 2009, um número maior do que em 2008, confirmando um aumento da escalada do horror no país. Associado a esse número que poderia ser, muito bem, um número para medir a intolerância, em nota divulgada às vésperas do Dia Internacional da Mulher, outra estatística vem nos assustar: segundo a alta comissária das Organização das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Navi Pillay, é de  5 mil o número de mulheres, que a cada ano, em todo o mundo, são assassinadas tendo por justificativa a "defesa ...

Big Brother Brasil

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Por Pedro Fernandes Anda pelas caixas de e-mails, pelo menos na minha chegou, um cordel produzido (pelo menos assim está atribuída a autoria) por Antonio Barreto acerca do programa Big Brother Brasil. Bem, houve uma edição do programa, a primeira, que consegui acompanhar de cabo a rabo; da segunda em diante criei uma aversão ao programa; agora na décima edição, revejo alguns pontos dessa minha aversão que em muitos se assemelham ao grito de Antonio Barreto. Não quero defender o programa. Ele é nocivo, disso não tenho dúvidas. Mas também não tenho dúvidas de que o tal zoológico humano que o cordelista fala ("um zoológico humano / Onde impera a esperteza/ A malandragem, a baixeza:/ Um cenário sub-humano") é o retrato cada vez mais fiel a que estamos reduzidos: tirando toda mutreta que rola entre participantes e diretor do programa a fim de fabricar situações para audiência, o Big Brother é o que somos, a malandragem, a baixeza, a esperteza. Não que sejamos somente...