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Contos inéditos de Proust

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Por Christopher Domínguez Michael   Há obras depositadas em baús que, mais que fundo duplo, parecem não o ter, como as de Roberto Bolaño, Fernando Pessoa e, em menor escala, Marcel Proust. Passam-se os anos e as décadas enquanto coisas novas continuam a aparecer. Algumas são verdadeiras surpresas, outras rascunhos cuja preservação se deve ao imperdoável descuido de seus autores, que teriam morrido de novo ao ver esboços enganosos dados à publicidade, e outras ainda vêm simplesmente para enriquecer a paixão filológica de indexadores, estudiosos e arquivistas. A esta última parte pertencem a graça dos contos de Proust resgatados por Luc Fraisse — Le Mystérieux Correspondant et autres nouvelles inédites (Editions de Fallois, Paris, 2019) —, que farão deliciar, inclusive eu, todos aqueles para quem a origem, a essência e o resultado de À procura do tempo perdido é uma das maravilhas do mundo.   É natural que o que Fraisse compilou vale pouco em si mesmo. São exercícios para aqu...

Cecilia

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Por José Larraza Em A rosa púrpura do Cairo (Woody Allen, 1985), Cecilia (Mia Farrow) se refugia diariamente no cinema para escapar de um marido violento e de uma vida odiosa durante os anos da grande depressão americana. Escolhe sonhar e consegue graças ao cinema. O mundo real tem sido um berçário para Cecilias — não necessariamente tão infelizes quanto a personagem — cuja vida não se explica sem uma sala de cinema. Muitas ainda continuam aqui; ninguém iguais a elas reconhece a tristeza destes tempos e a força balsâmica do cinema. Assim foi uma grande parte de sua vida. É que os filmes de hoje não são o que eram, o cinema de antes era outra coisa, não há artistas como aqueles... Muitos de nós crescemos com a mesma cantilena repetida por mães, tias, avós — domina o gênero feminino — e outras Cecilias em potencial cujo maior entretenimento sempre foi devorar filmes; de adolescentes nas lotadas sessões dominicais, jovenzinhas nas exibições paroquiais, equilibradas nos galinheiros, secre...

Stephen Crane e a comunidade leitora

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Por Pablo Medel   Stephen Crane, fotografia de estúdio, Atenas, 1897. Arquivo Universidade Syracuse.   Estamos em Nova York. Final do século XIX. 1890, para ser mais exato. Enquanto no centro de Manhattan estão sendo levantadas as primeiras pedras do que será o majestoso Carnegie Hall, nos bairros do sul as ruas do Bowery afundam cada vez mais na miséria. Pelo local, um garoto desengonçado de 19 anos de Nova Jersey, um tanto rebelde e apaixonado por beisebol, vagueia em busca de histórias. Ele trabalha como redator no New York Tribune por recomendação de um de seus quatorze irmãos. O jovem Stephen Crane acaba de abandonar a escola pela segunda vez, mas desta vez o faz dominado por uma certeza: quer ser escritor.   É mais do que provável que Stephen Crane carregue debaixo do braço uma cópia do novo romance que Émile Zola acaba de publicar. O título, A besta humana , define perfeitamente o movimento literário defendido pelo naturalista francês do outro lado do Atlântico. ...

Três grandes escritores ucranianos de agora (3)

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Por Mercedes Monmany Yuri Andrujovich Foto: Kateryna Lashchykova   Desde o início do século atual, dois escritores do que outrora se chamava Leste Europeu e que hoje são considerados os gênios mais inspirados vindos daquelas latitudes, até bem pouco tempo envoltos nas trevas de uma ignorância extraplanetária (“vindos daquelas regiões nebulosas, daquelas que os manuais e livros raramente falam, cada vez tinha que recomeçar do início; mesmo que seja difícil, ou doloroso, explicar quem sou, é preciso tentar”, dizia com tristeza o grande poeta polonês Czesław Miłosz no início do seu livro Minha Europa ) têm estado entre os mais privilegiados na hora de se difundir através de várias e sempre esplêndidas obras.   Um seria o polonês Andrzej Stasiuk (Varsóvia, 1960) e outro o ucraniano Yuri Andrujovich (Ivano-Frankivsk, 1960). Amigos e cúmplices literários, separados por uma tênue fronteira que outrora os unia, ambos começaram como poetas e se movem como peixes na água, indistintament...

Boletim Letras 360º #543

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Albert Camus. Foto: Daniel Fallot LANÇAMENTOS   Em uma reunião de 34 textos de palestras de Albert Camus, Conferências e discursos: 1937–1958 é uma excelente porta de entrada ao pensamento camusiano e uma introdução a um dos gênios filosóficos mais influentes do século XX .   Não há melhor forma de reconhecer a imagem que Albert Camus tinha de incansável, artífice das palavras e implacável do que em seus discursos. Além de gênio do pensamento filosófico e da escrita, Camus era mestre da oratória. Conferências e discursos reúne 34 textos de palestras de Albert Camus realizadas entre 1937 e 1958, incluindo “O tempo dos assassinos” ― preparado para ser apresentado em diversas cidades no Brasil em 1949. De uma palestra a outra, o autor argelino oferece um diagnóstico do que chama de “crise do homem”, esforçando-se para devolver a voz e a dignidade àqueles que foram privados delas ao longo de meio século pelas mais variadas formas de violência. Para ele, era a própria civilizaçã...

O livro predestinado: os Ensaios de Michel de Montaigne

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Por Pablo Sol Mora   A leitura tem seus fados, que obram misteriosa e, por vezes, providencialmente. Algum deles decidiu que eu leria, no mesmo ano, o Livro do desassossego e os Ensaios de Montaigne, a obra da desolação e a obra da ventura. Com os Ensaios chegamos ao coração destas memórias porque se trata, talvez, da leitura decisiva da minha vida. De certa forma, creio que todas as minhas leituras anteriores foram apenas uma série de passos prévios para chegar a esta, e se de todos os livros que li tivesse que escolher apenas um, provavelmente seria este.   É um fenômeno raro e que não necessariamente ocorre com todos os leitores, incluindo aqueles que muito leram: encontrar o livro, aquele que nos define e marca por inteiro. É um momento único, privilegiado, aquele em que o leitor encontra seu livro e o livro, seu leitor. Sempre gostei da ideia, de que fala Piglia em Alvo noturno , do livro predestinado , aquele que parece feito para nós, pessoalmente, e que pode estar n...