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Um romance russo, de Emmanuel Carrère

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Por Gabriella Kelmer Emmanuel Carrère. Foto: Franck Ferville   A autobiografia não ocupa tão comumente minhas reflexões sobre a literatura. Talvez a evitação seja por um apego à ficção no seu sentido mais restrito, ou ainda um desejo de evitar o confronto com a escorregadia classificação do que é literário; fato é que, se há romances e novelas autobiográficas que li com prazer, há ainda um caminho considerável para que eu possa discutir as questões teóricas ensejadas pela autobiografia com qualquer propriedade.   Essa lacuna, o interesse em remediá-la ligeiramente que seja, foi o primeiro ponto que trouxe às minhas mãos Um romance russo , de Emmanuel Carrère, autor cujo nome, e até então apenas isto, não me era estranho. O fator segundo consistiu em um desejo de ler algo novo, de um escritor com o qual não tinha familiaridade, sendo enfim essa novidade um dos traços mais atrativos para mim na produção dessas resenhas.   A versão da Alfaguara, que ocupa agora um espaço na...

Buñuel e a aventura surrealista

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Por José de la Colina Luis Buñuel. Foto: Man Ray.   1 Quem visitasse a exposição Surrealismo. Vasos comunicantes 1 precisava passar por uma porta dupla que era ao mesmo tempo uma tela sobre que fluíam imagens do filme Um cão andaluz . Essa obra inicial de Luis Buñuel e Salvador Dalí é marcada por algumas portas emblemáticas, principalmente uma mal entreaberta, (ou entreaberta?), que prende uma mão enxameada de formigas, e outra que, de um quarto citadino, se abre para uma paisagem inesperada de uma praia ensolarada naquela em que os amantes conflitantes se reencontram no desejo realizado e logo são como que vitimados pela escaldante primavera.   Essa porta/ tela pela qual passa Um cão andaluz , essa bela ideia/ ponte da exposição, é obra de Javier Espada, cineasta e diretor do Centro Buñuel de Calanda (Aragão, Espanha), que também havia chegado ao México com um filme de quatro minutos intitulado Al filo de la vida , no qual, ao ritmo vivo e reiterativo dos tambores Calanda, ...

Rulfo, Miyazaki, a morte

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Por Henrique Ruy S. Santos Abraham Matias. Ilustração para Pedro Páramo . No romance Pedro Páramo , de Juan Rulfo, Juan Preciado caminha por Comala, a terra natal de sua mãe, sem aparentemente travar contato com nenhum habitante vivo: ruas vazias, casas derruídas, murmúrios que ecoam pelas paredes. Em A viagem de Chihiro , filme de Hayao Miyazaki, Chihiro se desgarra dos pais e perambula por ruas igualmente vazias, mas que guardam algo de familiar e reconhecível: restaurantes desocupados, fumaça expelida por uma chaminé, um trem que passa com velocidade. É a um certo tipo de morte que ambos caminham, o que se torna logo reconhecível pelo acúmulo de rastros e índices da transmutação da realidade sensível em um mundo de espectros, de fantasmagorias.   Chihiro continua a caminhar até que um garoto desconhecido surge e lhe adverte que é preciso sair dali, pois a noite se avizinha. “É que aqui, essas horas são cheias de assombrações. Se o senhor visse a multidão de almas que andam solta...

Surrealismo: um ataque poético

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Por Ivonne Villalón Au rendez-vous des amis . Max Ernst, 1922. Museu Ludwig.   No que consistia o ataque surrealista à modernidade? É sabido que o inimigo ferrenho desta vanguarda era a razão. A sua batalha não era a partir do berço da racionalidade esclarecida — a crítica racional — mas a partir da poesia, precisamente a partir da expressão irracional. Em vez de obedecer a uma responsabilidade intelectual, expressava as exigências de uma paixão furiosa. A ordem racional é destruída pelo automatismo, uma espécie de pensamento onírico e espontâneo, livre de qualquer controle da consciência: a escrita automática, a que se recorreu na poesia, tinha seu equivalente na collage , no frottage e no método pânico-crítico, que se refletiu nas artes plásticas.   Desde o seu próprio ponto de partida, a obra surrealista é um absurdo para o ponto de vista comum. Além disso, como salienta Georges Bataille, é “incômoda, mas no fundo carece basicamente de importância que irrite os débeis...

Boletim Letras 360º #609

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Beatriz Bracher. Foto: Piudip. LANÇAMENTOS   O primeiro livro de uma trilogia que se passa durante a Guerra do Paraguai (1864-1870) marca o regresso de Beatriz Bracher ao romance .   Acompanhamos em Guerra – I o avanço do exército de Solano López sobre fortes e vilas em Mato Grosso e no Rio Grande do Sul, provocando a reação de Brasil, Argentina e Uruguai, unidos na Tríplice Aliança. Tudo é narrado pela voz de combatentes que deixaram seu testemunho em documentos, cartas, relatórios, memórias, diários ― selecionados e rearranjados pela autora. Neste romance, o leitor poderá ver a guerra de dentro, tanto por notáveis como o general Osório, o almirante Tamandaré, o engenheiro militar André Rebouças e o segundo-tenente Alfredo Taunay, quanto por desconhecidos da maior parte de nós, como o cirurgião-mor Xavier Azevedo, o tenente-coronel Albuquerque Bello, o cadete Dionísio Cerqueira e o voluntário da pátria Jakob Dick. O calor, as noites gélidas, as moscas, o charco, a ventania, ...