Camões, um gênio do lirismo amoroso (2)
| Cena de Camões, filme de José Leitão de Barros (1946) |
Com essa temática, o poeta procura mostrar que há um excesso de contradições e falsidade nas coisas. Aquilo que é observado pode nos levar ao equívoco e, consequentemente, ao sofrimento, uma vez que a razão não parece compreender o desconcerto do que está a sua volta.
Correm turvas as águas deste rio,
Que as do céu e as do monte as enturbaram.
Os campos florescidos se secaram,
Intratável se fez o vale, e frio.
O mundo apresentado por Camões em sua lírica é dinâmico. Assim, o ser humano e bem como a natureza estão sujeitos a mudanças constantes. O importante, porém, é que, enquanto as mudanças da natureza seguem um ritmo previsível – a sucessão das estações do ano, por exemplo, as alterações sofridas pelas pessoas são causa de inevitável sofrimento, porque vêm associadas à passagem do tempo. Seu mais conhecido soneto sobre tal tema, a da mutabilidade das coisas, dá conta disso.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Mas talvez o que mais marque a lírica de camoniana é nova visão que o poeta português incute ao amor.
* As ideias e expressões que compõem este texto-dossiê estão em ABAURRE, Maria Luiza; PONTARRA, Marcela Nogueira; FADEL, Tatiana. Português:língua e literatura. São Paulo: Moderna, 2000.
Correm turvas as águas deste rio,
Que as do céu e as do monte as enturbaram.
Os campos florescidos se secaram,
Intratável se fez o vale, e frio.
Passou o verão, passou o ardente estio,
Umas coisas por outra se trocaram.
Os fementidos fados já deixaram
Do mundo o regimento, ou desvario.
Umas coisas por outra se trocaram.
Os fementidos fados já deixaram
Do mundo o regimento, ou desvario.
Tem o tempo sua ordem já sabida;
O mundo, não; mas anda tão confuso,
Que parece que dele Deus se esquece.
O mundo, não; mas anda tão confuso,
Que parece que dele Deus se esquece.
Casos, opinião, natura e uso
Fazem que nos pareça desta vida
Que não há nela mais que o que parece.
Fazem que nos pareça desta vida
Que não há nela mais que o que parece.
O mundo apresentado por Camões em sua lírica é dinâmico. Assim, o ser humano e bem como a natureza estão sujeitos a mudanças constantes. O importante, porém, é que, enquanto as mudanças da natureza seguem um ritmo previsível – a sucessão das estações do ano, por exemplo, as alterações sofridas pelas pessoas são causa de inevitável sofrimento, porque vêm associadas à passagem do tempo. Seu mais conhecido soneto sobre tal tema, a da mutabilidade das coisas, dá conta disso.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.
No soneto, um eu-lírico fala da sucessão das estações como esperada: ao inverno segue a primavera – “O tempo cobre o chão de verde mando/ que já coberto foi de neve fria” –, ao passo que sofre com as saudades provocadas pelas lembranças boas e com o sofrimento causado pelas más – “do mal ficam as mágoas na lembrança,/ e do bem, se algum houve, as saudades” –, de tal forma que a passagem do tempo sempre lhe traz dor e sofrimento.
Mas talvez o que mais marque a lírica de camoniana é nova visão que o poeta português incute ao amor.
Ligações a esta post:
>>> Camões, um gênio do lirismo amoroso (1)
>>> Camões, um gênio do lirismo amoroso (1)
* As ideias e expressões que compõem este texto-dossiê estão em ABAURRE, Maria Luiza; PONTARRA, Marcela Nogueira; FADEL, Tatiana. Português:língua e literatura. São Paulo: Moderna, 2000.
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