Oito poemas de “O orvalho numa folha de lótus”, de Ryokan

Por Pedro Belo Clara
(Seleção e versões)*




I.
regresso à aldeia onde nasci após vários anos de ausência:
doente, entro na estalagem e fico a ouvir o cair da chuva
um hábito, uma taça de pedinte –– é tudo o que tenho
acendo incenso e esforço-me por meditar 
toda a noite um som constante além da janela escura
dentro de mim, pungentes memórias dos longos anos de peregrinação

II.
quando jovem, deixei os estudos
e aspirei a ser santo
vivendo como monge mendicante
por muitas primaveras vagueei, aqui e acolá
enfim retorno a casa, instalo-me debaixo dum pico rochoso
vivo em paz numa cabana de palha
escutando as canções dos pássaros
as nuvens são os meus vizinhos
em baixo, uma nascente pura onde refresco corpo e mente
por cima, picos altaneiros e carvalhos que dão sombra e lenha
livre, tão livre, dia após dia
–– não mais desejo partir

III. 
o que é esta minha vida?
errante, confio-me às mãos do destino
por vezes sorrisos, por vezes lágrimas
nem um leigo, nem um monge
uma chuva primaveril, prematura, tomba sem cessar
mas as flores da ameixeira ainda trarão a sua luz
toda a manhã sento-me junto à lareira
sem ninguém para conversar
procuro o meu caderno
e rabisco alguns poemas 

IV. noite de verão
a noite aproxima-se do fim
o orvalho pinga do bambu para a minha porta de galhos
o vizinho do lado poente parou de bater no almofariz
o meu pequeno jardim de eremita humedece
rãs coaxam, aqui e ali
pirilampos voam por toda a parte
totalmente desperto, é impossível dormir esta noite
ajeito a almofada e deixo os pensamentos vaguearem 

V.
chuva na primavera
chuviscos no verão
um outono seco:
possa a natureza sorrir-nos
e todos compartilharemos da dádiva
por favor, não me confundas 
com um pássaro
quando esgueirar-me
no teu jardim
para comer as maçãs-cereja
fui até lá
mendigar arroz
mas a lespedeza em flor
entre as pedras
fez-me esquecer o motivo

VI.
grilos ruidosos agora dominam os campos de cultivo
feixes fumegantes de hastes de arroz enchem a planície de neblina 
os lavradores sentam-se às lareiras desfrutando das noites longas
tecendo tapetes, preparando-se para a primavera
quando as suas famílias se juntam para conversar
as palavras mentira ou verdade nunca são ditas
as pessoas da cidade não têm tanta sorte:
aquelas pobres almas devem esgravatar e fazer vênias todo o dia

VII. para as crianças vítimas da epidemia de varíola
quando a primavera chegar
na ponta de cada árvore
flores irão brotar
mas aquelas crianças 
desaparecidas com as folhas do último outono
não mais voltarão 

VIII.
por vezes, sento-me imóvel
escutando as folhas caindo
sem dúvida é pacífica a vida dum monge
afastada de todos os assuntos terrenos
porquê, então, estas lágrimas?
estou consciente
que tudo é irreal:
uma por uma, todas as coisas
deste mundo passarão
porquê, então, este lamento? 



* A partir da tradução inglesa de John Stevens em Dewdrops On a Lotus Leaf – Zen Poems of Ryokan (Shambhala Publications, 2004)




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