Seis poemas de Li Bai (Li Po)

Por Pedro Belo Clara
(Seleção, versões e notas)* 





TRÊS COM A LUA E A MINHA SOMBRA

Com um jarro de vinho sento-me junto às árvores floridas.
Bebo sozinho — onde estão os amigos?
Ah, a lua do alto olha para mim;
Chamo-a e levo a minha taça à sua luz.
Observa: lá vai a minha sombra diante de mim.
Hoo! Somos uma festa a três, digo eu;
Embora a pobre lua não possa beber,
E a sombra só dance em meu redor,
Somos todos amigos esta noite,
O bebedor, a lua e a minha sombra.
Que a nossa festa seja digna da primavera!

Eu canto, a lua selvagem vagueia pelo céu.
Eu danço, a minha sombra segue aos tropeções.
Enquanto despertos, entremos na pândega; 
Apenas a doce embriaguez nos poderá separar.
Juremos uma amizade que nenhum mortal conhece,
E amiúde saudemo-nos ao entardecer,
Muito além do vasto e vaporoso espaço! 


OS CORVOS AO CAIR DA NOITE¹ 

Num crepúsculo de nuvens amarelas,
Os corvos procuram seus ninhos na muralha da cidade.
Os corvos voam para casa, crocitando
Uns para os outros na copa das árvores.
Olha, a rapariga de Chin-chuan² no seu tear,
Tecendo um brocado — para quem?, pergunto-me.
Docemente sussurra para si mesma,
Por detrás da bruma azul duma cortina de gaze.
Pára a lançadeira e triste medita,
Lembrando aquele que longe está.
Tem de deitar-se sozinha no seu recanto,
Esta noite, e as lágrimas caem como chuva. 


PARA MENG HAO-JAN

Gosto de ti, Meng, meu amigo,
Todos debaixo do céu conhecem
O teu amor pela beleza.
Quando jovem, de rosto afogueado,
Puseste de parte a carruagem e o chapéu;
Agora que teus cabelos estão brancos,
Vives entre pinheiros e nuvens.
Ficas ébrio com a lua,
E também com o vinho transparente;
À honra de servir o imperador
Preferes o êxtase das flores.
A tua nobreza é uma alta montanha,
Elevada demais para que outros a alcancem;
Mas podem inspirar a fragrância rara
Que o teu espírito oferece.


FESTA NA MONTANHA

Para lavar e enxaguar nossas almas de mágoas antigas,
Esvaziámos uma centena de jarros de vinho.
Que noite esplêndida foi…
No luar translúcido, repudiávamos a cama;
Mas por fim a embriaguez tomou conta de nós.
E então nos deitámos na montanha vazia:
A terra por almofada, a colcha o céu imenso. 


O VELHO PÓ

Os vivos são um viajante de passagem;
Os mortos, homens que chegam a casa.
Uma breve jornada entre céu e terra
E, oh!, somos iguais ao velho de pó de dez mil eras.
O coelho na lua³ em vão prepara o remédio;
Fu-sang, a árvore da imortalidade, desfez-se em aparas.
O Homem morre, os seus brancos ossos não dizem palavra
Quando os verdes pinheiros sentem a chegada da primavera.
Olhando para trás, suspiro; olho em frente, outro suspiro.
O que há de valor na vaporosa glória da vida? 


UM PAR DE ANDORINHAS⁴
 
Andorinhas, ao lado uma da outra — sempre em par.
Uma parelha de andorinhas são a inveja do homem.
O casal viveu, em tempos, na torre dum palácio cheio de jóias. 
Por vários anos viveram junto duma janela dourada, de cortinas de seda.

Então o fogo consumiu a torre real.
As andorinhas entraram no Palácio de Wu e fizeram o seu ninho.
Mas de novo o fogo veio, dizimando o palácio;
Queimando o ninho das andorinhas e todas as suas crias.
Apenas a mãe escapou à morte; o luto abate-a. 
Pobre andorinha solitária, anseia pelo companheiro morto.
Não mais os dois irão juntos voar. 
A tristeza perpassa o meu pequeno coração.




Notas 

1 O poema faz referência a uma história bem conhecida: uma jovem esposa foi abandonada pelo marido, enquanto este vivia noutra cidade com a sua amante. A mulher traída foi compondo diversos poemas sobre o seu amor e dedicação, tecendo-os num brocado — que enviou ao marido extraviado. Ao lê-los, este ficou tão comovido por tamanha devoção que chamou a esposa para junto de si e, diz-se, viveram felizes até ao fim dos seus dias.  

2 Antigo nome da cidade de Chang-an, uma antiga capital, hoje designada de Xian. Situada no centro da China, é o limite oriental da célebre Rota da Seda. É também o local do não menos famoso exército de terracota.

3 De acordo com o folclore chinês, vive na lua um coelho que prepara, num almofariz, o elixir da vida. A imagem não é inocente, pois terá nascido da observação directa do astro: o conjunto das manchas mais escuras que a lua exibe, assemelha-se à figura desse animal sentado diante dum almofariz.

4 Alguns estudiosos da obra de Li Bai consideram este poema uma peça de teor alegórico, de certo modo fabulado. O poeta incarna a figura da mãe andorinha, sendo o companheiro e crias mortos um símbolo para as suas próprias ambições e esperanças. 

Acrescente-se que o primeiro palácio a ser referido alude à corte de Hsuan Tsung, um imperador da dinastia Tang (618-907), e o segundo retratado é o do Príncipe de Yung, ou Li Lin, precisamente a figura que implicou Li Bai na sua revolta contra o Império, levando ao encarceramento do célebre poeta. Uma associação infundada, esclareça-se, e por isso maliciosa.





* Mudados para o português a partir das versões inglesas e anotações elaboradas por Shigeyoshi Obata em The Works of Li Po, The Chinese Poet (E.P. Dutton & Co., New York City, 1922. Reimpressão da Kessinger Publishing)

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