Prosa sem cabeça

Por David Toscana 

Sebastián de Llanos Valdés, A cabeça de S. João Batista.



Talvez o decapitado mais famoso da história seja João Batista. Leiamos esta passagem bem conhecida de Mateus:

“Durante uma festa de aniversário, a filha dançou e agradou tanto a Herodes que ele jurou dar-lhe o que pedisse. Instigada pela mãe, ela pediu a cabeça de João Batista numa bandeja. O rei entristeceu-se, mas atendeu ao pedido devido ao juramento feito aos convidados. João foi decapitado na prisão, e sua cabeça entregue à jovem, que a levou à mãe.”

Aprecio essa concisão dos antigos, a ênfase na essência em vez dos detalhes, sem sacrificar o poder da narrativa. Num romance contemporâneo, teríamos mais páginas. As palavras “dançou e agradou” se multiplicariam com os movimentos eróticos de Salomé e as vestes e véus que gradualmente se desprenderiam, revelando o fascínio de um corpo pelo qual Herodes jurou dar-lhe tudo o que pedisse. Haveria instrumentos de percussão, cítaras, alaúdes, harpas e flautas.

Então vem o pedido caprichoso, e Herodes “atendeu ao pedido devido ao juramento feito… João foi decapitado na prisão”. Tudo parece tão rápido como se ele tivesse ordenado que sua taça de vinho fosse enchida.

A cena se passa em uma fortaleza chamada Maqueronte, com vista para o Mar Morto, em território que hoje pertence à Jordânia, oficialmente conhecido como Reino Hachemita da Jordânia. Do salão principal, o súdito desceu às masmorras, que estariam completamente escuras. Chamou dois ou três soldados, um deles com uma espada afiada. Acordaram o prisioneiro, que exalava um odor fétido por não mais se banhar no Jordão. Levaram-no a um lugar adequado para a decapitação. Posicionaram-no e, após alguma luta, cortaram-lhe o pescoço. “Raça de víboras!”, deve ter exclamado o Batista.

Depois, tiveram que pegar a bandeja e retornar ao salão com a oferenda. Tudo isso narrado em pelo menos quatro páginas.

Talvez a festa tenha sido afetada. 

Mateus nos conta que João se vestia com roupa feita de camelo, comia gafanhotos e mel silvestre. Presumimos que, durante o ano ou mais em que esteve preso, ele se adaptou a uma dieta diferente. Hoje em dia, é muito caro se vestir com couro de camelo.

Algo semelhante acontece com a crucificação. É o momento mais dramático da vida de Jesus, mas os Evangelhos não se detêm nos detalhes. Mateus não menciona uma única palavra. Jesus é levado ao Gólgota, Simão de Cirene carrega a cruz e passamos para “depois de o crucificarem, dividiram entre si as suas vestes”. Nenhuma palavra para nos dizer como a cruz foi erguida ou como o homem crucificado foi preso à madeira.

Uma cena bastante vívida na arte renascentista é a Descida da Cruz. Também não a encontramos na narrativa. “Pilatos ordenou que o corpo fosse entregue” a José de Arimateia, “e José tomou o corpo e o envolveu num lençol limpo de linho”. Marcos e Lucas contam a mesma história, usando palavras quase idênticas. João simplesmente diz: “E quando os soldados crucificaram Jesus…” E mais tarde, também não haverá a Descida da Cruz.

Como não descreve como ele foi crucificado ou retirado da cruz, não se sabe se foi feito em um simples poste vertical ou em um com uma trave horizontal adicional, o que hoje chamamos de cruz. Em todo caso, a tortura não foi realizada com aquelas peças de madeira angulares, bem polidas e envernizadas com as quais a cena é geralmente representada em esculturas. As crucificações podiam ser feitas amarrando a vítima com cordas, e é assim que Mantegna pinta Dimas e Gestas. A única referência aos pregos nos Evangelhos é feita por São Tomé: “Se eu não vir as marcas dos pregos em suas mãos, e não puser o meu dedo onde estavam os pregos, e não puser a minha mão no seu lado, de maneira nenhuma crerei”.

Sempre vi a Bíblia como uma escola de escrita. Não para ser tão objetivo, mas para evitar exageros.

Concordo com Mateus sobre a ressurreição: “No primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o túmulo.”

Agora, faço com que Eça de Queiroz o narre:

“Na véspera de sábado, que marca o início da semana, amanheceu fria; o céu e os campos estavam cobertos por uma névoa acastanhada; e uma chuva muito fina e muito fria caía quando Maria Madalena e a outra Maria vieram ver o túmulo. Então, um tênue raio de sol atravessou as nuvens marrons e fez a grama molhada e as pedras brilharem.”

A literatura está repleta de manhãs belas, chuvosas ou frias, mas não creio que os antigos se interessassem por tais detalhes. A República começa com palavras de Sócrates: “Ontem fui até ao Pireu com Glauco, filho de Ariston, a fim de dirigir as minhas preces à deusa.” Nessa caminhada de pouco menos de dez quilômetros, não percebemos a beleza da manhã, o brilho do sol ou a passagem das nuvens.

Um evangelista melhor do que Eça de Queiroz seria Rulfo. “Vim ao Gólgota porque me disseram que o Rei dos Judeus, um certo Jesus de Nazaré, seria crucificado aqui.”

Não nos restou nenhum testemunho em primeira mão da Batalha de Maratona. Ésquilo esteve lá e a menciona em Os persas, mas apenas brevemente. Heródoto resolve-o em poucas páginas e, dentro das generalidades de dois exércitos frente a frente, pinta duas anedotas individuais. A de Cinegiro, que morreu com um golpe de machado que lhe cortou a mão enquanto se agarrava à figura de proa, e a de Epicelo, que ficou cego enquanto lutava bravamente, sem ter recebido golpe ou ferimento, e nunca mais recuperaria a visão. Mas quero saber muito mais.

Primeiro escrevo que gosto de brevidade e depois digo que gostaria que não tivessem sido tão breves.

Recentemente uma escritora me abordou. “Olha o livro que fulano me deu! Oitocentas páginas! Não quero esses presentes. E ainda por cima ela espera que eu leia. É um abuso.”

Não me lembro quem disse isso sobre um livro longo: “Parece longo desde a primeira página”.
Quando me pedem conselhos para jovens escritores, às vezes digo: “Pensem que escrevem em pergaminho”.

Quando comecei a escrever este artigo, pensei em falar de decapitados. Como a representação de cabeças decepadas costuma ser mais grotesca e desagradável do que a de um tormento ainda pior que é a crucificação. Mas no final não pensei em imagens, mas em prosa.

Outro dia poderei falar de pessoas decapitadas. Por exemplo, quando Papa Karamazov pergunta: “É verdade, grande pai, o que se conta nas Vidas dos Santos, não sei onde, sobre um certo santo milagreiro que sofreu o martírio pela fé e que, quando finalmente lhe foi cortado o pescoço, levantou-se, ergueu a cabeça e, beijando-o com carinho, caminhou um longo caminho, carregando-o nas mãos e continuando a beijá-lo com carinho?”

Cortada ou não, não sei como alguém pode beijar a própria cabeça. Isso fica para outro dia.

E o leitor terá notado que, para o que queria expressar, não foi necessário escrever que “a cena se passa em uma fortaleza chamada Maqueronte, com vista para o Mar Morto, em território que hoje pertence à Jordânia, oficialmente conhecido como Reino Hachemita da Jordânia”. 


* Este texto é a tradução livre de “Prosa sin cabeza”, publicado aqui, em Letras Libres.

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