Sintaxe caudalosa
Por Thiago Teixeira
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| De-Amenti. Leitura em família de uma passagem comovente de Os noivos. |
Já Otto Maria Carpeaux reclamava, em sua época, da ausência de Os noivos na formação dos leitores modernos. O que dizer, então, da nossa época? Um pouco diferente da Itália, onde o romance ainda figura na formação escolar, ele é aqui desconhecido até mesmo por quem declama amores pela literatura. Curiosamente, não faz muito tempo ele foi leitura corrente, mesmo com as edições fragmentadas ou adaptadas tão em voga até alguns anos atrás.
E não nos faltam traduções. Temos duas excelentes, uma mais antiga, do português José Colaço Barreiros, e uma mais recente, do brasileiro Francisco Degani. São, ambas, primorosas, baseadas na versão fidedigna, incluindo o episódio da Colônia infame. Claro que, devido a escolhas tradutológicas ou editoriais, nem tudo acaba sendo transmitido da versão italiana — e é possível que nem mesmo ouvidos italianos consigam captar todas as notas do original. Uma dessas nuanças está justamente na impressionante abertura do livro.
Para atiçarmos nossos ouvidos, vamos oferecer uma tradução literal, obedecendo principalmente às lições de um Henri Meschonnic (Linguagem, ritmo e vida), que chamava a atenção para a importância de mantermos a historicidade das pontuações, por mais estranhas que possam parecer para nós. Uma boa tradução trabalhará com a clareza, a limpeza sintática, a adaptação ortográfica, mas a arrumação pode acabar perdendo as inversões frasais, a pontuação expressiva, até mesmo a tortuosidade do parágrafo longo. Mantivemos esses recursos porque, para nós, são escolhas deliberadas do autor, logo, verdadeiras marcas estilísticas:
“Aquele braço do Lago de Como, quebrando-se ao meio dia, entre duas cadeias ininterruptas de montes, todo cercado de enseadas e golfos, conforme se sobressaem e se encolhem, vem, quase de uma vez, a comprimir-se e tomar curso e figura de rio, entre um promontório à direita e uma ampla costa do outro lado; e a ponte, que ali aproxima as duas margens, como que evidencia ainda mais aos olhos esta transformação, assinalando o ponto onde o lago termina e o Adda recomeça, para logo retornar ao nome de lago onde as margens, ampliando-se novamente, deixam a água espraiar-se e remansar-se em novos golfos e novas enseadas. A costa, formada pelo sedimento de suas grandes correntes, desce sustentada por dois montes contíguos, um chamado San Martino, o outro, em dialeto lombardo, o Resegone, com muitos dos seus picos em fila fazendo-o realmente parecer-se a uma serra, de modo que não existe pessoa a quem, ao vê-lo pela primeira vez, desde que frontalmente, como por exemplo nos muros de Milão que o miram ao norte, não o possa distinguir imediatamente, por tais traços, entre a longa e vasta cadeia montanhosa, dos outros montes de nome mais obscuro e forma mais comum. Durante um bom trecho, a costa desce em ladeira lenta e contínua; depois irrompe em encostas e vales, em precipícios e baixios, de acordo com a ossatura dos dois montes e do trabalho das águas. Na aba extrema, cortado pelas embocaduras das torrentes, é quase tudo cascalho e seixo; o restante, todo campos e vinhas, esparso em terras, em vilarejos, em aldeias; em algumas partes, bosques que se estendem por sobre a montanha. Lecco, a principal daquelas terras, e que dá nome ao território, repousa um pouco distante da ponte, às margens do lago, aliás chega quase a encontrar-se no próprio lago, quando este transborda; um grande burgo hoje em dia, e que se encaminha para tornar-se cidade. Nos tempos em que ocorreram os fatos que estamos para narrar, aquele burgo, já então considerável, era também um castelo, e tinha por isso a honra de alojar um comandante, e a vantagem de possuir uma estável guarnição de soldados espanhóis, os quais ensinavam decoro às crianças e mulheres do país, acariciavam de quando em quando as costas de algum marido, de algum pai; e, ao findar do verão, não deixavam nunca de dispersar-se pelas vinhas, a fim de colher uvas, e abrandar aos camponeses as fadigas da vindima. De uma a outra daquelas terras, das elevações às margens, de um outeiro a outro, corriam, e correm ainda, estradas e estradinhas, mais ou menos íngremes, até planas; por vezes socadas, enterradas entre dois muros, de onde, erguendo-se a vista, não se descobre nada mais que um pedaço de céu ou qualquer topo de monte; por vezes elevadas sobre terraplenos abertos: e daqui a vista se abre para panoramas mais ou menos amplos, porém ricos sempre e sempre com um quê de novo, conforme os distintos pontos alcançam a maior ou menor parte da vasta vista circundante; e conforme esta ou aquela parte se expande ou se encurta, desponta ou desaparece. Ali um trecho, ali outro, mais além uma longa extensão daquele vasto e variado espelho d’água; aqui o lago, estreito na sua extremidade, ou antes engolido por um grupo, um vai vem de montanhas, e gradativamente mais se alargando por entre outros montes que se desprendem, um a um, ao olhar, e que a água reflete invertidos, com vilarejos assentados nas margens; mais além, braço de rio; depois lago; depois rio novamente, a perder-se em luminoso serpenteamento por entre os montes que o acompanham, sumindo-se pouco a pouco, e perdendo-se quase, também eles, no horizonte. O próprio lugar de onde se contemplam esses vários espetáculos oferece um espetáculo em qualquer de suas partes: o monte em cujo sopé se passeia, desdobra-se, acima, ao entorno, em cimos e precipícios, nítidos, destacados, mutáveis a cada passo, abrindo-se e contornando-se em cadeias aquilo que antes se assemelhava a um só cume; e aparecendo no topo aquilo que pouco antes se representava na costa; e o ameno, o doméstico daquelas faldas tempera gradualmente o selvagem, e orna mais o magnífico das outras vistas.”
Essa abertura vai de encontro à tradicional lição de algumas oficinas de escrita. Dizem os manuais que um bom texto deve ter um começo atrativo, ser curto, direto, com períodos breves e toda a lição da normatividade mal-disfarçada em conselho. Uma das maiores obras da História como essa de Manzoni faz o contrário; ainda que seja clara e límpida, inicia-se com um longo período de orações encadeadas, em predomínio de subordinação, um grande parágrafo que avança a custo, truncado, móvel, descritivo. Em vez da lógica gramatical, uma lógica expressiva: a pontuação segue o ritmo e a alternância das imagens.
Podemos começar com o acúmulo. Os períodos vão se estendendo à medida que acumulam orações e imagens, no que poderíamos chamar de períodos hipotáticos ou centopeicos. Para sentirmos bem isso, miremos o primeiro, extraindo-lhe o essencial da informação:
“Aquele braço do Lago de Como vem comprimir-se e seguir curso e figura de rio...”
Ou, ainda mais enxuto:
“Aquele braço do Lago de Como vem seguir curso de rio”
Informações de que o Como se quebra ao meio-dia, entre montes, enseadas e golfos, seguindo um curso acidentado, são acréscimos à imagem, assim como é acréscimo o fato de que o braço do lago se assemelha a um rio. Mas atentemos: são acréscimos essenciais e, por isso, a estranha sintaxe acumulativa de tamanho variado, com grupos sintáticos longos seguidos de curtos, intermediados pelas pontuações. E se a leitura fica um tanto truncada, exigindo do leitor certo esforço de atenção, o ganho é de ritmo. O ritmo é bem-marcado, o que fica mais claro se o destacarmos na disposição da página:
“Aquele braço do Lago de Como,
“Aquele braço do Lago de Como,
quebrando-se ao meio dia,
entre duas cadeias ininterruptas de montes,
todo cercado de enseadas e golfos,
conforme se sobressaem e se encolhem,
vem,
quase de uma vez,
a comprimir-se e tomar curso e figura de rio
entre um promontório à direita e uma ampla costa do outro lado”
entre duas cadeias ininterruptas de montes,
todo cercado de enseadas e golfos,
conforme se sobressaem e se encolhem,
vem,
quase de uma vez,
a comprimir-se e tomar curso e figura de rio
entre um promontório à direita e uma ampla costa do outro lado”
Percebamos deste passo como o ritmo ligeiramente acelera a partir do momento em que as águas do lago, até então represadas, seguem curso de rio. E o que dizer do sujeito distante que apenas retroativamente ganha um verbo! Aquele braço do Lago de Como, com o destaque para o advérbio espacial, só depois de acúmulos ganha o seu verbo “vem”, mantendo-nos em suspenso e dando ao texto um tom contemplativo.
Sobre o parágrafo como um todo, a técnica de Mazoni é iniciar a obra ambientando o leitor no cenário em que os dramas ocorrerão. Grandes obras da literatura fazem o mesmo, apresentam aberturas de cenas e situações que acabam funcionando como metanarrativa ou ambientação para o leitor, quando não, preparam-lhe para o ritmo da obra. É o que lemos em O vermelho e o negro, com a descrição da cidadezinha de Verrières; na descrição da pensão Vauquer em Pai Goriot; na abertura de O senhor presidente, quando os sinos de uma praça se misturam à linguagem para anunciar uma tragédia; em As vinhas da ira, ao descrever alegoricamente os agônicos passos de uma tartaruga no asfalto; ou então no Vento noturno (The chimes), quando vamos seguindo o antropomórfico vento até chegar nos trotes de Tob Veck.
Em Manzoni, a beleza da técnica reside no narrador demiurgo, que se desloca e, como uma câmera móvel, vai seguindo o curso do braço do lago, o qual adentra as entranhas da Itália medieval, passa por abismos, escarpas, alarga-se e comprime-se, chega em estradas e vilarejos, serpenteando no terreno acidentado. Com isso, Manzoni vale-se de um recurso comum aos romancistas que escrevem romances históricos — de que é exemplo o Jörg Jenatsch de Conrad Ferdinand Meyer —, qual seja, o de descrever fielmente os aspectos topológicos de uma região para começar a preparar no leitor o pacto ficcional, ou seja, preparar no leitor o convencimento de realidade do que está sendo narrado. Já o elemento temporal se coloca no posicionamento do narrador (“um grande burgo hoje em dia”) se remetendo ao passado (“Nos tempos em que ocorreram os fatos”). É quando as águas se deparam com os primeiros elementos culturais (e com eles, o tempo) e então somos apresentados vivamente aos índices históricos, por meio de burgos, castelo e “uma estável guarnição de soldados espanhóis”, guarnição graças a qual identificamos a região que, no século XVI, foi ocupada pela Espanha. Alocamo-nos temporalmente na ocupação espanhola na região da Lombardia, o ducado de Milão.
O mais importante, porém, é como este exemplo de imagem nacional, o lago de Como, incide-se na sintaxe da obra, por meio do isomorfismo entre significado e significante. O curso da narração torna-se, linguisticamente, o curso do rio. Para entendermos essa relação estilística (imagens + elementos gramaticais; curso da água + curso da narração), vale observar mais de perto, desmontando as peças. A começar pela apresentação da paisagem natural e humana realizada pelo recurso da enumeração, o qual também confere ritmo ao texto e gera a sucessão de cenas e imagens. Essa sucessão traz a sensação de deslocamento e funciona sob a égide do fluxo das águas.
Os números nos dão a dimensão das escolhas estilísticas. Temos, em um só parágrafo, 684 palavras e apenas 8 pontos finais, logo, apenas 8 períodos. A média é, portanto, de 85,3 palavras por período. Essa quantidade de palavras por período é, em si, uma distinção estilística, mesmo para a época, e fica ainda mais destacada quando constatamos que são cinco vezes mais longos que a prosa contemporânea, incluindo a acadêmica.
Curiosamente, a quantidade de subordinadas não quebra a força das imagens. Estamos acostumados a pensar nas subordinadas como orações mais próprias ao pensamento lógico, mas aqui elas não diluem a força imagética, pois estão submetidas à ideia de direcionamento e curso trazidos pela imagem principal. Ora, esse braço de lago tem idas e vindas, curvas e torções; ora a água se estreita, ora se alarga, fica rasa ou profunda, e o leitor, diante desse ser tão móvel e disforme, precisa ligar as partes do todo, mantendo-se em um ponto de referência. Daí que os mecanismos de coesão endofórica e as conjunções ajudem a costurar todo o painel, pontuando logicamente a narração. Temos próximo de 35 a 40 subordinadas — encaixadas umas dentro das outras —, como reforçando a imagem do borbotão das águas, a imagem de fluxo e encadeamento do fluxo, gerando a imagem da sucessão ou da duração. É disto que se trata, da sucessão ou duração, do nascimento do tempo feito em narrativa.
Em relação aos mecanismos de coesão endofórica, vale classificá-los para entender a função no texto. Com isso, teremos os pronomes demonstrativos (quelli, quelle terre, quel borgo, quei vari spettacoli, questa trasformazione; questa o quella parte, questo ingrossa) que vão guiando o leitor pela paisagem, direcionando-lhe o olhar. Os advérbios de lugar, ligados à localização espacial (il ponte, che ivi congiunge le due rive, da qui la vista spazia, di là braccio di fiume). Todas essas partículas, incluindo os conectores espaciais (dall’una all’altra, dall’alture alla riva, da un poggio all’altro, tra altri monti, verso), estão atreladas à construção paisagem e se associam à criação de uma mobilidade espacial. Claro que tais mecanismos também contribuem para uma mobilidade temporal, já que inserem no painel espacial um deslocamento do tempo. Manzoni tem a preocupação de, no pacto ficcional, criar um imagético espacial, até para seguir o aspecto nacionalista da literatura da época, e criar uma noção temporal, mais ligada ao gênero histórico de seu romance. O conjunto dos conectivos é, então, um mapa com que guiar o leitor diante de um parágrafo tão longo e de uma paisagem tão imensa; juntos, dão-nos a noção de um panorama.
O mesmo com os verbos. Mais do que compor a noção espacial da cena, a maioria das 60 formas verbais (49 verbos conjugados e 11 formas nominais), é do campo do movimento e atrelam-se a uma paisagem viva, uma paisagem móvel, mas não só. Dão, como ocorre sempre, algo do observador. Entrevemos pelo menos seis tipos de verbos. Os que reforçam o movimento da imagem (volge, vien, scende, sale, correvano, corrono, va, allontanandosi, passeggiate), os mais voltados à ideia de transformação (ristringersi, renda, segni, cessa, rincomincia, ripigliar, lascian, distendersi, alleggerire, degradando, perdendosi), os que marcam o ponto de vista ou percepção visual do observador (vederlo, guardano, discerna, iscoprite, contemplate, spazia, riflette, v'era sembrato, vi si rappresentava) Há também verbos específico, que reforçam o movimento de aparecimento e desparecimento do lago (campeggia, si scorcia, spunta, sparisce, comparendo, si spiegano, svolge). Enfim, há também verbos de existência que tanto ajudam na localização textual quanto na caracterização do objeto: (è, sai, formata, giace, trovarsi, ingrossa, accaddero, possedere).
Em conjunto, os elementos gramaticais aqui listados nos permitem sintetizar o parágrafo como um painel de movimento e configuração do espaço, percebido pelo olhar de um observador-narrador, o qual adota pontos de vista e percebe ângulos diversos de um objeto móvel e em transformação. Com a enumeração, o painel se mostra rico e o autor dá conta de reforçar o realismo do que está narrando, uma vez que se apega a detalhes e minúcias. A riqueza são se restringe à paisagem; há fertilidade também na ocupação humana.
Por fim, é preciso destacar que toda essa dificuldade de leitura, oriunda das frases longas e parágrafo extenso, ocorre apenas uma vez na obra, antes que a narração se efetive. Depois desse parágrafo, com alguma exceção das intrusões históricas, toda a obra assume o caráter narrativo, em estilo limpo e claro. É que estamos diante de um movimento inicial, um movimento de impacto. O narrador quer conduzir o leitor, fazendo-o seguir o curso do rio, entrar na terra inexplorada do passado, adentrar no seio da narração, e essa entrada deve ser feita por meio de estranhamento. É preciso fazer o leitor suspender o juízo, abandonar o mundo em que vive, para melhor mergulhar no mundo que será recriado pelo autor. Ele, o leitor, precisa ser chacoalhado para poder perceber com outros olhos, daí o estranhamento da própria linguagem narrativa e, mais poderoso, do ritmo. O leitor vai ter de parar, demorar os olhos, diminuir seu ritmo para acompanhar a paisagem de palavras-águas.
O leitor deve ser conduzido — ou seja, seguir curso. Não à toa, a etimologia de discurso encontra-se no campo semântico de condução, sendo o rio ou a água corrente muitas vezes uma metáfora. Em Os noivos, o curso do braço do lago transporta o leitor geográfica e temporalmente — e isto é um símbolo do próprio romance como gênero: uma condução pelo tempo e pelo espaço.
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